Hollywood
88 Capítulo Oitenta e Sete
Notas iniciais
Capítulo Oitenta e Sete
Edward Cullen
"Ed e Isabella Cullen são flagrados passeando pela cidade natal do cantor."
Era estranho voltar a Bath após casado. Com Isabella junto de mim, ainda mais com ela grávida. Aquelas ruas, aquela casa, tudo me fazia pensar no menino que fui, fugindo do quarto de madrugada para tocar piano.
Bom, eu não era mais uma criança, tanta coisa tinha mudado desde então.
***
Carlisle não entendeu quando Isabella passou por ele como uma bala, ela nem se deu ao trabalho de o cumprimentar. Assim que meu pai abriu a porta a empresária entrou e seguiu até o primeiro cômodo fechado que viu, no caso o banheiro, se trancando lá dentro.
— Tudo bem? — ele me perguntou confuso. — Eu fiz algo? Só disse oi, quer dizer, falei mesmo? Foi tão rápido.
Eu quis rir da cara dele, mas meu pai não iria gostar do deboche e era melhor manter o clima tranquilo.
— Ela está em uma ligação importante de trabalho — menti. — Aconteceu um problema na produtora dela.
Mentira, mas não valia a pena contar a verdade para Carlisle.
"Sabe o que foi, pai? A Alice, irmã da Bella, foi até o ex sogro e disse para o homem que se ela não fizesse Renée ser demitida, iria expor na internet que ele e a produtora tem um caso há anos."
Carlisle não iria entender nada, até para mim era confuso.
— Esquece isso, pai! — Rose pediu, ela sabia a verdade, Bella não conseguiu esconder isso da minha irmã quando gritou no carro para mim o que Alice tinha feito. — Oi. — Pulou nos braços de Carlisle e lhe deu um forte abraço. — Como o senhor está?
— Estou bem e vocês?
Ela o soltou e abracei nosso pai, ele estava cheirando a creme de barbear. Aquilo me atingiu, eu não tinha nenhuma lembrança de Carlisle me ensinando a fazer a barba, isso nunca aconteceu, aprendi com um maquiador em um ensaio fotográfico.
— Ótima — Rose respondeu. — Só um pouco cansada da viagem.
— Eu estou exausto — respondi, naquele momento Bella abriu a porta do banheiro e chamou por mim.
— Edward, venha até aqui. — Estalou seus dedos, revirei os olhos, porém segui até ela, que me puxou para dentro do banheiro e trancou a porta.
— E aí? Estamos com raiva da sua irmã? — indaguei, ela soltou uma risada curta e enfiou o celular no bolso de seu casaco, eu também ainda estava usando o meu e aproveitei para tirar, já que no banheiro estava um forno.
— Ela é doida — Isabella decretou. — Afrontar Renée desse jeito? Ainda mentiu para Phill e disse que tinha fotos dele com Renée, quando não tem nada disso. Loucura, mas… — Minha esposa apoiou as mãos na cintura e abriu um sorriso imenso. — Deu certo.
— Deu certo? — questionei sorrindo também, seria muito bom ver a sogra que eu detestava se dar mal depois de todas as merdas que ela tinha feito, especialmente contra a mulher que eu amava.
— Aparentemente deu e isso é inacreditavel, porra! — Bella exclamou e riu novamente. — Phill garantiu que irá demitir Renée, Alice exigiu que ela esteja fora da emissora até amanhã, ou irá contar sobre o caso extraconjugal nas redes sociais e expor todas as fotos deles juntos. É sério, minha irmã é doida, ela não tem prova nenhuma disso, só teve certeza mesmo quando Nessie contou para nós duas.
— Ela jogou verde e foi bem sucedida, é algo para se comemorar. — Dei de ombros. — Adoro sua irmã, ela é um gênio do mal, igual a você. — Bella revirou os olhos, mas ainda estava sorridente. — E que bom ela não ter fotos daqueles dois se pegando, seria nojento de se ver, sua mãe filha da puta e aquele velho caindo aos pedaços, como Renée tem coragem de dar para ele? Imagina chupar aquele pau de uns cem anos.
— Edward, eca, não quero imaginar a cena! — resmungou. — E o Phill não tem cem anos.
— Ele continua sendo nojento, assim como Renée.
— O que importa é que ela vai perder o tão amado trabalho dela, aparentemente Phill sugeriu recontratar Alice no lugar dela ficar quieta, mas minha irmã gênio do mal não aceitou. Amanhã Renée irá perder um pouquinho do seu poder.
— Um pouco?
— É. — Bella confirmou e tirou o celular do bolso, para então retirar seu casaco. — Ela tem anos como produtora, um currículo muito bom, irá conseguir outro trabalho fácil. Será um golpe, mas não irá a derrubar. Talvez só o que a derrubasse seria expor o quanto ela foi uma vaca comigo e minhas irmãs, com as agressões físicas e verbais, mas isso não é algo que eu irei contar para a mídia, nem Alice, duvido muito que Ness conte, ela pode até querer, mas não irá puxar um problema desse tamanho para cima de si, ao menos não tão recente ao que viveu com Nahuel. Enfim, vamos deixar isso de lado, estamos aqui para lidar com outro pai problema.
Ela esticou a mão para abrir a porta do banheiro, mas eu segurei na maçaneta e a mantive trancada.
— Tenho que te contar algo muito importante, linda.
— O que foi? — Olhou para mim com desconfiança.
— O que vou falar pode ser uma surpresa para você, mas é a mais pura verdade. Está pronta para ouvir minha confissão?
— Não, sinto que vem alguma besteira pela frente, mas diz logo.
