Hollywood
67 Capítulo Sessenta e Seis
Notas iniciais
Capítulo Sessenta e Seis
Edward Cullen
"Confira aqui tudo sobre o filho de Ed Cullen."
Surtei quando Laura, a garçonete, espalhou o boato de que eu era o pai do filho dela. Surtei porque aquilo não poderia acontecer de forma alguma.
Não queria ter filhos, nunca foi um sonho, nem mesmo com Lauren ficava fantasiado sobre isso. Eu não gostava de crianças, não teria paciência para lidar com uma, ou com as mil responsabilidades que vinham com elas e definitivamente não teria filhos para acabar correndo o risco de ser um pai idiota como o meu.
***
Deixei de sorrir quando Bella disse aquelas três palavras.
— Eu estou grávida.
Franzi o cenho, olhei para a barriga dela e me questionei como diabos aquilo poderia ser possível. Não fazia sentido algum.
— O quê? — perguntei, levantei do banco do piano, onde estava antes tocando a canção que fiz para a mulher que parecia ter chorado pela manhã inteira. Não tinha percebido de primeira, mas ela estava praticamente sem maquiagem e com olhos e nariz vermelhos.
Isabella mexeu em sua bolsa, tirando um papel lá de dentro. Andou até mim e falou:
— Acabei de descobrir.
Ela me entregou a folha de papel, não entendi praticamente nada das coisas escritas ali.
— Isso…
— É um dos exames que confirma que estou grávida. — Olhei para ela e vi seu lábio inferior tremer, mas Bella não estava chorando naquele momento. — Fiz também um de farmácia e até mesmo ultrassom.
— Espera, espera, isso não está fazendo sentido! — exclamei, ela engoliu em seco. — Você não pode estar grávida, toma remédio para evitar isso.
— Aparentemente estava tomando pílulas fora da validade desde setembro — murmurou.
— Aparentemente? — gritei. — Como você não percebeu essa merda, Isabella? Olha a confusão que nos meteu agora!
— Não fiz isso sozinha — falou, seus olhos estavam marejados.
— Você desde a primeira foda disse para eu não me preocupar, que tomava remédio direito, isso não é minha culpa.
— Sempre tomei o remédio direito, só errei em não conferir as datas de validade, mas não fiz isso só. — Apontou para sua barriga. — Você estava lá!
— Porra, porra, porra! — Passei as mãos pelos cabelos, sem me importar em amassar o papel do exame dela. — Você precisa tirar, tem que abortar — falei, Bella assentiu.
— Obviamente é o que vou fazer, Edward. Nós dois não queremos ter filhos.
— Sim, que bom que combinamos nisso! — exclamei, ainda nervoso. — Pode ir tirar ainda hoje? Quanto antes melhor, não?
Os ombros dela caíram.
— Farei isso amanhã, minha médica já me indicou uma clínica — murmurou novamente.
— Ótimo, tem que ser rápido, antes que alguém desconfie.
— É, você está certo. — Tirou o exame da minha mão, voltou a guardar o papel em sua bolsa e se sentou no sofá. — Estou de seis semanas — disse colocando o rosto entre as mãos, deixando a bolsa no chão perto dos seus pés.
Suspirei e falei:
— Não se preocupa, ainda é cedo suficiente para o aborto.
Bella começou a chorar, andei até o sofá, sentei junto dela e envolvi seu corpo com um braço.
— Vai ficar tudo bem, linda. Vamos resolver esse problema também, tudo vai se ajeitar logo, irá abortar e pronto.
Beijei seus cabelos e Bella se afastou de mim.
— Ninguém vai descobrir — falei para ela, que estava na outra extremidade do sofá e encarava o chão naquele momento, mas ainda chorando. Imaginava que naquela circunstância esse era o maior medo dela. — Isso não vai nos colocar em mais problemas.
— Para de falar — ela ordenou irritada. — Estou morrendo de dor de cabeça, cala a boca! — gritou.
Fiquei quieto, a deixando chorar. Sabia que Bella estava brava com aquela situação, além do medo de ser descoberta, ela não queria ter filhos tanto quanto eu. Mas, aquilo seria resolvido. Com certeza seria, logo no dia seguinte, não poderia se estender muito mais.
— Você quer comer algo? — perguntei para ela depois de um tempo.
— Não — negou, estava com os pés sobre o sofá, tinha tirado seus sapatos, abraçando suas próprias pernas e o queixo repousado sobre um joelho.
— Já comeu algo hoje?
— Eu vomitei.
— Você… — Ela me encarou. — Já estava desconfiada de algo?
— Não, Renesmee e Alice desconfiaram primeiro. Eu aceitei fazer um teste e aqui estamos. — Deu de ombros e fungou.
— Bom, felizmente descobriu logo, poderia ser pior mais tarde — eu disse e Bella fechou seus olhos com força. — Vou buscar algo pra você comer, Capitã, precisa se alimentar, não pode ficar doente.
Ela não debateu, continuou na mesma posição e saí da sala de música. Me movi pela cozinha pegando frutas, leite e um pedaço de torta de maçã que mamãe tinha feito, já estava com tudo em uma bandeja quando o interfone tocou. Era Tanya, a deixei entrar.
— Oi, Ed! — exclamou animada a me ver. — Suas roupas e as de Leah para o fim de semana ficaram prontas, coloquei lá naquele armário da entrada. Estão etiquetadas, indicando quais são para a festa de aniversário de Ness no sábado e quais para o evento da ONG no domingo.
Minha mãe estava organizando um evento, as crianças que estudavam na ONG que ela trabalhava iriam se apresentar tocando e cantando no domingo em um teatro na cidade. Os responsáveis das crianças estariam lá gratuitamente, mas ingressos estavam sendo vendidos para outras pessoas, além de convites especiais para os camarotes do teatro para gente importante estarem sendo distribuídos.
Mamãe sabia jogar o jogo, ela tinha sido minha empresária por pouco tempo, mas conhecia o suficiente de marketing e para promover o evento me escalou para tocar uma música — Can't Stop The Feeling do Justin Timberlake, escolha do pessoal da ONG — com as crianças — o que naquele momento após descobrir sobre Bella estar grávida parecia uma grande brincadeira de mau gosto — no encerramento. Ela também foi quem distribuiu os convites entre todos meus amigos, ou pessoas da mídia que nós dois conhecíamos, muitos já tinham confirmado presença no evento — e feito doações para a ONG — em suas redes sociais aumentando o falatório sobre o concerto e a probabilidade de topar com famosos por ali, ou simplesmente estar sob o mesmo teto, impulsionou as vendas.
— Beleza, valeu por trazer as roupas — falei para a Tirana.
— A Bella tá aqui? Ela não me atende ou responde minhas mensagens.
— Ela tá — respondi e peguei a bandeja com comida. — Rolou algo sério, provavelmente você pode ajudar, desce comigo.
Tanya estava no mesmo instante preocupada, segui para a sala de música e ela foi atrás de mim. Isabella ainda estava no sofá, mas tinha seu celular em mãos e chorava com o rosto apoiado no braço do móvel.
— Bella? — Tanya chamou por ela.
Minha namorada olhou para a amiga e soluçou, Tanya me ultrapassou e foi até Bella, sentando junto dela, a abraçando. Eu deixei a bandeja sobre uma mesinha e fiquei em pé mesmo, deixando com que Bella contasse para Tanya o que estava acontecendo.
— E-Eu es-estou grávida — minha namorada gaguejou, Tanya arregalou seus olhos e como eu tinha feito antes olhou para a barriga de Bella.
— O quê? — Tanya praticamente gritou. — Como assim?
— Eu estava tomando o anticoncepcional fora da validade sem saber — Bella contou sem parar de chorar. — Hoje mais cedo estava muito enjoada, vomitei e minhas irmãs me obrigaram a fazer um teste de farmácia. Deu positivo, fui correndo falar com a minha médica, fiz exame de sangue e ultrassom, tudo confirmou a gravidez. — Esfregou seu nariz, que estava mais vermelho do que antes.
— Caralho — Tanya disse baixinho. — Você vai abortar? — ela questionou a amiga.
— Vou — Bella sussurrou.
Tanya afagou as costas de Bella e perguntou:
— Quantas semanas?
— Seis — respondi por Bella. — Ainda tá muito no início, né?
— É. — Tanya suspirou.
— Minha médica me indicou uma clínica. — Bella soluçou outra vez. — Devo fazer isso logo amanhã, T. Você vai comigo?
— Acho que você deveria fazer isso em outro lugar — Tanya falou. — Fora de Los Angeles, se possível fora da Califórnia, para que seja o mais discreto possível. Não podemos deixar ninguém descobrir sobre isso, Bella.
Minha namorada assentiu, eu respirei fundo.
— Você pode cuidar disso para mim? — Bella perguntou para Tanya. — Não sei nem por onde começar.
— Sim, vou resolver tudo. — Beijou o rosto da amiga. — Vai dar tudo certo, B.
— Me leva pra minha casa? — Bella pediu, ainda falando só com Tanya. — Ness e Alice estão esperando por mim lá.
— Claro, vamos. — Tanya se levantou e ajudou Bella a ficar de pé.
— Elas podem vir para cá — falei para Bella, que me encarou, seu olhar era vazio naquele instante.
— Eu quero ficar sozinha, Edward.
Ela foi embora com a amiga antes que eu pudesse protestar, antes que pudesse discutir o real significado do sozinha em sua frase. Suas irmãs estavam na casa dela, Tanya estaria indo junto, Bella não ficaria só, ela só queria ficar longe de mim. Isso porque ela deveria estar me odiando por toda aquela história da gravidez, me odiando por ser o cara que a colocou naquela merda de situação.
Mas, tudo se resolveria, quando ela abortasse as coisas iriam voltar ao normal.
***
Bella não me atendeu, sequer respondeu minhas mensagens pelo resto do dia, a única manifestação online dela aquele dia foi postar uma foto de Renesmee quando criança — na fazenda do Caipira Swan — parabenizando a irmã caçula pelo aniversário. No entanto, Alice me respondeu e assegurou que sua irmã estava bem, só precisando mesmo descansar.
Aceitei isso e não fui atrás de Bella em sua casa, até porque Tanya mandou mensagem dizendo que a reunião que Isabella e eu teríamos na produtora no dia seguinte, com o arquiteto da boate, continuava de pé. Nós dois poderíamos conversar na manhã seguinte, com mais calma.
Tanya também me garantiu que estava acertando tudo para Bella realizar o aborto, que não seria no dia seguinte, mas aconteceria o quanto antes. Afinal, nós sabíamos que isso deveria acontecer logo.
— O que você tem? — Jasper perguntou aquela noite, ele tinha ido jantar lá em casa, estávamos na sala de música enquanto esperávamos minha mãe nos chamar para comer.
— Nada — respondi dedilhando Vulnerável no piano.
— Por que a Bella não tá aqui? Ela vem jantar também?
— Não. — Bufei e continuei a dedilhar a música. — Ela tá na casa dela.
— Desde quando vocês perdem a oportunidade de estarem juntos?
Parei de tocar e engoli em seco, suspirei e olhei para meu amigo. Jasper estava apoiado ao lado do piano mexendo em seu celular, ele olhou para mim de volta.
— A Bella está grávida, Jasper — sussurrei, por outro lado, ele gritou:
— Puta merda! Isso é verdade?
— É sim.
— Puta merda! — repetiu, seus olhos estavam arregalados. — O que vocês vão fazer?
Revirei meus olhos.
