Hollywood
68 Capítulo Sessenta e Sete
Notas iniciais
Capítulo Sessenta e Sete
Isabella Swan
"Isabella Swan estaria grávida de Paul Lahote."
Após o vídeo do Escândalo Swan vazar eu fui atacada por mil mentiras ao meu respeito. Inventaram que estava envolvida com tráfico de drogas, que tinha mil e um namorados e certamente disseram até que estava grávida de Paul.
Eu não estava, felizmente. Porém, se tivesse engravidado dele e descoberto após o Escândalo Swan, abortaria. Eu abortaria, certo? Ou todo aquele sentimento de dependência que tive por ele me faria manter uma gestação?
E quanto ao que eu sentia por Edward? Todo aquele amor mudaria algo sobre aquela gravidez? E quanto ao fato que nos últimos tempos, querendo ou não, eu me sentia mais como a Isabella de antes daquele escândalo?
A mesma Isabella que queria ter filhos.
***
Isso não poderia estar acontecendo, não só a gravidez, como o turbilhão de sentimentos dentro do meu peito. No instante que Edward começou a surtar com a notícia da gestação, especialmente no momento que ele falou sobre o aborto, eu senti ainda mais que aquilo era real pra caralho.
Não só a gestação em si, como o fato de que eu precisaria abortar. O mais rápido possível, ele não queria aquele bebê, nunca quis ser um pai e isso não tinha mudado.
Eu teria que abortar o quanto antes, então nós dois teríamos que redobrar o cuidado para nunca mais passarmos por aquela situação. E eu nunca teria filhos.
Nunca.
Deveria estar bem quanto a isso, não deveria? Eu queria abortar, não queria ser mãe, não deveria estar surtando com a ideia de interromper a gestação. Estava mais segura antes de ver Edward, mas quando ele começou a me atacar sobre o remédio e comecei a perceber que por ele eu abortaria no mesmo dia, me senti sozinha.
Completamente sozinha.
Quando adolescente eu pensava que a primeira pessoa que contaria a grande notícia quando engravidasse seria Renée, que ela ficaria tão feliz que nós duas iríamos ao mesmo dia ao shopping fazer compras para o bebê. No lugar disso eu tinha um aborto para fazer.
— Bella? — Tanya chamou por mim ao estacionar seu carro diante da minha casa, depois de eu contar para Edward sobre a gravidez. Não olhei para minha amiga, ainda olhando pela janela, ao menos tinha parado de chorar, ainda que temporariamente. — Você quer mesmo fazer isso? — perguntou baixinho. — Abortar, quero dizer.
Não respondi, não teria aquela conversa com ela. Não podia permitir que Tanya falasse sobre a outra opção para aquela gravidez, eu sabia que ela iria me apoiar no que decidisse, mas que iria ter certeza de que eu estava totalmente certa sobre minha decisão. O problema era que eu não estava tão certa quanto pensei que estivesse, mas não importava porque tinha de fazer aquele aborto de qualquer jeito.
— Bella, você deveria pensar melhor se é isso mesmo que quer.
— Organiza tudo pra mim — pedi e abri a porta do carro dela para sair.
Logo ela estava fora do carro e seguiu comigo para dentro de casa, minhas irmãs estavam ali, visivelmente tensas. Renesmee foi a primeira a me abraçar, fazendo com que eu me lembrasse quando a tive em meus braços quando nasceu.
Ela era um bebê chorão, pequeno e fofo, mas a amava desde sempre. Apertei minha irmã em meus braços, pensando em quantas vezes durante a infância dela não pensei em ter uma filha como Ness um dia, mas isso não aconteceria.
— O que Edward disse? — Alice perguntou, fazendo com que Renesmee me soltasse.
— Ele está me apoiando nisso — murmurei.
Obviamente, ele não queria casar, muito menos ser pai. Engoli em seco, me culpando pelo tom revoltados dos meus próprios pensamentos sobre isso. Não tinha direito de ficar com raiva de Edward, eu também queria abortar, parte de mim queria ao menos.
— Vou pro meu quarto, quero dormir. Tanya, cuida de tudo e me avisa o quanto antes.
— Você precisa comer algo — Renesmee falou, mas a ignorei e segui para a escada.
Precisava dormir, queria tentar esquecer de tudo aquilo mesmo que só por algumas horas.
***
Eu estava sentada em minha cama encarando a porta do quarto, não conseguia dormir de jeito nenhum. Minha cabeça doía pra caralho e eu me sentia exausta, mas toda vez que fechava os olhos pensava naquele bebê, que nem era de fato um bebê ainda, crescendo dentro de mim.
— Mamãe, se eu tiver uma filha vou chamar ela de Emma — falei para Renée uma vez, eu tinha quinze anos e estava lendo o livro da Jane Austen na fazenda em Nashville.
— É um nome muito lindo, Isabella. — Renée sorriu para mim. — E se for um menino?
— Charlie — respondi sem hesitar. — Como o papai.
Senti mais lágrimas em meu rosto, sem conseguir me controlar coloquei ambas as mãos sobre minha barriga. Eu não podia sentir nada, mas o bebê estava ali.
Ele deveria ser tão pequeno ainda, estava grávida apenas de seis semanas, isso era só o segundo mês de gestação, não?
Por que eu tinha sido tão burra e não prestei atenção na validade do remédio? Isso tudo poderia ter sido prevenido, Edward estava certo, aquela confusão era minha culpa.
— Eu amaria ter uma menina, se fosse possível escolher, seria uma garota, sem dúvidas — falei para Paul, aquela altura nós estávamos juntos há pouquíssimo tempo e ele tinha me perguntado sobre filhos.
— Eu acho que ia amar ter um garoto — ele falou e beijou meu ombro nu. — Nós podemos ter um casal um dia, o que me diz? — Eu sorri e o beijei, imaginando que esse seria mesmo nosso futuro.
Tirei uma mão da barriga e limpei meu rosto, as lágrimas eram tantas que estavam começando a me incomodar. Tudo em mim naquele momento me incomodava, eu me sentia sufocada.
— Não, não, não — sussurrei para mim mesma, tentando não entrar em mais pânico ainda pensando sobre todos os planos para minha vida que tive no passado.
Uma carreira de sucesso. Um marido que eu amaria incondicionalmente. E filhos que amaria ainda mais.
Tirei a outra mão da barriga também, me proibindo de ter qualquer vínculo com o bebê lá dentro. Isso não seria certo, não quando eu estava prestes a abortar.
Porque, era isso, não importava meus planos do passado, eles estavam lá atrás. Nos meus planos para o futuro não estava na lista filho algum, nem nos planos de Edward. E eu o amava, não iria fazer novos planos sem ele.
— Você não quer isso — afirmei para mim mesma. — Você não seria uma boa mãe.
Eu solucei, cobrindo meu rosto com as mãos. Pensei em quando Renée me deu aquela surra, como me senti a pior pessoa no mundo por aquilo, enquanto ela me xingava e dizia me odiar.