— Eu nunca transei nessa casa, você será minha primeira.
Ela gargalhou.
— Eu sabia que você iria falar alguma besteira, Cullen. — Acertou um tapa no meu braço, peguei sua mão e depositei um beijo na palma. — Estou surpresa de você nunca ter comido ninguém aqui, como isso nunca rolou?
— Eu não passei muito tempo aqui depois do The Star UK e antes disso não transava tanto e aqui não rolava de ficar trazendo garotas com meu pai sendo um chato. Agora, tô pronto para estrear a casa, vamos nos trancar no meu quarto e mandar ver.
— Você vai mandar ver sozinho, amor. — Avisou. — Eu vou comer algo e descansar.
— Já mandei ver sozinho aqui muitas vezes, nem tem mais graça. — Ela segurou uma nova risada.
— Chega, Ed, vamos sair desse banheiro.
— Tá, voltamos para ele depois e mandamos ver aqui.
— Não conte com isso.
— Nem parece a mesma mulher que manda ver comigo até em banheiro de boate.
— Em solo inglês sou recatada.
— Aham, até parece!
***
Eu conhecia Isabella bem o suficiente para reconhecer o tédio no olhar dela durante o jantar com meu pai, ela até forçava sorrisos para ele, mas estava claro que o ouvir comentar sobre o trabalho no hospital era entediante ao extremo. Contei três bocejos dela, abafados entre uma garfada de nhoque e outra, ao menos Carlisle tinha pedido comida italiana, provavelmente uma tentativa de me agradar e conseguiu.
— Então — Bella se pronunciou quando ele foi até a cozinha pegar mais suco. — O papo do pai de vocês me dá sono, falem de outra coisa quando ele voltar.
— Bella — Rose disse em tom de reclamação, chateada. — Ele só está empolgado por estarmos em casa.
— Se eu tiver de ouvir ele contar sobre mais um plantão vou ser obrigada a fingir um desmaio — minha esposa alertou. — Nem são fofocas, estava esperando algo mais Grey’s Anatomy.
— Ele odeia essa série — sussurrei para Isabella, já que naquele instante meu pai retornou para a sala de jantar.
— Bella — ele falou com ela, que forçou mais um sorriso. — Eu nem lhe perguntei, como seu pai está?
— Ótimo.
— Irritante como sempre. — Ela e eu falamos juntos, isso me fez ganhar mais um tapa no braço dela. — Porra! — xinguei.
— Edward, cuidado com suas palavras — Carlisle me repreendeu, eu me limitei a revirar os olhos e voltar a comer. — O que vocês pretendem fazer amanhã?
— Eu vou ficar por aqui — minha irmã respondeu. — Preciso começar a rever algumas coisas do meu livro para a primeira editora revisar em seguida — disse empolgada, eu sorri ao ouvi-la falar daquilo, ver Rose realizando um de seus sonhos era foda pra caralho, estava muito orgulhoso da minha gêmea.
— Quero conhecer a cidade — Bella falou, eu fiz cara feia.
— Não tem nada pra conhecer, Capitã. Vamos ficar em casa também, podemos dormir o dia todo e assistir TV.
— Vamos sair, Edward — declarou.
— Não tenho escolha?
— Não, aceite isso!
Meu pai engasgou com uma risada, em reconhecimento Bella sorriu para ele, o primeiro sorriso verdadeiro dela para o médico aquela noite.
— A cidade é maravilhosa, você irá adorar, Bella — falou para a nora. — Edward está sendo chato, há muito que conhecer.
— Claro, Bath é tão interessante — ironizei.
— É uma cidade cheia de cultura, Edward — Rosalie disse, eu bufei e enfiei uma garfada cheia de nhoque na boca. — Você vai amar, Bella. Queria que Emm já estivesse aqui para ele conhecer Bath também.
— Coitado, cidade chata pra caralho — murmurei, sem me importar em engolir antes de falar.
— Acho que deu para você, precisa ir dormir. — Bella esticou a mão para meu braço, daquela vez ela não bateu em mim, mas fez carinho.
— É, preciso. — Eu mal tinha descansado durante o voo, estava morto.
— Hum, eu queria falar com você e sua irmã antes de vocês irem dormir — Carlisle disse.
— Tá, tô indo para o quarto. Boa noite, Carlisle.
— Boa noite, Isabella. Obrigado por ter vindo.
— Aham, claro. — Ela se levantou e afagou meu braço novamente. — Não demora, amor. — Beijou o topo da minha cabeça. — Precisa dormir para amanhã ir passear comigo.
— Tá — reclamei, Bella beliscou minha bochecha e deixou a sala de jantar. — O que foi? — perguntei para meu pai.
— É sobre a casa. — Gesticulou ao redor. — Me mudo oficialmente no sábado de manhã, antes do casamento.
Rosalie começou a chorar, eu mal tinha processado a fala de Carlisle e ela já estava com as mãos cobrindo o rosto e com os ombros balançando enquanto chorava.
— Filha… — Ele esticou uma mão e afagou as costas dela. — Calma, vai ficar tudo bem. A casa é sua e do seu irmão agora, você não vai precisar se despedir dela.
— Ela não está chorando sobre a casa — falei. — É sobre a família. — Me levantei, contornei a mesa e me ajoelhei junto dela. — Rose, continuaremos sendo uma família, tá? Mesmo com o papai casando de novo.
— É estranho — murmurou ainda chorando.
— Eu sei, também acho estranho. Mas estamos todos felizes agora, não é? Eu com Bella, você com Emm, mamãe com Aro e papai junto da Emma. E nós dois teremos essa casa para sempre, irmã. Já pensou nossos filhos reunidos aqui para férias entediantes em Bath? — Aquilo arrancou uma risada dela como previ.
