Hollywood
46 Capítulo Quarenta e Cinco
Notas iniciais
Capítulo Quarenta e Cinco
Edward Cullen
“Ele está destruindo a própria carreira, críticos do mundo da música falam sobre Ed Cullen.”
Quando algo dava certo eu bebia, quando algo dava errado eu também bebia. Era assim que as coisas funcionavam no passado, o álcool era o melhor amortecedor de sentimentos, ou o melhor desinibidor dos mesmos.
As drogas eram a mesma coisa, mas ainda assim de uma forma diferente. Comecei a beber antes mesmo de ser famoso, querendo me encaixar nas rodinhas de amigos que também bebiam — ou mesmo por influência e por achar algo muito maduro quando via meus próprios pais e adultos bebendo em festas e jantares especiais —, as drogas vieram depois, quando eu tinha muito mais com que lidar.
Turnês, críticas, cansaço, paixões, fãs, imprensa e família. A maconha veio primeiro, todo mundo fumava e as reações nem eram tão graves assim. Entretanto, quando aceitei a cocaína, foi precisando fodidamente de um escape, algo que nem mais o álcool dava conta, quando eu não aguentava mais.
***
Eu ouvia os gritos, o choro e meu nome sendo repetido sem parar. Mas não enxergava nada, não conseguia abrir meus olhos.
— Vamos lá, cara! — alguém falou e me senti sendo erguido do chão.
— Ele vai ficar bem? Ele vai ficar bem? Ele vai ficar bem? — Alguém perguntava sem parar.
Eu ficaria bem?
***
Despertei sentindo muita dor de cabeça, minha garganta também estava seca, assim como a boca e sentia meu corpo todo mole. Eu estava suando, o que me deixava com sensação de nojo de mim mesmo. Com os olhos entreabertos eu via o travesseiro ao meu lado, mas estava com a visão embaçada o suficiente para não ver muito mais.
— Sente-se! — a voz feminina ordenou, fazendo com que eu me arrepiasse de medo.
Mesmo com o corpo protestando contra, eu sentei. Meu coração também estava acelerado, a vontade de chorar já dando um oi para completar.
Minha mãe estava parada junto a minha cama, com um grande copo de água em mãos. Séria, Esme não deu qualquer sorriso para mim e esticou o copo, indicando que eu deveria o pegar.
Assim o fiz, pegando o copo e tomando um bom gole da água, o que melhorou só um pouco da secura em minha boca.
— Do que você lembra? — ela indagou.
— De nada — menti, eu me lembrava de algo, de ter bebido muito.
— Ah, você não se lembra de nada? Coitadinho — ela disse com deboche na voz. — Muito útil ter uma amnésia por conta da sua bebedeira agora, não?
— O que você quer que eu diga? — indaguei, encarando o copo e bebi mais um pouco da água.
— Quero que assuma seus erros, Edward Cullen. Isso é o que quero de você.
— Falando assim você faz parecer que matei alguém — resmunguei e a olhei. — Bom, tecnicamente sou o culpado pela morte do Stefan, é isso que quer que eu assuma?
— Você não é culpado de forma alguma pela morte do Stefan, Edward — ela disse entredentes.
— Eu sou, se ele… — Minha fala foi interrompida por Esme acertando um tapa em meu rosto. — Você enlouqueceu? — gritei com ela.
— Sim, assim como você! — Lágrimas rolaram pelo rosto dela. — Me desculpa, mas não posso ouvir você se culpando mais nenhuma vez por essa morte. A culpa foi de Stefan, ele quem bebeu e dirigiu, ele quem resolveu apostar corrida. Não vou ficar ouvindo meu filho se culpando por uma morte, então, me desculpe por lhe bater, mas preciso que desperte para a realidade, para te impedir de ficar se culpando por esse acidente, preciso fazer com que você pare de tentar matar a si mesmo por essa culpa sem sentido.
— Não estou tentando me matar — murmurei, ela suspirou e sentou perto de mim na cama.
— Você voltou a beber, Edward. Metade de uma garrafa de vodca ontem a noite, provavelmente teria bebido mais, porém apagou antes disso. Rosalie ficou preocupada com você sozinho lá embaixo, se desesperou quando viu que a porta estava trancada e não tinha uma resposta sua. Ela me acordou, nós chamamos por Emmett e ele conseguiu abrir a porta. — Respirou fundo, chorando mais. — Você estava largado no chão, segurando a garrafa de vodca, com vômito ao seu lado e em suas roupas, tinha feito xixi ali mesmo. Foi diferente de todos seus outros porres, eu sei que foi. — Soluçou. — Você teria se matado se tivesse acesso aos seus remédios, ou se tivéssemos uma maldita arma aqui.
— Não queria me matar — sussurrei, ela segurou meu rosto entre suas mãos.
— Filho.
— Eu só queria que parasse de doer, mamãe — falei, começando a chorar. — Só queria ser feliz de novo.
— Ah Deus, meu menino! — Ela me colocou em seus braços, fazendo com que nós dois chorassemos juntos. — Vou cuidar de você — Esme falou afagando minhas costas. — Você vai ficar bem, eu prometo.
***
Depois de minutos chorando no colo da minha mãe, sem falarmos mais nada, ela me mandou ir tomar um banho. Eu fiz aquilo, demorando mais de uma hora debaixo da água, conseguindo lembrar com mais clareza da noite anterior, o sexo ruim com Leah, as vodcas na geladeira dela e eu enchendo a cara na sala de música.
Estava arrependido, mas ainda assim queria mais da bebida, eu sabia que seria mais dificil ainda me manter afastado depois de beber de novo. Era um maldito ciclo sem fim, eu morreria sendo um completo viciado.
Deixei o banheiro, me vesti e saí do quarto. Madonna e Shrek me acompanharam até a cozinha, onde minha irmã estava, na companhia de Jasper, o que me surpreendeu.
