Eu não quero viver nesse inferno, sei que tenho que sobreviver e ajudar Daniele, não posso deixá-la morrer, mas, perdi Túlio, meu melhor amigo... Não aguento viver nisto, será que se eu me matar agora irei encontrar minha família no paraíso?"

Daniele não havia feito muitos movimentos durante a noite, Cortez tratou-a com a maior delicadeza que pudera para evitar que o ferimento se agravasse e talvez a matasse. Cortez passara a noite acordado novamente, aquilo não o fazia bem, mas, se Daniele acordasse no meio da noite ou estivesse piorando e ele estivesse dormindo provavelmente não poderia ajudá-la em nada. O medo de vê-la morrer e não poder fazer nada era um sentimento que ele não aguentava.

– Cortez... — Cortez viu Daniele acordando, sua voz ainda trêmula e fraca mal deixava que os ouvidos dele a ouvissem, mas, aquele pouco era suficiente. — Eu... Você... O Túlio, ele...
– Não importa, nada disso importa agora. Você precisa descansar, Dani. Apenas descanse.

Ela voltou a fechar seus olhos e novamente adormeceu. Cortez não conseguia permanecer com os olhos abertos, por alguns instantes ele lutou, mas, logo foi rendido pelo sono.

* * * * *

– Cara, não acredito que realmente conseguimos voltar pra cá. Incrível, sacou? — disse um homem um tanto gorducho que tinha cabelos grandes e ondulados castanhos, suas costeletas estendiam-se desde a linha capilar até quase o queixo.
– Sim, realmente foi sorte. Nós não devíamos ter saído daqui para início de conversa e nem sequer deveríamos ter seguido aquele helicóptero. — disse um homem forte de aparência um tanto robusta que usava um cavanhaque negro como a cor dos seus cabelos curtos.

Um homem forte, musculoso que parecia ser o líder do grupo.
– É verdade, se tivéssemos ficado aqui teríamos passado esses últimos três dias em paz. — argumentou uma mulher, jovem, que usava um casaco de frio cinza. Seus cabelos eram loiros e seus olhos azuis como o mar.
– Acho que fizemos bem em termos levado todos esses suprimentos. — disse o líder.
– Sim, é verdade, Ben, mas, mesmo assim não acho que deveríamos ter levado tanto, compreende?
– Não acho que tenhamos feito errado, se deixássemos nossos recursos no nosso abrigo enquanto estivéssemos fora, algum saqueador poderia vir e roubar tudo que temos. Você prefere carregar uma mochila pesada ou uma vazia?
– Uma vazia... — brincou.
– Pois eu prefiro uma mais cheia, quero estar preparado sempre.
– Tudo bem, que seja. — resmungou.
– Vamos entrar, mal acredito que estamos de volta. — disse a moça loira.
– Sim, logo vai escurecer, não podemos ficar aqui fora.

O grupo era pequeno, formado por quatro pessoas, dois homens e duas mulheres. O líder, Benjamim, mais conhecido como Ben; Um homem gorducho, Juan; Samara, uma bela moça loira de olhos azuis; e Suellen, uma bonita mulher de olhos castanhos, cabelos lisos castanhos e um rosto bem distinto, usava uma bandana branca na testa, porém, que havia sido colorida com o vermelho da morte, após inúmeras batalhas contra infectados e humanos.

Nada parecia estranho a princípio, até que Benjamim abriu a porta de seu abrigo e deu de cara com um corpo falecido no chão com uma faca próxima da mão, Túlio estava morto. Sua pele estava pálida como a de um vampiro, o sangue ao redor de seu corpo era grotesco, estava ficando seco e logo iria deixar uma mancha naquele tapete que jamais sairia.

– Meu Deus, o que foi que houve aqui? — disse Samara colocando a mão em sua boca.
– Não sei, mas, não estou gostando do que vejo. Está tudo revirado, alguém entrou aqui e fez uma bela bagunça.
– Vamos mandar um esporro nesses bostas que entraram aqui! — disse Juan desembainhando seu facão.
– Calma, não podemos agir antes de saber quantos são e onde estão. — respondeu, Ben. — Meninas, chequem a cozinha e este andar, eu e Juan iremos para o primeiro andar e checaremos os quartos.