— Te convidar para ser o padrinho — debochei, Jasper bufou. — Claro que a Bella vai abortar, né? Ela e eu não queremos filhos.
— É, acho que é a melhor saída.
— É a única saída.
— Ok, mas isso não responde o motivo da Bella não tá aqui.
— Acho que ela tá com raiva de mim por a engravidar, sei lá. Mas ela quem tava tomando remédio errado, a culpa não é só minha é dela também.
Eu mal tinha acabado de falar e Jasper acertou um tapa na minha cabeça.
— Ai, filho da puta — me queixei, massageando o lugar que ele acertou. — Isso doeu, caralho.
— Não acredito que você culpou a Bella por isso.
— Eu sei que também tenho minha parcela de culpa, mas ela devia ter ficado mais ligada…
Jasper bateu do outro lado da minha cabeça.
— Para com isso, seu babaca! — exclamei furioso.
— Sua namorada tá grávida, idiota. De um filho que vocês não querem, vai ter que passar por um aborto e você tá jogando a culpa nela, vê se cresce, Edward. É a Bella que tá com um monte de hormônio no corpo agora e vai ter que fazer um procedimento médico pra resolver isso, você não vai ter que fazer nada.
Envergonhado, eu encarei as teclas do piano. Ele estava certo, ok.
— Você deveria ir ficar com a Bella e dar apoio a ela, de boca fechada pra não falar merda alguma. — Voltei a olhar para Jasper, ele estava verdadeiramente puto comigo.
— Ela não me quer lá, quer ficar só… No caso só com as irmãs dela.
— Tá, mas da próxima vez que você ver sua namorada vai calar sua fodida boca e não irá culpar ela por essa merda, irá aceitar qualquer coisa que ela tiver de falar e ajudá-la o quanto puder.
— Ok, ok — concordei. — Não fala isso pra ninguém, tá? Especialmente pra minha mãe e minha irmã, elas iriam surtar e delirar sobre eu ter esse bebê, que definitivamente não quero ter.
— Claro que não vou falar nada — Jasper disse e andou até o sofá onde se sentou. — Você com certeza não nasceu para ser um pai.
Senti o nó em minha garganta ao ouvir as palavras dele. Ele estava certo, eu sabia, mas de alguma forma aquilo me incomodou.
***
Cheguei antes da hora marcada a produtora na manhã seguinte, isso porque não tinha conseguido dormir quase nada na última noite pensando sobre Bella, a gravidez e o aborto e principalmente porque queria ver minha namorada logo. Irina, que já estava em seu lugar, parecendo de mau humor enquanto tomava café e mexia no celular, olhou para mim e sorriu.
— Bom dia, Ed.
— Bella tá na sala dela? — perguntei indo direto ao ponto.
— Hum, não, ela ainda não chegou.
— A sala tá aberta? Posso esperar lá dentro?
— É, acho que pode — Irina disse, ficou de pé e com o molho de chaves que tinha usou a da sala de Bella para abrir o local.
— Valeu — agradeci e entrei ali, sentei na poltrona de Bella quando Irina me deixou só.
Fiquei jogando Candy Crush no meu celular e ouvindo em meus fones o cd que Bella gravou para mim, que eu tinha convertido para pode escutar em meu celular, iPod e onde mais quisesse. Quando ela entrou ali não parecia surpresa em me ver, Irina deveria ter avisado que eu estava lá dentro, Bella só jogou sua bolsa no sofá e indo direto ao ponto, falou:
— Eu vou abortar no dia catorze, em Chicago.
— Isso está certo? — indaguei tirando meus fones e largando o celular sobre a mesa.
— Sim — ela respondeu arrumando a manga da sua camisa social. Seu rosto estava bem maquiado, mas seu olhar era cansado ainda assim. Ela provavelmente não tinha dormido muito também. — Ness irá comigo, Tanya está cuidando de tudo, mas já falou com o médico responsável por uma clínica e ele irá me atender após o expediente normal, pela parte da noite, para que ninguém me veja lá. Eu vou ficar em Chicago até a véspera do dia de ação de graças, para ter certeza de que tudo ocorreu bem e volto para Los Angeles.
— Eu deveria ir com você — murmurei, ela negou com um aceno de cabeça. — Fizemos isso juntos, não é? Eu deveria estar lá ao seu lado.
— Sou perfeitamente capaz de cuidar disso só, posso não ter sido esperta o suficiente para checar datas de validade, mas vou fazer o que tenho que fazer e pronto.
— Bella…
Ela não me deixou falar, saindo correndo até o banheiro da sua sala. Aquilo me assustou e fui atrás dela, Bella estava ajoelhada no chão junto ao vaso sanitário, onde vomitava ao mesmo tempo que segurava seus cabelos no alto.
Não era nada legal ver outra pessoa vomitando, mas eu sabia que tinha de ajudar Bella.
— Me deixa te ajudar com isso.
— Não! — ela exclamou. — Sai daqui.
— Capitã, eu já te vi vomitar antes.
— Edward, saí — voltou a ordenar.
Eu resmunguei, mas aceitei e saí do banheiro. Fechei a porta e fui pegar meu celular, procurei no Google algo que pudesse amenizar aquele enjôo dela, afinal até Bella abortar ainda teriam dias com ela sentindo aquilo.
***
Bella saiu do banheiro quase meia hora depois de entrar ali, tinha prendido seus cabelos em um rabo de cavalo e estava sem batom. Não olhou para mim, apenas seguiu até o sofá da sua sala e se sentou ali.
— Aqui, Capitã. — Andei até ela com a garrafa de água com gás, com rodelas de limão dentro. — Vi no Google que isso ajuda com os enjôos.
— O quê? — indagou surpresa.
— Pesquisei no Google. — Dei de ombros. — Você ainda vai ter que aturar esses enjôos por mais alguns dias até que faça o aborto, precisa de um meio para tentar lidar com isso.
Ela suspirou e pegou a garrafa da minha mão, bebendo um gole da água.
— Também vi que muito tempo sem comer pode influenciar isso, então não fica mais de três horas sem comer, certo? — Me inclinei e beijei sua testa. — Você tomou café da manhã?
— Não — sussurrou.
— Foi o que imaginei. — Me afastei de volta até a mesa dela e peguei o pacote de bolachas de água e sal, eu tinha pedido para Irina conseguir tudo aquilo assim que fiz minha superficial pesquisa no Google. — Aqui. — Sentei junto de Bella e mostrei o pacote. — Tenta comer essas bolachas, também ajudam.
— Valeu. — Pegou uma e deu uma pequena mordida. — A água é realmente boa. — Tomou mais um pouco.
Sorri para ela.
— Eu cortei o limão — me gabei e apontei para a bagunça sobre a mesa dela que fiz.
Bella deu um pequeno sorriso e apoiou a cabeça no meu ombro.
— Me desculpa por ter ficado te culpando pelo lance da validade do remédio, não é sua culpa.
— Edward… — ela começou a falar mas se interrompeu.
— O quê? — Olhei para seu rosto, ela balançou a cabeça em negação.
— Nada, apenas preciso dar um jeito na minha cara antes do arquiteto chegar. — Ficou de pé e pegou sua bolsa. — Obrigada pela água e pela bolacha.
— Não por isso, Capitã.
***
No instante que a reunião acabou e o arquiteto foi embora, Bella colocou sua cabeça sobre a superfície da mesa, eu que estava sentado diante dela estendi uma mão e mexi em seus cabelos que estavam soltos novamente. Bella ficou naquela posição por um tempo, em silêncio, até que falou:
— Estou exausta, nunca me senti tão cansada e com tanto sono.
— Só mais um pouco, Capitã — murmurei ainda mexendo em seus cabelos. — Você dormiu noite passada?
— Não muito.
— Vai passar essa noite lá em casa?
Bella olhou para mim, seus olhos estavam marejados.
— Não, eu quero ficar na minha casa.
— Beleza, vou pra lá de noite.
— Quero ficar lá sozinha, Edward.
Senti a careta tomar conta do meu rosto ao ouvir aquilo.
— Por que você não quer ficar comigo? — questionei, magoado e irritado.
— Só preciso… Eu só quero descansar, Edward.
— Estou sugerindo que a gente passe a noite juntos, não fazer uma trilha no meio do mato.
— Edward, estou com muito na cabeça agora, por favor, tenta entender.
— Não consigo entender porque você está se afastando de mim! — exclamei.
— Não estou me afastando de você, eu só preciso mesmo de um tempo pra mim.
Franzi o cenho e balancei a cabeça.
— Nós deveríamos estar juntos nessa — afirmei. — Principalmente porque não vou poder ir com você para Chicago, mas se nós dois temos culpa do que aconteceu precisamos passar pelos próximos dias juntos, não separados.
— Eu quero ficar sozinha, Edward — Bella insistiu. — Você mesmo disse que poderíamos ficar noites afastados quando comecei a tomar meu remédio, sem isso significar que estamos deixando um ao outro.
Eu engoli em seco.
— Você ainda me ama?
— Claro que te amo, Edward. Por que diabos eu não te amaria mais? — questionou brava.
— Sei lá, talvez esteja furiosa demais comigo por te colocar nessa situação.
Ela bufou.
— Estou com mais raiva de mim do que de você, Edward. Eu ainda te amo, entendido? Sempre vou amar, não vá por esse caminho de achar que estou me afastando, não estou, só quero tirar um tempo pra mim, isso é tudo.
Eu aceitei, me levantei e fui até ela. Beijei seu rosto e falei:
— O aborto será logo logo, então tudo vai voltar ao normal, não é?
Bella começou a chorar, me confundindo.
— Capitã? — Ela estava de olhos fechados.
— Edward, preciso ficar sozinha. Por favor, vai embora.
Eu obedeci, lutei contra mim mesmo e a vontade de não arrastar o pé para longe de Bella, mas a deixei sozinha.
***
Naquela tarde fui para a ONG ensaiar a música que cantaria com as crianças, era minha primeira vez de fato ali e mamãe estava super animada me mostrando cada sala do prédio e me apresentando para todos. Os funcionários do local e as crianças, que iam de cinco aos doze anos, queriam tirar mil fotos e eu não poderia recusar.
Estava ali com Leah e Tanya, as duas também tiravam fotos e gravavam vídeos meus para as redes sociais. Quando mamãe acabou de me arrastar de um lado para o outro pela ONG finalmente fomos até o auditório onde iria acontecer o ensaio, pelo o que mamãe tinha me dito ela havia selecionado vinte crianças para cantarem comigo a canção do Timberlake.
— Estou tão, tão feliz com você aqui — mamãe falava enquanto entrávamos no auditório.
Eu sorri e afaguei suas costas, mas não conseguia deixar de pensar em como ela estaria puta comigo se soubesse o que estava escondendo. Ela nunca aceitaria a história do aborto, não mesmo, se ela soubesse que Bella estava grávida já estaria nos céus se imaginando como avó.
Esme me apresentou para todas as crianças do coral, um grupo barulhento e diversificado. Eles tinham idades mistas, entre meninos e meninas, todos parecendo muito diferentes em suas próprias personalidades como observei enquanto era apresentado, ou durante o próprio ensaio, que foi terrível, pois vinte crianças juntas era sinônimo de caos.
— Como você aguenta? — questionei Tanya quando o ensaio acabou, tinham sido duas longas horas e eu estava achando tudo uma grande merda.
— Aguento você?
Rolei meus olhos.
— Isso. — Gesticulei com a cabeça em direção as crianças, ela riu.