— O que está fazendo aqui? — perguntei para ele, que me olhou confuso e respondeu:
— O que acha que estou fazendo aqui? Vim ver se você está bem, estou aqui desde madrugada quando fiquei sabendo que aconteceu. — Isso explicava suas roupas, as mesmas que ele estava usando na foto que postou com Isabella. Engoli em seco e me voltei para Rosalie, ela desviou o olhar de mim e saiu apressadamente da cozinha sem dizer nada. — Você precisa comer algo! — Jasper exclamou e apontou para toda a comida de café da manhã sobre o balcão, mesmo que já fosse quase meio-dia.
Eu não queria comer nada, meu estômago doía e estava enjoado, mesmo assim me arrastei para perto do balcão e peguei uma torrada. Tinha suco de morango, o cheiro exalava por todo o lado, mas o ignorei, aquilo só me fazia pensar em Isabella.
— Você… — Jasper começou a falar, mas o interrompi questionando:
— Se divertiu ontem? Em que festa você e Isabella estavam? — Ele arqueou uma sobrancelha.
— Como sabe que sai com a Bella?
Eu ri.
— Você postou isso publicamente no Instagram, gênio — resmunguei, ainda segurando a torrada, sem a real intenção de comer. — Vocês estavam fodendo quando eu estava caindo de bêbado? Desculpa por estragar sua noite — ironizei.
Jasper me encarou, antes de apoiar suas mãos sobre o balcão e encarar a pedra do mesmo. Ele ficou em silêncio por um bom tempo, suas mãos apertavam o balcão com tanta força que eu me perguntei como ele não estava sentindo dor com aquilo, então, ele falou por fim:
— Isabella e eu não estávamos fodendo, Edward.
— Aham, claro.
Ele riu, olhando para mim.
— E Alice tirou aquela foto, ela também a postou, estava bêbada e roubou meu celular. Eu estava indo para meu apartamento com um cara quando fiquei sabendo sobre você, não com Isabella.
— Não me importo. — Mordi um pedaço da torrada, me sentindo menos enjoado e menos raivoso. Eles não tinham transado, ok. Não era mesmo da minha conta, mas era melhor assim, eu acho. Ela me odiava agora, ter os dois fodendo enquanto eu não poderia a foder seria estressante, não queria perder uma foda pra Jasper.
— Claro, você não se importa — Jasper disse em um tom de deboche, mas qualquer coisa que ele poderia acrescentar foi interrompida por minha mãe entrando na cozinha.
— Termine de comer e ligue para seu pai — ela ordenou, colocando meu celular perto de mim.
— Não…
— Não estou sugerindo, estou ordenando, Edward. — Apontou para o celular. — Ligue para Carlisle depois de comer.
— Ok — murmurei.
— E seu terapeuta vem mais tarde para uma consulta — dito isso ela saiu da cozinha.
— Ótimo — resmunguei, comendo mais um pedaço da torrada.
— Vou pro meu apartamento — Jasper avisou. — E provavelmente não volto mais tarde, mas se você precisar de algo é só chamar.
Suspirei, eu tinha sido idiota com Jasper antes. E no dia anterior, quando vi a foto e fiquei com raiva dele estar se divertindo um pouco, antes disso ele esteve do meu lado o tempo todo desde a morte de Stefan.
— Obrigado — agradeci.
Jasper acenou, deu um pequeno sorriso que não parecia nada sincero e saiu. Peguei meu celular e liguei para Bella, ela não me atendeu.
***
Enrolei o quanto pude na cozinha, mas não estava mesmo com fome e a ideia de ligar para meu pai só me deixava mais nervoso. Então, cedi e sai para o quintal. Sentei na beira da piscina, com meus pés dentro da água, enquanto o esperava atender minha ligação fiquei olhando para minha mão envolvida em curativos.
— Alô — ele atendeu, eu engoli em seco.
— Oi, Carlisle — falei.
Ele respirou fundo.
— Edward, como você está? Esme me contou sobre ontem.
— Estou bem — respondi, uma mentira, claro.
— E sua mão?
— Bem também. — Olhei para ela.
— Sinto muito pelo seu amigo.
— Valeu. — Fechei os olhos, tentei manter minha respiração estável. — O meu… — Comecei e pausei, antes de recomeçar. — O meu primeiro show da nova turnê será no começo de maio — contei. — Dia primeiro, aqui em Los Angeles mesmo. Você vem? Você já ouviu o novo álbum? — Talvez nós pudessemos recomeçar, talvez toda a minha merda nos últimos dias servisse para algo.
— Não, eu não ouvi — disse.
— Você ainda não teve tempo? — Segurei a vontade de chorar. — Eu escrevi a maioria das músicas desse álbum, eu acho que elas estão realmente boas.
— Eu acredito que estejam, Edward — falou seriamente. — Mas, você sabe que não apoio que continue nessa carreira.
— E você não é capaz de ouvir nenhuma das minhas músicas novas por isso?
— Eu não ficaria confortável com isso, Edward. Como disse, não apoio que continue nessa carreira, não quero sentar e ouvir essas canções que te mantém nesse meio que acho completamente errado para você.
— Eu escrevi a maioria delas — repeti, sentindo as primeiras lágrimas em meu rosto. — Acho que foram as melhores que já compus…
— Eu realmente acredito nisso, filho. Mas eu não concordo com seu trabalho, sei que muitos devem ter adorado suas músicas, só que para mim elas fazem parte de algo muito maior, algo que te colocou em problemas e continua colocando. Você só vai ser verdadeiramente feliz quando deixar esse mundo, Edward, quando viver uma vida normal e saudável. Você foi jogado nisso muito cedo, tinha só quinze anos, teve sua vida inteira bagunçada pela fama.
Nós ficamos em silêncio por um tempo, eu continuava chorando sem fazer barulho.