O grupo separou-se e começou a checar a casa. Samara e Suellen foram checando o andar de baixo, checaram o corpo do falecido rapaz e averiguaram todo o estoque que tinham, seus suprimentos estavam mais cheios sem contar com o que estavam carregando. Elas despejaram tudo que carregavam dentro dos armários e continuaram a revistar o andar da casa.

Ben e Juan subiram as escadas devagar, tentando não chamar a atenção de ninguém, fosse infectado ou não. Juan portava um facão enquanto Ben utilizava uma pistola simples que ele retirou de um dos policiais que foram mortos no meio de toda a confusão do Dia Z. Juan entrou no quarto do lado direito, o quarto feminino e Ben entrou no oposto. Os dois verificaram todas as gavetas, todos os armários, tudo e não encontraram quase nada diferente.

Cortez ainda estava dormindo, mas, seus pensamentos não estavam tão longe da realidade. Ben avançou primeiro para o quarto do casal onde encontrava-se Cortez e Daniele, Juan seguia-o logo atrás. Ben olhou de relance para dentro do quarto e viu a silhueta de duas pessoas, uma repousando na cama em que Ben dormia e dividia com sua esposa, Laura e a outra estava sentada numa das cadeiras do quarto.

– Eles estão aqui. Vamos entrar com calma e rendê-los, parecem estar os dois dormindo. Vamos surpreendê-los.
– Certo, vamos foder com esses intrusos de merda.
– Fala baixo, porra!

Ben entrou lentamente e colocou sua pistola no coldre, ele pegou um pano que carregava e cobriu a boca de Cortez, imediatamente ele acordou e tentou livrar-se das mãos de Ben, mas, logo ele foi vencido quando Juan o ajudou.

– Se fodeu cara! Vai levar porrada daqui a pouco. — ironizou, Juan, dando um soco bem no meio do rosto dele, fazendo-o desmaiar.
– Pegue a moça, leve-a para baixo. — disse enquanto carregava o corpo desmaiado de Cortez.
– Porra, Ben! Essa mulher é gostosa demais meu, mas, ela tá toda ferrada. Deve ter tomado uma facada ou coisa parecida, tá toda ensanguentada.
– Esquece isso! Apenas traga-a para baixo. — gritou, Ben, deixando sua frase ecoar por toda a casa.
– Beleza, moça. Vambora.

Juan conseguiu carregar Daniele com facilidade, ela não era tão pesada quanto ele imaginara, e no meio do caminho aproveitou para olhar e pegar no material que Daniele portava, apalpou seus seios e sentiu um prazer inigualável. Ben colocou Cortez sentado no sofá, diante do corpo morto de Túlio, e Juan colocou Daniele deitada num sofá duplo. Ele aproximou-se de Ben e sussurrou algo indecifrável, mas, que Benjamim concordou após um tempo de pensamento. Cortez teve seus braços amarrados e antes que as garotas do grupo chegassem para ver o desenrolar da trama, Cortez foi acordado.

