Hollywood
90 Capítulo Oitenta e Nove
Notas iniciais
Capítulo Oitenta e Nove
Edward Cullen
“Ed Cullen é o novo rosto da YSL!”
O tempo em Paris estava sendo bom, o contrato fechado era excelente para minha carreira. Eu achava que o único problema que enfrentaria naquela cidade seria as saudades que sentia de Isabella, mas estava enganado.
***
Jessica pegou uma taça de champanhe oferecida pelo garçom, o ator que falava conosco se serviu também, eu rapidamente neguei e continuei bebendo minha água com gás. Naquela noite eu estava recusando até os refrigerantes, queria balancear minha alimentação depois de dias exagerando com comida desde que coloquei os pés na Europa.
A festa que estávamos logo mais acabaria, eu queria poder ir embora de uma vez e poder ligar para Capitã do hotel, mas Jessica tinha dito que deveríamos ficar até o final. Era importante eu ser visto ali por mais tempo, assim como conversar com o máximo de pessoas possíveis.
— Não vai mesmo beber nem uma tacinha de champanhe? — Javier, o ator, perguntou.
Não, sou a porra de um viciado em tratamento. Quis responder isso, mas apenas lancei um sorriso educado e falei:
— Minha esposa e eu assistimos Caçadores dias atrás, gostamos muito. Me diga, terá uma continuação, não é?
Foi o suficiente para Javier esquecer a história da bebida. Falar do filme dele o fez falar de si mesmo sem parar. Eu agradeci à Jessica mentalmente por ela ter me dado um resumo do filme minutos antes enquanto o ator se aproximava da gente, afinal não tinha assistido.
Mas Bella estaria orgulhosa de mim, eu estava falando com todos. Melhor ainda, estava encantando cada pessoa naquela festa. Ed Cullen era o novo rosto da YSL e ninguém se esqueceria dele.
— Ed, pegue seu casaco e vamos lá para fora terminar essa conversa! — Javier exclamou animado e tirou um maço de cigarros do bolso de sua calça. — E uma bebida decente também, cara.
— Desculpe, Javier — Jessica se manifestou. — Preciso levar Ed para falar com outras pessoas agora.
Javier rolou os olhos.
— Que seja, até mais, Cullen! — Ele se afastou, já acendendo seu cigarro. Não se importando por ainda estar em ambiente fechado.
— Valeu — agradeci Jessica e bebi mais um pouco da minha água.
— Não por isso, mas precisamos mesmo ir falar com mais algumas pessoas.
— Posso ir ao banheiro primeiro?
— Pode. — Estendeu a mão, eu lhe entreguei meu copo de água e segui até o banheiro.
Estávamos em um salão de festa elegante e gigantesco. Todos os ricos e famosos de Paris pareciam estar ali, fora outros rostos da marca dos demais lugares do mundo.
Os banheiros principais estavam cheios, então eu fui para o banheiro mais afastado, tinha recebido a dica de Genna Adams, uma atriz que conheci mais cedo. Um diretor de cinema estava deixando o masculino quando entrei, ele falava com alguém no celular, mas me olhou de cima a baixo e fez cara feia, ainda teve coragem de falar:
— Manda o motorista, a festa está cheia de gente desprezível.
Eu não conseguia me lembrar do nome dele, entretanto me lembrava de que Aro tinha vencido seu último Oscar quando concorreu contra aquele cara. Aparentemente o tal diretor já sabia que eu era, de certa forma, enteado de alguém que ele detestava. Bom, não consegui encantar todos naquela festa como pensei que tivesse.
Apenas ri e entrei no banheiro. Fiz xixi rapidamente e lavei as mãos, após secá-las peguei meu celular e entrei no Google. Consegui o nome do diretor e mandei uma mensagem para Aro.
Ed Cullen: Pat D’Amico me chamou de desprezível e acho que foi por sua causa.
O namorado da minha mãe respondeu na hora.
Aro Volturi: Tem certeza de que ele não estava falando sobre si mesmo?
Aro Volturi: Eu soube que no próximo filme dele irá contar a história de um Vampiro que se apaixona por Zumbi, ele é péssimo!
Ed Cullen: Ah isso me faz pensar em algo, quem Amber irá interpretar no seu filme?
Aro Volturi: As fofocas voam, né?
Ed Cullen: Sim :)
Aro Volturi: É um filme sobre John F. Kennedy, ela será Marilyn.
Bella adoraria saber sobre aquilo, quando eu voltasse ao hotel iria ligar para minha esposa e lhe contar a fofoca.
Aro Volturi: Se o D’Amico te perturbar diz que você pelo menos tem um Grammy e ele deu prejuízo com o último filme que lançou.
Fiz uma careta.
Ed Cullen: Eu não tenho um Grammy...
Aro Volturi: Sério? Jurava que tinha. Mas irá ganhar esse ano, pensamento positivo!
— Espero que sim — murmurei para mim mesmo e guardei o celular.
Me voltei para o grande espelho e chequei meus cabelos, o cabeleireiro tinha domado meus fios e mesmo após todas aquelas horas eles continuavam no lugar. Eu sorri para meu reflexo, entretanto com um aperto no peito de vontade de estar ao lado de Isabella e Holly, mal via a hora de estar em Los Angeles com minha família.
Porra, mal via a hora de foder Bella. As conversas por vídeo estavam sendo ótimas, era um grande passo em nossa relação e eu sabia que para minha esposa um ainda maior, só que pessoalmente o sexo era muito melhor.
— Em breve estará com ela, Edward. — Ajustei as mangas da minha roupa, ainda me olhando no espelho ouvi a porta do banheiro se abrir.
Automaticamente olhei para o corredor de entrada e vi Genna, ela usava um vestido laranja que fazia meus olhos doerem. A atrizes devia ter algo entre 55 e 65 anos, era bem mais baixa do que eu, branca, cabelos pretos e olhos claros.
— Ei, você errou a porta! — exclamei rindo, ela sorriu e falou:
— Vejo que pegou minha dica, Ed.
— Pois é, aqui é vazio. — Andei em direção a porta, passando por Genna. Não podia mais enrolar.
Jessica ainda precisava de mim circulando pela festa e eu não queria ir contra os planos de ninguém da Swan Productions, mesmo sendo casado com a dona.
— É perfeito — Genna falou.
Eu sabia que ela era nascida na Itália, mas criada nos Estados Unidos, casada com um bilionário da área da saúde no país. Sua filha mais nova e também atriz, Ester, era uma das embaixadoras da YSL, eu tinha conhecido as duas naquela noite.
— Obrigado pela dica — agradeci e coloquei minha mão sobre a maçaneta. — O feminino é aqui na frente. — Tentei abrir a porta, mas ela parecia trancada. — Bosta.
— Ed, vamos…
Ela se calou quando forcei mais a porta e consegui abri-la. Do lado de fora um cara parecia ser o impedimento de eu não conseguir abrir antes, aquilo me intrigou, por que ele estava segurando a porta?
— Cássio, você acabou trancando a porta sem querer! — Genna exclamou em um tom de reprovação. — Desculpe-me, Ed — pediu. — Ele é um dos meus seguranças. Vamos voltar juntos para o salão? Adoraria conversar com você mais um pouco. Eu estava mesmo indo apenas retocar meu batom, mas a festa está mesmo acabando.
— Claro, vamos voltar para o salão. — Eu lhe lancei um sorriso e lhe estendi meu braço, seria muito bom tratar Genna bem, talvez eu conseguisse algum tipo de campanha publicitária com o Grupo Adams.
Mal pisamos no salão e um dos diretores da YSL nos abordou. Victor estava muito agitado, sabia bem que aquilo deveria ser mais que álcool agindo em seu corpo. Não queria ficar batendo papo com um cara sob efeito de cocaína, entretanto eu não podia tratar ninguém mal naquela festa, principalmente alguém tão importante quanto ele.
Genna também não parecia querer bater papo com Victor, mas nós três seguimos para uma mesa. As pessoas já estavam indo embora, então ao nosso redor onde sentamos não tinha quase ninguém, eu também não vi Jessica por perto.
A mesa escolhida tinha de um lado cadeiras e do outro um sofá acoplado à parede, eu sentei nele, recostado na parede. Victor ficou na cadeira à minha frente e Genna ao meu lado, o perfume dela era muito forte, porém não quis ser indelicado e mudar de lugar.
Esse foi um erro, eu fiquei preso entre ela e a parede.
Victor, completamente alterado por conta da cocaína, falava dos planos que tinha para mim na YSL. Todos excelentes, eu estava nas nuvens com isso.
— Talvez a gente devesse fechar com Isabella também! — Victor exclamou, meus olhos arregalaram ao ouvir aquilo e sorri.
Me curvei sobre a mesa e apoiei os cotovelos sobre ela. Naquele instante Genna tocou em minhas costas, mas eu estava focado em Victor falando sobre a possibilidade de fechar contrato com a minha esposa, que mal reparei.
— Ela é uma mulher linda, Ed. E vocês formam um belo casal, a diferença de idade pode até ser considerada um charme. Vamos ver como rola com você e se tudo ocorrer bem iremos contratar Isabella.
Isso era um sonho, porra!
— Ela já fez tantas campanhas no passado, Victor — falei animado. — Vai lançar uma música em breve, temos a gravadora, a boate. O nome de Isabella está em alta agora, vocês devem mesmo considerar contratá-la.