— Venha para casa — Carlisle pediu. — Eu vou cuidar de você — prometeu.
Eu ri, tocando em meu rosto com a mão machucada, o que me provocou dor.
— Você sabe o nome do meu novo álbum?
— Claro que sei, Endorfina.
Ri de novo, ainda chorando.
— Errou, ele se chama Escândalo. Você não me conhece, Carlisle. Por isso está propondo esse absurdo, eu sei que sou um merda perdido na vida para você, um médico que deve ler um livro por dia e ainda salva vidas, mas eu gosto de verdade do que faço. Amo cantar, amo o espetáculo que são os shows, amo tocar e só você ao menos tivesse ouvido o novo álbum veria que eu estou indo realmente bem no lance de compor. Ou acho que estou, não sei, eu gostei das canções e sim, muita gente gostou também.
— Dê pelo menos uma pausa longa, depois do que aconteceu ontem precisa disso!
— Você sabe por que eu fiz o que fiz? Porque em parte eu não aguento o fato de você me desprezar, de toda vez que a gente se fala acaba dessa mesma forma, com você acabando comigo e com meus sonhos. Me desculpa se faço tudo errado, Carlisle, eu realmente estou tentando mudar, por incrível que pareça, mas não posso mudar do dia para noite. E certamente não vou virar a sua cópia, ou algo como você, como sempre sonhou para mim. Não quero viver em Bath, não quero ser um professor, ou qualquer coisa assim. Eu largaria uma faculdade no primeiro dia, sabe? Essas coisas não são para mim.
Ficamos em silêncio por mais um tempo.
— Não posso continuar tentando fazer você gostar de mim como realmente sou.
— Eu gosto de você, eu te amo, é meu filho!
— Se você gostasse teria ouvido minhas músicas, por mais que elas não lhe agradassem em nada, faria isso porque sou seu filho. Se realmente gostasse teria estado aqui comigo quando fui para a reabilitação, ou quando sai e precisava muito de você, porque eu me sentia fodidamente perdido. Se gostasse voaria até Los Angeles em maio para ver meu show, estaria nos bastidores e me desejaria boa sorte, me daria os parabéns quando eu saísse do palco. Mas eu sei que você não vem, há muito tempo que você parou de tentar realmente perceber o quanto amo o que faço e só me julga pelas coisas ruins que vem com tudo isso. Você provavelmente estará no trabalho no dia do show, salvando vidas e sendo o médico inteligente que é, se sentindo útil para as pessoas e pensando como eu desperdicei todo o ensino de alta que você me proporcionou e joguei tudo no lixo ao me tornar só um musiquinho de merda que provavelmente vai acabar morto antes dos trinta sem ter feito nada útil para o mundo. E você deve estar certo sobre tudo isso, eu devo mesmo ser um inútil no fim das contas, não vou deixar nada substancial como um legado, mas eu vou morrer sabendo que fiz o que amava e vou continuar fazendo, mesmo que isso signifique ter você longe de mim.
Suspirei.
— Meu show é dia primeiro, você já sabe disso. Eu tocarei todas as músicas novas, você pode vir e me ver tocar pessoalmente, realmente gostaria de ter você naqueles bastidores comigo, porque te amo, apesar de você não me amar de volta como eu gostaria.
Não esperei por sua resposta e finalizei a chamada, Carlisle não retornou, então desliguei o celular. Fiquei encarando a água da piscina, ainda chorando, até que ouvi passos.
— Ed? — Olhei para o lado, minha mãe estava ali e se sentou junto de mim.
— Por que você me fez ligar para ele, mãe?
— Porque vocês não conversavam há muito tempo. — Ela tinha lágrimas em seus olhos. — E eu sei que você se sente mal por isso, que a bebida ontem foi também motivada pela distância entre você e seu pai.
— Ele me odeia. — Mais lágrimas rolaram por meu rosto.
— Ele não te odeia. — Ela afagou minha face. — Não foi uma boa conversa?
— Nem de longe, nunca é — me queixei. — Mas obrigado por me fazer ligar.
Ela assentiu e segurou minha mão.
— Seu terapeuta vai chegar logo, você vai poder conversar melhor com ele.
— Ok — concordei. — Mãe, a Bella falou com você? — perguntei, sem conseguir deixar de pensar na Capitã ainda me evitando, ela sabia sobre a noite passada?
— Isabella? Não, eu não a vejo, ou falo com ela desde o dia do funeral. Mas conversei com Tanya sobre o que aconteceu, ela disse que você tem hoje e amanhã de folga para se recuperar, que se precisar de mais algo é só pedir. Ah, ela também iria conversar com Leah sobre as bebidas no apartamento dela, já que Emmett disse que você não esteve em outro lugar ontem e só pode ter pego as garrafas de lá.
— Sim, foi onde peguei.
— Leah as deu para você? — perguntou receosa.
— Não — respondi. — Ela estava no banho, encontrei as garrafas na geladeira e cai fora.
Minha mãe revirou os olhos, mas não me criticou mais.
— Bom, pelo menos Leah não as entregou para você, é a prova de que ela é uma boa garota. Só precisa se livrar do álcool quando você estiver perto. Como vocês dois estão?
— Mãe, eu lamento destruir sua fantasia, mas não estou nem perto de me apaixonar por Leah. Você ficar fazendo torcida não tornará isso realidade, pare, por favor.
— Você pode encontrar a paixão onde menos espera, Edward.
***
A consulta com o terapeuta me destruiu, ainda que eu tivesse passado a maior parte dessa gaguejando frases desconexas entre meu choro incontrolável. Quando ele foi embora eu permaneci na sala fechada da mansão que estávamos, ainda sentado no sofá que estava, pensando em tudo e sentindo o gosto de álcool em minha boca, mesmo depois de tantas horas da ingestão.