— Você é idiota, Ed. — Tirou as mãos da frente do rosto.
— E você me ama ainda assim. — Ergui o corpo e beijei sua testa. — Carlisle, precisamos assinar alguns papéis, não é?
Olhamos para ele, que estava com os olhos marejados.
— Foi minha culpa não ter dado certo com a mãe de vocês, sinto muito por ter falhado tanto com essa família.
— Não é sua culpa, não exclusivamente. — Puxei uma cadeira e sentei ao lado de Rosalie, perto dele também. — Estamos bem grandinhos agora, não é, Rose? Podemos aguentar isso e seguir em frente, não adianta ficar remoendo o passado ou imaginando uma realidade alternativa para tudo isso.
— Você amadureceu tanto. — Carlisle sorriu para mim.
— Espantoso, eu sei. — Afaguei os cabelos loiros de Rose. — A casa ainda não está muito mobiliada para quem está de mudança? Nem vi caixa alguma.
— Não estou levando móveis daqui, apenas pertences como roupas e coisas do tipo, está tudo organizado em meu quarto. Emma e eu compramos tudo novo para a nossa casa. Ainda tem muita coisa aqui que é mais da mãe de vocês do que minha, coisas que Esme escolheu só enquanto eu estava enfiado no trabalho, façam ela vir aqui em breve e decidir o que fazer com tudo isso.
— Olha, pai — Rosalie se manifestou. — Esse casamento também não dará certo se você continuar colocando o seu trabalho como prioridade máxima. Mesmo que ela também seja médica, entenda sua rotina, precisa ter um espaço maior na sua vida. E não estou torcendo contra vocês dois, sei que fui terrível com ela antes, porém, prometo me comportar agora, vou tratá-la bem e rezar para o casamento ser cheio de felicidade.
— Amo você, filha. — Ele a abraçou, Rosalie, chorando novamente falou sobre o amar de volta. — Também te amo, filho.
— É, sei disso. Posso ficar com aquela sua máquina de escrever? — perguntei ao lembrar do item que ele guardava na sala de estar e nunca me deixou usar, porque temia que eu quebrasse.
— Edward! — Rosalie riu ao chamar minha atenção.
— O quê? Eu pedi primeiro, sei que você também escreve, mas a máquina vai combinar perfeitamente com a minha sala de música.
— Não é isso, o papai acabou de falar que te ama e você tá aí pedindo algo.
— Você pode ficar com a máquina de escrever, Edward.
— Ei, espera, pode combinar com a sala dele, mas eu faria melhor proveito, pai!
— Nem vem, Rose. Você escolhe outra coisa.
E assim passamos os próximos dez minutos debatendo sobre uma máquina de escrever.
***
Minha esposa estava sentada na cama quando entrei em meu quarto, ela tinha um álbum de fotos em seu colo e na mão um DVD da primeira temporada de Zoe em Malibu. A empresária olhou para mim e disse de forma cheia de provocação balançando a caixinha do DVD.
— Você era um grande fã da série, né?
— Por que está mexendo nessas coisas velhas? — Sentei junto dela e tirei meus tênis, o colchão não era o dos mais confortáveis, além disso a cama mesmo sendo de casal era pequena comparada a nossa em Los Angeles, dormiriamos espremidos ali, o que significaria Bella me chutando pra caralho durante a noite toda.
— Não tinha nada mais interessante para fazer, você nem tem uma TV aqui.
— Meu pai não deixava a gente ter TV no quarto. — Peguei o DVD da mão dela. — Nem sei como isso ainda está nessa casa, papai recolheu tudo que tinha sua cara depois do… Você sabe.
— Carlisle Cullen o defensor da moral e bons costumes mantendo os filhos dele longe da perversidade propagada pela atriz Isabella Swan — disse em tom dramático. — Você era a coisinha mais fofa do mundo, pirralho. — Mudou de assunto, apontando para uma foto minha bebê no colo de Esme. — Olha o tamanho dessas bochechas, que vontade de apertar esse nenê.
— Em breve você vai ter minha filha bochechuda nos braços para apertar. — Deslizei na cama até estar deitado, analisando a capa brega do DVD de Zoe, a Bella jovem ali estava usando roupas horríveis dos anos 80 em uma pose de super heroína, ao fundo a paisagem de Malibu.
— Nossa filha bochechuda — me corrigiu e virou a página do álbum de fotos. — O que seu pai queria com vocês?
— Estávamos assinando os documentos da casa, agora ela é oficialmente minha e da Rose.
— Agora que ela é de vocês construam um banheiro nesse quarto — Bella exigiu. — Onde já se viu ter que usar o banheiro do corredor. — Bufou. — E ainda dividir ele com sua irmã.
— Cara, você é mais mimada do que eu — aleguei.
— Não venha bancar o pobre para cima de mim, Edward Cullen. Você não tinha TV ou banheiro no seu quarto de infância e adolescência, mas não passava necessidade nenhuma, só tinha um pai mão de vaca.
— Ele não tinha grana antes de ser médico — contei. — Os pais eram realmente pobres, enfim, ele cresceu aprendendo a poupar e tentou ensinar os mesmos valores para Rosalie e eu.
— Não importa muito agora, você é rico e vai reformar esse quarto para quando viermos aqui de novo.
— Não estou pretendendo ficar vindo para Bath, faça você a reforma. — Abri a capa do DVD e vi que ela estava vazia. — Nada.