Victor assentiu e voltou a falar sobre meus próximos passos. Enquanto ele discursava sobre como seria minha primeira campanha, eu senti.
A mão de Genna repousou sobre minha coxa. Primeiro pensei estar alucinando, depois achei que ela só tinha colocado ali por engano. Mexi minha perna, mas não foi o suficiente para tirar a mão dela dali, pelo contrário, Genna a apertou, suas unhas compridas quase me machucando mesmo com minha calça.
Eu limpei a garganta e remexi o corpo todo, a mulher continuou me tocando. Victor pegou seu celular e me mostrou algo, eu não consegui enxergar, minha visão ficou embaçada enquanto o resto do meu corpo tremia.
A mulher ao meu lado continuou me tocando, sua mão subindo por minha coxa até estar entre minhas pernas. Quis vomitar. Victor olhou para meus braços tremendo e fez piada, achava que eu estava nervoso por conta da campanha. De onde estava o homem não via o que acontecia embaixo da mesa, ainda mais na baixa iluminação do salão.
Definitivamente não estava gostando de Genna esfregando meu pau por cima da calça, mas não conseguia me mover. Estava paralisado, nauseado e chocado.
Ela me apertou, eu gemi. Não de prazer, sim de raiva misturada com repulsa.
— Seja um bom menino — ela disse baixinho para mim, eu consegui escutar, mesmo com a fala alta de Victor. — Vou lhe recompensar.
Então, vi Jessica se aproximando. Aquilo foi o suficiente para eu conseguir me mexer outra vez, fiquei de pé e a mão de Genna deixou meu corpo.
Eu ainda tremia, Victor ainda falava e Genna Adams xingou baixinho.
— Desculpe, eu preciso ir — falei, Jessica parou no meio do caminho para falar com alguém. — Victor, muito obrigado por tudo. — Minha voz também estava trêmula e eu temia que a próxima vez que abrisse a boca acabasse vomitando.
— Claro, claro — ele concordou, todo sorridente. — Nos falamos mais amanhã, Cullen.
Genna se levantou quando consegui pedir licença para sair, me abraçando e sussurrando:
— Quanto você quer para me foder, querido?
Não respondi, claro que não. Me desvenciliei dela e saí de perto daquele sofá. Parecia que a mão dela ainda estava em mim, sem ser solicitada ou aprovada. O perfume dela parecia entranhado em minhas narinas também, aumentando a dor de cabeça que comecei a sentir.
— Tudo bem? — Jessica perguntou quando me juntei a ela.
Quis gritar que não, queria apontar para Genna e dizer que aquela mulher tinha me tocado de forma completamente errada. Porra, como quis falar algo, eu só não consegui. Principalmente quando Jessica disse:
— Fazendo amizade com Genna? Isso é ótimo, quem sabe conseguimos te colocar em alguma publicidade do Grupo Adams. Aliás, eles terão um evento beneficente acontecendo semana que vem em Los Angeles, vamos esperar que ela te envie um convite.
Não poderia falar, quem acreditaria em mim?
Isabella, pensei, ela acreditaria.
Eu só não tinha coragem de contar.
***
No carro, voltando para o hotel, Jessica falava com animação sobre o evento. Segundo ela tudo tinha ido muito bem, eu tinha sido incrível com todos, o que só me beneficiaria mais com a YSL. Enquanto isso eu só conseguia pensar em como aquela noite tinha começado muito bem, mas decaído até se tornar um pesadelo.
— Boa noite, tenta dormir logo e descansa bem, amanhã ainda tem compromisso — Jessica falou quando o elevador parou no andar que ela sairia, seu quarto ficava dois andares abaixo do meu. O tom de voz dela ainda era cheio de empolgação, sem perceber o clima que eu exalava, talvez achasse que minha apatia era só cansaço.
— Ok — murmurei em resposta, deixando ela sair, ficando no elevador na companhia de Felix e outro segurança meu que ficariam vigiando minha porta.
Me senti grato por isso, ao mesmo tempo em que me sentia ridículo, como se Genna fosse conseguir invadir meu quarto. Eu sozinho conseguiria detê-la de qualquer coisa, era mais forte do que ela. Mas então, me perguntava por que tinha ficado paralisado no evento e não a detive, como pude ser tão fraco enquanto a mulher me tocava.
Estava entrando no quarto quando Isabella me ligou, eu xinguei baixinho, não queria falar com ela naquele instante. Não queria pois sabia que minha esposa notaria que tinha algo de errado comigo, ela era muito boa nisso.
— Oi, amor! — exclamou animada quando atendi, bati a porta do quarto e me apoiei nela. — Já está no hotel? — perguntou.
Engoli a vontade de chorar e respondi:
— Sim. — Fui logo emendando uma desculpa para acabar com a ligação, no dia seguinte eu acordaria melhor e falaria com ela direito, pelo resto daquela madrugada queria apenas mergulhar um pouco naquela sensação desconfortável crescente em meu peito. — Estou com muito sono, preciso mesmo dormir.
Não aguentei, me vi obrigado a desligar. Estava começando a ficar nauseado novamente, enfiei o celular no bolso da calça e me agachei no chão, colocando as mãos ao redor da minha cabeça.
Eu não deveria estar assim, tão afetado por algo mínimo. Porra, ela não era a primeira pessoa — entre mulheres e homens — que tinha me tocado sem permissão, desde que fiquei famoso meu corpo pareceu se tornar propriedade pública, todos comentavam sobre ele e quando estavam perto tocavam nele mesmo sem meu consentimento.
— Você é tão gostoso!
— Olha só, está tão musculoso.
— Precisa emagrecer um pouco, Ed.
Mãos em meus cabelos, mãos em minhas costas, mãos em minha bunda. Com 15 anos eu já precisava parecer sexy, era o que diziam.
— Estará sem camisa nas fotos da revista.
— Quantos anos ele tem? Fará 16 em Junho, não é? Já pode cantar canções com insinuação sexual.
Fiquei minutos naquela posição, recuperando lembranças das pessoas usando meu corpo para ganhar dinheiro, fãs sendo invasivas, pensei até em Jasper cruzando os limites e querendo me beijar, quando eu tinha apenas 18. Porém, também pensei em todas as vezes que estive do outro lado. Quando fui o cara pagando por sexo, assistindo milhares de videos porno, quando toquei o corpo de mulheres sem elas me autorizarem primeiro.
Eu era um escroto, assim como Genna, assim como Richard, assim como Paul. Na minha despedida de solteiro pensei sobre as strippers sofrerem como minha esposa, eu só não tinha pensado que era um babaca como os outros clientes delas, ou ao menos fui por muito tempo.
Tinha grana, tinha um nome e tratei a maioria das mulheres como brinquedos sexuais. Porra, eu tive a cara de pau de começar a assistir o vídeo do Escândalo Swan enquanto estava na sala de Isabella, que tipo de maniaco faz isso? Eu tinha feito. Não era nada diferente de Genna, era igual a ela, repulsivo, um assediador de merda.
Meu celular, ainda em meu bolso, parecia pesar uma tonelada. Sabia que também tinha forçado a barra com Bella no começo, a culpa me dominou com o pensamento de ter sido um filho da puta com ela.
Não tinha direito de me sentir atacado por Genna, eu queria negar aqueles arrepios de pavor que lembrar dela me tocando causava. Não, eu não merecia bancar a vítima, não merecia isso, não quando já tinha estado do outro lado.
— Seja um bom menino — Genna disse.
O enjoo piorou, eu levantei e caminhei até o frigobar buscando por água. Foi quando vi as garrafas de bebidas alcoólicas ali, já tinha pedido um milhão de vezes para o pessoal do hotel tirá-las de lá, algo que deveriam ter feito antes de eu pisar pela primeira vez naquele quarto, mas elas continuavam na porra do meu quarto.
O quarto de um viciado em tratamento. Era tão difícil entender que não precisava ter aquelas merdas ao meu dispor? Peguei uma e atirei contra a porta do quarto, furioso pelo péssimo serviço de quarto, furioso com Genna, furioso comigo mesmo.
A porta foi aberta segundos depois, era Felix. Ele a fechou a porta atrás de si e com calma na voz, mas olhar bem sério indagou:
— Precisa de alguma coisa?
Eu não consegui responder, apenas deixei o choro me dominar. Com cautela Felix se aproximou, me fez andar até o sofá e me sentou ali, ele sentou diante de mim na mesinha de centro e voltou a perguntar:
— Quer que eu chame Jessica? Ou ligue para a senhora Cullen?
— Não, por favor, não — implorei. — Eu vou ficar bem — garanti.
— Ok, vou ficar aqui dentro até se acalmar, chefe.
— Preciso vomitar!
Imediatamente ele pegou um vaso sobre a mesa e passou para mim, não era a primeira vez que eu vomitava em um objeto de decoração. Quantas vezes, por conta de álcool e drogas, já não tinha feito aquilo?
— Assim que for para a cama irei chamar alguém do hotel para limpar tudo isso — Felix garantiu quando deixei o vaso, imundo, no chão perto dos meus pés.
Eu assenti, grato por aquilo.
— Só não deixa a Jessica descobrir, muito menos a Isabella — pedi, eu não queria que minha esposa descobrisse sobre nada daquilo, não queria jogar outro problema nas costas dela.
— Estava bebendo?
— Não, eu não bebi — afirmei. — Aconteceu uma merda aí, mas juro que não bebi.