— Você precisa de algo? — Rose entrou na sala e parou perto de mim, mas não se sentou.
— Não. — Segurei em uma mão dela e a apertei entre meus dedos. — Desculpe por ser um péssimo irmão, Rose.
Ela começou a chorar, eu me senti pior ainda por ser o culpado por suas lágrimas. Rose sentou ao meu lado e nos abraçamos, ela molhava minha camiseta com seu choro, mas eu não a afastaria, precisava dela.
— Pensei que você estava morto, quando entramos naquela sala e você estava daquele jeito, eu realmente pensei que… — Eu a apertei com mais força contra mim. — Nunca nos deixe, por favor — ela implorou.
— Não vou — respondi, ela me encarou, não parecia certa da minha promessa.
— Estou falando sério, eu morreria se você morresse, irmão. — Beijou minha bochecha.
— Eu vou ficar bem. — Ela assentiu, mas ainda estava nervosa e assustada.
Eu ia tentar ficar bem, com todas minhas forças.
***
Não fiz nada aquele dia, apenas fiquei sempre com minha irmã e mãe por perto. De noite, quando estávamos quase indo jantar, Leah apareceu e minha mãe quase me obrigou a ir conversar com ela a sós, Rose não pareceu feliz, no entanto, e olhava para minha falsa namorada com raiva.
— Sinto muito pelo o que aconteceu, Edward — Leah falou, estava tensa. — Eu sequer me lembrava de que tinha aquelas bebidas lá em casa, você nunca deveria as ter visto, foi um grande erro meu.
— Não se preocupe com isso — falei com tédio em minha voz. — As garrafas estão fora do meu caminho agora — mamãe tinha se livrado delas, obviamente. — E eu estou muito bem, como se nunca tivesse bebido nada — disse com sarcasmo na voz.
Ela sorriu, mas ainda estava tensa.
— Eu vou passar a noite, talvez possamos recomeçar de onde paramos ontem.
— Não — neguei. — Você pode ir para o quarto de hóspedes que está acostumada, certo?
Leah engoliu em seco e me lançou um sorriso forçado.
— Certo.
***
Eu não conseguia dormir aquela noite, a insônia bateu em mim tão forte quanto a vontade de beber. Mamãe tinha conversado com meu médico e ele a orientou a não me dar qualquer medicação para dormir, pois segundo ele isso só seria substituir uma droga pela outra e eu precisava ficar limpo o máximo de tempo possível livre delas. Minhas medicações para a dor de garganta e minha mão ferida também tinham sido suspensos — eu trataria a garganta dolorida somente com um xarope fraco a partir do dia seguinte e a mão com a pomada que já vinha usando antes das trocas de curativos —, o que tornava tudo pior, mas fazia parte da desintoxicação.
— Você quer um pouco de chá? — mamãe perguntou em algum momento da madrugada, ela estava no quarto comigo, certificando-se que eu estava bem. Rose tinha ficado por ali, ajudando a passar o tempo da minha insônia, até uma hora antes, quando mamãe a mandou ir dormir um pouco para descansar. Leah estava no quarto de hóspedes, como especifiquei que deveria ser.
— Não — neguei, me remexendo na cama, meu coração estava acelerado, meu corpo todo inquieto, eu queria chorar — mais uma vez aquela madrugada — e foi o que aconteceu em seguida. Logo mamãe estava me apertando em seus braços, quando parei de chorar decidi sair um pouco do quarto, certo de que não dormiria mais.
Mamãe decidiu começar a preparar nosso café da manhã, mesmo que ainda faltasse um tempo considerável até o café da manhã. Ela se mexia pela cozinha fazendo sucos, preparando torradas, panquecas, preparando até mesmo um bolo, eu sabia que era a forma dela aliviar um pouco do seu próprio nervosismo, então a deixei fazer isso e me mantive quieto sentado junto ao balcão.
O celular de Rosalie estava abandonado ali perto de mim, o meu tinha ficado em meu quarto, eu não o ligava desde que falei com Carlisle no dia anterior. Peguei o celular da minha irmã — eu sabia sua senha, era Bath95—, sabia que ela tinha Candy Crush instalado — mesmo que quase nunca jogasse — e eu poderia me distrair um pouco também.
Estava jogando — meio aborrecido porque a conta dela ainda estava nas primeiras fases, as mais fáceis —, quando suas notificações de mensagens não lidas apareceram na tela. Tinha algo do Carlisle, algo de Jasper, até mesmo uma de Emmett, mas o que chamou minha atenção foi a mensagem de Isabella.
Ela estava trocando mensagens com minha empresária? As duas se detestavam!
Eu não resisti, não aguentei. Abri as mensagens, a última enviada por Isabella tinha sido por volta de uma da madrugada.
Isabella Swan: Ok, espero mesmo que ele consiga dormir. Boa noite!
Sim, elas estavam falando de mim, subi as mensagens e vi a última enviada por Rosalie.
Rosalie Cullen: Edward decidiu ir para a cama só agora, ele parece cansado, talvez consiga dormir um pouco. Boa noite.
Antes disso Bella tinha enviado algo.
Isabella Swan: Como ele está? Já dormiu algo?
Mais cedo Rose tinha escrito.
Rosalie Cullen: Ele comeu todo o jantar.
Era uma resposta para a pergunta anterior de Bella.
Isabella Swan: Edward comeu algo hoje?
E de tarde Rose enviou.
Rosalie Cullen: Ele está bem, estamos vendo Brooklyn Nine-Nine, ele sorriu algumas vezes.
Isabella Swan: Ele está bem?
Tinha sido a pergunta de Bella, mas anteriormente ela já tinha mandado outra mensagem.
Isabella Swan: Me deixe saber se ele precisar de algo.
Mais cedo Rose a informou sobre minha consulta.
Rosalie Cullen: Ele está com o terapeuta agora, eu vou ficar com ele depois que o homem sair.