Não importava o que minha terapeuta dizia, eu era exatamente como Renée e iria arruinar a vida daquele bebê se o tivesse. Seria uma mãe tão merda quanto a minha tinha sido.
Levei minhas mãos até minhas coxas, eu tinha trocado as roupas de antes por short e regata, sentindo vontade de cravar as unhas na pele até toda a dor que sentia se concentrar apenas naquele local.
— Bells? — Nessie apareceu na porta do meu quarto, impedindo que eu machucasse a mim mesma.
Olhei para ela, vendo a Renesmee adulta que estava fazendo aniversário, mas também pensando na Renesmee criança e adolescente que confiava em mim para tudo. Eu não diria que tinha a criado, mas fui muito participativa na vida da minha irmã caçula, principalmente depois que nossa mãe nos deixou.
— Você precisa de algo? — ela perguntou sentando junto de mim na cama.
Toquei no rosto de Renesmee, seus olhos castanhos eram exatamente como os meus. Ela era muito parecida comigo, sempre tinha sido.
— Bells, quer mesmo abortar?
— Sim. — Tirei minha mão dela, Renesmee suspirou e colocou sua mão sobre a minha, entrelaçando nossos dedos. — Edward disse que sou a culpada por isso.
— Ele é um babaca — acusou. — Mas acredito que vai perceber a merda que falou. Tanya nos disse sobre você fazer o aborto em outro estado, ela já está providenciando tudo, não importa onde seja, eu vou junto.
— Não precisa, Ness.
— Não estou pedindo sua opinião. — Sorriu de forma triste para mim. — Você esteve ao meu lado quando aconteceu tudo aquilo, quero estar ao seu agora. Alice também quer ir, ela vai tentar obter folga do trabalho.
Assenti e olhei para nossas mãos entrelaçadas.
— Bells, eu te amo — ela falou e beijou minha bochecha. — Sempre estarei aqui por você.
Assenti novamente, mas ainda me sentia sozinha.
***
Chicago. Dia 14 de novembro de 2018. Estes eram local e data para o aborto.
Tanya tinha sido ágil em conseguir tudo aquilo, eu deveria ter me sentido mais calma quando ela me deu todas as coordenadas no fim daquela tarde, mas não conseguia. Eu só queria chorar sobre aquele assunto, era tudo que conseguia fazer.
Minha amiga precisou ir embora quando tinha aquilo resolvido para mim — e depois de pedir desculpas por não poder ir viajar comigo para Chicago, já que teria muito trabalho para fazer em Los Angeles —, ela precisava ir buscar a filha na escola. Então, eu fiquei com minhas irmãs na minha casa.
Enquanto Ness me obrigava a comer mais uma vez, Alice estava mexendo sem parar em seu celular. Eu sabia com quem ela estava falando, Renée, querendo que sua produtora a liberasse por uma semana do trabalho para ela ir comigo e Ness para Chicago, não que eu achasse que minha irmã estava dizendo com quem estaria na sua viagem.
— Poderíamos esticar e ir de Chicago para New York, passar o dia de Ação de Graças lá — Renesmee falou, enquanto eu brincava com a comida no meu prato, nós três estávamos na cozinha da mansão.
— Eu não entendo porque não faço isso e venho para Los Angeles no mesmo dia — reclamei.
— Bella, é um procedimento médico, vamos ter absoluta certeza de que vai estar tudo ok antes de te trazermos de volta.
Suspirei e comi mais um pouco, foi quando percebi algo.
— Eu não devia estar comendo agora, temos o seu jantar de aniversário na casa do papai.
— Cancelei — Renesmee falou. — Liguei pro papai e falei que precisava trabalhar hoje, algo de última hora. Alice disse o mesmo. Ele vai aproveitar para trabalhar também.
Bufei e revirei os olhos.
— Não quero estragar seu aniversário.
— Você não está. — Colocou mais suco no meu copo. — E eu não estou cancelado a festa do sábado, até porque custou muito, mas se você não quiser ir isso não será um problema para mim.
— Eu vou sim — falei. — Não vou perder sua festa.
— Maldição! — Alice xingou, fazendo com que olhassemos para ela. — Desculpa, Bella — pediu chateada. — Não vou conseguir ir para Chicago com vocês.
— Ok — sussurrei. — Você não disse nada sobre isso para Renée, falou?
— Não, claro que não.
Como se Renée fosse se importar com o bebê na minha barriga. Nem eu deveria me importar.
***
Mais tarde naquele dia estava no quarto com minhas irmãs, sendo obrigada a assistir programas de beleza com elas. Eu sabia que era uma forma de me manter longe de romances e possíveis personagens grávidas em filmes e séries, era até melhor assim.
— O cabelo dela era muito melhor preto — Renesmee falou.
— Com certeza, esse cabelo castanho nela tá com cor de água suja — Alice reclamou.
Eu me questionei que cor de cabelos aquele bebê teria se eu não abortasse, talvez a mesma tonalidade ruiva de Edward...
Apoiei uma mão sobre minha barriga, continuando a pensar naquele bebê. Talvez um menino, extremamente parecido com meu namorado. O mesmo cabelo, os mesmos olhos e sorriso. Talvez uma aptidão para música igual ao de Edward.
— Bells, você não está respirando direito — Alice, sentada ao meu lado, avisou. Me dei conta da minha respiração ofegante e tentei a normalizar, também tirei rapidamente a mão de cima da minha barriga.
— Eu vou ficar um pouco no quintal — falei e sai da cama, levando meu celular que estava perto comigo. — Sozinha — determinei quando vi as duas se movendo para sair da cama também.
Elas não ficaram contentes com isso, mas não protestaram. Logo eu estava na beira da piscina, com os pés dentro da água.
Meu celular, que estava no silencioso pelo dia inteiro, contava com várias mensagens de Edward e ignorei tudo, não conseguiria falar mais com ele aquele dia. Eu queria esquecer ele me culpando sobre tudo aquilo, também precisava retomar a confiança sobre o aborto, se deixasse ele perceber que estava hesitando sobre, nosso relacionamento estaria em risco.
Ele não ficaria comigo e uma criança, eu sabia disso. E eu não queria ficar sem Edward, então a vontade dele e meu lado racional, que sabia que eu deveria abortar, teriam de ser seguidos.
Mas, não falaria com ele, não enquanto estava fantasiando sobre ter um garotinho parecido com Edward. A cara do meu namorado, com o nome em homenagem ao meu pai.
Porra, meu pai ia ficar feliz pra caralho se eu lhe desse um neto, ainda que fosse um filho meu com Edward. Eu sabia que Charlie iria ficar todo bobo sobre uma criança, principalmente se fosse um menino, já que ele só tinha tido filhas.
Mais uma vez naquele dia passei a mão pela minha barriga, me sentindo um pouco arrependida de não ter visto o monitor da ultrassom. Então, eu voltei a chorar.