— Não quer mesmo que eu avise ninguém? Posso ligar para sua mãe.
— Não, Felix. — Eu me levantei. — Eu não quero que ninguém fique sabendo. Vou tomar banho e dormir, chama o pessoal para limpar tudo e manda levarem todas as bebidas alcoólicas.
— Ok.
Antes de deixar a sala da suíte, me voltei para meu segurança e perguntei:
— Felix, você acha que sou uma pessoa desprezível?
— Já conheci algumas pessoas desprezíveis, você não está entre elas.
Ele estava errado, talvez eu não fosse mais um lixo de pessoa, mas já tinha sido. E não tinha nada para fazer quanto a isso, não podia mudar o passado.
Eu dormiria e no outro dia acordaria melhor. Ninguém ficava triste por muito tempo em Paris, porra.
***
Nada melhorou no dia seguinte, pelo contrário, piorou. O quarto estava limpo, as bebidas tinham ido embora, mas uma mensagem me assombrou.
Era Genna, tinha conseguido meu número.
“Vamos nos ver hoje, querido? Não se preocupe, eu cuido de tudo para não chegar aos ouvidos da sua esposa.”
Não ousei responder, apenas bloqueei o número. E pelo resto do dia segui enjoado, nervoso, evitando meu celular.
Em Los Angeles procuraria pelo meu terapeuta, em Paris queria apenas seguir no automático, não tinha coragem para mais nada. Nem mesmo para fingir, deixei Bella no escuro, não respondi suas mensagens como devia.
Só em uma mensagem consegui perguntar sobre Holly, depois de passar o dia me considerando desmerecedor de tudo que tinha. Dinheiro, fama, esposa e filha. Ao mesmo tempo em que me sentia uma criança perdida, apavorado com o que tinha acontecido com Genna, morrendo de medo que pudesse acontecer novamente.
A mulher não voltou a cruzar meu caminho, mas até eu sentar na poltrona do avião que me levaria para longe da Europa continuei achando que ela surgiria em qualquer lugar de Paris para me atacar. Era ridículo, eu nunca poderia contar para alguém que estava com medo de uma mulher.
Já podia imaginar o que diriam:
— O que é isso, Ed? Está com medo de mulher? Parece coisa de viadinho.
E ririam de mim.
No avião eu consegui dormir, sonhei com colegas da escola católica de Bath. Ao acordar, ainda com muito tempo de viagem para enfrentar, eu lembrei de um dia no colégio. Tinha dez anos, um dos garotos levou uma revista Playboy escondida em suas coisas, um deles tinha dito:
— Queria transar com ela!
Olhei pela janela do avião, eu não tinha mais medo de voar. Meus medos eram outros.
Aos treze, na igreja, o padre falou sobre não devermos aceitar homossexuais.
— Não deixem esse tipo de aberração entrar na casa de vocês.
Com quinze, nos bastidores do The Star UK, um produtor do programa me viu chorando e disse:
— Para com esse drama, chorar é coisa de mulher e viado.
Com 18, na gravação de um clipe, a diretora falou para mim:
— Pode tirar a calça, essa cena você tem que tá só de cueca.
Olhei para minhas mãos, abri e as fechei lentamente. Genna tinha me tocado, Richard tinha tentado estuprar Isabella, Paul expôs o corpo dela ao mundo. Mas nós não podíamos dizer nada, era melhor ficarmos quietos, evitar problemas.
Eu era um cantor, minha esposa uma grande cantora e compositora, no entanto nossa voz nunca seria alta o suficiente para contar nossas verdades ao mundo.
***
Quando o avião pousou em Los Angeles, pouco mais de quatro da manhã daquele sábado, eu estava completamente destruído. Minha cabeça parecia que ia explodir, estava enjoado, com taquicardia e morrendo de sono.
Sabia que Isabella estava esperando por mim no estacionamento do aeroporto, aquilo só me deixava pior. Eu queria poder adiar mais reencontrá-la, deixar para estar com ela só quando me sentisse um pouco melhor que fosse.
Cercado por meus seguranças, ignorando paparazzis e fãs acampados esperando por mim, eu fui até meu carro. Não esperei ninguém abrir a porta, abrindo por conta própria e entrando ali, logo fui agarrado e aquilo me assustou.
Bella estava com as mãos em meus cabelos e sua boca contra a minha, eu tinha total consciência que era ela, mas ainda assim fui pego de surpresa. Me afastei, precisando de um espaço. Entretanto, sem querer ser completamente rude, eu lhe dei um rápido beijo no canto de seus lábios.
— Edward, tudo bem? — minha esposa perguntou.
O carro ainda estava parado, queria que o motorista nos tirasse de lá logo.
— Melhor impossível. — Era uma mentira e eu sabia que ela sabia bem disso.
Eu não deveria estar a afastando, porém como explicar a porra da minha cabeça? Mentir parecia mais fácil do que lhe dizer a verdade, contar que eu estava sofrendo por algo que considerava bobagem, ainda que talvez ela fosse ser a única entendendo tudo aquilo. Mas eu não queria contar, só queria tomar um banho e dormir, queria apenas ter um sono sem sonhos e fugir da realidade.
Encostei minha cabeça na janela, o carro começou a se mover. Não falamos nada no caminho para casa, eu quis chorar durante aqueles minutos, porém segurei o choro.
— Eu vou dormir em um dos quartos de hóspedes — Bella avisou quando entramos em casa, Shrek foi o único que apareceu para me recepcionar, os outros deveriam estar dormindo.
— O quê? — indaguei confuso. — Como assim?
Bella forçou uma risada e tirou a jaqueta que usava.
— Como assim? Você acha que vou dormir ao seu lado? Mal olhou na minha cara, não vamos dividir uma cama hoje.
Xinguei e levantei do chão onde tinha acabado de sentar para ficar na altura do meu cachorro.
— Estou cansado.
— É mesmo? Que pena! — Ela arrancou seus sapatos. — Só que eu não acredito que isso seja cansaço. Alguma coisa aconteceu, e você tá claramente mentindo.
— Nada aconteceu, eu juro.
Ela revirou seus olhos.
— Não vou passar o resto da madrugada discutindo com você, Edward. — Recolheu seus sapatos. — Vou acordar às oito para trabalhar, amanhã viajo e não sei se você lembra, mas eu tô grávida e isso me cansa. Um cansaço real, diferente do seu. — Seguiu até as escadas, Shrek e eu fomos atrás.
— Você tá dizendo que eu esqueci da nossa filha?
— Tô falando que nos últimos dias você só falou sobre ela uma vez, tô falando que você nem me beijou direito, tô falando que depois de dias separados fez mais carinho em Shrek do que em mim — acusou, estava com lágrimas correndo por seus olhos quando parou no quarto degrau.
Eu fiquei mudo, ela chorou mais e questionou:
— Você me traiu, Cullen?
— Não, claro que não, Capitã. — Me aproximei dela, mas Bella se desvencilhou e soltou seu braço do meu toque. — Juro que não te traí, eu nunca faria isso.
— Então me conta o que aconteceu — exigiu.
— Nada.
— Puta merda! — gritou, Shrek latiu e puxou a barra da minha calça. — O que você fez?
— Nada — repeti, era só o que conseguia dizer.
— Vai se foder, Edward. — Ela voltou a subir. — E se você me traiu eu vou descobrir.
— Eu não te traí! — exclamei e voltei a segui-la pela escada.
— Se você traiu… — Bella soluçou, ainda chorando. — Eu devia esperar isso, traiu quantas das suas ex-namoradas mesmo? Claro que seria questão de tempo até me trair, e eu vou aguentar isso, mas se algum desses seus erros atingir minha filha…
— Nossa filha. — Ultrapassei Bella, fazendo com que ela parasse. — Eu não te traí, nem fiz nada que possa atingir Holly.
Ela me encarou por muito tempo, até falar:
— Não está sendo sincero comigo. Não me beijou. Não me tocou. Não quis saber da Holly. — O rosto dela estava vermelho por conta do choro e me odiei bem mais por isso.
— Linda, eu amo vocês duas, eu só estou… Só preciso…
Queria dizer a verdade, mas as palavras estavam entaladas em minha garganta.
— Eu vou dormir. — Passou por mim. — E se me traiu conta antes de eu gravar a merda daquele clipe, com uma música sobre nós dois, não me faça de boba.
Shrek ficou comigo.
***
Sequer dormi, fiquei a noite toda na sala de TV, com meu cachorro me fazendo companhia. Quando Nelly chegou para trabalhar, eu subi, Bella já estava terminando de se arrumar no closet. Tinha passado maquiagem, mas não conseguiu esconder seus olhos inchados.
— Fica em casa — pedi.
— Tenho o que fazer. — Ela tentou pegar uma bolsa em uma prateleira alta, não conseguiu. Suspirou, olhou para mim e estalou seus dedos.
Isso me fez dar um pequeno sorriso, ela mordeu seu lábio inferior. Me aproximei, peguei a bolsa e entreguei para minha esposa.
— Podemos ao menos tomar café juntos? — perguntei.
Ela apertou a bolsa, olhando para o acessório. Então, olhou para mim, deixando um beijo hesitante na minha bochecha.
— Você me traiu? — perguntou, chorando de novo.
Toquei em suas costas, mantendo ela junto de mim.
— Nunca te traí, nunca vou, Capitã.
— Por que está assim comigo?