— Eu só tenho uma, Ed. Não é a mesma coisa que vinte crianças.
— É insano de qualquer forma. — Eu nunca daria conta, sabia disso, não tinha nascido para ser um pai.
Tanya suspirou, segurou em meu pulso e me puxou para um espaço do palco do auditório que estava mais vazio.
— Você não quer mesmo ter aquele bebê com a Bella? — perguntou em um tom de voz baixo.
— Claro que eu não quero ter! — praticamente gritei, realmente exaltado. — Nem ela quer ter, nós estamos certos disso.
Tanya suspirou.
— Ok, se é a escolha de vocês, tudo bem.
— Isso, tudo bem! — Passei a mão por meus cabelos, muito nervoso, agitado com a pergunta de Tanya.
— Eu vou gravar alguns vídeos com as crianças do coral, queremos elas falando sobre você. Pode ir dar uma volta por aí.
— Não posso ir embora? — Coloquei meu violão em minhas costas.
— Leah vai me ajudar a gravar e você só vai embora quando ela for.
— Que merda — reclamei e andei para sair do palco, mamãe estava ocupada com as crianças demoníacas e não parecia que ia se livrar daquilo logo.
Deixei o auditório, assim que estava fora mandei uma mensagem para Bella. E por sorte ela me respondeu.
Pirralho: Como você está?
Capitã: Vomitando de novo.
Pirralho: Você comeu?
Capitã: Eu estava comendo um hambúrguer e agora coloquei tudo pra fora.
Pirralho: Isso não parece bom, toma mais daquela água com limão.
Capitã: Eu vou tomar.
Capitã: Como foi seu ensaio?
Pirralho: Um saco, crianças demais!
Capitã: Imagino. Preciso ir atrás daquela água agora, tchau.
Pirralho: Tchau. Te amo.
Ela não me respondeu mais. Resmunguei e guardei o celular no bolso, entrando na primeira sala que vi com a porta aberta, queria um lugar para sentar e poder ficar enquanto esperava minha falsa namorada para podermos ir embora.
A sala estava abastecida com instrumentos musicais, mas o que realmente chamou minha atenção foi o garoto ali que estava tocando em um teclado e tocando muito bem. Reconheci a música com facilidade, era Dream Lover do Bobby Darin, a canção que meus pais dançaram em seu casamento e também podia me lembrar de quando Bella e eu a cantamos juntos no ano passado na gravadora, provavelmente aquele foi uma das primeiras vezes que pedi para ela cantar junto comigo em meu álbum.
— Você está fazendo isso bem — elogiei o garoto, ele deveria ter no máximo dez anos de idade, mas realmente tocava bem. Ele fazia com que eu lembrasse de mim mesmo quando criança, não fisicamente, mas o jeito todo concentrado que estava ao teclado, focado na música, a amando, mesmo sendo só um menino.
O garoto olhou para mim, seus olhos eram castanhos.
— Valeu — agradeceu e parou de tocar. — Você é Ed Cullen, não é?
— Sou sim.
— Eu sou o George — ele se apresentou e sorriu. — Minha mãe tirou esse nome de um livro, o livro se chama Emma da Jane Austen — contou animado.
Eu sorri, pensando no quanto Bella adorava aquele livro.
— Sabe, conheço alguém que gosta muito desse livro. — Tirei o violão das minhas costas e sentei num banco próximo ao teclado.
— Eu nunca li, o livro é muito grande — George se queixou, eu ri.
— Concordo com você. E essa música que estava tocando? Vai cantar ela no domingo?
— Não vou cantar, só tocar no teclado. Meu amigo Ethan vai cantar e nosso outro amigo o Rick vai tocar violão.
— Divertido. Quem escolheu essa canção para a apresentação de vocês?
— A tia Esme — respondeu animado. — Espera, ela é sua mãe, né?
— É sim — confirmei, parecia óbvio que tinha sido escolha da minha mãe, mas isso me deixava triste porque queria dizer que ela ainda pensava sobre o casamento com meu pai mais do que deveria. — Você aprendeu a tocar teclado aqui na ONG?
— Foi sim, estudo aqui desde o ano passado.
— Quantos anos você tem?
— Sete.
— Sério? Pensei que você fosse um pouco mais velho, é alto.
— Você também é alto.
Eu concordei com um aceno de cabeça.
— Sou mesmo. Mas eu estou bem longe de ter sete anos agora.
— Você tem quarenta anos?
— Ei, não tão longe assim — reclamei, George riu, eu me peguei sorrindo. Ele tinha cabelos pretos e cacheados, sua pele era negra e eu podia ver uma cicatriz na sua testa parcialmente escondida pelos cabelos. — Tenho vinte e três. O que foi isso? — Apontei para sua cicatriz.
— Ah. — Ele ficou com uma cara triste e tocou na testa. — Eu me machuquei em um acidente de carro.
— Já sofri acidentes de carro — contei e também pensei no acidente que matou Stefan. — Nada legal, como foi o seu?
— Não lembro direito, tava no carro com meu pai, morávamos em Charlotte na Carolina do Norte, conhece?
— Conheço sim.
— Sei que era de noite e o papai perdeu o controle do carro, ele morreu — George murmurou e apertou uma tecla no teclado.
— Quantos anos você tinha?
— Quatro.
Ele tocou mais um pouco no teclado, ainda triste com a história do seu acidente. Eu não sabia o que falar, especialmente por naquele momento estar pensando muito em Stefan, então fiquei quieto.
— Você vai cantar no domingo? — George me perguntou.
— Vou sim.
— Tia Esme sempre fala de você.
— Sério?
— Sim, ela diz que você é um excelente cantor e um pianista incrível desde sempre.
Sorri ao ouvir aquilo.
— Você pode me ajudar com a música? — George perguntou, voltando a sorrir.
— Não sei…
— Por favor — insistiu. — Não quero passar vergonha, minha mãe disse que vai gravar tudo para mandar o vídeo para nossa família em Charlotte, já que eles não vão poder vir me ver.
— Você está muito nervoso com o palco?
— Muito!
Eu sorri, mas um sorriso triste, sabia como era a sensação, muito bem.
— Ok, George, vou te ajudar a ensaiar. Toca a música de novo, vamos corrigir os erros a partir disso.
— Valeu, Ed! — agradeceu empolgado e recomeçou a tocar.
***
Só me dei conta de que tinha passado um longo tempo ajudando George a ensaiar quando minha mãe apareceu na sala, eu estava cantando a canção enquanto o garoto tocava quando olhei para a porta e vi Esme. Mamãe sorriu largamente para mim e acenou, parei de cantar e devolvi o sorriso.
— Estava procurando por você, Ed — ela disse. — Oi, George.
— Oi, tia Esme. Eu conheci o Ed. — Apontou para mim.
— Estou vendo. — Minha mãe sorriu carinhosamente para ele. — Você vai ficar até o último horário hoje?
— Sim — ele respondeu. — Minha mãe vai trabalhar até mais tarde no restaurante.
— Certo. — Mamãe assentiu. — Ed, filho, Leah e Tanya estão procurando por você também, já estão prontas para irem embora.
Eu suspirei, Leah dormiria na minha casa aquela noite. Enquanto Bella não, isso era horrível. Pior ainda por eu saber que ir para casa, sem ter o que fazer lá, me faria ficar pensando mais sobre aquela gravidez e eu não queria isso.
— Eu posso ficar até George ir embora? Acho que ainda posso ajudá-lo a ensaiar mais um pouco — falei para minha mãe.
— Tudo bem, falarei para Tanya e Leah que você vai ficar, nós dois podemos ir juntos para casa depois, ainda tenho que fazer algumas coisas por aqui.
— Certo, obrigado, mãe.
— De nada, filho. Bom ensaio, George.
— Valeu, tia Esme!
— Certo, George, do começo! — exclamei, olhei uma última vez para mamãe antes de ela sair da sala e vi seu sorriso imenso.
Eu sabia porque ela estava tão feliz e sabia que minha mãe realmente ficaria nos céus se soubesse que Bella estava grávida. Mas, ela não saberia, ninguém poderia saber disso.
Não teríamos aquele bebê, não poderíamos. Nem queríamos… Eu realmente não queria, certo?
Olhei para George e me imaginei por um segundo sendo pai, mas afastei esses pensamentos da cabeça rapidamente. Bella abortaria, a decisão já estava tomada.
***
Depois que a mãe de George foi buscá-lo e o garoto fez questão de me apresentar a ela, eu encontrei minha própria mãe e deixamos a ONG. Nós fomos para casa em seu carro, com meus seguranças nos seguindo no carro de trás.
Esme dirigia, enquanto eu mexia no celular. Tanya, provavelmente, tinha usado minha conta do Instagram e atualizado com a foto de uma das garotas que estava no coral que cantaria comigo, a menina estava sentada usando fones de ouvido e segurando um violão infantil, a legenda dizia:
"É fascinante ver essas crianças tão novas, mas tão apaixonadas pela música. Essa é a Maggie, ela tem seis anos e já sabe tocar violão muito bem!"
O resto da legenda era sobre informações do concerto de domingo, então apenas sai do Instagram e mandei uma mensagem para Isabella.
Pirralho: Você melhorou?
Ela não me respondeu.
Pirralho: Capitã?
Nada. Suspirei, frustrado pela falta de comunicação entre nós dois.
— O que foi, filho? — mamãe perguntou.
— O quê? Nada, tudo bem — menti, olhando pela janela enquanto apreciava a vista noturna de Los Angeles.
— Bella está bem? — questionou preocupada.
— Tá sim. — Era mais uma mentira, eu sabia que Bella não estava bem, ela estava tendo de enfrentar todos os sintomas de uma gravidez que não queria e visivelmente com raiva de mim por ter a levado a isso.
— Ela vai jantar com a gente hoje?
— Não, vai tá ocupada — murmurei e para tentar distrair minha mãe mexi no som do carro e coloquei algo para tocar. — Eu mesmo, ótimo — fingi comemorar quando a primeira estação do rádio estava tocando Hollywood.
Mamãe riu e afagou meu braço.
— Foi tão lindo ver você com as crianças hoje — ela falou. — Com George então, já que você claramente não estava ali por obrigação.
Não falei nada, deixei ela em seu monólogo.
— Eu vou ser a pessoa mais feliz do mundo quando te ver com seu próprio filho, Ed.
Engoli em seco. Ela parou em um sinal vermelho, senti seus olhos em mim.
— Você e Bella farão filhos lindos — disse rindo.
Encarei o vermelho no semáforo, esperando que ficasse verde de uma vez.
— Isabella e eu não queremos ter filhos, mãe.
Esme suspirou.
— Vocês ainda estão no começo do relacionamento, podem mudar de ideia e sei que vão.
— Como você sabe? — perguntei ainda encarando o sinal vermelho.
— Não sei — confessou. — Talvez só esteja sendo uma mãe e uma sogra lunática demais esperando ansiosamente que você tenha filhos com a garota que ama.
O sinal ficou verde, ela voltou a dirigir.
— Rosalie vai te dar netos — sussurrei.
Eu seria um tio no futuro, tinha certeza de que minha irmã teria o máximo de filhos que conseguisse, mas não seria pai.
— Você realmente não quer ter filhos? — minha mãe indagou séria.
Não respondi, apoiei a cabeça na janela e fechei os olhos.
— Edward, você quer ter filhos? — ela insistiu.