Para tentar me distrair comecei a ver fotos no celular, fotos minhas com Edward, com minha família e amigos. Até que cheguei a uma foto antiga, que eu tinha tirado quando Ness foi morar comigo na mansão e levou seus álbuns de criança consigo. Era uma foto dela na fazenda, quando era só uma garotinha, sorrindo eu compartilhei aquela foto no Instagram, iria a usar para parabenizar minha irmã na rede social.
"Hoje o dia é da melhor irmã mais nova que existe — Alice, sem ciúmes, você é a melhor irmã do meio —, a garota mais doce, feliz e companheira que existe, além de ser uma ótima colega de casa que sempre entope a geladeira de frutas. Eu amo você, Ness. Obrigada por existir e feliz aniversário!"
Assim que postei a foto conferi outras publicações parabenizando minha irmã, que diferente de mim era extremamente querida, até mesmo pelas fãs de Edward por ter protagonizado o clipe de Endorfina junto com Alec. Eu também acabei procurando pelo perfil de Renée e vendo que ela tinha postado uma foto com Ness, não era algo muito antigo, eu achava que tinha sido tirada na festa de aniversário do programa de Alice alguns meses atrás, no dia que soltei a declaração sobre o Escândalo Swan.
"Não posso acreditar que minha garotinha já tem 22 anos, parece que foi ontem que eu a pegava pela primeira vez em meus braços. Ness, querida, eu te amo muito, você sempre será meu bebê. Feliz aniversário, meu bem!"
Ness, pelo menos até aquela hora, não tinha curtido, nem comentado a foto. Eu não achava que ela fosse fazer isso de qualquer forma, estava mais do que nunca revoltada com Renée desde o que ela fez quando Nahuel a agrediu.
E mesmo assim, sabendo que minha irmã mais nova também não tinha uma boa relação com nossa mãe, eu a invejei por receber parabéns dela. Enquanto eu, bom, eu não recebia nada de Renée há muito tempo.
Afaguei minha barriga novamente, antes de entrar em casa e ir vomitar.
***
Eu tinha pedido para Tanya falar com Irina e manter meus compromissos da quinta-feira de pé, o que incluía uma reunião com Edward e o arquiteto da nossa boate pela manhã. O que me rendeu um choro excessivo quando pedi para Edward ir embora, ele parecia arrependido por ter me culpado pelo lance dos remédios, mas continuava firme em querer o aborto.
Ele tinha pesquisado sobre meios de aliviar meu enjôo, mas não para que eu tivesse tranquilidade na gestação, sim para que tivesse o mínimo de efeitos ruins até me livrar da gravidez em alguns dias. E ele nem estaria em Chicago comigo para isso, óbvio, afinal nós ainda não tínhamos nos assumido, não podíamos embarcar em uma viagem daquela juntos e correr o risco de sermos flagrados.
Ainda estava na minha mesa, chorando, após ele ir embora. Me sentindo mal por estar afastando Edward, porém quando estava na presença dele me sentia culpada por no fundo estar querendo manter aquela gestação e ao mesmo tempo com raiva dele por não querer o mesmo que eu.
Não queria arruinar nosso relacionamento por minha bagunça interna, sendo assim era melhor o manter longe da loucura que eu estava inserida. Quando tudo normalizasse nós poderíamos estar juntos sem aquela gestação como uma pedra no meio do caminho, eu esperava por isso.
Bebi mais um pouco da água que ele preparou para mim, pensando no tanto que eu ainda teria que aprender sobre gravidez se não fizesse aquele aborto. Tive também de me conter e não pesquisar no Google dicas de decoração de quartos de bebês, mas eu não podia parar de imaginar e isso me atormentava.
— Ok, preciso trabalhar — sussurrei e tentei secar minhas lágrimas, mas elas não paravam. — Merda — xinguei. — Mil vezes merda, porra.
E automaticamente minhas mãos estavam sobre minha barriga, algo que eu deveria tomar cuidado ou estaria repetindo o gesto na frente de qualquer um. Entretanto, sozinha em meu escritório, eu me dei permissão de fazer aquilo.
***
Na manhã seguinte acordei e fui direto para o banheiro vomitar, o que me deixava irritada com a gestação, mas também me fazia pensar que isso era uma prova do bebê em meu ventre. Quando parei de passar mal fui tomar água com limão e comer as bolachas recomendadas por Edward, que eu continuava ignorando ligações e mensagens.
Eu estava no meu closet, me arrumando para ir trabalhar quando decidi começar a manhã em outro lugar. Em alguma loja de roupas gastando meu cartão, iria me distrair com compras, podia me dar aquele luxo.
— Vou comprar roupas agora, quer ir comigo? — perguntei para Ness, que parecia ter acabado de acordar quando entrei na cozinha, ela franziu o cenho.
— Não lembro nem meu nome agora, Bells, com certeza não quero ir comprar roupas. Chama a Alice, talvez ela queira.
— Sem tempo para esperar Alice se arrumar e ela ainda vai querer que eu a pegue em seu apartamento, vou sozinha mesmo. Tchau!
— Ei, você tá legal? Teve enjôo hoje?
— Tive, já vomitei, espero não passar mais por isso hoje. Vou te comprar presentes — falei, minha irmã assentiu e andou até a cafeteira, enquanto eu me movia para fora da cozinha. — Ok, compras!
Eu sorri e me senti feliz por segundos, até lembrar que não poderia parar em uma loja infantil e comprar roupas para o bebê se passasse na frente de uma.
***
Meus braços já estavam cheios de roupas para experimentar, todas muito justas, algo para me lembrar que em alguns dias eu abortaria e as mudanças no meu corpo iriam parar e regredir. Isso deveria me deixar contente, mas eu já tinha passado pela sessão de gestantes e pensei que não me importaria em engordar e mudar todo meu guarda roupa para boas medidas acima.
— Bella? — Olhei para trás e vi James carregando uma sacola, ele sorriu para mim.
— Ei, oi James — falei, não estava de fato surpresa em encontrá-lo ali, nós costumávamos fazer compras naquela loja quando estávamos juntos.
— Só você e eu para fazermos compras tão cedo — ele disse ainda sorrindo. — Como você está? — perguntou.
Péssima, aqueles estavam sendo verdadeiros dias de merda. Praticamente tudo que eu conseguia fazer era chorar, vomitar e imaginar ter o bebê que eu não poderia ter.
— Estou bem. E você?
— Bem também — ele respondeu. — Você está fazendo uma renovação total, não? — Apontou paradas roupas em meus braços.
— Aparentemente. Notícias sobre Norma Jeane?
— Ela está bem, aliás eu tenho que ir comprar a ração dela mais tarde — falou e pegou seu celular, vi ele anotando isso em um lembrete.
— Não deixe-a com fome. — Percebi ali que eu mesma estava faminta. — Ok, agora quem está com muita fome sou eu.
James riu.
— Tem uma cafeteria aqui perto, por que não vamos comer algo lá? — sugeriu.
— James…
— É só um café da manhã, Bella. Nada mais do que isso.
Eu suspirei e me vi concordando, estava mesmo com muita fome. Deixei as roupas sobre uma arara, ainda que James tivesse se oferecido me esperar pagar, talvez depois do café eu voltasse e terminaria minhas compras, dependeria do meu humor.