A mensagem de Bella tinha sido.
Isabella Swan: Você ainda não falou com ele hoje? Ele precisa de você por perto, imagino que deve ser complicado depois do que aconteceu, mas é seu irmão, Rosalie.
E depois que acordei na manhã do dia anterior, Rosalie a informou disso também.
Rosalie Cullen: Ele acordou, está com Jasper na cozinha. Não consigo falar com Edward, então você não terá muitas atualizações hoje!
Isabella Swan: Ele já acordou?
Eu continuei lendo as mensagens, de trás para frente.
Rosalie Cullen: Ele continua dormindo, mamãe está com ele.
Isabella Swan: Como ele está?
Rosalie Cullen: Está tudo bem, o quanto pode ficar no meio desse caos, ele está dormindo.
Isabella Swan: Rosalie? Tudo bem?
Rosalie Cullen: Obrigada!
Isabella Swan: Tanya falou com ela, Leah já sabe que foi um grande erro dela e não deixará algo assim acontecer de novo. Não entre em confronto com ela.
Rosalie Cullen: Emmett disse que ele só pode ter pego as garrafas no apartamento de Leah. Lide com essa garota, ou eu vou lidar, Edward não é o único da família capaz de acertar um soco em alguém!
Isabella Swan: Ótimo, Edward precisará do melhor amigo amanhã.
Rosalie Cullen: Jasper chegou, obrigado por ter o mandado.
Rosalie Cullen: Mamãe e Emmett cuidaram dele, agora ele está em sua cama seguro.
Isabella Swan: ROSALIE, ME RESPONDA!
Isabella Swan: ROSALIE!
Isabella Swan: Rosalie!
Isabella Swan: Como ele está agora? Eu devo mandar algum médico? Ou uma ambulância?
Rosalie Cullen: Ele estava apagado, não sei se desmaiou, ou só adormeceu enquanto bebia. Tinha vômito e xixi por perto!
Isabella Swan: Como ele estava? Como ele está agora? Onde conseguiu a bebida? Rosalie, responda!
Rosalie Cullen: Foi a pior coisa que já vi, eu pensei que ele estivesse morto!
Rosalie Cullen: EDWARD BEBEU, VODCA!
Isabella Swan: Não o deixe sozinho, vá ficar por perto.
Rosalie Cullen: Ele está lá embaixo tem muito tempo, estou preocupada.
Isabella Swan: Me deixe saber quando ele sair da sala de música.
Rosalie Cullen: Edward voltou para casa, pegou um refrigerante e foi para o porão.
Eu parei um tempo de ver as mensagens, absorvendo aquilo. Isabella estava trocando mensagens com minha irmã, pelo menos desde quando cheguei em casa depois de furtar as vodcas do apartamento de Leah. Voltei ainda mais as mensagens, vendo que as duas estavam em contato desde o dia do funeral, depois que eu deixei a igreja.
Isabella Swan: Olá, como ele está?
Tinha sido a primeira mensagem de Bella para Rose.
Rosalie Cullen: Vou mesmo ter bancar a informante? O que ele te falou afinal que te deixou tão raivosa para você não poder nem mandar mensagens para ele?
Foi a resposta da minha irmã, elas provavelmente tinham conversado ainda na igreja quando Bella a incubiu de ser sua informante, uma que passaria informações minhas, como descobri o que aquilo significava ao ver o resto das mensagens. Todas eram de Bella perguntando como eu estava, praticamente uma mensagem por hora, também tinha ela surtando sobre o dia que machuquei minha mão.
Isabella Swan: Ele socou a porra de um espelho?
Isabella Swan: Como ele está?
Isabella Swan: Ele está bem?
Eu li todas as mensagens, depois reli todas aquelas que já tinha lido primeiro, as mais recentes. Então, sai da conversa e deixei o celular de Rosalie onde ele estava antes. Fui um grande idiota com Isabella, ainda assim ela tinha se preocupado comigo e enchido o saco da minha irmã para ter notícias mais diretas minhas. Ela recusou o contato comigo, mas não me ignorou por completo, nem ficou sendo informada somente por Tanya que não estava sempre perto.
— Edward, tudo bem? — Olhei para minha mãe que me fez a pergunta.
— Sim, só percebi que fui muito idiota com alguém.
Eu nunca me desculparia o suficiente por ter tratado Bella daquela forma, não vendo que ela se importava pra caralho comigo. Em nenhuma daquelas mensagens mencionou trabalho, dinheiro, ou qualquer merda dessas. Estava sendo somente a Isabella que sempre me ajudava em minhas crises, a Isabella que mesmo em algum lugar longe no mundo durante a turnê de Kate respondia minhas mensagens de tédio, minhas ligações nervosas e recebia minhas cartas malcriadas. Ela foi a Isabella que, de uma forma estranha, era minha amiga, mesmo depois de eu ter sido um filho da puta quando deveria ter sido amigo dela também.
— Quer compartilhar? — mamãe perguntou.
— Não — respondi, me sentindo envergonhado.
— Ok — ela não insistiu naquilo e olhou pela janela da cozinha. — O bolo ainda assara por um bom tempo, por que não vamos lá fora ver o nascer do Sol? Você adorava isso quando era criança.
Eu sorri, gostava mesmo daquilo. Não de acordar cedo para ver o Sol nascer, mas dormir tarde e ainda estar de pé quando ele estava nascendo. Realmente gostava do Sol e do calor, era uma das coisas que mais amava sobre Los Angeles.
— Vamos fazer isso — concordei, ela sorriu e fomos para o quintal.
Sentamos em espreguiçadeiras perto da piscina, onde teríamos uma boa visão do céu. Mamãe ficou cantarolando uma canção que eu não conhecia, mas que ficava perfeita na voz dela. Aquilo me fez pensar na conversa que tive com Bella outro dia, sobre minha mãe ter capacidade de ter sido uma cantora, mas ter seguido pelo direito antes de ter filhos e se tornar dona de casa em tempo integral.