— Eu sei, já tinha visto que estava vazio, mas vou assinar a capa e dar para sua irmã, será um dos melhores momentos da vida dela. — Ela estremeceu um pouco e notei ser por conta do frio do quarto, mesmo que o aquecedor estivesse ligado, Bella ainda era uma garota da Califórnia no frio de Janeiro na Inglaterra.
— Convencida. — Movi meus pés, calçados em meias, para junto aos dela e os esfreguei para lhe esquentar.
Notei o sorriso de canto em seus lábios e não precisava ser um leitor de mentes para saber o que a mulher junto de mim estava pensando, aquele pequeno gesto significava muito para ela, assim como também era importante para mim, mesmo sendo algo que poderia ser tão pequeno visto de fora. Era cuidado, Bella gostava de se sentir protegida.
— Precisamos tomar banho antes de dormir, estamos imundos do avião.
— Está muito frio para banho — se queixou.
— Tem água quente aqui, meu pai não é tão pão duro assim.
— Mas quando sairmos do banheiro eu vou congelar.
— Você não vai, eu te esquento. — Ela suspirou e fechou o álbum.
— Não vamos transar.
— Nem um boquete?
— Nem isso.
— Você me mata, Isabella Cullen.
— Como se sente com isso? — perguntou arqueando uma sobrancelha para mim.
— Como me sinto sem um boquete?
— Não, Edward! Como se sente voltando aqui casado? — Gesticulou ao redor do quarto. — Você foi criado nessa casa, me viu várias vezes na TV lá embaixo…
— A TV mudou…
— Edward!
Eu ri e esfreguei mais meus pés contra os dela.
— É estranho — confessei. — A última vez que pisei aqui já tinha dito que te amava, mas eu não poderia sonhar com tudo que aconteceu depois, especialmente Holly. — Minha mão automaticamente encontrou sua barriga.
— Preciso te confessar uma coisa, estou extremamente decepcionada com algo, Edward.
Não fiquei em alerta, ela ainda tinha uma expressão tranquila no rosto ao dizer aquilo e sabia que não era algo sério.
— Manda, senhora Cullen.
— Eu estava esperando mais do seu quarto, algo para te zoar como meu quarto de pôneis em Nashville. — Eu ri ao ouvir aquilo. — Mas não tem nem um pôster nas paredes, como isso é possível?
— Eu tirei tudo quando fiz dezoito — contei. — Aliás foi a última reforma daqui, aí pintaram de cinza, antes era amarelo e branco, horrível, mas com dez anos era minha cor favorita. Você está vendo o álbum da fase bebê, amanhã te mostro o álbum que abrangeu essa época terrível do quarto. Espera, onde encontrou esse álbum e dvd?
— Estavam em cima da sua escrivaninha. — Olhei para lá e vi que Bella já tinha se apossado do móvel a lotando com produtos de beleza e seu notebook. — Provavelmente seu pai colocou para tentar conquistar meu coração. — Ela se levantou da cama. — Ele está se esforçando, pena que é um chato falando sem parar do trabalho entediante dele.
— Já pensou se eu tivesse me tornado um médico como ele? — Levantei também. — Será que teríamos nos conhecido?
— Em primeiro lugar, com essa idade você nem seria um médico ainda. Em segundo lugar, você uma vez me disse que era um músico e não iria imaginar universos paralelos, não imagine. Porém, agora entra o terceiro lugar, eu teria sim te conhecido de alguma forma.
— Sou seu destino?
— Não, você é o amor da minha vida. E em qualquer realidade alternativa iríamos nos encontrar no meio do caminho, pirralho. — Estendeu uma mão para mim.
— Você acabou de fazer uma referência a minha música?
— Sim, uma ótima referência, sou incrível, não sou?
— Muito, Capitã. — Segurei sua mão. — Muito.
***
Bella acordou primeiro, ela não teve pena de mim e ficou me chamando até que fosse impossível tentar continuar a dormir. Rolei na cama e enfiei a cabeça embaixo de dois travesseiros, mas nem sonhava com prolongar meu sono, minha esposa já estava falando sem parar sobre os planos que tinha para nosso passeio pela incrível cidade de Bath aquela manhã.
— Vamos, Ed. Vai tomar banho! — ordenou.
— Não sei onde eu estava com a cabeça quando aceitei casar com uma pessoa tão mandona quanto você — reclamei debaixo da minha proteção de travesseiros, porém, obviamente, ela ouviu e buscou vingança.
— Retire o que disse ou nunca mais vamos transar.
— Tá, retiro o que disse — resmunguei e ela arrancou os travesseiros. — Não quero bancar o turista. Vamos ficar em casa, eu te imploro, Capitã.
— Eu vou com você, ou sozinha, o que prefere? — perguntou apoiando as mãos na cintura.
— Sabe que não te deixaria andar sozinha por aí. — Cocei meu queixo e me arrastei para fora da cama. — Mas saiba que não vou me divertir.
— Que seja, vai logo se arrumar, Betty.
Deu vontade de perguntar por que ela não ia se arrumar, ainda estava enrolada em um roupão, com os cabelos escondidos em uma toalha. Só que, fiquei calado e contra minha vontade fui até o banheiro, já estava debaixo do chuveiro quando Bella começou a gritar na porta e bater na mesma.
—Ed, Ed, Ed!
— O que foi agora? — perguntei ainda morrendo de sono, irritado demais para tentar ser gentil.
— Abra a porta, preciso te contar algo.
— É importante? Eu tô tomando banho.
— Claro que é importante, abre o caralho dessa porta, porra! — ordenou.
— Bom dia, Isabella. — Ouvi meu pai falar do corredor e ri baixinho ao imaginá-lo se contendo de chamar a atenção dela por estar xingando em sua casa, principalmente aquela hora da manhã.