Eu deveria dizer que não, era isso que sempre respondia quando podia ser sincero, quando não estava em uma conversa com fãs ou entrevistas. Porém, naquele momento, realmente me deixei abater pela dúvida, muito mais do que já tinha sentido quando estava ensaiando com George.
E se Isabella e eu tivéssemos aquele filho? Seria um menino ou uma menina? Ele ou ela gostaria de música como nós, Bella e eu, gostávamos? Eu saberia trocar fraldas e todas essas coisas? O bebê gostaria de mim?
***
Eu corria, focado demais, apenas corria. Meus fones de ouvido estavam conectados em meu celular e eu ouvia uma banda de rock, no volume máximo, mas não prestava atenção na letra da música.
Tentava manter minha cabeça apenas nas ações necessárias para aquele exercício, eu tinha dispensando meu personal e a manhã na academia para correr pelo condomínio que morava. Só precisava correr, nada mais além disso.
Ok, era isso que estava tentando me convencer, mas sabia que não estava bem quando minha corrida me levou justamente para a frente da mansão de Isabella. Eu não sabia se ela estava ali, noite passada quando cheguei a minha casa liguei para ela e não fui atendido, mas Renesmee me mandou mensagens dizendo que Bella estava bem, apenas dormindo. E mais cedo naquela manhã minha namorada não me respondeu, sequer retornou minhas ligações.
Minha corrida, interrompida quando avistei a casa dela, tinha me deixado sem fôlego. Apoiei as mãos no joelho e respirei fundo, o olhar fixo na mansão da Capitã.
A música de rock doía em meus ouvidos, prestei atenção na letra e detestei. Ainda tinham pessoas por aí com coragem de dizer que pop era o pior ritmo entre todos, quando a verdade era que tinha merda em todos os gêneros.
Respirei fundo mais uma vez, torci para a playlist mudar sozinha, não aconteceu. Torci para Bella aparecer no portão da mansão, também não aconteceu.
— Bosta! — xinguei e alinhei minha postura, peguei o celular do suporte em meu braço e coloquei em uma playlist de pop.
Muito melhor. No entanto, eu ainda não estava feliz. E antes que voltasse a fantasiar como seria ter aquele filho com Isabella, o que tinha feito por boa parte da noite passada, eu decidi voltar a correr.
***
Depois da longa corrida, sentindo todo meu corpo doer pelo exercício físico excessivo, voltei para casa. Tomaria um bom banho, comeria algo e talvez por fim conseguisse falar com Isabella.
Eu fui direto para a cozinha quando cheguei ali, minha fome era grande demais para esperar. Minha mãe e irmã estavam naquele cômodo, de costas para mim não me viram entrando na cozinha, o que lhes permitiu continuar sua conversa.
— O que está acontecendo com seu irmão e Isabella? — mamãe perguntou para Rose.
— Não sei, mas acabei de ver na internet fotos da Bella saindo de uma loja com o ex dela, o James — Rosalie sussurrou.
Ainda assim, fui capaz de ouvi-la. Aquilo me deixou com dor no estômago e a sensação de nó na garganta, o que Bella estava fazendo com James?
— E aparentemente foram para uma cafeteria depois.
— As fotos são mesmo recentes? — indaguei, sentindo todo meu corpo tensionar.
Rosalie e Esme olharam para mim, as duas visivelmente preocupadas por terem sido flagradas.
— Si-Sim — Rose gaguejou. — Mas Edward, isso não quer dizer nada…
— Mãe, posso passar o dia na ONG hoje? — perguntei interrompendo a minha irmã, teria de ir para lá de tarde para ensaiar de qualquer forma, se fosse mais cedo poderia focar em outra coisa que não fosse a sensação dentro de mim que me dizia que eu estava perdendo Isabella.
— Sim, você pode — ela respondeu. — Edward, quanto a Bella…
— Eu vou me arrumar para sairmos — falei a interrompendo também, deixei a cozinha e no corredor encontrei com Leah, quase tinha me esquecido que ela dormiu ali noite passada.
— Bom dia, Ed. — Sorriu.
— Estou indo pra ONG, você não vem comigo — eu disse e não parei para ouvir qualquer coisa que ela tinha a dizer, sobre qual fosse nosso cronograma pré planejado para o dia.
O meu celular tocou quando cheguei a escada, Isabella finalmente estava me ligando, mas desliguei o aparelho. Não queria falar com ela, não queria ouvir qualquer coisa, especialmente se isso fosse Isabella me dispensando.
***
A melodia ainda estava incerta na minha cabeça, mas eu gostava do que já tinha definido. Naquela noite de sexta-feira eu estava na sala de música da minha casa, onde me refugiei depois de voltar da ONG.
Meu celular continuava desligado, eu continuava a evitar o assunto Bella com minha mãe e Rosalie. Eu não queria ver as fotos dela com James, nem ouvir qualquer outra coisa sobre aquilo.
— Eu sinto você partindo, linda — cantei o trecho da letra que esteve em minhas mente durante o dia inteiro junto com os pedaços de melodia que tocava no piano. — Eu sei que estou te perdendo mais a cada segundo. Mas não sei o que fazer para te manter junto de mim. E dói tanto que não consigo respirar, amor.
Senti uma lágrima em meu rosto, mas não a limpei.
— Onde nos perdemos? Em um piscar de olhos e três palavras tudo mudou. E eu não sei o que fazer. Eu me sinto tão confuso agora, linda.
Mais uma lágrima deslizou por minha face, usei meu braço para limpar, mas logo continuei a tocar e cantar.
— Eu prometi encontrar o caminho de volta para você. Eu sei que prometi. Mas a cada passo que dou você parece mais distante. Estou implorando, pare e me espere no meio do caminho, por favor.
Inspirei fundo, sentindo mais uma vez aquele dia o nó na garganta.
— Não quero te perder. Não quero ver você se afastar mais. Então, por favor, pare. Me deixe chegar até você, linda.
Parei de tocar, sem ter mais uma melodia e só tinha mais um verso da canção em mente.
— Por favor, espere por mim, meu amor.
Suspirei e peguei o caderno que estava fazendo as anotações para a música sobre o piano — eu também tinha ali um gravador para me ajudar a lembrar de tudo depois —, mas não consegui pensar em mais nada para ela. Frustrado, eu voltei a tocar, primeiro aquela canção sobre Bella, ainda incompleta, mas quando me dei conta estava com uma melodia muito diferente e outros versos brincavam em minha mente.
— Desculpe. Eu não posso. Imaginar você. Isso está me matando. Mas não posso te ter. Eu não sei se realmente quero. Nunca quis antes, por que agora parece diferente? Por quê? — Mordi a ponta da minha língua por um instante. — Eu não sinto você. Eu não te vejo. Eu só posso te imaginar agora. E só terei isso para sempre, porque não posso ter você. Eu nunca quis. Isso sempre pareceu o certo. Mas por que eu estou pensando em você? Por que eu quero chorar ao te imaginar?
Parei de tocar, mas a letra continuava fluindo em minha mente.
— Eu penso em você. Consigo te imaginar atrás de uma lente embaçada. Correndo e correndo. Gritando e gritando. — Toquei em uma tecla do piano. — E você tem os olhos dela. O mesmo sorriso. E quando me vê corre e grita em minha direção. Mas eu nunca te pego. Porque sei que não te mereço. Porque passei uma vida rejeitando essa ideia. Eu não deveria pensar em você e sentir meu coração bater mais forte. Eu te rejeitei, desde o começo, por que agora mudou?
Meu rosto já estava cheio de lágrimas que não conseguia conter.
— E você corre e grita em minha direção. Mas eu nunca te pego. Só posso ver seu sorriso e seus olhos. Eu amo eles. O que mudou? Por quê? É por causa dela? Eu amo tanto ela que agora quero as coisas que nunca quis antes? Mas se você corresse e gritasse na direção dela. Ela também não te pegaria. E você será só parte de um passado distante em breve. Só que não consigo tirar você da minha cabeça.
Passei uma mão pelo rosto, mas as palavras em minha mente não paravam de vir.
— E se você tivesse meus olhos e meu sorriso? Não sei. Acho que eu só consigo te imaginar com os olhos dela. Chocolates, doces. Eu a amo. Não posso pedir que ela fique com você. Não posso forçar ela a isso. Desculpe.
Voltei a tocar, aquela melodia que só me deixava mais triste.
— Eu vou te manter em minha imaginação. Para sempre. Correndo e gritando. Olhos chocolates. Não sei porque mudou. Não sei porque não consigo parar de pensar em você. Mas ela e eu não podemos fazer isso. Eu amo ela mais, eu a amo tanto.
Parei de tocar e cantar de vez, desliguei o gravador e o guardei em um lugar seguro junto com o caderno. Depois de horas liguei meu celular, vendo as mensagens de Bella e no Twitter as fotos dela com James.
***
A festa de Renesmee começaria pontualmente às quatro da tarde, isso porque todos deveriam estar no no iate para que ele pudesse deixar a Marina na hora marcada e sem deixar ninguém para trás. Eu estava indo para a festa com minha irmã, Emmett — que teoricamente deveria estar trabalhando, mas lhe dei aquele dia de folga — e Leah.
Renesmee tinha convidado minha mãe, mas essa estava ocupada demais com todos os preparativos sobre o evento da ONG. E eu adorava Ness, mas naquele dia queria mesmo estar na ONG com Esme.
No dia anterior eu tinha ajudado praticamente todos os grupos a ensaiarem para o concerto de domingo, como ensaiei novamente com o coral. Eu também fiz questão de ajudar mais uma vez George, ele com certeza era o melhor músico entre todas aquelas crianças, teria futuro na música se quisesse.
Naquela manhã de sábado passei na ONG para mais um ensaio com o coral, ficando mais animado sobre a apresentação do dia seguinte, pois o grupo cantando comigo estava mesmo se esforçando. E bom, eu estava gastando toda minha energia naquilo, querendo não pensar em Isabella, ou naquela gravidez, a cada segundo.
Nós dois ainda não tínhamos nos falado, eu li suas mensagens, vi as fotos dela com James, mas não tive coragem de falar com Isabella. Eu não conseguia, não quando estava temendo implorar que ela ficasse com aquele bebê.
Não podia fazer isso com ela, força-lá a ter um filho que não queria. Além do mais, por que eu estava querendo aquele filho mesmo? Não era com se de um dia para o outro eu tivesse passado a amar crianças incondicionalmente, mas a ideia de ter um bebê com Bella era diferente, fazia meu coração disparar e meus olhos se encherem de lágrimas. E quanto mais pensava nisso, mais eu queria.
Porém, como eu, justo eu, seria um pai? Não saberia lidar com isso, seria um verdadeiro caos na minha vida de mil formas diferentes. Pensar em assumir um filho com Isabella do nada, quando nem assumidos estávamos, ou lidar com todos os fãs e a mídia querendo saber mais e mais sobre aquele bebê, que se tornaria uma criança e depois um adolescente que certamente me odiaria.
Eu ficava em pânico só de imaginar a repetição de padrão que ter um filho poderiam ser na minha vida, mais uma relação familiar fodida como a que tinha com meu pai. Um pai que detestava tudo sobre mim, um pai que sequer procurou ter notícias minhas quando um filho da puta tentou explodir o estádio que eu estava cantando.
Não poderia ter um filho, não poderia correr o risco de me tornar um Carlisle na vida dele. Mas então, eu pensava nos momentos bons que tive com meu pai, eles estavam soterrados debaixo de uma grossa camada de lembranças ruins, entretanto sabia que tinham existido e isso me fazia pensar em ter momentos parecidos com aquele bebê.