— Mãe, por que você nunca foi uma cantora? — a questionei, ela parou de cantar na hora e me encarou.
— Edward…
— Você poderia ter sido — insisti quando a notei hesitar. — Tem talento para isso.
Ela riu e balançou a cabeça em negação.
— Você nunca nem foi uma advogada de verdade, o mais perto que chegou dessa carreira foi sendo minha empresária por um tempo. Poderia ter feito algo relacionado a música, podia ser a famosa de nós dois. — Ela riu novamente. — Me conte — pedi, ela suspirou e parecia que negaria, mas acabou concordando com um aceno de cabeça.
— Eu sempre amei música, mas quando tinha sete anos uma senhora que era minha vizinha me deu o velho piano do marido dela. Minha mãe queria o vender. — Engoliu em seco, desviando seu olhar para o céu novamente, ainda estava escuro. — Meu pai tinha morrido só dois anos antes e ela tinha o dinheiro da pensão dele, mas sempre acabava faltando algo que ela precisava cobrir com serviços de costuras, vender o piano seria uma boa ajuda de custo. Eu chorei muito, implorei que ela me deixasse ficar com o piano e ela aceitou, mas só se eu prometesse nunca mais pedir um presente para ela.
— Você aceitou isso?
— Ah sim, sem pensar duas vezes. — Ela fechou seus olhos. — Eu teria um piano, não precisaria de outros presentes.
— Nem bonecas? — Eu a vi sorrir.
— Nem as bonecas, foda-se elas. — Eu tive de rir vendo minha mãe xingando. — Gastava todo meu tempo ao piano, bom, quando não estava na escola ou ajudando minha mãe com a casa, ou a costura. — Bufou. — Odiava a costura, mas eu ajudava sem reclamar, pois queria ter meu tempo no piano. Eu não poderia perder isso, amava tocar, mesmo que estivesse tendo de ensinar a mim mesma.
Sorri, pensando na minha mãe criança tocando. Ela nunca mostrou fotos daquela época, provavelmente sequer tinha uma câmera fotográfica em casa, ou sua mãe dinheiro para um fotógrafo, afinal não era comum daqueles anos.
— Você e eu, crianças tocando em seus pianos por horas — comentei, ela abriu um grande sorriso.
— Sim, eu sei como você se sentia e como se sente quando toca sem parar.
— Foi muito difícil aprender a tocar só?
— Demais, mas eu estava determinada. E como minha mãe não me dava dinheiro para nada que não fosse realmente necessário, segundo ela, eu tinha de conseguir revistinhas que ensinavam a tocar em bancas de jornal de outra forma.
Arregalei meus olhos, temendo o que aquilo significava.
— Você as roubava?
Ela gargalhou, abriu seus olhos e olhou para mim.
— Claro que não, Edward! — Seus olhos estavam iluminados, estava começando a ficar claro naquele momento. — Eu fazia os deveres de casa de outras crianças na escola, cobrando por isso. — Puta merda! — E pegava os velhos retalhos das costuras da minha mãe e fazia roupas para as bonecas das garotas para vender. Quando envelheci as roupas começaram a ser feitas para as meninas, não mais suas bonecas e eu continuava com o lance dos deveres de casa, era o mais lucrativo.
— Mãe, você era uma rebelde! — constatei em choque, ela riu mais, eu adorava vê-la rindo.
— Eu precisava do dinheiro para as lições de piano, até paguei algumas com um professor, mas era mesmo muito caro e minha mãe começou a me frear. — Revirou os olhos e não sorria mais. — Mas, eu sempre estava tocando, mesmo que ela ficasse sobre mim me mandando ir procurar um namorado.
— Ela ficava te mandando procurar um namorado? — Eu realmente não sabia muito sobre meus avós maternos.
— Sim, um com grana para que eu não tivesse que ficar fazendo costuras como ela depois de velha. Bom, ela não ficou nada contente quando eu arranjei um namorado, quase no fim da escola.
— Sei que não era meu pai, porque vocês só o conheceu na faculdade, então…
Ela riu e desviou o olhar, o céu estava cada vez mais iluminado.
— Era um garoto da minha idade, trabalhava de garçom na lanchonete que comecei a trabalhar. Ele se chamava Elvis.
— Você tá brincando? — Eu ri, ela riu também.
— Não mesmo. E ele tocava, guitarra e violão, tinha um topete como aquele que sua mãe se inspirou para o batizar, claro. Eram os anos oitenta, ele jurava que seria o próximo rei do rock. Nós tínhamos um plano, fugiriamos para a América. Eu tinha aplicado em segredo para Juilliard e lá saberia se tinha sido aceita, iria estudar música em New York, enquanto Elvis nos sustentaria com seus shows em bares. Esse era plano inicial, claro, antes dele se tornar famoso.
— Vocês fugiram?
Mamãe sorriu e passou a mão por seus cabelos ruivos.
— O que você acha? — perguntou em um tom de desafio.
— Se eu não soubesse do seu histórico de vender deveres de casa? Bom, eu diria que não, que você teria sido uma criança muito certinha para isso, mas agora eu espero qualquer coisa de você, dona Esme.
— É, você está certo. — Deu de ombros.
— Porra, você fugiu mesmo, mãe?
— Tentei. Sua avó percebeu que eu tinha caído fora de madrugada levando parte das minhas roupas e chamou a polícia, Elvis e eu fomos pegos na rodoviária e eu fui enviada de volta para casa. Minha mãe fez com que os policiais dessem uma dura no Elvis para ele ficar fora do meu caminho, mesmo que eu tenha implorado e chorado que ela não fizesse isso. No fim das contas a dura nem se fez necessária, Elvis foi embora no outro dia, com uma nova garota.