Saímos da loja juntos, a rua já estava mais cheia do que no horário que cheguei ali. Algumas pessoas pareceram nos reconhecer e encararam, eu torci para ninguém tirar fotos, mas rapidamente abaixei meu rosto.
Na cafeteria fizemos nossos pedidos, James croissant e um café. Enquanto eu pedi ovos e bacon, acompanhados de um suco de laranja, queria beber café também, mas eu me lembrava de Tanya grávida falando que não era bom beber demais.
E eu sabia que em menos de uma semana não teria mais gestação alguma, mas não queria fazer nada arriscado até lá.
— Te vi no Up All Night — James falou. — Você estava se divertindo.
— Foi bem legal. — Dei um pequeno sorriso, parecia que aquilo tinha acontecido há um século, não há poucas semanas, mas minha vida tinha mudado muito desde lá.
— Como você acabou aceitando isso? Não gosta de entrevistas.
— Pareceu uma boa ideia. — Logo a garçonete voltou com nossos pedidos e eu fiz careta para o cheiro da minha comida. — Me trás um croissant — pedi para ela, que concordou e se afastou.
— Algum problema? — James questionou. — Esse é seu café da manhã preferido.
— Não curti o cheiro. — Bebi um pouco do suco.
— Sério? Parece muito bom.
— É, sei lá — murmurei e empurrei o prato para ele. — Pode comer.
— Nunca pensei que ia te ver dispensar ovos e bacon.
— Pois é, nem me fale.
Por sorte a garçonete não demorou a voltar com meu croissant.
— Como está o trabalho? — perguntei para James depois de dar uma generosa mordida na minha comida.
—Tudo bem… Eu não deveria contar para ninguém ainda, mas irei gravar um segundo programa no ano que vem.
— Sério?
— É, vai ser um de viagens e culinária. A primeira temporada será na Argentina, viajo em janeiro.
— James, isso é um máximo! — exclamei, realmente gostando da ideia.
— Estou bem animado com isso, vai ser uma experiência nova bem legal. E, bom, você tem uma boate agora?
— É, eu tenho. — Sorri pensando na boate que era minha e de Edward. — Também estou animada com isso.
— O Cullen é um bom sócio? — questionou e me senti tensa por James estar falando sobre Edward.
— Sim — sussurrei e ficamos um tempo em silêncio apenas comendo.
— Você ainda tá com ele?
Eu revirei os olhos ao ouvir sua pergunta.
— Não sei do que está falando.
— Aham, claro. Mas ok, se você não quer falar sobre não iremos.
— Por que você terminou seu namoro? — indaguei.
James respirou fundo.
— Eu não gostava dela o suficiente.
Não falei nada, meu celular tocou e o tirei da bolsa para atender. Era Tanya.
— Oi.
— Bella, você tem fotos suas com James na internet.
— Ah não — reclamei.
— É, são fotos de pessoas aleatórias na rua, mas já está sendo bem falado e logo vão ter paparazzis na sua cola e dele. Melhor sair daí se ainda estiver com ele, ok? Não queremos as pessoas muito interessadas em você nos próximos dias.
Porque eu tinha de passar despercebida para realizar aquele aborto em paz.
— Tá bom, Tanya. Tchau. — Desliguei e falei para James. — Preciso ir embora, coisas do trabalho.
— Tudo bem, eu pago a conta, foi bom te ver, Bella.
— Certo, tchau — falei e rapidamente sai da cafeteria, não queria esperar os paparazzis chegarem.
Peguei meu carro no fim da rua e dirigi para longe, estacionei nos fundos de um McDonald's e conferi meu celular. Edward já poderia estar sabendo sobre James e eu tomando café da manhã juntos, não queria que ele entendesse aquilo errado, precisávamos conversar.
Liguei para ele, mas o cantor não me atendeu, pelo contrário, a ligação foi cancelada. Eu já sentia o nó na minha garganta, Edward deveria estar puto comigo por estar o afastando e mais ainda por ter saído com James. Estaria puta no lugar dele, estive quando ele encontrou Lauren.
Com as mãos tremendo comecei a mandar mensagens para meu namorado.
Capitã: Pirralho, você já viu as fotos?
Capitã: Com certeza já viu.
Capitã: Juro que não aconteceu nada demais. Eu estava nessa loja quando o James apareceu nós começamos a conversar, eu acabei falando que estava com fome e ele me chamou para tomar café da manhã numa cafeteria perto.
Capitã: Foi só isso, Edward. Só comemos e conversando, acredita em mim, por favor!
Capitã: Edward, por favor, me responde.
Capitã: Amor?
Capitã: Edward!!!
Quando me dei conta já estava aos prantos, imaginando o pior, Edward poderia acabar não confiando em mim e interpretando totalmente errado meu afastamento nos últimos dias.
***
A festa de Ness foi imensa, minha irmã estava se divertindo muito e isso era ótimo. Só que para mim a festa foi horrível, eu estava cansada e enjoada, além de nervosa.
Naquele sábado foi a primeira vez que vi meu pai desde que descobri a gravidez e ele logo notou que tinha algo de errado comigo, provavelmente pela minha cara de merda por todo o enjôo. Desconversei quando ele perguntou o que eu tinha, apenas dizendo que estava cansada por conta do trabalho.
Ele também questionou o que tinha sido aquele café da manhã com James, mas aí Carmen o mandou parar de me perturbar e me livrei dos questionamentos de papai. Por sorte Ness e eu não falamos sobre a viagem para Chicago, falaríamos quando já estivessemos lá e diríamos que tínhamos decidido de última hora tirar férias juntas.
Entretanto, as perguntas de papai não eram o que mais estavam me deixando nervosa naquele dia. Era reencontrar Edward depois daquelas fotos com James, ele não tinha me respondido ou ligado de volta e eu estive com medo de ir até ele naquela sexta-feira, medo dele me tirar da sua vida.
Então, quando nos encontramos no iate eu me sentia absurdamente frágil pedindo desculpas. Não queria perder Edward, eu o amava, essa era uma das razões de estar seguindo em frente com a ideia do aborto, justamente por saber que o futuro que ele queria comigo não incluía uma criança.
Quando o iate voltou para a marina Edward foi embora com Leah, Rosalie e Emmett. Eu fiquei mais um pouco e peguei carona com Tanya e Santiago, que me deixariam na casa do meu namorado, já que minha família e outros convidados ainda ficariam mais um pouco no iate.
Eu não podia mais ficar tão afastada de Edward, ainda que estar ao lado dele me deixasse nervosa.
— Meus pés estão me matando — Tanya se queixou do banco do carona, enquanto Santiago dirigia. Valentina tinha dormido assim que entrou no carro em sua cadeirinha especial e segura.
Olhei para a garotinha e a vi dormindo tranquilamente, sentindo-se protegida com seu pai e mãe tomando conta dela. Eu sentia meus olhos marejados, nunca poderia ser inteiramente responsável por uma criança, o que causaria a cabeça dela se eu tentasse mais uma vez tirar minha própria vida? Ou acabasse a agredindo em um momento de descontrole?