— Rose? — chamei minha irmã, ela estava do outro lado de Leah sentada entre nós dois no banco de trás do carro, Emmett estava na frente com o motorista que nos levava para a marina.
— Sim? — Rose olhou para mim.
— Você se lembra quando o papai levou a gente para jogar boliche no nosso aniversário de nove anos? Foi muito legal, não foi?
Rose franziu o cenho e disse:
— Foi o mesmo aniversário que ele saiu correndo para o hospital mesmo que estivesse de folga?
— Não, ele ficou com a gente a noite toda.
— Não mesmo, Edward. Ele saiu para o hospital e nos deixou no boliche com a mamãe, realmente não se lembra disso? Você ficou tão irritado por papai sair que implorou para a mamãe nos levar de volta para casa mais cedo.
— Não, não lembro — murmurei.
— Enfim, foi isso que aconteceu — ela falou chateada, voltando sua atenção para seu celular.
Eu suspirei e olhei pela janela, até as memórias boas com meu pai estavam afetadas. Apertei uma mão na outra, nervoso, pensando em fazer aquilo ou coisa pior com o bebê da minha imaginação.
Deixá-lo em seu próprio aniversário, não apoiar seus sonhos, magoar a mãe dele e fazê-lo se sentir culpado por isso. Ou um dia não suportar todos meus problemas de merda, ser fraco demais e deixar uma marca permanente na vida daquele filho porque tirei minha própria vida.
Eu toquei no cordão em meu pescoço, pensando em Bella, pensando no bebê de olhos castanhos como os dela que nunca teríamos. No entanto, isso era o melhor para todos, eu sabia.
Mas, por que eu ainda não conseguia parar de pensar em ter aquele bebê em meus braços?
***
O iate onde aconteceria a festa de Ness era imenso e fodidamente luxuoso, eu sabia que o Caipira Swan tinha seu próprio iate, mas Renesmee obviamente queria algo mais grandioso. Como chegamos junto de outros convidados a movimentação intensa me proibiu de localizar Bella de primeira, mas depois a vi junto de Tanya, minha namorada estava usando um vestido vermelho com listras brancas, solto, que parava no meio de suas pernas, ela estava com sandálias baixas nos pés e os cabelos completamente lisos.
Ela estava visivelmente preocupada, eu sorri para ela, querendo a reconfortar. Ainda estava irritado com algumas coisas, mas não queria perder Isabella de forma alguma, ela precisava saber que eu estava disposto a manter tudo bem entre nós dois.
Eu me obriguei a esperar ser minha vez e de Leah para falar com Renesmee antes de ir até Bella, mas quando finalmente aconteceu segui até a empresária e soltei da mão da minha falsa namorada. Cumprimentei Tanya, rapidamente, enquanto Leah falava com Bella.
— Cullen, vem comigo, precisamos falar sobre a boate — ela falou, eu não contestei, sabia que não era mesmo sobre a boate que iríamos conversar.
Nós descemos para o interior do iate, tinham algumas pessoas por ali, especialmente da tripulação da embarcação. Isabella abriu a porta do que parecia uma biblioteca e entramos ali, ela se assegurou de fechar a porta e eu olhei ao redor.
— Por que alguém teria uma biblioteca num iate?
Ela soltou uma risada fraca.
— Algumas pessoas gostam de ler.
Eu fiquei com vontade de falar sobre George, o garoto com um nome inspirado em um personagem da Jane Austen, porém não achei que deveria mencionar aquilo com Bella.
— Para que ler se eu posso ver o filme? — provoquei, me aproximando de Bella e beijando sua testa, eu a ouvi choramingar. — Está tudo bem, linda.
— Não está, tudo que falam sobre mim na internet agora é que estou novamente com James só porque aceitei comer algo com ele. E você passou o dia me evitando, sabe-se lá o que não pensou.
— Ei. — Ergui seu rosto, fazendo com que ela olhasse para mim. — Não posso mentir e dizer que não fiquei com ciúmes disso, eu fiquei. Mas sei que você não está se envolvendo dessa forma com James novamente, confio na sua palavra.
Ela fungou e colocou as mãos sobre meu peito.
— Desculpe, nos encontramos por acaso na loja, acabamos conversando eu soltei que estava com muita fome e ele me chamou pra comer algo na cafeteria perto. Não fizemos nada além de comer e conversar, juro.
Eu já tinha lido aquelas palavras em suas mensagens.
— Linda, já falei que confio em você, não precisa me pedir desculpas por nada.
— Eu não deveria ter saído com James — murmurou com culpa, tirando as mãos de mim.
— Isabella, eu acho James chato pra caralho, fiquei com ciúmes de saber que vocês estavam juntos, mas não posso ser o cara que vai delimitar suas ações. Você pode sair com quem quiser. — Beijei sua bochecha, queria beijar seus lábios, mas não queria acabar com a marca do seu batom em mim.
— Desculpa estar distante.
Eu respirei fundo e afaguei seus braços, ela estava de olhos fechados.
— Tudo bem, sei que você deve estar extremamente incomodada com toda essa história de gravidez. — Olhei para sua barriga, ainda lisa o suficiente para não marcar nada em seu vestido. Mas o bebê estava ali, eu sabia bem disso. — Logo isso vai acabar — falei, para mim mesmo, querendo me convencer que em poucos dias não teria mais bebê algum e eu poderia parar de surtar.
Bella assentiu, ainda de olhos fechados.
— Você ainda está enjoando muito?
— Sim — sussurrou e abriu os olhos. — Nem sei como vou aguentar quando o iate zarpar.
— Você vai ter que tomar muita água com limão, amor — falei e sorri para ela, afagando seus braços antes de os soltar. — Se tiver que vomitar é só usar o mar de vaso sanitário. — Brinquei, mas Bella não riu, nem mesmo sorriu, ela ainda estava triste. — Vai ficar tudo bem, linda.
Ela engoliu em seco e me abraçou.
— Posso dormir na sua casa hoje? — perguntou.
— Claro que pode.
Acariciei suas costas e beijei sua cabeça, Bella tinha um cheiro muito bom. A mantive em meus braços o máximo que pude, torcendo para que tivéssemos de fato nos encontrado no meio do caminho como eu pedia que acontecesse em minha música.
***
O noivo de Alice era irritante, em determinado momento da festa — quando o pôr do sol já tinha acontecido —, junto a rodinha que eu estava, Randall começou a monopolizar a conversa falando sobre sua vida, como se alguém realmente se importasse com isso. Eu, que estava sentado junto de Leah e Jasper via meu amigo revirar os olhos a cada frase de Randall.
— Podemos dar um jeito de jogar esse pedaço de merda no mar — falei baixo para que apenas Jasper me escutasse, o guitarrista riu por um segundo e bebeu mais da sua cerveja. — Se você topar só falar.
— Vou pensar sobre — Jasper falou. — Cadê a Bella? — perguntou em um sussurro.
Olhei ao redor, mas não a vi perto de nenhum dos outros grupos.
— Acho que lá embaixo, vou ver se ela tá bem — murmurei e me levantei. — Querida, pode segurar para mim? — Passei meu copo de refrigerante para Leah, ela o pegou e sorriu para mim.
Eu desci e encontrei Bella na biblioteca, ela estava sentada no chão, jogando xadrez com Tina. Parei na porta e as observei, ambas pareciam muito comprometidas com o jogo.
— Posso colocar isso aqui? — Tina perguntou para Bella, movendo uma peça.
— Pode sim, mas se você fizer isso pode perder esse peão para meu cavalo — Isabella alertou, Tina suspirou.
— Esse jogo é difícil!
— Você só precisa praticar mais.
— Ou arranjar um jeito de roubar e ganhar assim — me manifestei, Bella e Valentina olharam para mim.
— Você sabe roubar no xadrez? — Bella me questionou curiosa.
— Não, mas com certeza há várias formas de fazer isso.
— Mamãe diz que é feio roubar — Valentina se pronunciou.
Isabella rolou seus olhos.
— Sua mãe sempre que joga pôquer rouba — Bella falou, eu ri vendo a expressão de choque de Valentina.
— A mamãe rouba?
— Bastante.
— Isso é errado!
— O que é errado? — Ouvi a voz de Tanya atrás de mim e me assustei.
— Porra — guinchei, ela riu.
— Que foi, Cullen? Tá com medo?
— De você? Não!
— Sei bem. O que é errado, Tina?
— Roubar, mamãe. A tia Bella disse que você sempre rouba no pôquer, é verdade?
— Claro que não! — Tanya exclamou. — Isabella está mentindo, Tina e lembre-se que mentir também é feio.
— Você está mentindo agora, porque sempre rouba sim — minha namorada insistiu.
— Pare de mentir, Isabella. Tina, venha comigo comer algo.
— Ok, mamãe — ela concordou, se colocou de pé e saltitou até a porta. — Ed, você tá muito bonito.
Eu ri.
— Valeu. — Belisquei sua bochecha e ela só sorriu mais para mim antes de ir com a Tirana.
Eu fui até Bella e a ajudei a guardar as peças do xadrez.
— Como você acabou aqui jogando com a Valentina? — perguntei.
— Estava muito barulhento lá em cima, fiquei com dor de cabeça e desci, ela resolveu me seguir e encontrou o xadrez. — Bella fechou a caixa. — Acabei sendo obrigada a ensinar ela a jogar. Me ajuda a levantar?
— Claro. — Estendi uma mão para ela e a ergui do chão.
— Obrigada, pirralho. Tô tão cansada e com fome.
— Quer que eu traga algo para você comer aqui embaixo?
— Não, eu vou subir. — Guardou a caixa do xadrez. — É aniversário da minha irmã, não quero tá escondida aqui embaixo durante toda a festa.
— Certo, vamos subir e alimentar você… — Eu me interrompi antes de falar 'vocês dois' e me referir ao bebê também.
— O que foi? — Bella questionou.
— Nada, tô tentando lembrar se alguma vez ganhei no xadrez — menti, Bella sorriu.
— Provavelmente não, você não é muito esperto.
— Há, engraçadinha, suba!
Eu segui até a mesa que Tanya estava com Santiago enquanto os dois alimentavam Valentina, Bella parou junto da mesa de comidas para se servir. Me aproveitei do fato de Leah estar dançando com Kate, assim eu não precisava ficar colado com a falsa namorada que ainda teria que aturar por mais alguns meses.
— Você vai cantar que música amanhã? — Santiago me perguntou se referindo ao concerto da ONG.
— Can't Stop The Feeling.
— É a música de Trolls — Valentina disse animada. — Eu adoro esse filme é um dos meus favoritos, Ed.
Logo em seguida ela começou a cantarolar a música e eu sorri.
— Ei, onde estavam as batatas? — Bella perguntou ao surgir e sentar perto de Santiago, mantendo distância de mim, o que eu odiava, queria poder sentar junto da minha namorada sem temer especulações.
— Na…
Ela não esperou Santiago responder, roubando uma batata do prato de Valentina.
— Tia Bella, isso é feio!
— Eu estou faminta, essa vai ser minha primeira refeição decente do dia, chamo isso de sobrevivência, criança.
— Aliás, você está doente? — Santiago perguntou para ela. — Ouvi Tanya te perguntar mais cedo no celular se você estava vomitando.
O silêncio recaiu sobre a mesa, Bella parou de mastigar a batata já em sua boca. Santiago olhou para ela, para Tanya e por fim para mim, foi quando ele assentiu e disse:
— Ok, entendi.