— Vamos tomar café?
— Edward! — Me afastou. — Eu quero, eu preciso, saber o que aconteceu. Acabei de ligar para Jessica, perguntei se ela sabia de algo, mas disse que não, falou que não tiveram nenhum problema em Paris.
Respirei fundo, esfregando meu rosto com as mãos. Tinha algo que poderia contar, uma distração.
— Tinha álcool no meu quarto, esqueceram de tirar, eu só fiquei com vontade de beber, mas não bebi. Acredita em mim. — Olhei para ela, estava desconfiada.
— Você ainda está mentindo. Não sei qual parte disso é mentira, mas tem alguma coisa faltando nessa história. Vou tomar café na produtora, não me sinto confortável com você escondendo as coisas de mim.
Eu ri, exausto.
— Tá, Bella. Sou o cara mais errado do mundo, que seja.
Ela não falou nada, acabou de pegar suas coisas e saiu, eu fiquei só naquele closet. Porém, não por muito tempo. Troquei de roupas, peguei a coleira de Shrek e levei ele para um passeio pelo condomínio, os outros ficaram em casa, iria comigo apenas o que me fez companhia naquela madrugada.
— Não acredito que Bella acha que traí ela — falei para meu cachorro. — E sei que não deveria estar a afastando, mas estou cansado, de verdade — murmurei e afaguei a cabeça do cachorro. — Senti sua falta, carinha.
***
Passei o sábado todo em casa, basicamente dormindo em meu quarto. Rose e minha mãe ligaram, queriam me ver, mas eu dei a desculpa de estar cansado e elas acreditaram.
Quando Bella voltou para casa, de noite, foi direto para o closet acabar de fazer suas malas. Eu fiquei fora do caminho dela, deitado em nossa cama, fingindo ainda estar dormindo, com todas as luzes desligadas.
— Você precisa de um médico? — ela questionou, senti sua mão em meus cabelos, eu chorei um pouco.
Eu amava as mãos de Bella, odiava as de Genna.
— Está me assustando, Edward. — Sentou ao meu lado.
— Vou ficar bem — sussurrei.
Tinha de ficar, não podia ser fraco. Porra, tudo que Bella tinha enfretado, não iria ser um estorvo, não iria choramingar por uma mão boba, não com ela que tinha sofrido tanto assédio pior.
— Quer que eu cancele tudo e fique com você?
— Não, você precisa ir, é seu clipe. — Continuei de olhos fechados, chorando um pouco.
Bella voltou a mexer em meus cabelos, gentilmente. Um toque familiar, um toque amoroso.
— Comeu algo hoje, amor?
— Não — confessei.
— Vou pedir comida italiana pra gente, que tal? — Ela se moveu e deitou ao meu lado, eu abri meus olhos. — Você me traiu?
— Não.
A mulher respirou fundo e tocou em meu rosto, limpando as lágrimas.
— Um dia vai me contar o que aconteceu?
— Eu não te traí.
— Eu sei. — Beijou o canto dos meus lábios. — Mas quero saber o que rolou, me conta quando estiver pronto — pediu. — Comida italiana?
— Não estou com fome.
— Você precisa comer — insistiu. — E Holly hoje tá desejando nhoque.
Isso me fez sorrir, mas também logo chorei mais.
— Vai ficar tudo bem, está tudo bem — Bella disse e me deixou chorar. — Eu amo você.
***
Não levei Isabella até o aeroporto, eu queria, mas ao mesmo tempo mal consegui sair do quarto para comer.
— Tá tudo bem — ela murmurou, afagou meu rosto e beijou minha bochecha. — Fica aqui, dorme mais um pouco e relaxa. Sua irmã tá vindo ficar com você.
— Não preciso de babá.
Bella não debateu, apenas beijou minha bochecha de novo.
— Te aviso quando pousar em New York.
— Ok — murmurei.
Minha esposa foi embora, eu voltei a me refugiar em meu quarto, minutos depois Rose chegou.
— Tá precisando de alguma coisa, Ed?
— Não.
— Senti sua falta. — Sorriu para mim. — Quer me contar algo?
Neguei e fechei os olhos, queria voltar a dormir.
***
No domingo entrei em contato com Vladmir, iria ter uma sessão com ele na segunda-feira. Antes de eu começar no dia 21 a campanha para o Grammys, no caso a campanha mais agressiva, com entrevistas, festas e tudo mais.
— Por que estamos de babá? — Jasper perguntou quando apareceu em minha casa no domingo pela parte da tarde, trocando com Rosalie que iria se encontrar com Emmett.
Minha mãe, de última hora, tinha viajado com Aro e Bella para New York. Isso era bom, talvez Esme fosse a pessoa que conseguiria tirar de mim o que eu estava escondendo, mas não queria contar para ninguém, só para meu terapeuta no dia seguinte.
— O que você aprontou? — ele continuou a perguntar.
Estávamos na sala de música, meu amigo sentado ao piano, eu deitado no sofá com um violão em mãos.
— Nada.
Jasper parou de tocar, se mexeu no banco e ficou de frente para mim.
— Cara, você traiu a Bella?
Bufei.
— Claro que não. Puta merda, eu tenho um passado de merda mesmo, né? É a primeira coisa que me perguntam. — Rosalie não tinha perguntado diretamente, mas perguntou se eu tinha conhecido alguém em Paris.
— Certo. — Jasper voltou a tocar.
Eu larguei o violão no chão, fiquei um tempo quieto, o que só inundou minha cabeça de lembranças e questionamentos.
— Jasper?
— Oi?
— Olha pra mim — pedi, ele olhou, parando mais uma vez de tocar.
— O quê?
Sentei no sofá e murmurei.
— Você foi um escroto comigo, quando tentou me beijar.
Jasper paralisou, ficando até um pouco pálido.
— Quando… Você sabe bem quando. — Engoli em seco.
Ficamos em silêncio por um tempo, ele desviou seu olhar para o chão, até que sussurrou:
— Sinto muito, eu não sabia que você ainda se sentia mal por isso, depois que voltamos a sermos amigos. E depois do que fizemos na turnê.
— Não me sinto, só… Eu estive pensando sobre o assunto esses dias, sobre as vezes que também cruzei limites.
Jasper ergueu o olhar para mim, eu estava quase chorando.
— Você era muito novo e estava bêbado quando tentei te beijar, foi um erro terrível da minha parte. Quer que eu vá embora? — Fez menção de se levantar.
— Não, eu já te perdoei por isso, sério — declarei, passando uma mão por meus cabelos.
— Edward, o que aconteceu com você em Paris? — perguntou com medo na voz.
O choro venceu, não aguentei. Jasper se levantou e sentou perto de mim, não me tocou, mas ficou falando que eu poderia contar com ele para qualquer coisa. Eu fiquei chorando, encarando minhas pernas balançando sem parar.
— Uma mulher me tocou inapropriadamente — confessei por fim. — No meu pau, ficou esfregando a mão por cima da calça. Eu juro que não queria nada com ela, não dei em cima, ou qualquer coisa assim. Estávamos sentados juntos numa mesa, estava escuro, ela ficou ali passando a mão em mim. Não acredita em mim? Deve tá achando que eu dei abertura pra ela fazer o que fez, né?
— Cara, claro que não! — Jasper exclamou, isso fez com que eu olhasse para ele.
— Eu não dei em cima dela.
— Ei, eu sei, acredito em você. E mesmo que tivesse dado em cima dela, ela te tocou sem que você aprovasse isso, foi um erro dessa mulher, não seu. Quem é ela?
— Não me faz falar — implorei. — Mas não é ninguém que conviva comigo.
— Ok, você quer denunciar ela?
— Não, nunca — neguei e esfreguei meu nariz com a mão, ainda chorava. — Eu não queria nem contar para ninguém. Tô morrendo de vergonha de me sentir mal com isso. Foi apenas uma mulher me tocando, eu não deveria surtar. E tenho direito de surtar quando já fui o cara assediando mulheres por aí?
Jasper respirou fundo.
— Ed, você é a vítima dessa situação. Não importa se é um cara, essa mulher te assediou e ponto. E tá, você já errou antes, mas isso não anula o que está passando agora.
— Você já passou por isso? — me vi perguntando.
Meu melhor amigo suspirou e respondeu:
— Não com uma mulher, mas um cara já me… — Jasper parou de falar. — Acho que você entendeu.
Puta merda, não, ele tinha… Não!
— Por que você nunca me contou? — perguntei em um sussurro de pavor.
— Foi muito antes de eu te conhecer, eu tinha 17, era um cara mais velho que conheci em uma festa. Aconteceu só essa vez, eu não gosto de ficar lembrando.
— E-Eu sin-sinto muito — gaguejei.
— Tá tudo bem agora. — Ele tocou em minha cabeça, um toque amigável e confiável. — E você vai ficar bem também, ok? Precisa falar com seu terapeuta.
— Vou fazer isso amanhã.
— Beleza. E também com seu psiquiatra.
— Não…
— Sim — insistiu. — Precisa ter toda sua equipe médica te amparando nessa, eu não tive isso no passado e foi uma bosta, será bom você ter esse apoio para lidar com isso da melhor forma.
— Não quero que a Bella saiba.