— Puta merda!
— Foi quando descobri que ele dormia com metade da cidade. — Fez uma careta. — Eu tive tanta sorte de não ter engravidado dele, ou pior, contraído uma doença.
Aquilo me acertou e percebi o que ela quis dizer.
— Você não casou virgem?
— Você pensava que eu tinha casado virgem?
— Sim! — respondi chocado. — Você casou com meu pai, é toda católica e essas coisas todas.
— Não, eu não casei virgem, apesar de que até o último dia jurei para sua avó que sim.
— Mãe, você tem um passado! — exclamei. — E Juilliard, você foi aceita? Como acabou com meu pai mesmo? A Esme que vendia deveres de casa, namorava um músico e queria fugir não se encaixa com a imagem que imagino da namorada de Carlisle Cullen.
— Juilliard não me aceitou. E sua avó fez acontecer entre seu pai e eu, de certa forma, depois da minha tentativa frustrada de fugir ela ameaçou… — Olhou cautelosamente para mim antes de continuar. — Ameaçou se matar se eu fosse embora. Eu era filha única, ela não tinha mais ninguém, eu sabia que se partisse isso ia mesmo a destruir. Então, aceitei o que ela tinha para mim. Isso era ficar em uma faculdade por perto me formar em algo que eu pudesse lecionar crianças depois de formada, nada de música, claro. Assim como conhecer os muitos pretendentes que ela tinha para mim, um pior do que o outro. Não sei há quantos encontros fui e quantos precisei arruinar porque não queria nada com eles. Mas aí, eu tinha vinte anos e ela me apresentou seu pai, um pouco mais velho, já na faculdade de medicina. Ele não era de família rica, pelo contrário, você sabe que os pais dele tinham pouca grana, mas como Carlisle cursava medicina, algo que só conseguiu por ser muito estudioso, ela achou que eu teria um futuro bom com ele, além do mais todos frequentavamos a mesma igreja.
— Você só casou com o papai por isso? — perguntei, ficando nervoso com aquela informação.
— Não mesmo. Quando Carlisle me chamou para um encontro eu disse que não estava interessada, ele parecia gentil demais para eu aceitar um encontro e depois o tirar do meu caminho, então seu pai mudou o discurso e perguntou se podíamos ser apenas amigos. Eu aceitei, mamãe festejou, ela disse que com aquele ia dar certo. Seu pai e eu passamos um ano sendo somente amigos, eu fui me apaixonando por ele. — Sorriu, daquela vez com tristeza no rosto. — Nós nos encontrávamos toda quarta-feira para assistir esse seriado sobre um advogado na TV, era meu favorito, Carlisle disse que se eu gostava tanto daquilo eu deveria ser uma advogada. Gostei da ideia, sabe? Eu não seria só uma professora ensinando crianças a escreverem, seria uma advogada importante. Naquele dia eu beijei seu pai, eu estava tão feliz, ele me fazia feliz. — Ela limpou uma lágrima. — Nós começamos a namorar, sua avó comemorou por dias, mas eu não me importava com a ideia de que Carlisle no futuro quando acabasse sua formação médica fosse ter dinheiro, eu estava perdidamente apaixonada. Não me sentia daquele jeito por ninguém, nem pelo o Elvis, eu era mesmo tão feliz com seu pai.
Ela fechou seus olhos, ficamos em silêncio, até que perguntei.
— Ele sempre foi tão… Sério? Tão rígido?
— Ele vinha de uma família pobre, Edward — respondeu, voltando a me olhar. — Trabalhava e estudava desde cedo, era filho único como eu, se sentia na obrigação de dar uma vida boa para os pais e cuidar deles na velhice. Ele queria ser um médico, sabia que era uma profissão que o daria grana suficiente para uma vida tranquila e que poderia ajudar seus pais. Nunca foi por enriquecer, você o conhece, sabe que ele não gosta de luxos, sempre foi para não passar dificuldade alguma como seus pais enfrentaram. Então, sim, ele sempre foi muito sério e rígido, um pouco menos até o pai dele morrer, estávamos juntos a alguns meses quando aconteceu e ele tinha de cuidar da mãe que ficou tão fragilizada. Ele também queria cuidar da minha mãe, e de mim. Acho que nunca te contamos como o pai dele morreu, não?
— Claro que sim, acidente de carro.
— Provocado por um motorista bêbado — murmurou.
— Puta merda! — Aquilo parecia explicar algumas coisas. — Então, vocês casaram…
— Depois que eu comecei a faculdade de direito.
— Você gostava?
— Não — confessou. — Odiei desde o primeiro momento, era chato, nada legal como na TV. Mas, eu já estava lá, me sentia na obrigação de ir até o fim. E quando minha mãe morreu, por um maldito câncer de pulmão porque ela fumava como uma chaminé, ela disse que estava tão feliz por eu ter ficado, por não ter cruzado o oceano até New York.
Eu assenti, sem dizer nada.
— Eu realmente pensei que ia trabalhar como advogada de fato, mas você e sua irmã vieram e eu joguei aquela merda toda de leis de lado e me dediquei a vocês. Estava mais feliz do que nunca, quando descobri que eram gêmeos pensei que morreria de felicidade. —Sorriu carinhosamente para mim.
— Mas não era o que você sonhou — afirmei. — Você queria tocar, queria cruzar o oceano e estudar na que deve ser a melhor faculdade de música do país. Largou tudo por conta da sua mãe, por isso que você nunca me deixou largar meu sonho, mesmo com qualquer obstáculo no caminho.
— Eu não poderia deixar isso acontecer a você, quando voltamos para casa depois do show do Bowie que vimos você disse com tanta certeza que queria ser um cantor. Fiquei com medo de ter jogado você sobre meu sonho não realizado, já que ensinei você e Rose sobre música desde cedo, mas… Deus, você parecia tão feliz naquele show e por semanas era só o que poderia falar, eu sabia que realmente amava a música e precisava dela na sua vida além de um simples hobby.