— Entendeu o que, pai? A tia Bella tá doente?
— Está, ela comeu muitos doces de manhã e estava vomitando por isso — Tanya disse e afagou a cabeça da garota. — Agora coma, filha.
— Você precisa de ajuda em algo? — Santiago perguntou para Bella.
— Não, eu vou ao médico lidar com o meu excesso de doces no dia catorze — Bella murmurou em resposta e encarou seu prato.
— Certo. — Ele olhou novamente para mim. — Eu vou estar gravando amanhã, Ed. Então me fale mais sobre o evento da ONG — pediu.
Eu comecei a falar, Bella voltou a comer, mas estava calada durante todo o tempo.
***
Valentina acabou de comer primeiro e foi até Renesmee que chamou por ela para tirar fotos, Bella ainda estava comendo e pediu por mais batatas. Antes que eu pudesse levantar para pegar Tanya fez isso, voltando com mais batatas e um copo de água.
— Você precisa se manter hidratada.
Bella aceitou a fala da amiga, bebendo toda a água e comendo todas suas novas batatas. Santiago tinha começado a falar sobre sua série, quando acabei de contar a respeito do evento da ONG, e ele continuava falando sobre quando começou a tocar uma música de Kate — que eu reconhecia do começo da sua carreira — e Valentina voltou pedindo para Bella dançar com ela.
— Tia Bella, vamos dançar?
— Não, eu…
— Por favor, por favor, por favor!
— Ok, ok, ok — Bella cedeu e se levantou, seguindo até a pista de dança com Valentina.
— Ok, eu preciso parar Riley e Lucy antes deles foderem aqui mesmo — Tanya falou e se colocou de pé, indo até o casal que estava realmente em um nível bem elevado de pegação. Mas eu não olhei para eles muito tempo, voltando meu olhar para Bella que fazia Tina girar.
— Como você está? — Santiago me perguntou, eu rapidamente o olhei. — Com a história do… Você sabe.
Eu dei de ombros.
— Tô bem. — Mais uma mentira. Santiago não disse mais nada e eu retornei a olhar Valentina e Bella dançando, minha namorada disse algo e a garota riu, o que fez a empresária também rir.
Em movimentos rápidos eu passei para a cadeira que Bella estava antes e indaguei Santiago.
— Isso é legal?
— Isso o que?
— Ser pai — murmurei.
— Você não está certo sobre interromper o excesso de doces?
— Apenas responda minha pergunta.
— Sim, é legal. Eu amo minha filha. Mas não é legal todos os dias e todas as horas. Tem dias que eu não quero ver Trolls pela vigésima vez na semana, nem lidar com dramas sobre brinquedos e a escola, só que isso tudo acaba sendo pequeno perto do amor que sinto por ela. Então, sim, na maior parte do tempo é legal. Na verdade, eu usaria o termo incrível.
— Você sempre quis ser pai? — questionei
— Sim, sempre me vi com uma esposa e filhos.
— Vocês ainda vão ter mais?
— Isso é um assunto delicado, vamos parar na Tina, mas está perfeito para Tanya e eu.
— E quando você soube sobre ela não ficou louco?
— Até eu ter ela em meus braços tudo ainda parecia muito abstrato, cara. Sabia que seria pai, via Tanya grávida e eu já amava o bebê, mas tudo veio à tona no nascimento e a amei mil vezes mais naquele instante. Hoje amo mais ainda do que naquele dia. Eu não sei se é assim para todos os homens, com o lance da ficha cair pra valer no parto, mas foi como rolou comigo. Tanya também diz que tudo que sentia por Valentina aumentou com o nascimento, sei que hoje nós dois amamos nossa filha em intensidades maiores do que do primeiro dia de vida dela. É um vínculo que é construído a cada dia, não acho que dependa apenas de biologia para amar um filho, precisa construir uma relação, como quando se está com alguém e com o tempo o sentimento tende a crescer.
Eu encarei a mesa, pensando sobre tudo que ele falou.
— Não é fácil, Edward. Ser pai é a coisa mais difícil do mundo, é uma loucura, mas é uma loucura que no final do dia quando coloco minha filha para dormir eu amo. É a loucura que sinto falta quando estou viajando e não a vejo. Ela é a pessoa mais importante da minha vida, eu a amo mais do que posso colocar em palavras.
Esfreguei meus olhos com uma mão, segurando a vontade de cair em lágrimas ali mesmo.
— Você quer ter o bebê?
— Não sei, até um dia desses eu nunca quis ter filhos — respondi sua pergunta. — Talvez agora eu queira, mas isso não importa, não sou eu que estou carregando ele. Isabella está, ela não quer, não posso forçá-la a isso.
— Sinto muito, Edward.
— Está tudo bem. — Fiquei de pé. — Eu posso lidar com isso. Pensando pelo lado positivo, eu nunca terei de assistir Trolls vinte vezes na semana.
Eu me afastei da mesa, em minha mente pensando que talvez o bebê não fosse gostar de Trolls, mas amasse Shrek tanto quanto eu.
***
Não conseguia dormir, estava morrendo de dor de cabeça e exausto, mas meu corpo não relaxava. Bella já estava dormindo há horas, desde que chegou a minha casa e em questão de minutos se arrumou e foi pra cama.
Eu sabia que ela estava cansada com todas as mudanças que seu corpo estava passando por conta da gestação, a mesma gestação que tirou todo meu sono. Não conseguia tirar meus olhos de Bella, grato por ela estar na cama comigo, mas ao mesmo tempo me sentindo triste porque em poucos dias o aborto aconteceria.
— Amo você, linda — sussurrei, afastando uma mecha de cabelos o seu rosto.
Amava mesmo, pra caralho, mais a cada dia. E isso me fazia sentir culpa por estar triste em não querer que ela fizesse mais o aborto, entretanto, manteria minha boca fechada e não a colocaria naquela situação.
Teria de lidar com meus sentimentos, sufocar eles e esperar que um dia desaparecessem.
Bella se mexeu na cama, mas ainda bem apagada, colocando-se de barriga pra cima. Estava usando um moletom meu aquela noite, então não via nenhum vislumbre da sua barriga, ainda assim me peguei colocando uma mão sobre seu ventre.
Eu sorri, pensando em fazer aquilo todas as noites pelos próximos meses, sentindo a barriga dela e consecutivamente o bebê crescendo. Poderia tirar fotos dela a cada semana para registrar o crescimento, encheria aquela casa com brinquedos e compraria o melhor e mais caro berço para o bebê.
Se fosse um menino chamaria de David, como o Bowie. Eu começaria a ensiná-lo a tocar piano antes mesmo do garoto andar, faria mil músicas sobre ele, iria até mesmo ler livros sobre bebês para entender tudo melhor.
— Ei — murmurei, ainda olhando para a barriga de Bella. — Você deve ser minúsculo agora, não?
Uma lágrima rolou por meu rosto, chequei Bella e ela continuava dormindo. Rapidamente tirei minha mão dela, então sai da cama e fui chorar no banheiro.
***
O teatro estava uma loucura, mas eu estava achando um máximo estar na correria pré show novamente. Fazia pouco tempo desde o fim da minha turnê, mas a energia dos palcos certamente era algo que amava.
Eu saí de casa cedo com minha mãe para o teatro, deixei Bella dormindo e um bilhete pedindo que ela não deixasse de tomar café da manhã. O concerto se iniciaria às cinco da tarde, mas muito tinha de ser feito até lá e era melhor estar naquela confusão do que em casa lidando com meus sentimentos.
Deveria pegar o celular e ligar para Vladmir, mas ele estava de férias e só voltaria depois do dia de Ação de Graças, não queria o incomodar quando sabia o que deveria fazer. Apoiar Bella e só.
— Há mais de vinte anos que não trabalho com teatro — ouvi Aro Volturi falar, enquanto andava pelo palco. O concerto ainda não tinha sido iniciado, nem as pessoas tinham entrado no teatro, mas minha mãe convidou Jane para apresentar um dos grupos aquele dia e minha amiga já estava ali para se preparar. Aro Volturi, o pai de Jane e Alec, era o acompanhante dela, enquanto meu amigo estava com Amber cuidando do filho que tinha nascido dias atrás e que eu ainda não tinha visto pessoalmente.
— Amber está bem irritante — Jane continuou a nossa conversa, enquanto seu pai e minha mãe estavam do outro lado do palco falando sobre a carreira de Aro. — Não para de falar que assim que o Samuel tiver um mês de idade irá voltar para a Inglaterra com ele. Ela está tentando de tudo para fazer com que Alec desista de assinar o divórcio na sexta-feira.
— Você sabe que ele gosta da Ness, não sabe?
— Claro que eu sei, Ed. — Jane riu. — Ele sempre arruma um jeito de falar sobre ela. Amber obviamente também sabe que ele gosta da Ness, inclusive proibiu que Alec levasse a Swan para visitar Samuel.
— Isso é sério?
— É sim. É ridículo, Amber sabe que ele não gosta dela mais, mas fica chantageando meu irmão para ter formas de tê-lo preso a ela e está usando o bebê para isso.
— O que você acha que vai acontecer?
— Bom, se meu irmão não cair nas chantagens emocionais da Amber, eles vão assinar o divórcio e assim que Samuel tiver um mês ela voa com ele para a Inglaterra. Por um lado eu até entendo o lado dela, confesso. Ela é uma mãe de primeira viagem, que acabou de se separar e toda sua família mora em outro país, mas eu não posso deixar de pensar no meu irmão, ele pode acabar mudando para a Inglaterra e sair de lá para as gravações de seus filmes, entretanto isso significa que ele não estará perto de Ness.
— Isso é uma merda.
— É sim, mas talvez ele e Ness nunca fiquem juntos mesmo.
— Eu acho que ela realmente gosta dele de volta
— Também acho, Ed. Só que depois do que a Ness passou ela está claramente querendo um tempo para si e talvez nunca queira tentar algo com Alec para não perder a amizade entre os dois. E Amber odeia a Ness pra caralho, ela sabe que Alec gosta dela e isso foi um dos motivos do fim do casamento deles, já posso ver minha ex-cunhada infernizando a vida de Alec e Ness se eles ficarem juntos. E sinceramente? Eu prefiro que eles dois não fiquem juntos se isso causar problemas na vida da Swan, ela já passou por muito, não merece mais confusão em seu caminho.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Eu assenti, Jane estava certa, Ness já tinha enfrentado muito. Nahuel foi um filho da puta do caralho com ela, até mesmo sua morte tinha sido um problema imenso para Renesmee. Isso sem contar toda a história das garotas Swan com Renée, ou tudo que Ness teve de passar ainda nova demais com o Escândalo Swan que querendo ou não atingiu toda aquela família.
— Enfim, chega de falar dos problemas de Alec. Como você está? — Jane mexeu nos meus cabelos, eu estava sentado ao banco do piano no palco e ela em pé ao lado.
— Eu tô bem.
— Ed, você não está bem. — Ela sorriu para mim. — Eu te conheço tem muito tempo, tem algo de errado.
— Só problemas com minha namorada.
— Você realmente gosta dessa garota?
— Eu a amo.
— Leah, sério?
— Sério. — Desviei o olhar para as teclas do piano e comecei a tocar um pouco a melodia da canção que fiz para o bebê. — E você? Tá com alguém? Te vi enfiando a língua na garganta da Jéssica no aniversário da Bella.
— Cara, ela é quente. Talvez eu tente algo de novo, ela vai estar aqui hoje?