— Bella, chegamos — Tanya anunciou e só ali notei que o carro tinha parado.
Agradeci pela carona e sai sem dizer mais nada, apenas afagando os cabelos de Valentina. Nós duas tínhamos passado bastante tempo juntas na festa, jogando, dançando, até comendo juntas, mas era isso, no final do dia eu não era responsável por criança nenhuma.
***
Acordei no domingo com meu celular tocando, sem nem sentar eu o peguei da mesinha de cabeceira e atendi.
— Alô.
— Bells. — Era Renesmee. — Tá muito ocupada?
— Sim, dormindo — reclamei.
— Ai, desculpa, não queria te acordar — falou e percebi que ela estava soando triste.
— O que aconteceu? — Sentei rapidamente, me sentindo tonta e enjoada.
— Quero conversar sobre algo, nada muito sério, mas preciso desabafar. Pode vir aqui pra casa?
— Posso — concordei, seja lá o que fosse não poderia negar o pedido da minha irmã. — Tô aí logo mais.
— Ok, obrigada, Bells.
— Tchau.
Desligamos e eu olhei ao redor, não tinha sinal algum de Edward pelo quarto, mas vi um bilhete sobre seu travesseiro. Peguei o papel e li o que dizia ali.
"Precisei sair por conta da apresentação de mais tarde, não deixe de tomar café da manhã, linda. Eu te amo."
Suspirei e soltei o bilhete, ele estaria na apresentação da ONG aquele domingo. Cercado por crianças, enquanto isso eu estava indo para seu banheiro vomitar, porque o bebê dentro de mim estava mexendo com minha mente e meu corpo.
***
Ness está na cozinha quando cheguei a nossa casa, depois que deixei um bilhete de volta para Edward, eu imediatamente peguei algumas uvas e comecei a comer. Estava faminta, ainda um pouco enjoada, mas com fome pra caralho.
— O que foi? — perguntei para ela, que estava com os cabelos presos em um coque bagunçado, com parte da maquiagem da noite anterior e uma expressão de tristeza.
— Eu vim com o Alistair pra casa, nós transamos.
Paralisei ao ouvir aquilo, com uma uva a centímetros da boca.
— Eu ofereci carona para ele depois da festa, aí no carro ele começou a me cantar e eu comecei a corresponder. Quando me dei conta pedi pro motorista vir direto pra cá, Alistair e eu transamos, depois ele foi embora.
— Você não está com cara que gostou — consegui falar e coloquei a uva dentro do pote sobre o balcão novamente.
— O sexo não foi ruim, mas quando ele foi embora eu me senti mal. Só conseguia pensar em Nahuel, fui dormir chorando.
— Você deveria ter me ligado.
— Não queria atrapalhar sua noite com Edward.
— Sou sua irmã, sempre me ligue quando tiver um problema — ordenei, Renesmee respirou fundo.
— Eu vou conseguir ficar com outro cara no futuro? Sem ficar pensando em Nahuel sempre.
— Vai sim — garanti. — Agora você tem que ligar para Alice e dizer que fechou o ciclo.
Ness fez uma careta.
— Nem lembra que ela e Alistair já foderam.
— Bom, como você reagiria se eu falasse que também já fodi com o Alistair?
Ness arregalou os olhos.
— Não, que nojo! É verdade?
— É sim. — Eu ri.
— Eca, acho que vou vomitar.
— Já basta eu. — Voltei a comer as uvas. — Usou camisinha?
— Usei e ainda tô tomando anticoncepcional.
— Estão na validade?
— Estão sim. — Ela contornou o balcão e me abraçou. — Estou triste, Bells.
Eu sabia, porra, como sabia como era se sentir triste.
***
Assim que Alice ficou sabendo sobre Ness transando com Alistair apareceu lá em casa, ela foi o suficiente para fazer nossa irmã rir da situação, era bom ver Renesmee animada de novo. Nós três passamos o dia juntas, na maior parte do tempo eu estava cochilando pelos cantos, ou reclamando de enjôo, mas era bom estar com minhas irmãs.
De noite, enquanto elas pediam pizza para nosso jantar, eu conferia o Instagram de Edward. Já tinham muitas fotos dele no concerto da ONG, com todas aquelas crianças, ele parecia animado, mas cantar o deixava assim de qualquer forma.
Toquei em minha barriga, imaginando como seria lindo ter Edward com aquele bebê junto de si. Mas, no fim das contas, isso não passava de uma imaginação minha que nunca se realizaria.
***
Eu estava sentada no chão do meu closet, vestindo um roupão e chorando. Era manhã de terça-feira, dia 13 de novembro, o dia seguinte seria o dia, teria que ir para Chicago e abortar.
Pensar nisso me fazia chorar e tremer de medo, não só por temer aquele procedimento, mesmo sabendo que ele seria totalmente legal e seguro. Como também temer que fosse a pior decisão da minha vida, eu estava aterrorizada em como ficaria após aquele aborto.
Deveria ir encontrar minha terapeuta naquela manhã, mas tinha ligado na segunda de tarde e cancelei a consulta. Também não queria a ouvir dizer que eu tinha opções, porque apesar do medo aquela era a única opção que eu poderia seguir sem destruir tudo além de mim mesma.
Não iria acabar com meu relacionamento com Edward ao escolher aquele bebê, nem com a minha carreira e a dele quando a notícia da gravidez e consecutivamente do nosso namoro se tornasse pública, eu não poderia acabar com nada disso. E sabia que o aborto iria acabar comigo, mas era um dano menor, ao menos esperava que um dia pudesse superar.
Afaguei minha barriga, sentindo uma vontade desesperadora de falar com o bebê. Mas, não fiz isso. Eu fiquei calada, apenas chorando.
Sozinha.
***
Edward me beijou e abraçou mais uma vez, ainda estávamos na cozinha da sua casa, depois de eu recolher algumas coisas do seu closet que precisaria levar comigo para Chicago.
— Sério, me avisa quando estiver em Chicago, não me importa o fuso — disse.
Ele não queria o bebê, eu pensei que quando Edward começou a chorar tinha sido por estar mudando de ideia, mas não era isso. Sua decisão continuava a mesma, a minha não, mas eu ainda faria o que tinha de fazer.
Meu namorado poderia ter dito que faria tudo por mim, mas sabia que ter um filho não estava na lista. Por outro lado, eu faria tudo por ele.
— Vou avisar, preciso ir agora.
Ele assentiu, me soltou e pegou minha bolsa que deixei na porta da cozinha. Caminhamos em direção a entrada da sua casa, de mãos dadas, em minha cabeça um filme passava com uma situação diferente, onde estaríamos indo para o hospital ter o bebê, não o total oposto disso.
— Tchau, Amy — murmurei para a gatinha nos seguindo quando chegamos a porta. Eu queria muito levá-la comigo para Chicago, mas isso parecia nunca mais ter ela ali na casa de Edward e eu mesma nunca mais voltar. E isso não aconteceria, porque eu voltaria.