— Você se arrepende? De não ter ido para New York, poderia ter sido uma grande pianista, mesmo sem Juilliard.
— Eu não teria Rosalie e você se tivesse vindo, nem teria tido seu pai.
— É, mas ele te largou, teria sido melhor nem ter o conhecido — esbravejei.
— Eu não penso assim, eu realmente fui feliz com seu pai.
— Ou o amou só por ele e você terem nos tido juntos?
— Eu o amava antes de vocês, Edward. Eu ainda amo apesar de tudo. — Limpou outra lágrima. — Não trocaria a vida que tive por uma aventura em New York com o Elvis, que provavelmente me largaria no primeiro dia na América.
— Você teria seguido seu sonho.
— E nunca teria conhecido Carlisle, nunca teria me apaixonado perdidamente, nem amado de verdade. — Ela pulou para minha espreguiçadeira. — Eu não acho que você já tenha sido apaixonado por alguém dessa forma, nem mesmo por Lauren, você saberá do que estou falando quando se apaixonar por alguém de forma tão intensa. Com sorte por Leah, eu rezo todos os dias por isso.
— Deus tem mais o que fazer, mãe — declarei, ela riu e afagou meu rosto.
— Você é mais parecido com seu pai do que imagina.
— Como assim?
— Vocês dois sempre se cobraram demais, ele em seus estudos e trabalho, você…
— Em tudo que faço.
— Espero que vocês se entendam um dia, odeio como se afastaram.
Não achava que aconteceria, eu era parecido com meu pai no lance das cobranças, mas diferente dele de mil formas diferentes.
— Mãe, tenho uma pergunta importante para fazer.
— Qual?
— Cadê o Elvis?
Ela gargalhou e beliscou minha bochecha.
— Nunca mais tive notícia dele desde que ele foi embora, vai saber por onde anda. — Se colocou de pé. — Melhor eu ir ver o bolo agora, vamos entrar e tomar café da manhã.
O Sol já tinha nascido e brilhava no céu, a história da mamãe me distraiu de todo o resto, mas eu estava feliz de ter a ouvido.
— Eu meio que preciso ir ver alguém.
Ela me olhou preocupada, eu levantei e beijei o rosto dela.
— Não se preocupa, eu juro que vou ficar seguro. — Pensei em algo e completei. — Consegue finalizar o bolo enquanto me arrumo para sair?
— Claro que consigo. — Riu em deboche. — Acabou de ouvir minha história? Todo o lance de vendas, fugas e tudo mais? Acabar um bolo em minutos não é nada. — Piscou para mim.
— Eu ainda vou precisar de um tempo para lidar com a ideia de você sendo uma rebelde.
Ela apoiou seu braço no meu e caminhamos de volta para o interior da casa juntos.
— Edward, minha mãe nunca teve um diagnóstico, mas ela também parecia com você. — Eu a olhei atentamente. — Toda a ansiedade, os vícios que no caso dela eram os cigarros, a tristeza que a pegava e a fazia ficar na cama por um dia inteiro.
— O choro? — arrisquei.
— O choro também.
Dentro de casa o cheiro de chocolate estava exalando.
— Eu vou me cuidar — prometi, mamãe me apertou em um abraço antes de me soltar. — Amo você, mamãe, obrigado por tudo.
— Também amo você, filho.
***
Mamãe embalou uma generosa fatia de bolo para mim, então eu logo estava no banco de trás de um dos meus carros. O motorista do dia ao volante, um segurança no banco do carona e Emmett — que esteve de folga no dia anterior depois de ajudar Rose e minha mãe com meu porre — atrás comigo, o terceiro segurança continuou fazendo a proteção da mansão.
— Obrigado pelo o outro dia — agradeci Emmett.
— Não por isso, está melhor?
— Mais ou menos.
— Eu deveria ter percebido que você estava estranho no caminho de volta.
Balancei a cabeça em negação.
— Não, eu estava agindo fora de mim muito antes daquilo. — Apertei o pote com o bolo em minhas mãos. — Sério, obrigado. Imagino que Rosalie tenha ficado muito nervosa com tudo isso e você ajudou minha mãe em tudo.
— É, não foi legal te por debaixo do chuveiro — ele reclamou. — Muito menos tirar suas roupas.
— Nojento, não vamos falar sobre isso! — exclamei, ele riu.
Não falamos de fato sobre outra coisa durante o resto do caminho, eu estava ansioso demais. Na portaria do prédio foi um tormento, mas consegui a liberação para subir e fui só para o elevador, deixando Emmett e o outro segurança no saguão.
Eu desci no andar certo e toquei a campainha, ela abriu a porta para mim. Estava brava, mas seus olhos estavam vermelhos, se eu perguntasse ela diria que tinha sido uma alergia.
— Oi — sussurrei.
— O que quer, Cullen? — Isabella perguntou revoltada.
— Precisamos conversar… Preciso pedir desculpas.
— Não vou te desculpar — disse com firmeza em sua voz.
— Trouxe bolo de chocolate da minha mãe, você já o comeu e gostou, lembra? É minha oferta de paz, não trouxe flores porque não acabou bem da última vez.
— Não gosto de flores.
— Viu? Eu fui esperto vindo com o bolo — me gabei, ela arrancou o pote da minha mão e disse:
— Não vou te desculpar! — Antes que eu dissesse algo ela bateu a porta, me deixando do lado de fora e de mãos vazias.
— Capitã, abre a porta, por favor! — Bati direto na madeira. Ela não respondeu, mas a porta foi aberta e Bella me deixou entrar. — Obrigad… — Fui interrompido por sua mão acertando um tapa no meu rosto.
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