Saí debaixo do chuveiro e fui abrir a porta, sem me importar em molhar todo o banheiro. Alguém daria um jeito na minha bagunça, claro que eu não iria perder tempo enxugando o chão molhado.
— O que foi? — Abri a porta para Bella, sem me importar em me cobrir com uma toalha, meu pai já estava fora do corredor e a porta do quarto de Rose fechada.
A mulher diante de mim me deu uma boa olhada, seus olhos seguindo dos meus cabelos molhados até meus pés descalços.
— Desgraçado, você é muito bonito — acusou, eu ri e apoiei um braço no batente da porta.
— Quer entrar aqui comigo? — Puxei a mão dela e a coloquei sobre meu abdômen, seus olhos voltaram a passear por meu corpo focando sobre meu pau.
— Antes que eu diga sim. — Ela suspirou. — Preciso dizer que a YSL está querendo te contratar por cinco anos.
Soltei a mão dela, arregalei meus olhos e Bella mordiscou seus lábios.
— YSL de Yves Saint Laurent? — indaguei, mal conseguindo falar tamanho era meu choque.
— A própria, acabaram de me mandar um e-mail.
— Puta merda! — xinguei, Bella sorriu e me fez sair de perto da porta, entrou no banheiro comigo e nos trancou lá dentro.
— Você tem noção de que isso é foda, não tem?
— Claro que tenho, Capitã. Eu pensava que após todo o problema do namoro falso com Leah isso não aconteceria tão rápido, quero dizer, uma marca desse patamar querer um contrato comigo por tantos anos, é algo muito sério. Eles te chamaram para ser garota propaganda também?
— Claro que não. Mas, o que importa aqui é você fechar esse contrato com eles. Cinco anos te dará muita segurança, dependendo do valor do contrato será capaz de me comprar, sei lá, uma ilha.
Tive de gargalhar.
— Por que você iria querer uma ilha, Bella?
— Quem não quer uma ilha? Um lugar bonito para se isolar é um sonho de todos, querido marido.
— Não vou te dar uma ilha.
— Casei com um mão de vaca, você é igual ao seu pai — provocou.
— Eu com certeza não sou como ele, podemos falar agora sobre o contrato? Quando vou assinar?
— Eles querem que você vá para Paris nos próximos dias e assine o contrato por lá.
— Vai comigo, não vai?
— Não vou conseguir te acompanhar — Bella praticamente choramingou. — Preciso ir daqui direto para Los Angeles se eu quiser realmente lançar Anos, mas talvez possa adiar o lançamento e ir com você…
— Não, nem fodendo que vai fazer isso! — A interrompi. — Sua música e o clipe dela são prioridade aqui.
— Com certeza não são, eu vou acabar perdendo grana insistindo nisso, deveria mesmo te acompanhar e focar no meu papel de empresária.
— Isabella, eu te imploro, para de falar isso. Você me entendeu? — Segurei em seu rosto, ela revirou os olhos, mas balançou a cabeça em um sinal positivo. — Excelente. Você volta para Los Angeles e eu vou para Paris, pronto. Consigo me virar sozinho com a YSL e você dá continuidade ao trabalho com sua canção.
— Não vou te deixar ir só para a França, alguém da Swan Productions vai te acompanhar.
— Tá bom, contanto que não seja você.
Bella bufou, tirando minhas mãos de si.
— Falando assim até parece que você está querendo se livrar de mim, Edward Cullen.
— Capitã, isso é a última coisa que eu quero.
Segurei em sua mão novamente, daquela vez a colocando diretamente sobre meu pau. Eu suspirei alto por conta do contato, Bella se aproximou mais um pouco de mim. Movi a mão dela, minha esposa beijou a tatuagem em meu peito. Entretanto, tudo acabou muito rápido.
— Tchau, tchau, amor. — Ela se desvencilhou de mim e deixou o banheiro.
Fiquei ali sozinho e cheio de tesão.
***
Eu detestava Bath, mas era bom ver a felicidade estampada no rosto de minha esposa enquanto ela conhecia a cidade. Nem as pessoas nos reconhecendo e nos fazendo parar para fotos ou autógrafos mexeu com o bom humor dela.
— Ai, foi muito bom conhecer vocês! — uma adolescente italiana, que estava de férias na Inglaterra com os pais, nos disse depois de tirar foto com Bella e eu. — Ed, eu ia mesmo tentar passar na frente da sua casa aqui e tirar uma foto no jardim da frente.
Doida, pensei, mas me forcei a sorrir e fingir que estava tudo bem.
— Agora você tem uma foto comigo, não precisa ir até lá. — Lhe devolvi a foto polaroid que tiramos em sua máquina e a garota me fez assinar ali mesmo. — Até mais, Cristina. — Entreguei também sua caneta. — Aproveite Bath. Vamos, amor. — Me voltei para Bella, que uniu nossas mãos e se despediu da adolescente também.
Nós tínhamos seguranças nos acompanhando, mas andar por Bath era muito mais tranquilo do que por Los Angeles. Esse era um dos poucos pontos positivos a respeito da cidade.
— Eu moraria aqui — Bella falou enquanto entrávamos em uma livraria, o que me pegou completamente de surpresa.
— O quê? Você?
— É tranquilo. — Deu de ombros. — Tão diferente de Los Angeles, eu consigo me imaginar vivendo em um lugar assim. — Provavelmente a expressão de puro horror em meu rosto fez Bella falar em seguida. — Não estou dizendo que quero vir morar aqui, calma, pirralho. Só tô falando que eu moraria, como eu também moraria na fazenda. Você sabe muito bem que gosto de me isolar de vez em quando, mas no fim prefiro a agitação de Los Angeles.