— Te vejo em alguns dia, então? — ele me perguntou, seus olhos ainda estavam marejados.
— Pessoalmente, talvez possamos fazer vídeo chamadas.
— Claro.
Edward beijou minha mão que segurava e depois meus lábios.
— Te amo, Capitã.
— Eu também amo você.
Peguei minha bolsa da mão dele e sai da sua casa. A próxima vez que nós dois nos víssemos eu não estaria mais grávida.
***
Minhas malas estavam prontas às dez da noite, Ness e eu deveríamos estar no aeroporto às duas para o voo às três da manhã. Alice estava em casa com a gente e nos deixaria no aeroporto, Tanya tinha saído dali pouco antes.
— Quero um milkshake — sussurrei, sentada na poltrona do quarto de Ness enquanto via ela e Alice acabarem de arrumar as malas da minha irmã caçula. Ness e eu ficaríamos em um apartamento alugado em Chicago, algo para termos mais privacidade.
— Quer que eu peça pra você? — Alice perguntou para mim.
— Também quero batata frita — continuei sussurrando.
— Certo, vou pedir batata e milkshake. — Alice sorriu carinhosamente para mim.
— Não. — Fiquei de pé. — Eu vou comprar.
— Isabella, é melhor você tentar dormir um pouco — Alice falou, não mais sorrindo. — Peço o que você quiser, enquanto isso você descansa.
— Não, eu tô legal. — Sai do quarto de Ness e fui até o meu pegar minha bolsa. — Não vou demorar, vou até o McDonald's mais perto.
— Bells… — Ness começou a falar.
— Se até uma da manhã eu não estiver aqui vocês podem surtar.
— Uma da manhã? Isabella!
— Eu vou ficar legal, só quero respirar ar puro.
— Em Los Angeles?
— Vocês entenderam, até uma da manhã eu tô aqui.
***
Por volta de onze da noite eu estava no estacionamento do McDonald's, as batatas e o milkshake já tinham acabado. O meu choro não, eu estava agarrada ao volante chorando tudo que podia.
Entretanto, precisei segurar meu choro quando ouvi meu celular tocando, era meu pai. Eu me acalmei, um pouco, atendendo sua ligação.
— Oi, papai.
— Bells, estou compondo uma canção e tenho uma ideia.
— Diga.
— Você cantar ela comigo no meu álbum.
— Não vai acontecer, pai.
— Filha, é só uma canção, não estou te pedindo muito mais que isso. Você me fez gravar com Edward, está me devendo uma. E esse era seu sonho, Bella, ser uma cantora.
Um dos meus sonhos, os outros eram ter um marido e filhos. Mas, eu não seria uma cantora, não casaria com Edward e nem seria mãe.
— Pai, não quero discutir isso agora.
— O que está acontecendo com você, Isabella?
— Não tem nada acontecendo.
— Tem sim, você está até com voz de choro.
— É alergia.
— Até parece. Escute, filha. Pode me contar o que quer que seja, certo? Eu amo você.
Eu sabia que ele me amava, nós tínhamos nossos desentendimentos, mas Charlie era o melhor pai do mundo para mim. Ainda assim isso não tapava o buraco no meu peito desde que perdi Renée.
— Falo com você depois, pai.
Desliguei sem ouvir mais nada dele, desligando meu celular também. Liguei o carro e decidi ir até ela.
***
Dia 14 de novembro de 2018, meia-noite em ponto. Eu tinha meu carro estacionado na frente do prédio que sabia ser onde Renée morava, ela deveria estar lá dentro vivendo sua vida perfeita, enquanto eu ainda estava pagando por meus erros do passado e por ela ter me abandonado.
Liguei o carro de novo, já estava parada ali há muito tempo, tinha que cair fora. Mas, não consegui dirigir, eu só queria ir até Renée e a confrontar. No fundo sabia que isso não resolveria nada na minha vida, mas eu precisava falar com ela.
Peguei algum dinheiro na minha bolsa e sai do carro depois de o desligar, atravessei a rua até o prédio, enxugando minhas lágrimas na manga do meu suéter. O porteiro, um cara que deveria ter seus vinte anos estava mexendo em seu celular, sorrindo de orelha a orelha.
— Olá — falei com ele, forçando um sorriso.
— Boa noite, senhora.
— Senhorita. Qual seu nome? — Por sorte ele não parecia ter me reconhecido.
— Dean.
— Dean, preciso da sua ajuda. Eu sou Emma Fitzgerald, acabei de voltar para a cidade e queria fazer uma surpresa para minha amiga Renée Swan, ela mora na cobertura.
— Eu vou interfonar e…
— Não, eu disse que é uma surpresa, Renée não pode saber que estou aqui, Dean. Por que você não me deixa subir? — Passei o dinheiro para ele.
— Eu não posso aceitar.
— Pode sim, garanto que Renée não irá reclamar sobre isso. Apenas me deixe subir sem interfonar, certo?
Ele hesitou, mas concordou. Guardou o dinheiro e mostrou qual elevador eu deveria pegar para ir direto até a cobertura.
Durante aquele percurso mal conseguia respirar, só que não voltaria atrás. Então, o elevador se abria diante a porta do apartamento de Renée.
Pressionei o dedo sobre a campainha do apartamento, querendo que alguém abrisse a porta para mim logo. Aconteceu tão rápido quanto previ, por conta do meu incômodo, uma empregada abriu a porta e antes que ela pudesse dizer uma palavra qualquer eu já invadia o apartamento.
— Cadê a Renée? — indaguei a mulher, que estava apavorada com a minha invasão.
— E-Ela…
— Cadê a Renée? — gritei minha pergunta mais uma vez.
— O que veio fazer aqui, Isabella? — Olhei por cima do ombro da empregada, vendo minha mãe na outra extremidade do hall de entrada. Renée usava um roupão impecavelmente branco, máscara verde no rosto e carregava uma taça de champanhe em sua mão.
— Olá, mamãe. — Sorri em deboche para Renée, que revirou seus olhos e se voltou para a empregada.
— Suma! — ordenou, a mulher praticamente evaporou da nossa frente. Minha nada querida mãe andou até mim, parando bem a minha frente. — O que veio fazer aqui? Tem dois minutos antes de eu chamar os seguranças.
A encarei indignada.
— Eu sou sua filha, sua cretina!
— E? Você acabou de invadir uma propriedade privada, isso pode te levar para trás das grades.
— Você é um monstro — sussurrei, ela revirou seus olhos claros novamente.
— Veio até aqui só para me insultar? Isso é falta do que fazer, Isabella. — Bebeu um gole do seu champanhe, eu arranquei a taça da mão dela e atirei contra o chão.
Renée não se abalou, nem por um segundo.
— Você nunca me amou, não é?
Naquele instante ela hesitou, vi no seu olhar e em como seus ombros ficaram claramente tensos.
— Onde quer chegar com essa pergunta?
— Responda!
Ela respirou fundo.