— Não, Tanya, Alistair e Leah vão ser os reforços do dia — falei. — Bella precisa descansar. — Suspirei.
— O que ela tem?
— Sei lá, uma gripe, algo assim — sussurrei e senti meus olhos encherem de lágrimas. Continuei tocando no piano, ainda olhando só para ele, até ouvir a risada da minha mãe, olhei para ela e a vi claramente se divertindo com Aro, eles nunca tinham se falado antes, mas eu sabia que o Volturi era bacana e que minha mãe iria adorar ouvir as histórias do diretor.
— Edward? — Jane me chamou e eu a olhei na hora. — É realmente da Leah que você gosta?
— Sim. — Mentira!
Jane respirou fundo e afagou minhas costas.
— Se quiser conversar sobre algo sabe que pode contar comigo.
— Valeu, Jane.
— Que música é essa? É nova, não?
Eu parei de tocar.
— Não importa, ela nunca será lançada.
***
Eu estava mais ansioso com a apresentação de George do que com a minha, então quando a vez dele chegou deixei meu camarim e consegui um espaço nos bastidores para o ver tocar. O garoto estava visivelmente nervoso, olhando para seus próprios pés enquanto uma das professoras da ONG apresentava ele e seus colegas.
Logo George estava em seu teclado, tocando muito bem. Eu sorri, animado e talvez um pouco orgulhoso, estava contente pra caralho que o garoto conseguia tocar fodidamente bem mesmo nervoso.
— Ele é ótimo — mamãe ao meu lado falou. — Me faz pensar em você quando criança. — Eu sabia ainda que aquela música a fazia pensar no meu pai.
Abracei minha mãe e beijei sua bochecha, então nos bastidores mesmo eu a fiz dançar a música comigo, o que a fez gargalhar.
— Dream lover where are you? With a love, oh, so true. And a hand that I can hold. To feel you near as I grow old* — cantei e ela sorriu mais.
— Tia Esme, você dança muito bem! — uma das crianças nos bastidores gritou, mamãe ficou constrangida, o que me fez rir e paramos de dançar.
— Amo você, mãe. — Beijei sua bochecha.
— Também te amo, filho. — Afagou meu braço.
Nós voltamos a prestar atenção nos garotos tocando no palco, até eles acabarem e receberem muitas palmas, inclusive minhas. George saiu do palco com as bochechas coradas, mas estava sorrindo no fim das contas.
— Eu fui bem? — ele perguntou apreensivo quando me viu.
— Você foi incrível, garoto! — Baguncei seus cabelos, George me abraçou e eu não me importei com isso.
***
Quando chegou a hora de encerrar o evento eu fui para o palco com as crianças e os professores que estariam servindo de minha banda desde os ensaios, com meu violão em mãos, diante do microfone e as crianças posicionadas ao meu redor esperei a minha deixa. Minha mãe fez as apresentações, eu sabia que ela estava saindo pela escada frontal do palco e então as cortinas se abriram e o mesmo palco era todo meu, bom, do coral das crianças também.
— I got this feeling inside my bones. It goes electric, wavey when I turn it on. All through my city, all through my home. We're flying up, no ceiling, when we in our zone* — comecei a cantar, já tocando meu violão sobre a agitação do público no teatro. — I got that sunshine in my pocket. Got that good soul in my feet. I feel that hot blood in my body when it drops. I can't take my eyes up off it, moving so phenomenally. Room on lock, the way we rock it, so don't stop* — as crianças começaram a cantar comigo.
Entreguei meu violão para um funcionário da ONG já pronto para o pegar, deixando com que apenas os professores seguissem tocando. Segurei no microfone com ambas as mãos e continuei a cantar.
— And under the lights when everything goes. Nowhere to hide when I'm getting you close. When we move, well, you already know. So just imagine, just imagine, just imagine.*
Tirei o microfone do suporte e segui mais para a frente do palco com as crianças, todos tínhamos sido coreografado para isso. Enquanto eu cantava o refrão, acompanhado por elas, ia andando entre eles e dando apertos de mãos e High Fives.
— Nothing I can see but you when you dance, dance, dance. A feeling good, good, creeping up on you. So just dance, dance, dance, come on. All those things I shouldn't do. But you dance, dance, dance. And ain't nobody leaving soon, so keep dancing.*
E eu me diverti muito naquela apresentação.
***
Bella e eu tivemos uma reunião na gravadora na segunda de manhã, para discutirmos com Patrick, Laurent e Jeffrey, o outro dono da Hollywood Records, junto dos advogados a compra da nossa parte das ações. Patrick já tinha aceitado vender cada metade para nós dois, mas ainda tinha muita burocracia — muito mais do que foi com a boate — para se trabalhar, mas estávamos na previsão de que até metade de dezembro já estaria tudo acertado.
Depois da reunião eu fui para casa, Bella para a produtora. Ela tinha muito o que fazer por lá antes de viajar para Chicago na quarta-feira. No domingo, depois que voltei para casa após pagar pizza para todo mundo da ONG após o evento, Isabella não estava mais em minha casa, deixou só um bilhete dizendo que Ness estava precisando de ajuda com algo e foi para a casa delas.
Ela também me disse que não poderia dormir comigo naquela segunda, mas não pude prolongar a conversa já que ela obviamente não queria conversar e estava apressada para ir até a produtora. E com o aborto tão perto, eu estava surtando cada vez mais internamente, temendo que a qualquer momento precisasse extravasar isso e acabasse querendo me afundar em bebidas e drogas.
— Ed, o sinal abriu.
Eu despertei ao ouvir a voz de Emmett. Estava dirigindo até a antiga casa de Alec, com meu segurança/cunhado no banco do carona porque dispensei o motorista e outros seguranças, para conhecer o filho dele. Tanya tinha enchido minha paciência, me mandando acertar com Alec para ir conhecer o bebê, pois meus fãs — que sabiam da minha amizade com o Volturi — estavam loucos para uma foto minha com o bebê. Não que eu já fosse postar, afinal nem Alec, Amber ou qualquer um das famílias deles já tinha postado qualquer coisa.
— Quer que eu dirija? — Emmett indagou.
— Não.
— Certo — disse desconfiado.
Foquei em dirigir, antes que acabasse batendo o carro e arranjando mais um problema. Logo estava estacionando o carro dentro dos limites da casa, quer dizer antiga casa, de Alec.
— E lá vou eu — falei para mim mesmo e sai do carro, Emmett me esperaria lá dentro.
Jane tinha me dito que a mãe de Alison estava na cidade com ninguém mais, ninguém menos que Alison. Esse era o motivo de Leah não ir comigo, Tanya não achava que seria uma boa ideia forçar a presença da minha atual namorada na casa da ex-cunhada, em pleno pós parto, que me odiava por ter traído sua irmã. Mesmo que Leah não tivesse sido o pivô da traição em questão.
— Oi, Ed! — Alec abriu a porta para mim, ele parecia exausto.
— Oi, você parece uma merda.
— Não durmo direito desde que Samuel nasceu — resmungou e me deixou entrar. — O que você comprou? — Olhou para o presente em minhas mãos, Tanya tinha comprado e mandado entregar na minha casa.
— Não faço ideia, não fui eu quem comprou.
Alec riu.
— Foi o que imaginei.
O quê? Eu não poderia comprar um presente para um bebê por conta própria? Não era nenhum idiota, saberia ao menos entrar numa loja de bebês e escolher algo. Ou buscar informações na internet, como quando procurei por meios de aliviar o enjôo de Bella, ou mais cedo naquele dia que pesquisei sobre o tamanho que o bebê estava na sexta semana de gestação. O que ainda era muito, muito, pequeno.
— Vem, vamos te apresentar ao Samuel — Alec falou, tirando o presente das minhas mãos e colocando sobre uma mesinha perto da entrada.
Antes de subirmos até o quarto do bebê Alec me fez lavar as mãos no lavabo, três vezes, com a máxima de atenção. Eu fiz aquilo certo, sem querer passar qualquer doença de merda pro filho do meu amigo.
Alec abriu a porta de um quarto, todo pintado de azul e branco, com brinquedos e o nome do filho na parede. Alison estava ali, com o bebê no colo, ela sorria, mas parou quando me viu.
— Oi — sussurrei, sem querer acordar o bebê e também envergonhado por estar a vendo de novo, principalmente depois da sua ligação meses atrás quando me disse que ainda gostava de mim e sentia minha falta.
— Oi — ela sussurrou de volta. — Ele acabou de mamar ainda há pouco — falou para Alec. — Mamãe tá no quarto com a Amber, acho melhor… — Alison olhou para mim sugestivamente. Eu sabia o que ela queria dizer, deveria ficar longe dos olhos de Amber e da mãe delas.
— Tudo bem — Alec concordou e foi até Alison, ela passou o bebê para ele e saiu do quarto sem falar mais nada comigo.
— Tenso demais — sussurrei, Alec concordou com um aceno de cabeça.
— Então, presumo que você veio para uma foto com o Samuel, não?
— É, foi mal. Tanya quer muito isso, mas vamos esperar você e Amber postarem a primeira foto dele para postar a que tirarei.
— Beleza — Alec disse. — Quer carregá-lo ou…
— Eu posso carregar!
— Você sabe carregar?
— Eu posso aprender — anunciei e me aproximei dos dois.
Não sabia identificar com quem o bebê mais parecia, Alec ou Amber, mas eu vi os cabelinhos escuros dele iguais aos do meu amigo.
— Qual a cor dos olhos dele? — questionei Alec.
— Azuis, parecidos com os meus — respondeu e sorriu para o filho. — Por que não se senta na poltrona? Será mais seguro para ter ele em seus braços.
Acatei aquilo e sentei na poltrona.
— Essa é a poltrona de amamentação da Amber? — Alec assentiu.
— Ela provavelmente vai querer colocar fogo nisso quando souber que você sentou aí. Ok, olhe para meus braços segurando Samuel, é assim que você vai segurar.
Eu preparei meus braços para segurar o garoto, com cuidado Alec o colocou neles. Samuel resmungou um pouco, mas não acordou.
— Ele é tão leve, eu pensei que seria mais pesado — confessei.
— Eu também achei que seria. — Alec sorriu novamente. — Vou tirar a foto no meu celular, depois te passo.
Sequer olhei para a câmera do celular de Alec, estava distraído demais com o bebê em meus braços. Ele era tão pequeno, usava uma roupa preta com uma girafa estampada na frente, meias em seus pezinhos e luvas nas mãos, estava enrolado em uma manta com cheiro muito bom.
— Você é tão pequenininho — murmurei, com cuidado levando um dedo até seu rosto e sentir sua pele macia. — Caralho, você tem um filho! — exclamei para Alec, meu amigo assentiu e tirou uma foto só do filho.
— Louco, né? Às vezes ainda não acredito que ele tá aqui.
— Você o ama?
Alec franziu o cenho.
— Claro que amo, ele é a pessoa que mais amo no mundo. Minha mãe sempre dizia que eu nunca sentiria um amor tão grande por alguém até ter um filho, ela estava certa. Porra, queria que a mamãe ainda estivesse viva pra conhecer o Samuel.
— Sinto muito, Alec.
Ele engoliu em seco e sentou no chão perto da poltrona.
— Eu não sei o que fazer, se volto com Amber para garantir que ela fique aqui com o Sam, ou se mantenho a separação e acabo tendo que me mudar para a Inglaterra para estar perto dele. O que nem vai ser muito perto — resmungou. — Estou de férias agora, mas quando tiver mais projetos para gravar não terei como estar na mesma cidade que ele sempre.