— Um alívio escutar isso, eu não voltaria a morar em Bath de forma alguma.
— Mas no futuro, com Holly, podemos passar férias longas aqui, o que acha? — Bella tirou seu casaco, fora da livraria estava bem frio, mas ali dentro o aquecedor trabalhava a todo vapor.
— É, talvez. — Segurei o casaco dela, suas luvas e seu cachecol conforme a mulher ia tirando tudo. Por eu ter uma resistência maior ao frio europeu, tinha apenas um casaco, que também tirei e depois repassei todas nossas roupas para Felix, parado na porta da livraria, segurar. — Valeu, cara — falei ao deixar tudo com ele e voltar para perto de Bella que já se perdia entre as estantes da livraria, que naquele momento percebi ser de livros de segunda mão.
Nós já tínhamos ido a vários locais turísticos em Bath, incluindo The Jane Austen Centre, o lugar favorito da cidade para Bella até aquele momento.
— Eu queria te perguntar algo — comecei a falar, ela olhou para mim e sorriu.
— Pode perguntar, amor.
— Por que você gosta tanto de Emma, da Austen?
Bella se apoiou na estante mais próxima de si e respondeu:
— Quando eu tinha uns treze anos encontrei o livro lá em casa, Renée estava lendo. As Patricinhas de Beverly Hills tinha sido lançado uns quatro anos antes e ela queria fazer algum programa com a mesma pegada do livro. — Para meu espanto Bella não tinha um pingo de angústia em sua voz ao falar sobre a mãe que tanto lhe fez mal, ela estava tranquila. — Eu pedi para ler o livro também, nós lemos juntas, algumas vezes ela lia em voz alta para mim e eu lia para ela assim também. Era algo de nós duas, sabe? Acabou que ela não conseguiu formular nenhuma série baseada no livro, mas começamos a ler outros livros da Austen assim, depois de outras autoras. Era uma das poucas coisas que nós duas fazíamos que não envolvia de fato minha carreira, ou a dela, se tornou um passatempo de mãe e filha.
— Como esses livros não se tornaram uma memória ruim para você, Capitã? — quis saber.
— Não sei, muita coisa que envolvia ela se tornou, né? Entendo sua pergunta, mas não sei responder. Eu simplesmente continuo os amando e quando leio não fico sofrendo pensando em minha mãe.
— E Emma é o melhor livro da Austen mesmo? Ou você só prefere esse por ter sido o primeiro que leu?
Ela riu baixinho.
— Emma é considerada uma das personagens mais irritantes da literatura, eu provavelmente só me identifiquei com a chatice dela. — Eu sorri e fiquei bem pertinho de Bella, percorri uma mão por seu rosto e a vi fechar os olhos. — Não sou nem de perto uma Elizabeth Bennet da vida.
Inclinei minha cabeça em sua direção e sussurrei:
— Abra seus olhos, meu amor.
Ela os abriu para mim.
— Você não é como Elizabeth, nem como Emma, você é muito mais interessante do que qualquer uma delas. E um dia alguém irá transformar sua história em um livro. — Os olhos dela se encheram de lágrimas.
— E o final da minha história será ao seu lado?
— Não há outro final possível. — Belisquei sua bochecha, ela riu novamente. — Sabe, terá um pouco de lágrimas no livro, algumas gargalhadas, vários momentos de tensão, mas garotas por todo canto do mundo irão se inspirar na sua força.
— E você também irá inspirar as pessoas por aí?
— Em menor escala, eu sou apenas o par romântico gostoso. — Pisquei, ela revirou os olhos ainda marejados. — Você é a protagonista, linda.
— Depende do ponto de vista. Quem sabe a pessoa que vá escrever o livro prefira focar na história do personagem masculino, você.
— Vamos concordar então que quem escrever nossa história deverá dividir igualmente o protagonismo entre nós dois, não iremos vender os direitos das nossas vidas para qualquer um que queira falar só de mim.
— Ou apenas de mim.
Ela fechou os olhos outra vez e falou:
— Isso provavelmente irá acontecer um dia, alguém nos procurar para fazer nossa autobiografia conjunta. Já pensou? — Seus olhos se abriram, castanhos e reconfortantes. — O garoto de Bath e a garota da Califórnia, diferenciados por anos e um oceano tendo seus caminhos entrelaçados até pararem juntos em páginas de um livro.
— E com certeza farão um filme também. E um documentário, mas esse será ruim.
— Por quê?
— Será mal editado e pessoas que odiamos, tipo a Leah, irão dar entrevista falando sobre nós dois.
Ela gargalhou.
— Eu consigo imaginar isso muito bem.
Não aguentei e a beijei ali mesmo, Bella retribuiu o beijo. E era foda para caralho poder beijá-la, não sentia saudades de quando precisávamos nos esconder, podia ser excitante, mas declarar em público meu amor por ela era ainda melhor.
— Vamos ler Emma juntos — sugeri após o beijo, Bella olhou para mim com choque.
— Tá falando sério?
— Tô sim. Quem sabe não me inspira para novas canções, livros são mesmo um bom material de referência, podemos criar algumas músicas sobre juntos.
— Ai, eu vou amar isso. — Ela comemorou, se afastou de mim para começar a olhar os livros na estante perto da gente. — Vamos escolher outros livros para ler juntos após Emma? Pode se tornar um novo hobby pra gente, tipo um clube do livro. Lá pelos meus vinte e poucos anos eu quis tanto participar de um clube do livro, mas era impossível, vamos ter o nosso, vai ser tão legal. Você topa?