— Você é minha filha, claro que te amei. — Ela engoliu em seco. — Ainda amo, mas… — Renée mexeu em meus cabelos. — Você arruinou o futuro perfeito que construí para você, Isabella. Desde o comecinho, desde que escolhi quem seria o pai do meu filho, ou filha.
Eu me senti enjoada ao escutar aquilo, algo que não foi relacionado a gravidez.
— Eu fui um produto antes mesmo de nascer? Você só casou com meu pai pelo nome e dinheiro dele, né?
— Isabella, não banque a boba, sei que você não é — ela exigiu. — Eu gostava de Charlie, muito, então foi muito agradável casar com ele e ter filhas, ter o sobrenome dele também. — Deu de ombros. — Eu era só uma pequena produtora de TV quando o conheci, ele já era uma estrela e estar com seu pai alavancou minha carreira. Então, não me julgue por ter pensado em meu futuro desde sempre, só fiz aquilo que você não fez quando fodeu com aquele atorzinho de merda.
— Eu precisava de você, quando o mundo todo se voltou contra mim, quando eu quase me matei. Você não esteve lá, Renée. Quando sua filha mais precisava, não a estrela que você moldou.
— Não seja dramática!
Ela mexeu em meus cabelos outra vez.
— Você se reergueu, não? Olhe onde está agora, conseguiu muita coisa. — Piscou para mim, eu empurrei sua mão para longe dos meus cabelos.
— Você me abandonou — sussurrei.
— Eu tive de fazer isso, não poderia manchar minha imagem junto a sua, não podia perder o poder que tinha conquistado. Você entende, sei que entende. Não gosta de todo o controle que tem em suas mãos? Não gosta de se sentir capaz de mandar em tudo e todos? Eu amo esse controle, Isabella, não sei viver sem ele. — Seu olhar tinha um brilho maníaco.
— Você me abandonou — repeti. — Abandonou sua própria filha.
— Você teria feito o mesmo — ela falou. — Nós somos idênticas, Isabella. No passado você errou, mas aprendeu e agora é praticamente a mulher que eu sonhava que você se tornasse, com algumas diferenças no percurso. — Sorriu para mim. — Teria sido incrível ter tido você ao meu lado todos esses anos.
— Só que você me abandonou, preferiu sua carreira.
— Eu fiz isso — confirmou. — Não trocaria o topo por mais nada.
Assenti, enfiando minhas mãos no bolso do suéter que usava. Ela suspirou.
— Você quase destruiu toda minha carreira quando se tornou um problema, precisava me afastar, Isabella.
— Um problema. — Engoli em seco.
— Isabella, vamos, venha até a sala comigo e tome um pouco de champanhe para clarear suas ideias. — Agarrou meu braço, mas me soltei dela rapidamente. — Isabella, me obedeça!
Aquilo me levou direto ao passado, quando ela dizia a mesma frase sempre que eu hesitava sobre qualquer coisa que ia contra suas decisões.
— Você não manda mais em mim, Renée — declarei. — Perdeu sua estrela de ouro quando me abandonou. Você diz que me ama, mas ama o dinheiro que te dei, ama o poder que a família Swan colocou nas suas mãos. Só que você deveria estar na merda, mamãe. Eu ainda vou ver você lá e não farei nada pra te ajudar, porque um dia você não me ajudou.
— Você não seria nada sem mim, garota! — ela gritou, agarrando meus ombros com força. — Nada! — berrou. — Eu te ensinei tudo, eu criei você.
— E é por isso que agora eu estou indo embora da sua vida, de uma vez por todas, exatamente como você fez. — Eu me soltei dela. — Fique longe de mim e da minha família — ordenei, naquele momento pensando em uma única outra pessoa além de mim. — Passei os últimos anos sofrendo por você ter me deixado, mas eu estou me proibindo de continuar sofrendo sobre isso a partir de hoje.
— Deus, como eu me enganei, você ainda é a garota tola que fodeu com o primeiro que falou que te amava! — acusou.
— Eu sou — concordei. — Mas, você me ensinou muito, não é? Pode deixar que agora eu sei me virar muito bem sozinha, sem precisar mendigar por sua atenção.
— E veio aqui hoje por qual motivo?
— Eu precisava pôr um ponto final.
— Nunca é um ponto final entre nós duas, eu sou sua mãe.
— Você deixou de ser muitos anos atrás — falei aquilo e sai do seu apartamento, batendo a porta atrás de mim.
Entrei no elevador e logo estava saindo do prédio, corri até meu carro e gritei. Lágrimas rolaram por meu rosto, enquanto eu chorava por anos de abandono.
Eu me aconcheguei no banco do motorista, ainda aos prantos, levando minhas mãos até minha barriga. Em pouco tempo eu deveria pegar um avião, voar até Chicago e interromper a gestação, mas não faria mais isso.
Renée tinha dito que eu faria o mesmo no lugar dela, abandonaria minha filha por outra coisa, mas eu não era minha mãe. Aquele bebê, fosse menina ou menino, já era parte de mim e já o amava pra caralho.
Então, pela primeira vez desde que descobri a gravidez, falei com o bebê.
— Ok, eu não sei se você já é capaz de me entender, provavelmente não, mas precisamos ter uma conversinha — anunciei entre as lágrimas. — Você ficará por aí mais uns meses, entendido? Também precisa entender que seremos só nós dois, sem pai na jogada. — Solucei ao pensar em Edward, sabia que ele não ficaria mais comigo e isso me apavorava, mas eu estava escolhendo o bebê. — Eu vou logo avisando que certamente serei um desastre de mãe, mas prometo me esforçar. Entretanto, não espere que eu cozinhe para você, conte histórias antes de dormir, ou sente e assista programas infantis idiotas ao seu lado, não farei nenhuma merda dessas. Só que, eu prometo estar disposta a te ajudar em todo o resto, juro, desde a te ajudar a resolver um cubo mágico a te livrar da cadeia, mas se você for preso eu juro que irá receber um belo castigo. — Eu ri.
Ergui um pouco minha roupa, para alisar minha barriga.
— Eu estou com muito medo, bebê — sussurrei. — Não sei ser uma mãe, você precisará ser paciente comigo enquanto aprendo. Mas, juro que eu nunca te abandonarei.
Dei um mínimo sorriso.
— E nós não teremos o cara do esperma com a gente, mas eu ainda o amo e te amo ainda mais por também ser parte dele. Apenas, por favor, não herde os olhos dele, ou os cabelos, ou o sorriso, nada, tá bom? Eu não posso ficar vendo ele em você, porque isso vai me matar todos os dias. Nós precisamos aprender a ser uma dupla, Bella e seja lá qual será o nome que eu te darei.
Inspirei fundo.