— Eu não vou contar, mas acho que você deveria sim se abrir com ela. — Soltou minha cabeça. — Qualquer coisa tô aqui, tá? E eu sinto muito pelo que você passou, com essa mulher e o que eu te fiz quando você era só um menino de 18 anos. Muita gente já foi escrota com você, comigo, mas isso não é motivo para gente ser escroto de volta. Vamos seguir tentando não errar de novo, só lembra que sobre isso de Paris você não tem culpa alguma.
Assenti, chorei mais um pouco. Apoiei minha cabeça no ombro de Jasper, o guitarrista me deixou chorar, minutos depois, cansado e faminto, eu fiz uma proposta.
— Quer sair? Acho que preciso sair de casa e distrair minha cabeça.
— Precisa sim. Que tal ir jogar boliche?
— Eu topo. Chama a Alice.
— Tem certeza?
— Tenho sim, vou chamar o Alec, minha irmã e Emmett.
— Certo.
Jasper se levantou.
— Ed, você não está bebendo, não é?
— Juro que não, nem usando drogas.
— Eu me sinto culpado, era seu amigo e mais velho, não devia ter te incentivado com o álcool.
— Não se sinta. — Esfreguei meu nariz molhado novamente. — Isso tá no passado. Vamos lá jogar boliche.
Ele estendeu uma mão e me ajudou a ficar de pé.
***
Marquei com Vladmir no consultório dele, queria sair mais de casa, me forçar a não ficar na cama. Sentado em seu sofá, esperei ele fechar a porta e logo depois me entregar uma caixa de lencinhos, estava claro em meus olhos avermelhados que eu precisaria deles.
— Então, o que você me conta, Edward? — perguntou.
Inspirei fundo, soltei o ar com calma e comecei a falar. Contei tudo sobre a noite daquele evento, falei sobre os dias seguintes, contei histórias da minha infância, da adolescência e vida adulta, coloquei tudo para fora.
— Quando criança e no começo da sua adolescência você foi muito podado por seu pai, pela escola que frequentava e igreja — ele disse quando eu acabei. — Depois um mundo novo se abriu, mas você sempre lembraria do que aprendeu em casa e no meio da igreja, já falamos sobre. Hoje citou esse episódio da revista, quando tinha só dez anos, era muito novo e estava sendo apresentado a conteúdo extremamente sexual. E quando ficou famoso, você se tornou um símbolo de desejo, de todas as formas. Com certeza seu corpo foi muito explorado e você precisava corresponder as expectativas, ser um cara heterossexual que as garotas amariam, não se permitia nem explorar sua sexualidade, só seguir as novas regras em seu caminho.
— E por culpa disso tudo eu fui um assediador de merda?
— Você estava reproduzindo o que outros faziam, o que considerava certo dentro do seu lugar como homem privilegiado, branco, cis e até onde se entendia, hétero, só que não é uma desculpa, cometeu seus erros e ponto, talvez alguns precisasse até pagar judicialmente, ao menos agora está os encarando de frente. Edward, você estuprou alguém? — perguntou diretamente.
— Não, nunca — respondi, sentindo meu sangue gelar. — Eu beijava, passava a mão, mas nunca forcei ninguém a transar comigo, a me pagar um boquete, que fosse, eu ficava mais em toques. Bom, só paguei por sexo com dezenas de garotas de programa. Só que estuprar, não, juro que não.
— E você se arrepende de ter contratado essas garotas?
— Acho que sim, eu também consumi muita pornografia, hoje entendo que isso é errado pra caralho. Nos mesmos sites que via porno, eles tinham o vídeo da minha esposa, e quantas outras pessoas não tem esse tipo de vídeo vazado? E quantas atrizes mesmo não são forçadas a fazer o que não querem nesses filmes porno? Sei que é bem escroto, eu não consumo mais tem um bom tempo. Só que ainda me sinto um merda por ter consumido, ainda me sinto inválido de sentir o que aconteceu em Paris depois do meu passado.
— Você foi a vítima em Paris — reforçou. — Uma mulher te tocou sem consentimento, o segurança dela estava naquela porta do banheiro, poderia ter acabado pior. — Eu solucei. — Edward, você cresceu em um lar rigoroso, escutando o pessoal da igreja dizer que não podia fugir da norma heterossexual, com seu pai sendo uma pessoa extremamente conservadora também. Alguém que te virou as costas por meses quando contou a ele que era bissexual. Você fez sexo pela primeira vez aos 14, tinha acabado de completar. Traiu várias das suas namoradas, a última foi Alison, em um show do seu amigo. Stefan, que sempre foi um homem bem machista como você já me disse. Você errou, pode não ter estuprado ninguém, mas errou muito. Não ter estuprado não te faz um santo, não pense assim. E você já foi a vítima outras vezes, apesar de que a história de Paris seja agora o ponto mais marcante dos momentos que foi assediado.
— A mãe da Bella já deu em cima de mim — contei. — Você lembra, né? Eu te contei antes.
— Lembro sim, você acha que foi culpado por isso?
— Não.
— E agora acha que é realmente o culpado pelo o que aconteceu em Paris?
— Eu devia ter percebido quando ela entrou no banheiro.
Ele negou.
— Você estava vivendo sua vida, conversando com seu padrasto, pensando em sua esposa e filha. Lavando as mãos! — exclamou. — Não deveria estar em alerta, achou que ela tivesse se confundido de porta. Depois foi agradável, porque precisava, era parte do seu trabalho. Você não tem culpa de ter sentado entre ela e a parede, essa mulher teria dado um jeito de te atacar. Ela é a culpada, você não fez nada de errado. Seus erros são outros, esse não é um deles.
— Ok.
— Quero que procure seu psiquiatra, vou entrar em contato com ele e conversar um pouco. Talvez seja a hora de você voltar a usar medicamentos para ansiedade e depressão.
Eu me vi destruído, mas era diferente de quando fui parar naquela reabilitação depois de socar o paparazzi. Naquele dia me senti perdido, porém sabendo como voltar para a rota certa.
— Você tem tido pensamentos suicidas, Edward?
— Não — garanti, porque não tinha tido mesmo. — Mas por mim passaria o dia na cama.
— Vamos aumentar suas sessões, principalmente com o dia do Grammys chegando. Além do psiquiatra também é bom que faça suas atividades físicas, elas são boas para você, mas sem exageros e se lembrando que é pela sua saúde, não porque seu corpo precisa ser perfeito. E se sentir pronto, converse com sua esposa sobre o que aconteceu, afastá-la como está fazendo só vai te fazer sofrer mais. Se preciso, busquem terapia de casal para conseguir contar. Edward, o que você não é?
— Não sou o culpado — sussurrei.
***
Naquela tarde conversei um pouco com Isabella por ligação, não cheguei nem perto de lhe contar o que tinha acontecido, mas lhe avisei que eu teria uma consulta com meu psiquiatra no dia seguinte e que poderia acabar precisando voltar a tomar remédios. Isso não a pegou de surpresa, tinha visto como eu estava, pediu que me cuidasse, insistiu para não faltar na consulta e garantiu que se fosse preciso cancelaria toda minha agenda para preservar minha saúde.
— Se eu não der conta de algo te aviso — murmurei.
Eu estava na gravadora, tinha ido me encontrar com Kate, antes de seguir aquela noite para uma entrevista ao vivo que daria na TV. Era parte da campanha para o Grammys, eu precisava ser visto.
— Como está aí? Vi a foto que você postou com sua cadeira de produtora — comentei.
— Está tudo bem, Aro é um diretor excelente, os atores apesar de novos também são ótimos. E New York é um sonho, eu amo essa cidade e está casando perfeitamente com o clipe.
Quando ela disse o nome da cidade algo estalou em minha cabeça.
— Richard te procurou? — indaguei.
— Não, eu nem sei se ele está aqui — resmungou.
— E ele foi convidado para a festa que teremos na casa do seu pai no dia 25?
— Edward, você sabe que ele e meu pai são amigos, um convite foi enviado, mas ainda não recebemos resposta dele.
Apoiei a mão livre na parede atrás de mim, nervoso só de pensar em topar com esse cara em alguns dias.
— Eu comprei algo para Holly hoje — contei, mudando de assunto, ainda que em minha cabeça estivesse imaginando cenários terríveis em que Richard estaria presente naquela festa.
— O quê?
— É uma roupinha com a cara da Taylor Swift, só que em desenho, bem simples e capaz do site ser um golpe, mas achei sua cara.
— É minha cara mesmo. Obrigada por comprar, sei que vou amar, me manda uma foto depois de como é.
— Pode deixar. — Me afastei da parede. — Capitã, eu te amo muito. Também amo a Holly pra caralho. Eu estou mal agora, mas não é nada que envolva vocês duas. — Minha esposa fungou. — Vocês são tão especiais para mim, não ache que seja o contrário, nem por um segundo.
— Se cuida — pediu mais uma vez. — E logo estaremos juntos, tá?
— Sem pressa. Hoje já estou bem melhor.
Era verdade, mas longe de estar livre de todos meus fantasmas.
— Aro te contou sobre o papel de Amber no filme dele?
— Hum, não, nem perguntei sobre.
— Eu descobri, quando estava em Paris… Enfim, ela será a Marylin Monroe.
— Tá de sacanagem? — ela perguntou em um grito.
— Não tô. — Eu ri. — Será um filme sobre o John F. Kennedy.
— Caralho, ela é muito esperta, primeiro papel e já será imenso assim.
— Pois é. Por que não fala com ele sobre a ideia que teve em Bath? Você escreveu algo para o roteiro? — Ainda em Bath já tinha insistido para ela fazer aquilo.