– Ei amigo, ei acorda cara! — disse Ben dando uns poucos tapas leves no rosto de Cortez. — Ainda está vivo?
– Ahm... O quê? — Cortez estava atordoado, mas, logo recobrou a consciência. — Quem são vocês? O que querem aqui?
– Nós é que fazemos as perguntas aqui. O que você faz aqui, camarada?
– Não se devo satisfação. Você vai nos matar, sei disso. — respondeu com o olhar sério.
– Não, amigo. Nós só matamos você e sua amiga se você não colaborar conosco e tentar alguma palhaçada. Não somos animais, não ainda...
– Então, o que você quer? — respondeu.
– Acalme-se, não quero encrencas. Apenas quero saber o que houve aqui, nós estamos abrigados aqui há um mês e não tivemos esse tipo de problema, saímos a três dias por termos visto um helicóptero e somos recebidos com isso? Com essa merda aqui? Explique-se.
– Tudo bem... Eu encontrei esse cara, Túlio, que a propósito era homossexual e minha namorada transando, eu estava dormindo quando eles começaram. — ele fez uma pausa para tomar fôlego. — Quando eu os encontrei eles tentaram negar tudo e eu me irritei, comecei a xinga-los de maneiras horríveis até que esse cara partiu para cima de mim com o facão. Ele me derrubou no chão, eu joguei-o para o lado e o xinguei novamente. — ele riu, sabendo que os xingamentos que haviam feito nunca teriam desculpa. — Da primeira vez ele se jogou para me derrubar, mas, nessa vez ele se arremessou empunhando a faca na minha direção, ele ia me matar... Então, Daniele, a garota ali ferida pulou na minha frente e levou a facada por mim.
– Porra! Tu passou por maus bocados, hein malandro? — disse, Juan.
– É... Ainda estou meio confuso com tudo que aconteceu.
– Espera, se a sua namorada foi ferida com a faca deste cara, como que ele morreu e como ela sobreviveu?
– Bom, eu e ele pensamos que ela estava morta, o remorso sobre ele foi tão grande que ele deve ter se matado... Eu... Eu não sabia disso, ele era meu melhor amigo, não acredito que ele teve coragem pra isso. — Cortez fechou os olhos, seus olhos incharam, mas as lágrimas não ousaram despencar.
– E como ela sobreviveu?
– Eu a tratei, fiz tudo que eu sabia para ajudá-la.
– Então você é médico, cirurgião ou algo assim? — perguntou, Juan.
– Não, eu sou apenas um cara comum. Eu era fã de séries médicas e policiais, daí algumas vezes apareciam pessoas morrendo com esse mesmo problema e como tínhamos um kit de primeiros socorros, eu resolvi usá-lo e tentar tratá-la. Por sorte eu acho que fiz tudo certo e ela está assim desde ontem.
– Que merda hein malando?! Tua namorada tava roçando com um viado, você devia ter matado ele quando conheceu ele seu burro! — disse Juan.
– Eu não poderia, ele era meu melhor amigo... Nos conhecíamos desde a infância.
– Eita, então a traição foi geral. Caraca velho, vou nem te julgar. Tu já tá rolando na merda faz tempo. — respondeu.
– É verdade...
– Bom, deixaremos vocês ficarem, mas, não confiamos em vocês dois.
– Nem eu em vocês. — interrompeu, Cortez. — Poderiam me desamarrar pelo menos?
– Ah, sim. A corda. — Ben puxou apenas uma ponta do nó e facilmente desamarrou o forte nó do qual Cortez não conseguira livrar-se. — Nós deixamos vocês ficarem, mas, vocês ficarão no quarto que estavam antes, não vão sair para nada. Como é uma suíte nem mesmo precisarão, enviaremos comida para vocês dois e lá vocês ficarão até que decidamos que vocês devem sair. — ele olhou para Samara e Suellen, percebeu que as duas não estavam concordando tanto com sua decisão, mas, não iria voltar atrás. — Se precisarem de medicamentos me avisem, temos o suficiente para todos nós.
– Certo. Ahm... Obrigado?
– Sim, agradeça, pois as meninas não gostaram da ideia.
– Tentarei ganhar a confiança de vocês aos poucos.
– Vamos, é... Qual o seu nome mesmo? — perguntou, Ben.
– Cortez, meu nome é Cortez Ferreira.
– Eu sou Ben, Benjamim Tavarez.
– Me ajude a carregar o corpo do seu amigo para fora daqui, se deixarmos ele aqui seremos cercados de zumbis, digo o mesmo do tapete ensanguentado.
– Certo, façamos isso.

Cortez levantou-se do sofá e pegou os braços de seu amigo morto. A camisa que Túlio vestia agora estava totalmente vermelha, a camisa havia aderido todo o sangue para si e pintado a si própria, metade do rosto dele também estava ensopada de sangue seco. Retirar o corpo não foi difícil e Samara e Suellen trataram de retirar o tapete.