Eu nunca poderia dizer não, a animação dela sobre aquilo era tão grande que mesmo não sendo um leitor me animei em fazer parte.
— Vou amar, Capitã. — Peguei um livro chamado Sequin Smile. — Que tal esse? — A capa tinha uma arte imitando um caderno de couro marrom e adesivos variados. A sinopse não me dizia muita coisa, mas eu tinha achado a capa linda.
— Me deixa ver. — Pegou o livro da minha mão e o abriu, o cheiro de mofo nos atingiu, por dentro as páginas estavam bem amareladas, mas Bella parou de folhear quando encontramos uma foto.
Uma garota estava abraçando um cara na frente da igreja que frequentei quando morava em Bath. Era uma foto polaroid, mas recente. Eu soube disso, afinal a Igreja tinha passado por uma reforma e as roupas que eles usavam indicavam ser de um tempo mais atual.
Minha esposa pegou a foto com delicadeza de dentro do livro, atrás dela estava escrito apenas:
“Ele me traiu.”
— Esses dois também parecem ter uma história interessante — Bella falou e passou a foto para mim, ela voltou a folhear o livro e encontramos mais alguma coisa, a pétala de uma rosa seca. — Aposto que ela ganhou flores dele no começo do relacionamento e guardou aqui para lembrar dele para sempre, mas aí o filho da puta traiu ela.
— Isso não é louco?
— Guardar uma flor morta? Sim.
— Não isso, tô falando da gente ver esse pedaço de história desses dois desconhecidos apenas por um livro velho, uma foto, uma frase e uma flor seca. Isso daria uma ótima música.
— E um excelente filme — ela murmurou.
Eu sorri largamente e questionei:
— E você poderia escrever o roteiro e atuar nele!
— Não começa, Edward.
— É sério, você escreve o roteiro, atua nele e eu cuido da trilha sonora, pronto.
— Nem pensar, vamos deixar esse livro aqui, não quero levar ele.
— Por que não?
— Não parece certo, só grava o nome do livro pra gente comprar pela internet depois.
— Por que não parece certo? A dona do livro se livrou dele porque não o queria mais.
— Porque na minha cabeça daqui uns anos ela vai reencontrar o livro, ou o cara, ainda não pensei bem. E se levarmos o livro para o outro lado do Oceano Atlântico irá dificultar isso acontecer.
— E o que acontece quando um deles reencontra o livro? — Devolvi a foto para o lugar que ela estava antes.
— É assim, um deles reencontra o livro e começa a relembrar do que viveram juntos, por fim acaba indo atrás do outro.
— Bella, você está fazendo um roteiro.
Ela fez uma careta.
— Eu não vou me tornar uma roteirista.
— Amor, acho que você se tornou uma no momento que viu essa foto. Isso vai ficar na sua cabeça até te incomodar tanto que vai precisar colocar para fora.
— Pode ser só uma música e um clipe. Escrever um filme? Claro que não.
— Ok, vou apenas dizer algo… Você poderia ser a versão mais velha da garota da foto e Nessie a garota na época que a foto foi tirada que faz parte das lembranças do cara.
— Acho que você está indo muito longe, pirralho. — Ela devolveu o livro para a estante. — Eu nunca mais farei um filme, nem atuando, muito menos roteirizando.
— Isabella Cullen, você é uma artista. Eu também sou e por isso posso afirmar que as ideias vão te perseguir até você dar vida a elas.
— Quer apostar que eu nunca mais vou pensar nesse livro, foto ou flor?
— Vamos, você vai perder.
Estendi uma mão e ela apertou.
— Eu vou ganhar, senhor Cullen.
***
Tirei uma foto dela, de costas para mim, mas concentrada nos livros. Ela parecia disposta a desbravar todos os livros daquele lugar, eu queria apenas continuar ali a admirando.
E sendo exibicionista como era, postei aquela foto em minhas redes sociais, querendo mostrar a todos a grande mulher ao meu lado.
“Um livro, uma foto, uma flor e a mulher mais criativa do mundo.”
Guardei o celular no bolso e naquele mesmo instante Bella me chamou, caminhei até ela que me mostrou o interior de um livro que segurava, nele tinha uma dedicatória escrita à caneta.
— Olha o que eu achei, lê isso aqui.
“Para minha amada Isabella. Mal vejo a hora de te rever. Com amor e saudades, seu Edward.
19.08.1969”
— Será que eles ainda estão juntos?
— Dependendo da idade que tinham em 69 eles podem até não estar mais vivos, mas é divertido pensar em outro Edward e outra Isabella por aí se amando.
— Qual o nome do livro? — perguntei envolvendo sua cintura com meu braço.
— Emma da Austen — respondeu me mostrando a capa. Eu tive de rir e exclamar:
— Impossível, você que escreveu isso aí!
— Essa parece minha letra?
— Não, mas é muita coincidência.
— Isso também daria um roteiro muito bom, não é?
— E você acaba de perder a aposta.
Ela resmungou.
— É, eu acho que perdi, mas isso não signifca que eu vá escrever qualquer coisa. Vamos levar o livro, você gostou de algum?
— Aquele com fotos da Audrey Hepburn.
— Eu já te contei que vi ela pessoalmente? — Franzi o cenho, perdido nas datas.
— Como assim? Ela já não tinha morrido quando você nasceu? Para mim ela tinha falecido em 83.