— Sinceramente? Tentei escrever algo no avião vindo para cá, mas estava tão estressada que saíram somente duas linhas, apaguei o arquivo permanentemente. Esses dias em New York quero focar no clipe, também não quero distrair Aro com essa ideia.
— Um dia fala com ele sobre — insisti, Bella riu suavemente.
— Você não larga do meu pé, pirralho.
— Nunca. Mas agora preciso voltar ao trabalho, linda. Nos falamos depois, antes de eu ir para a entrevista, tá?
— Que tal uma chamada de vídeo quando você voltar para casa? — sugeriu, eu travei, não queria aquilo. No meio da confusão em minha cabeça, sexo era a última coisa que queria fazer.
— Já vai ser tarde aí quando eu voltar do programa, é melhor você descansar.
Ela ficou em silêncio, mas por fim concordou.
— Ok, nos falamos depois. Tchau.
— Tchau, Capitã.
***
Irina tinha sido promovida, não era mais a assistente da minha esposa, sim minha nova carrasca. Não que ela fosse tão mandona quanto Bella, ou tirana como Tanya, ainda era muito boazinha.
— Você não pode falar do clipe da Isabella no programa — ela falava comigo antes de eu entrar no estúdio. — Ela vetou isso, por favor, não fala — pediu, eu ri. Irina ficou visivelmente desesperada, ainda mais.
— Calma, vou seguir suas ordens — deixei claro. — Nós dois não queremos irritar a Bella, vamos cooperar e não burlar as regras dela.
— Ufa, obrigada! — agradeceu. — Não quero ser demitida agora que acabei de ser promovida.
— Do que mais não posso falar? — Voltei para a cadeira de maquiagem do camarim, eu já estava pronto, apenas esperando a hora de me chamarem. Bebi um pouco da água que tinha levantado para pegar.
— Não pode citar nenhuma ideia que Bella teve em Bath — disse confusa.
Revirei meus olhos.
— Ok, sei bem do que se trata, irei manter sigilo. Posso falar da Holly, não posso? — Irina abriu um sorriso gigantesco.
— Pode sim, a Bella liberou. Ela disse que seria legal você mencionar a roupinha que comprou hoje, me mandou uma mensagem ainda agora mandando incluir isso.
— Beleza, vou dar um jeito de encaixar no meio da entrevista. E aí, como seu substituto tá se saindo? Ele ainda não cogitou pedir demissão?
— Ai, acho que até agora ele tá indo bem — murmurou nervosa.
— E você parece que vai desmaiar, então se acalma — pedi. — Não se preocupa, está virando minha agente em um momento bem tranquilo da minha vida, sou casado e pai de família, um anjo sem problemas
Irina forçou um sorriso.
— E se Bella e Tanya escolheram me deixar com você sendo minha agente é porque confiam no seu trabalho.
— Tanya mais cedo disse que eu nunca mais seria contratada nessa cidade caso não me saísse bem. Quer dizer, sendo justa ela disse isso para todos os outros agentes novos na reunião que tivemos.
— Ansioso para conhecer eles. — Não estava. — Tenho certeza de que aí nesse seu documento tem roteiro de perguntas e respostas, vamos repassar? — questionei e apontei para o tablet em suas mãos.
— Vamos. Ed, pode nos contar um pouco como foi seu tempo na França recentemente?
Uma merda. Enjoei só de pensar nos últimos dias em Paris, mas engoli em seco, sorri e dei uma resposta animada. Iria me sair muito bem na campanha, iria ganhar ao menos um Grammy.
***
Na terça-feira Irina e eu seguimos até a Swan Productions, após sairmos da rádio onde tinha dado uma entrevista na hora do almoço. Meu dia estava sendo cheio, antes daquele compromisso profissional, onde fui entrevistado por um cara mala, tive a consulta com meu psiquiatra.
Uma longa consulta, quase duas horas em seu consultório, acabando com prescrição para um remédio de uso contínuo. Eu começaria a tomá-lo naquela noite, começando com uma dosagem mais baixa, com o tempo meu médico iria fazer as mudanças necessárias.
Não estava contente com isso, mas não fugiria do tratamento. Queria cuidar da minha saúde mental, precisava fazer isso para melhorar. E em alguns meses minha filha nasceria, também precisava estar bem para cuidar dela e de Bella.
— Greg, pode abrir a sala da Bella? — Irina perguntou assim que deixamos o elevador, no andar da sala da minha esposa na produtora.
Eu precisava pegar uns papéis da nossa boate que estavam ali, assinaria algumas coisas e aproveitaria para almoçar na sala dela, enquanto descansava até meu próximo compromisso. Uma sessão de fotos ali na produtora, no mesmo lugar onde fui fotografado quando assinei o contrato com a Swan Productions.
— Olá, Greg! — Acenei para o novo assistente de Bella, satisfeito de que eu tinha gravado o nome.
— Olá, senhor Cullen. — Ele acenou de volta. — Lamento muito, mas a Bella me deu ordens expressas de não deixar ninguém entrar na sala dela. Vou mandar uma mensagem e ver se ela libera sua entrada, ok?
Eu revirei meus olhos, não acreditava que estava sendo barrado. Irina resmungou, mas deu um sorrisinho satisfeito por seu sucessor ter pulso firme. Greg enviou a mensagem e me lançou um sorriso amarelo quando recebeu a resposta.
— Mil desculpas — pediu, rapidamente pegando a chave da sala e se levantando para abri-la. — Não sabia que você tinha passe livre, mesmo sendo casados. Pode entrar. — Indicou o interior da sala.
— Obrigado, Greg — agradeci e fingi animação. — Nunca mais me faça esperar — reclamei, e antes de entrar na sala fiz uma exigência para ele e Irina. — Quero meu almoço logo, estou morrendo de fome. Salmão grelhado, salada de folhas e um suco de frutas vermelhas. De sobremesa quero cookies de chocolate meio amargo. Meia hora no máximo, acha que consegue, Greg?
— Cla-Claro — gaguejou.
— Excelente.
Entrei na sala, bati a porta e soltei uma risadinha. Era escroto da minha parte tratar eles assim, especialmente o novato, mas quem o assistente pensava que era para impedir minha entrada?
Liguei para Isabella, que logo atendeu.
— Onde estão os documentos mesmo, linda? — fui logo perguntando.
— Última gaveta da minha mesa, lado esquerdo, é uma pasta azul com o nome da boate. Assina tudo, tem um funcionário da boate indo pegar. Greg realmente te impediu de entrar na minha sala?
— Sim, pelo menos ele tá seguindo suas ordens, só faltou especificar para seu novo funcionário que seu marido tem direito de entrar aqui.
Bella riu, com ar de deboche.
— Não te quero circulando livremente na minha sala, você bagunça tudo.
— Bagunço nada. — Fui até sua mesa, localizei a pasta com facilidade e fui assinar tudo sentado no sofá, precisava esticar minhas pernas.
— Escuta, qual remédio seu médico receitou mesmo? Quero checar a bula dele no Google.
Respondi falando qual era, já tinha dito para ela antes da entrevista na rádio, mas foi no meio da correria.
— Ok, já comprou?
— Já, vou tomar ele direito — prometi. — Rose vai ficar lá em casa essa semana para ficar de olho em mim.
Minha irmã era um anjo, mas isso já estava óbvio há muito tempo.
— Tudo bem, sua mãe e eu ficamos mais tranquilas assim.
— Como ela tá? Ainda apaixonada por Aro?
Ela riu outra vez, suavemente.
— Completamente, almocei só com os dois hoje e foi meio constrangedor ficar ali segurando vela. Ah, antes que eu me esqueça, Tanya e Santiago vão viajar no sábado, ficarão fora até domingo à noite. Eu tinha nos voluntariado como babás de Tina, antes de você voltar de Paris — sussurrou. — Mas caso não queira, eu falo com a Tanya agora e ela arranja outra pessoa para cuidar de Valentina.
— Não, não precisa. — Eu ainda não estava bem com tudo que tinha acontecido em Paris, iria ficar uma bosta com os efeitos colaterais do remédio. Porém, poderia ser divertido ser babá de Tina, e se ela me enlouquecesse eu já estaria medicado. — Vamos ficar com ela.
— Tá ok. Agora preciso desligar, vamos filmar outra cena em cinco minutos. Não deixa minha sala uma zona.
— Eu não vou — prometi. — Até depois, linda.
— Tchau, pirralho.
Assim que desliguei a chamada joguei o celular sobre o sofá e terminei de assinar os documentos. Quando acabei fechei os olhos, me aconcheguei melhor ali e estava quase dormindo quando Irina e Greg entraram na sala, o funcionário da boate estava na porta, mas eu não me lembrava do nome dele.
— Tudo aqui. — Passei a pasta com os documentos para Irina, que repassou para o cara, logo os dois estavam fora, enquanto Greg arrumava na mesa minha comida.
O assistente tinha sido rápido, pontos para ele.
— Precisa de mais alguma coisa, senhor Cullen?
— Você pode me chamar de Ed. — Levantei e fui até a mesa onde ele tinha arrumado tudo para eu comer. — Isso é tudo, valeu.
— De nada. — Assentiu e deixou a sala.
Eu comi em silêncio, tentando evitar o assunto Paris que ficava voltando aos meus pensamentos mesmo contra minha vontade. Estava perdendo a fome com isso, mas me forcei a comer, não podia vacilar e acabar me alimentando mal, só ia piorar meu estado como um todo.