— Você pode guardar esse segredo sobre eu chorar tanto, bebê? Só que, fique sabendo que pode chorar o quanto quiser para mim, eu estarei lá te consolando, porque eu te amo. — Mais lágrimas deslizaram por meu rosto, mas sorri largamente, olhando para minha barriga ainda lisa. — Eu amo você, bebê. Sinto muito por isso tudo ser uma confusão, irei consertar tudo e quando você estiver aqui não terá que enfrentar nenhum problema. Seja bonzinho comigo, está certo? Eu te vejo em alguns meses, aí poderei dizer na sua cara o quanto te amo. Porra, eu amo você, bebê!
Abracei a mim mesma, olhando em direção ao prédio de Renée. Eu não seria como ela, seria uma boa mãe.
***
Eu fui para a praia, fiquei dentro do carro olhando o mar e pensando em como faria aquilo. Criar um bebê sozinha, e tentar deixar que o mundo nunca soubesse quem era o pai dele.
Quando deu uma hora liguei meu celular e apenas mandei uma mensagem para minhas irmãs. O texto dizia que eu estava bem, segura e que não ia mais abortar.
Voltei a desligar o celular e fiquei no meu carro até o Sol nascer. Pensando, planejando e sofrendo porque eu teria que dizer adeus ao homem que amava, mas precisava fazer aquilo para ter meu bebê.
Sozinha.
***
Esme abriu a porta para mim, fazendo com que eu me sentisse terrível por saber que teria de me afastar dela e ainda mentir sobre tudo.
— Olá, Bella! — ela me cumprimentou, estava preocupada. — Tudo bem? — indagou. — Você está muito pálida — comentou.
— Sim, só estou com uma virose estúpida — menti. — Preciso falar com o Ed.
— Imaginei, ele está lá na sala de música. Você quer comer ou beber algo?
— Não, eu não vou demorar! — exclamei, falaria o que tinha para falar e cairia fora logo depois. Não voltaria mais a pisar naquela casa.
Cruzei a mansão até a sala de música, minha mente naquele momento sendo invadida por todo o tipo de lembranças. Eu podia ouvir Edward tocando Vulnerável, o que fez meu coração se apertar.
Então, eu acabei de descer a escada e o vi. Estava sentado no chão, tocando em seu violão.
— Edward? — chamei baixinho, ainda assim ele me escutou.
Edward se virou para me olhar no mesmo instante, claramente surpreso com minha aparição.
— O que está fazendo aqui? — indagou, colocando-se de pé, deixando o violão no chão. — Você não deveria estar em um avião indo para Chicago agora?
Assenti, esse era o plano inicial.
— Eu não vou mais viajar — murmurei. — Pelo menos não hoje. — Respirei fundo. — Digamos que vou tirar umas férias prolongadas, precisarei de mais uns dias para preparar tudo aqui e poder viajar. — Edward me olhou confuso.
— O que está tentando me dizer, Isabella?
— Não posso fazer isso — anunciei, finalmente sendo dominada pelo choro que com muita luta tinha controlado para ir até ele. — Eu não posso, me desculpa — falei, levando uma mão a minha barriga.
Edward empalideceu, provavelmente ficando tão pálido quanto eu estava. Não precisei dizer com mais clareza, ele sabia que eu estava negando a ideia do aborto.
— Eu vou para Nashville, irei tirar férias e me esconder lá pelo resto da gravidez.
— Isabella...
— Me deixa falar! — exigi, minhas mãos tremiam. — Você não será afetado, acredite em mim. Tanya estará aqui cuidando da sua carreira, eu irei a auxiliar de Nashville. Quanto ao… — Suspirei, olhando para baixo, levando a outra mão até minha barriga. — Não precisa se preocupar com o bebê, eu direi a todos que foi uma inseminação artificial, uma produção independente.
Solucei alto entre meu choro, não me aguentei em pé e acabei sentada em um dos degraus da escada. Chorava muito, de uma forma que não chorava desde o ápice do escândalo Swan.
— Só não posso fazer isso — falei, talvez mais para mim do que para Edward. — Eu sei que ainda está no começo da gestão e que poderia ser resolvido facilmente agora, mas não consigo. — Afaguei meu ventre. — Não posso lidar com a ideia de me desfazer do bebê… — Tentei conter o choro, mas não consegui. — Eu já o amo — confessei. — Amo mais ele do que já amei qualquer pessoa que passou por minha vida, meus pais, minha mãe, minhas irmãs, Tanya, Paul, James e mesmo você.
Olhei para Edward, que continuava paralisado no mesmo lugar.
— Eu sei que tínhamos planos e sei que você me ama, também te amo, muito, mas eu não posso tirar o bebê e sei que você não o quer e vai me deixar por isso. Me desculpa, por favor, me perdoa, mas eu quero ter meu filho.
Edward fechou os olhos, apertando a ponta do seu nariz com os dedos.
— Vou para Nashville em uma semana, só voltarei quando o bebê tiver nascido, talvez só alguns meses depois do nascimento. — Enxuguei as insistentes lágrimas que rolavam por meu rosto. — Você não precisa conhecê-lo, nem nada disso, acho que assim será melhor. Eu não quero que ele sofra, não posso deixar meu bebê sofrer.
Meu peito explodiu em um novo choro arrebatador, que tomou conta de mim. Eu apenas chorei, me deixando sofrer o que tinha de sofrer naquele instante, pois assim que deixasse a mansão de Edward teria de ficar bem por mim e pelo bebê.
— Capitã, olhe para mim. — Senti a mão de Edward em meus cabelos, fazendo com que eu abrisse meus olhos.
Ele estava ajoelhado diante de mim.
— Eu vou com você para…
— Já falei que não farei um aborto! — o calei com um grito. — Você se disponibilizando a ir comigo não muda nada.
— Porra, Bella! — ele gritou de volta. — Me deixa falar, merda.
— Não tem mais o que falar, eu já decidi.
— Eu não estou falando que irei para Chicago com você para que faça a porra de um aborto, estou dizendo que vou com você para qualquer lugar, que farei o que for preciso. Irei cuidar de vocês — Edward falou com seriedade. — De você e do bebê.
— Ed…
— Me deixa falar! — exigiu, me fazendo calar a boca. — Eu sei que queria que você abortasse no começo, ainda estou assustado pra caralho com isso tudo, mas eu também quero ter esse filho, só não disse nada antes porque achava que você não queria.
Prendi a respiração ao escutar aquilo.
— Só que eu te entendo, Capitã. — Sorriu um pouco. — Eu sei o que está sentindo. — Levou uma mão a minha barriga, se inclinou e beijou minha bochecha molhada por lágrimas. — Eu também já amo esse bebê.
Eu me vi sorrindo com a fala dele.
— Não faço ideia do que faremos, de como faremos, mas que se foda todo o resto. A mídia, Leah, minha carreira, o que dirão de mim. — Ele beijou o outro lado do meu rosto. — Eu quero você. Eu quero nosso filho. Que seja um escândalo, iremos enfrentá-lo juntos. Não vou deixá-la sozinha, Capitã.
Ainda chorando, mas naquele momento entre um misto de alívio e felicidade, segurei o rosto de Edward, o puxando para um beijo. Ele ficaria comigo e com nosso bebê, eu poderia enfrentar todos os escândalos ao lado dele.
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