— Você não ama a Amber — lembrei.
— Mas amo o Samuel, não quero que ele cresça longe de mim, não quero perder nada da vida dele.
— A Inglaterra é muito longe, inclusive da Ness.
— Eu sei. — Ele mexeu na manta. — Mas o Samuel é minha prioridade agora.
— Você pode entrar na justiça para ter a guarda dele.
— Eu não posso fazer isso com a Amber, tirar o Sam dela seria muito errado, sei que ela está me chantageando, mas ainda é a mãe do meu filho.
Olhei mais uma vez para Samuel.
— Alec, a Bella tá grávida — murmurei.
Ele ficou em silêncio, o que me fez o olhar para checar sua reação.
— Seu filho da puta, como você me diz algo assim com o Samuel dormindo? Não posso gritar — disse entre dentes.
— Não estava pretendendo contar.
— Você vai ser pai também! — exclamou o mais baixo que conseguiu. — Isso é uma surpresa pra caralho!
— Não vou ser pai, a Bella vai abortar.
— Ah, eu deveria ter imaginado isso. Você nunca gostou de crianças mesmo, né?
— Até alguns dias atrás quando passei a imaginar como seria meu filho com a Bella — eu disse. — E agora segurando o Samuel só consigo pensar em como seria segurar meu filho nos braços.
— Espera, você não quer que ela aborte?
— Não mais, mas eu quis no começo. Só que a Bella quer abortar, ela não quer ter filhos.
— Você não pode pedir que ela fique com esse bebê. — Não era uma pergunta, Alec estava afirmando isso. — Talvez no futuro, principalmente quando vocês se livrarem do contrato com Leah, ela mude de ideia sobre ter filhos e possam tentar de novo.
— Talvez. — Eu tinha certeza de que isso não aconteceria. Meus olhos se voltaram para Samuel, eu queria ver mais dele. — Posso ser o padrinho dele?
— Se dependesse só de mim, sim. Mas você sabe que Amber não vai aceitar.
A vida era uma merda.
***
Não demorei muito na visita, até porque logo Samuel precisaria voltar aos braços de Amber. Então, me despedi de Alec e fui embora sem topar com sua ex, com a mãe dela, nem ver novamente minha própria ex, também saí de lá com meu amigo dizendo que poderia ligar para ele se precisasse de algo, principalmente desabafar.
Eu dirigi para o apartamento da minha mãe ao sair de lá, era mais perto e sabia que ela dormiria ali hoje. Queria me distrair um pouco, coisa que não conseguiria em casa, mas antes de tudo queria estar perto de Esme e me sentir um pouco seguro.
— Filho — ela disse surpresa a me ver.
— Oi, mãe. Posso dormir aqui hoje? — Eu já tinha dispensado Emmett, o mandando ir de táxi e deixando meu carro perto do prédio.
— Claro que pode. Mas por que isso? Você quase nunca vem aqui.
— Eu sei. — Entrei no apartamento. — Tô entediado.
Ela sorriu e apontou para a sala.
— Escolhe algum filme pra gente ver, vou fazer pipoca.
— Gosto disso.
Fui pra sala e ela foi para a cozinha, fiquei procurando um filme novo para assistir na Netflix. Porém, acabei escolhendo um que eu já tinha visto bastante quando mais novo O Estranho Mundo de Jack, deixei o filme na pausa, enquanto esperava mamãe voltar com a pipoca.
Evitei mexer no celular, levantei do sofá e fui ver mais de perto as fotos que mamãe tinha em porta-retratos sobre o aparador da sala. Ela tinha muitas fotos de Rose e eu quando crianças e adolescentes, tinha inclusive uma foto minha de quando ganhei o reality show que me apresentou para o mundo.
Sorri para minha foto erguendo o microfone, no palco do programa. Depois olhei para uma foto, que sabia ser minha, de mãos de bebês tocando piano. Eu também sabia que a pessoa me segurando para foto era Carlisle, mas ele não aparecia nela.
Peguei o celular do bolso e tirei uma foto daquela foto, postando-a no Instagram.
"O começo de tudo."
***
Bella estava na minha casa quando cheguei ali na manhã seguinte, eu a encontrei colocando algumas de suas coisas que estavam no meu closet em uma bolsa e aquilo me desesperou. Por que ela estava levando suas coisas?
— O que você está fazendo? — indaguei e Bella me olhou assustada, levando uma mão ao peito.
— Porra, Edward, que susto.
— O que você está fazendo? — repeti.
— Pegando algumas coisas para levar na viagem — murmurou.
Senti um peso enorme sair dos meus ombros ao ouvir aquilo, ela não estava levando suas coisas para longe de mim por estar me deixando.
— Eu vou levar Amy comigo.
— O quê? Por quê? — perguntei confuso com seu anúncio.
— Eu vou passar dias em Chicago, só com a Ness, Amy será uma distração. Além do mais, ela é minha gata. — Fechou uma gaveta do closet.
— Ela mora aqui agora — sussurrei.
— Eu quero a Amy comigo lá, Edward.
— Não faz sentido levá-la para outra cidade por tão pouco tempo…
— Ela é minha, ela vai comigo! — Isabella gritou, fazendo com que eu me calasse.
— Certo, você quer que eu a coloque na transportadora e pegue as coisas dela agora? — Sentia o choro entalado em minha garganta, com medo que Amy nunca mais voltasse para aquela casa quando retornasse de Chicago e que isso significasse que Bella também nunca mais voltaria.
— Sim, meu vôo sai às três da manhã e eu vou direto lá de casa com a Ness, não vou mais vir aqui hoje.
Não falei mais nada, apenas deixei o closet e fui atrás de Amy.
***
Amy já estava na transportadora, assim como tinha uma caixa com suas coisas prontas para Bella levar quando minha namorada apareceu no primeiro andar. Eu estava sentado no chão perto de Amy, para ela não se sentir mal presa ali dentro, também tinha colocado Madonna, Woody e Shrek no quintal para eles não ficarem estressados com ela reclusa, nem ela se estressar mais.
— Me avisa quando chegar lá em Chicago — pedi pra Bella.
— Tá — sua voz era fria, ela se ajoelhou diante da transportadora de Amy e abriu, fiquei confuso quando Bella a tirou de lá e a deixou livre pela casa. — Cuida dela — Bella pediu, sua voz ainda era fria, mas vi seus olhos marejados.
— E-Eu pensei que ia levá-la.
— Eu não posso, o lugar dela é aqui. — Ela se levantou.
Comecei a chorar, naquele momento por mim mesmo, por Amy, Bella e certamente pelo bebê. Faltava muito pouco para aquela gestação ser interrompida, pouco mais de vinte e quatro horas.
— Ei, por que você está chorando? — Bella questionou preocupada.
Eu não respondi, apenas fiquei de pé e a abracei. Escondi meu rosto em seu pescoço, podia sentir o cheiro do perfume dela e do seu shampoo, sentir seu coração batendo forte e as mãos pequenas de Bella em minhas costas, segurando em mim com força.
— Por que você está chorando? Por favor, me responde — implorou.
— Eu estou com medo.
— De que?
Não podia falar que estava com medo de nós dois nunca mais sermos mais os mesmos após aquilo, que interromper aquela gestação iria foder comigo pra valer e eu acabaria sendo um filho da puta com ela no futuro por isso. Então, eu menti, era o melhor caminho a ser seguido.
— Do que pode acontecer com você nesse aborto. — Continuei chorando em seu pescoço, acabando por realmente ficar com medo do procedimento em si.
— É totalmente seguro, pirralho.
Beijei seu pescoço, me movi e comecei a beijar seu rosto. Se algo acontecesse com ela… Eu não poderia aguentar, nós ainda tínhamos muito o que viver juntos.
— Eu te amo, está bem? — falei olhando em seus olhos que continuavam marejados. — Queria estar lá com você, mas irei te ligar a cada hora e te mandar uma mensagem a cada segundo. — Beijei seus lábios. — Faria tudo por você, linda, tudo.
Ela fechou seus olhos, afaguei seu rosto.
— Por favor, volta pra mim, Capitã.
— Vou voltar.
— Promete?
— Sim, eu prometo.
***
Eu passei o dia na sala de música, chorando, tocando, jogando Candy Crush. As horas pareciam não passar, todos os relógios pareciam estar quebrados e indo mais lentamente.
No fim da tarde minha mãe apareceu e me levou comida, ela não entendia o que eu tinha. Não fiz questão de explicar, não conseguia nem fingir que não estava chorando por um dia inteiro.
Rosalie também apareceu, perguntou sobre Bella e eu não respondi. Apenas pedi para Rose me deixar só, ela saiu, mas parecia muito receosa de me deixar só.
Por isso ela e minha mãe ficaram se revezando pelo resto da noite, indo me ver na sala de música de tempos em tempos. Até que eu fingi estar dormindo por volta da meia-noite e elas pararam de aparecer lá embaixo.
Foi quando o tempo passou a correr mais rápido, logo já era uma da manhã e eu mal conseguia respirar. Em duas horas Bella entraria num avião em direção a Chicago, na noite daquela quarta-feira ela iria abortar e eu nunca, nunca, teria aquele bebê em meus braços.
Eu enfiei as mãos em meus cabelos, puxando um pouco os fios e querendo gritar. Me sentia terrível, como nunca tinha me sentindo.
Queria aquele bebê, era uma loucura, mas eu queria. Bella não poderia abortar, tinha de dar um jeito de fazer com que ela mudasse de ideia.
Peguei meu celular, ligaria para Isabella, imploraria para ela não voar para Chicago e me ouvir. Nós conversaríamos e nos entenderíamos, ela iria querer o bebê como eu queria, faria ela fazer mudar de ideia.
Estava digitando o número dela quando parei, apaguei os dígitos e acabei discando para meu pai. Eu ligaria para Bella, só que antes precisava falar com meu pai, pedir para ele vir até Los Angeles, pois precisaria dele se fosse ter um filho e por estar morrendo de saudades do meu pai, apesar de tudo.
Eu liguei uma, duas, três, quatro vezes, chamava e chamava, ele não atendia. Quando tentei a quinta vez o celular deu como desligado, Carlisle não me atenderia, ele não queria atender. Ele esteve sempre disposto a atender as ligações do seu trabalho, mas não tinha a mesma disposição quando se tratava do seu filho.
Aquela merda só me fez chorar mais, desliguei meu próprio celular e o larguei de lado. Tremendo, suando frio e com dor no estômago, aceitei minha crise de ansiedade, a mais forte em muito tempo.
Aos poucos fui controlando a mim mesmo, foi difícil pra caralho, mas quando o pior passou eu só estava cansado e não chorava mais. Deitei no chão da sala de música, pensando quando fodi ali mesmo com Bella na nossa primeira vez.
Eu não pediria nada a ela, iria aceitar o aborto, era uma escolha dela no fim das contas. Tinha prometido cuidar de Bella, se eu a obrigasse a ter aquele bebê ela me odiaria e eu a destruiria, isso era tudo que não queria.
Iria me permitir sofrer tudo enquanto ela estivesse em Chicago, quando Bella voltasse iria estar bem para ela. Seríamos só nós dois pelo resto das nossas vidas, ela não queria ser uma mãe e eu seria um péssimo pai, nós estávamos no caminho certo com aquela decisão.
Fechei os olhos, imaginando mais uma vez a criança, um menino, de olhos castanhos. Então, eu chorei de novo.
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