Acabei de comer, consegui tirar um cochilo no sofá e vinte minutos depois voltaram a perturbar minha paz. Daquela vez foi Tanya.
— Olá, Bela Adormecida! — ela exclamou.
— Não, você não — protestei. — Cadê a Irina? Ela é mais legal comigo — resmunguei e voltei a fechar meus olhos.
— A loira misteriosa flagrada com Ed Cullen?
— Como? — indaguei confuso e abri os olhos.
— Um paparazzi espertinho fotografaram vocês saindo juntos da rádio, mas em um ângulo que escondia o rosto dela e um site está especulando que você está com outra mulher.
— Que maravilha — resmunguei e me sentei. — Era só o que faltava. As pessoas estão acreditando nisso?
— Não, mas uma parcela das suas fãs, que não gostam da Bella, estão torcendo para você e Irina se apaixonarem.
— Não seria melhor trocarem Irina? — perguntei preocupado. — Me colocarem com Alistair ou o outro agente que contrataram, como é o nome dele mesmo?
— Lucas e não, sugeri isso para Bella, mas ela prefere que você continue com Irina mesmo, ou iriam especular mais em cima desse afastamento repentino após esse site levantando você tendo caso com a tal loira misteriosa.
— Ok, vocês que sabem. — Bocejei. — Já preciso ir tirar as fotos?
— Em alguns minutos, queria falar com você antes, sobre outra coisa.
— Diga.
Tanya caminhou e sentou ao meu lado.
— Posso te ajudar em algo que aconteceu em Paris? Bella disse que você estava estranho desde os últimos que esteve lá. Aconteceu alguma coisa? Eu vou te ajudar, pode confiar em mim.
Engoli em seco e neguei.
— Está tudo bem, Tanya.
— Foi alguma mulher? — Eu paralisei, mas suas próximas palavras não foram nem perto do que realmente rolou na França. — Você ficou com alguém?
— Eu não traí a Bella.
Tanya suspirou e deu uma batidinha em minhas costas.
— Ok, mas se eu descobrir que traiu vou acabar com sua vida por magoar minha amiga.
Dei um pequeno sorriso, mas ainda triste por ela também não confiar em mim.
— Sempre vou carregar essa fama, né?
— De traidor?
— É.
— Nossos erros são mais fáceis de serem lembrados do que nossos acertos, não é?
— Acredito que sim, eu mesmo mal lembro dos meus acertos. — Fiquei de pé. — Melhor irmos para a sessão de fotos logo.
***
Depois da sessão de fotos fui para minha casa, chegando lá falei um pouco com Bella por ligação, mas ela tinha coisas para fazer em New York e precisamos desligar. Minha irmã já tinha aparecido, então me juntei a ela na sala de TV para uma maratona dos filmes de Harry Potter, eu não curtia muito, mas qualquer coisa que me distraísse era válida.
— Como tá indo a campanha? — Rose perguntou no final do primeiro filme, enrolando uma mecha de cabelo em seu dedo.
— Tudo bem, meus próximos dias serão movimentados, mas espero que tudo isso seja recompensado comigo vencendo no final.
Ela sorriu para mim, esticou uma mão e mexeu em meus cabelos.
— E as coisas do seu livro?
— Estão indo bem também, às vezes bate uma síndrome do impostor, mas estou sempre me lembrando que mereço tudo isso. Oi, lindão! — Shrek apareceu na sala, vindo se juntar a mim no sofá, deitando parte do seu corpo sobre o meu. — Esse cachorro te ama muito, como é que pode?
— Ele sabe que somos parecidos. — Abracei Shrek e me vi caindo em uma crise de choro.
— Edward, por favor, me conta o que está acontecendo — Rosalie implorou apreensiva.
— Não quero — sussurrei, Shrek lambeu minhas lágrimas, isso me fez rir. — Obrigado, cara.
— Quer que eu tire o filme?
— Não, vamos continuar. — Parei de chorar aos poucos.
Rosalie assentiu e deixou o segundo filme começar, algum tempo depois nosso jantar chegou e nos entupimos de comida japonesa. Que Bella não soubesse disso, ou arrancaria minha cabeça por estar comendo aquilo enquanto ela estava proibida.
Mais tarde aquela noite tomei meu remédio, em poucos minutos eu dormi. Uma noite sem pesadelos, sem acordar e ficar pensando demais. Uma noite tranquila.
***
A manhã seguinte não foi fácil, eu estava péssimo com os efeitos colaterais do remédio. Nauseado, inquieto, disperso, com uma fome gigantesca e até com nariz entupido.
— É uma das reações, fique de olho, mas caso se sinta muito incomodado pode procurar o pronto atendimento e voltar a entrar em contato comigo — meu médico respondeu quando lhe liguei para me queixar disso.
— Tá ok — resmunguei, assoando meu nariz em um lenço de papel, estava começando a escorrer.
E para completar eu passaria o dia, manhã e tarde, gravando a minha primeira campanha para a YSL. Já estava no estúdio onde ela seria gravada, tentando não pegar no sono enquanto esperava minha vez de ir gravar.
— Já vão vir te maquiar — Irina anunciou entrando no camarim. — Como está seu nariz?
— Uma bosta. — Assoei em outro lenço. — Cadê meu remédio?
— Aqui. — Ela tirou de sua bolsa uma sacolinha da farmácia, tinha mandado um dos funcionários da Swan Productions que estava nos acompanhado ir comprar o remédio que eu usava quando estava com o nariz irritado por alguma coisa, meu médico tinha liberado o uso.
— Não acredito que vou passar o dia gravando assim. — Logo abri a caixinha e espirrei o remédio no nariz, sentindo um pouco de alívio. — Se tem alguém mais azarado do que eu nesse mundo deve ser um irmão gêmeo perdido, que bosta. — Coloquei o remédio do outro lado.
— Bella disse que conversa com o pessoal da marca se você quiser adiar.
— Não, eu não quero! — neguei e joguei a cabeça para trás. — Essa porra arde até meu cérebro, mas ajudou pra caralho. E sério, nem pensa em falar nada sobre adiar com a Isabella, eu vou gravar essa campanha, estou bem.
Eu não estava 100% e deveria estar poupando minha saúde, mas ainda queria fazer todas as partes do meu trabalho com o máximo de perfeição. Descansaria depois, não naquele momento.
***
De noite, totalmente exausto e ainda com o nariz ruim, mas um pouquinho melhor no geral, eu segui até a casa do Caipira Swan. Precisávamos ensaiar Johnny Cash para a festa do dia 25, ele estava indo muito bem na sua parte, mas eu estava podre.
— Ok, intervalo! — ele gritou no meio da música.
Eu não reclamei, me livrei do violão e deitei no palco que já estava montado no quintal da casa dele.
O pai da minha esposa sentou sobre um amplificador perto de mim, depois de dispensar o resto da banda.
— Bells me disse que você estaria mal porque iniciou um remédio novo.
— Sim, estou cansado. — Limpei o nariz na manga do suéter que usava. — Mas já vou levantar pra gente voltar a ensaiar.
— Sem pressa. Na verdade, você já fez nebulização para ajudar com isso?
— Não, vou fazer quando chegar em casa, no meio das gravações da campanha não teria como, foi tudo muito corrido pra sair quanto antes.
— Entendo bem. Levanta aí, Cabeludo Britânico — mandou. — Vou preparar uma nebulização para você.
— Sério? — perguntei desconfiado, Charlie riu.
— Sério. Levanta desse chão.
Eu levantei, ainda desconfiado de Charlie sendo legal comigo, Bella tinha o obrigado a isso? Segui ele até o interior da sua casa, a banda continuou no quintal, estavam comendo e batendo papo. Ness tinha saído com Lucy e Carmen estava ocupada com seu álbum, sendo assim não vi nenhuma das duas.
Charlie me deixou no seu estúdio, voltando depois com o aparelho para inalação. Ele ligou e me entregou, sentei na poltrona que tinha ali, pela primeira vez no dia me sentindo minimamente bem.
— Valeu — agradeci.
— Não tira a máscara — ordenou, eu assenti e voltei a colocá-la em meu rosto. — Se você quiser podemos cancelar a apresentação de Johnny Cash na festa — falou e pegou um violão que tinha ali, sentando-se em um banquinho. — Sua saúde é mais importante do que isso.
Aquilo me pegou mais desprevenido do que ele preparando uma inalação para mim. Contive a vontade de chorar que aquela frase gerou em mim, não falamos nada até terminar o que estava fazendo, quando isso aconteceu eu desliguei o aparelho e murmurei:
— Obrigado, Charlie.
— Não por isso. — Continuou a tocar, mas olhou para mim. — Como se sente?
— Melhor, mas ainda cansado. Mas precisamos ensaiar, eu não quero deixar de me apresentar na festa.
Ele bufou.
— Não precisamos continuar ensaiando, garoto. Você e eu já conhecemos essa música muito bem. Fica aí, vou mandar todo mundo ir embora. Menos o Jasper, vocês podem ficar e jantar aqui.
Ele deixou o estúdio, quando retornou disse que meu amigo tinha recusado o jantar, Alice queria levá-lo para a inauguração de um restaurante.
— Vai tomar o remédio por quanto tempo? — Charlie perguntou enquanto nos serviamos do jantar, Nessie já tinha voltado, mas estava distraída do outro lado da mesa trocando mensagens com alguém em seu celular.
— Ainda não tem um tempo certo. — Mordi um pequeno pedaço da batata recheada que nos serviram. — Eu estou sem fome, comi muito mais cedo, acho que vou logo para casa dormir.
Ness me olhou naquele momento.
— Dorme aqui, você pode ficar no quarto da Bells.
— Trouxe seu remédio? — Charlie perguntou.
— Sim, mas meu horário de tomá-lo é só daqui duas horas.
— Suba, durma um pouco e quando for a hora eu te aviso.
No meio de tudo aquilo não perdi a oportunidade de provocá-lo.
— Você gosta de mim, sogro.
Charlie bufou, Renesmee riu.
— É sério, vai descansar, Ed — ela insistiu.
— Você pode avisar minha irmã que vou ficar aqui, cunhada?
— Aviso sim.
— Beleza, não esqueçam de me acordar — pedi e subi para o quarto de Bella, levando minha mochila que eu tinha largado na sala de estar quando cheguei, por sorte tinha duas trocas de roupas ali, fora meu remédio e um monte de outras coisas.
Mas não precisei de distrações para dormir, adormeci rapidamente e na hora certa Charlie apareceu com um copo de água.
— Toma seu remédio.
— Valeu — agradeci. — Meu nariz tá muito melhor.
— Claro que está, agora toma logo a porra do remédio. — Enfiou o copo em minhas mãos e andou até a porta, mas parou e disse antes de sair. — Sei que você está louco para ganhar aqueles prêmios, garoto. Mas, acredite em mim, eles são só uma parte da nossa profissão. Uma profissão fodida pra caralho, que pode ser muito injusta com uns, que nos deu muito, só que ainda só uma profissão, não exija muito de si por conta dela.
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Na quinta-feira eu gravei um especial acústico que iria em alguns dias para o canal de uma rádio importante no Youtube, com algumas das músicas do álbum, seria um show de meia hora, gravado no estúdio deles somente com minha banda. Pela tarde eu fui fazer fotos para a YSL. De noite jantei com Laurent e alguns figurões da indústria musical em um restaurante conceituado, me deixando ser fotografado por paparazzis, precisava ser visto.
Também passei o dia alimentando minhas redes sociais, entre os compromissos, postando stories no Instagram, respondendo perguntas no Twitter e até aparecendo nas redes de Kate que jantou com Laurent e eu. Só parei quando voltei para casa, tomei meu remédio e dormi dividindo a cama com Shrek e Woody.
Na sexta-feira, pela manhã e a tarde eu estava provando roupas para a festa daquela noite, tirando fotos para a campanha de outra marca que me patrocinava, visitando um lar de idosos e encomendando um presente para Bella. Não iria buscá-la no aeroporto no final da tarde, então mandei fazer uma caixa de donuts com a massa dos doces modeladas formando a palavra Bem-Vinda. Conhecia bem minha esposa, ela não gostaria de ser recebida com flores, mas amaria aquilo.
Quase às seis da tarde entrei em casa, Nelly estava lá e minha irmã de saída, ela ia se arrumar para a festa no apartamento de mamãe, que também já estava em solo californiano. Às seis e sete, Bella chegou.
Shrek, Jude e Madonna ficaram loucos, latindo para a porta, arranhando e balançando os rabos sem parar. Quando ela entrou, sorrindo de orelha a orelha, eu estava ali, atrás dos cachorros, com Amy passeando entre minhas pernas, segurando a caixa dos donuts.
— Oi, meus amores! — Bella exclamou, largou sua bolsa sobre a mesinha perto da porta e se ajoelhou no chão junto dos nossos animais, Amy se afastou até ela naquele momento também. Woody estava no quintal, perseguindo borboletas. — Como senti a falta de vocês. Você foi um bom irmão mais velho como eu pedi, Shrek? — Ele lambeu o rosto dela, isso a fez rir, eu ri também e ela olhou para mim, ficando apreensiva.
— Oi, Capitã.
— Oi — murmurou. — O que é isso? Donuts?
Assenti e movi a caixa de forma que ela pudesse ler o que estava escrito, isso a fez sorrir.
— Obrigada, amor — agradeceu, pegando o pequeno Jude no colo, ele estava choramingando de ansiedade por revê-la. — Eu sei, baixinho, também te amo!
— Quer comer agora?
— Preciso de um banho, em uma hora o pessoal estará aqui para arrumar a gente para a festa, não quero me atrasar com nada. — Ela deixou Jude no chão e levantou. — Mas obrigada, meus seguranças vão levar minhas coisas lá pra cima.
— Beleza.
Bella pegou sua bolsa, passando por mim sem parar para nada. Deixei ela ir, o clima ainda estava confuso entre nós dois. Levei os donuts de volta para a cozinha, Nelly estava dispensando a equipe de limpeza que trabalhou em casa aquele dia, peguei uma garrafa de água e fui para a sala de TV, com Shrek me seguindo, ele ficava perto de mim em todos os momentos possíveis.
Não fiquei muito tempo na sala de TV, estava com tantas saudades de Bella, queria vê-la melhor. Fui atrás dela, Shrek foi junto.
Ela estava saindo do banheiro, usando um roupão e com uma toalha na cabeça.
— Precisava de um banho — disse indo para o closet, eu sentei na nossa cama, Shrek ficou no chão, mas cutucou minha perna com o focinho antes de deitar.
— Conseguiu dormir? — perguntei quando ela voltou, trazendo consigo um creme que eu sabia ser para suas mãos.
— Sim, o que vai me ajudar a encarar a festa até tarde.
Sentou do outro lado da cama, tudo entre nós dois estava muito mecânico e distante.
— Como estão os efeitos colaterais? — quis saber, ainda passando creme nas mãos.
— Estou melhor hoje, ainda muito cansado, mas aguentando.
Ela assentiu, sem olhar para mim.
— Desculpa não ter ido te buscar no ae…
— Eu sei, você estava ocupado, ajudei a montar sua agenda, sei que não é sua culpa.
— Beleza. Holly?
— Tudo bem — garantiu, uma mão indo até sua barriga por cima do roupão.
Pensei na minha filha, algo que não tinha feito muito nos últimos dias, enquanto estava mergulhado em meus próprios problemas. Isso foi o gatilho para eu começar a chorar, o que fez Bella olhar para mim, novamente apreensiva.
— Quer que eu te deixe sozinho? — perguntou ficando de pé, Shrek também se levantou e ficou puxando a barra da minha calça.
— Fui um péssimo marido e um pai horrível nos últimos dias, fiquei tão concentrado em mim mesmo. — Olhava para a cama, esfregando minha mão sobre a coberta branca. — E agora to tomando esse remédio, eu não queria ter regredido assim, não queria ter te afastado quando voltei de Paris, sinto que to fazendo tudo errado.
— Olha para mim, Edward.
Olhei, exausto.
— O que aconteceu em Paris?
Eu chorei mais, ainda olhando para ela, estava apavorada. Afaguei a cabeça de Shrek, ainda puxando minha calça.
— Me conta, você sabe que pode contar tudo para mim.
— Genna Adams. — Estremeci ao dizer o nome. — Ela ficou passando a mão em mim no evento que conheci ela — contei por fim, o creme que Bella segurava caiu no chão, seu rosto paralisado. — Eu não dei em cima dela, ou qualquer abertura, juro que não. Mas ela primeiro me cercou no banheiro, na hora não percebi isso, depois sentamos juntos com um cara da YSL, fiquei entre ela e uma parede, foi quando ela ficou me tocando por cima da calça. Depois Jessica apareceu. — Solucei. — E antes de eu ir, Genna perguntou meu preço para transar com ela. Ainda me procurou por mensagem, mas ignorei e bloqueei. Juro que foi isso, juro que não te traí com ninguém. Te amo tanto, nunca faria isso. — Tentei limpar as lágrimas, mas elas não paravam. — E o que ela fez comigo… Me fez pensar em quantas vezes eu não fui o assediador, me fez falar na terapia sobre como desde cedo fui sexualizado. E-Eu — gaguejei. — Você passou por tanto, Bella, bem mais do que eu, sou só um cara choramingando por nada. Sentindo o peso dos meus erros, precisando de remédios só porque uma mulher passou a mão em mim. Isso tudo é mínimo perto do que já te aconteceu, do que aconteceu com tantas mulheres, tô me sentindo um lixo por ser fraco assim.
— Não, não! — ela exclamou, subiu na cama e se moveu até mim, segurou meu rosto entre as mãos, de forma firme. — Você foi a vítima. Já errou, sim. Mas nessa situação não tem culpa de nada e se isso te machucou, é válido. Porra, como eu quero ir dar um soco nessa velha filha da puta.
Chorei mais, Bella beijou minha testa.
— Tô com você — sussurrou contra minha pele. — Para sempre, amor. Pode se sentir fraco, isso não é um problema. Foda-se quem diz que homem não pode ser, você pode sim, todos podem. — Voltou a olhar para mim. — Você foi uma vítima, tá? Ela te machucou emocionalmente, te tocou fisicamente como não tinha permissão, aceita isso, não segura. Nunca mais vou deixar essa mulher te tocar, te machucar, juro.
Isabella me deu um forte abraço, me deixando chorar em seu colo, me ajudando a remover parte do peso que estava segurando nos últimos dias.
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