— Não, não, ela faleceu em 93. E em 91 eu vi ela em um evento, não lembro do que era, eu tinha só uns cinco anos, mas consigo me lembrar de ver aquela mulher passar perto de mim, deixando todos vidrados nela. Renée diz que Audrey acenou para mim nesse momento, só que dessa parte não tenho recordação alguma, talvez seja só uma mentira da minha mãe, sei lá.
— Espera, princesa Audrey…
— Sim, é o que você está pensando, o nome veio dessa Audrey mesmo.
— Rosalie vai amar saber disso. Vamos embora agora? Estou doido para comer algo.
— Na verdade, eu queria ir em um último lugar antes de irmos jantar.
— Você disse que os pontos turísticos que queria ir tinham acabado no museu da Jane — choraminguei.
— Não quero ir a nenhum ponto turístico, quero ir até a igreja que você frequentava quando morava aqui.
— Para fazer o que? — perguntei e no segundo seguinte me dei conta. — Você quer ver o lugar da foto, não quer?
— É, eu quero. Podemos ir?
***
No carro, a caminho da igreja, eu vi no Twitter que a demissão de Renée tinha sido anunciada. Até ali a produtora não tinha se manifestado e a emissora não deu detalhe algum, apenas emitiu uma nota que após anos de contribuição Renée Swan não fazia mais parte da equipe.
Pensei em mostrar para Bella, mas ela tinha seu celular desligado durante o dia inteiro e estava no carro revendo os livros que comprou. Então, desliguei meu próprio celular e não toquei no assunto, ela estava bem e eu não queria atrapalhar o dia agradável que estávamos tendo.
Bella sorriu largamente quando o carro parou na frente da igreja.
— Foi nessa direção aqui que eles tiraram a foto. — Ela apontou pela janela. — Você quer entrar?
— Você quer?
— Seria interessante ver o local onde você cantava quando criança.
— Vamos nessa.
Ela comemorou batendo palmas e eu beijei sua testa antes de deixarmos o carro. Estava escuro e ficando tarde, mas a igreja ainda estava aberta e uma missa era celebrada lá dentro.
Bella e eu ficamos nos fundos, quietos o máximo, evitando chamar a atenção.
— Ainda é o mesmo padre — cochichei para ela.
— Como ele se chama?
— Ernest. Ele me odiava, talvez por eu viver escapando da missa para pegar meninas atrás da igreja.
— Você vai direto para o inferno — ela comentou, seus olhos estavam fixos no padre. — E se fosse uma série?
— O quê? — perguntei sem entender.
— Uma mulher, dona de uma livraria, só de livros usados. Uns sete episódios, cada um focado na história por trás de algo que ela encontrou dentro desses livros, dedicatórias, fotos, flores, bilhetes de trem. O primeiro episódio da garota que foi traída e se livrou do livro com a flor e a foto. O segundo da Isabella e do Edward de 1969. O terceiro é um bilhete de trem para Londres, que nunca foi usado. E por aí vai.
Bella olhou para mim.
— Você assistiria?
— Eu vou assistir, porque você irá fazer isso acontecer.
— É, talvez eu faça.
Voltou a olhar para frente e mordeu o lábio inferior. Eu sussurrei um questionamento importante em seu ouvido:
— Você seria a atriz que interpretaria a dona da livraria?
— Quer ir relembrar sua adolescência e dar uns beijos atrás da igreja?
— Responda minha pergunta.
— Eu poderia ser. Responde a minha pergunta agora.
— Seja silenciosa, o padre Ernest está velho e se nos pegar no flagra é capaz de infartar.
Bella controlou uma risada, nos levantamos e escapamos por uma porta lateral da igreja que eu conhecia muito bem. Lá fora nevava, o que fez minha esposa agarrar meu braço com força.
— Neve! — ela comemorou, então se soltou de mim, caminhou um pouco pelo jardim e ergueu a mão com a palma para cima para juntar neve ali. — Infelizmente ainda não é o suficiente para te acertar com uma bola de neve, pirralho.
— Engraçadinha!
Ela voltou para perto de mim e me deu um beijo cheio de desejo, enquanto eu agarrava sua cintura e retribuia. A neve caia sobre a gente, o coral na igreja começou a cantar e eu me senti em paz como nunca antes naquele lugar.
***
Nós acabamos indo jantar com minha irmã e Emmett que tinha acabado de chegar a cidade, meu pai foi convidado, mas estava ocupado organizando os últimos detalhes de sua mudança. Ficamos até tarde no restaurante, Bella estava empolgada falando sobre nosso dia, Rose sobre seu livro e o namorado dela da peça para qual estava ensaiando, fomos praticamente os últimos a ir embora e quando chegamos em casa Carlisle já estava dormindo como nos informou em um bilhete colado na porta da geladeira.
Bella tomou banho primeiro, depois eu. Quando voltei para meu quarto após o banho, minha esposa estava sentada na cama com seu notebook no colo digitando sem parar.
— O que está fazendo?
— Respondendo e-mails da YSL e alguns de Jessica e Tanya. Jessica vai te encontrar em Paris, tá bom? Eu queria que Tanya fosse, mas nós duas temos muito que organizar na produtora.
— Tudo bem. — Deitei ao seu lado com meu celular em mãos, entrei no Instagram e vi que Bella tinha curtido a foto que postei dela. A empresária também tinha postado uma foto minha, mas uma que tirou do meu álbum que estava mexendo no dia anterior, era eu bebê dormindo agarrado em um bichinho de pelúcia, sua legenda foi:
“Espero que a Holly seja um bebê bochechudo como Ed foi.”
Eu sorri, a mão de Bella deixou seu computador e veio parar em meus cabelos, isso me fez adormecer antes do previsto. Quando acordei, sem saber quanto tempo tinha se passado, foi com a mulher ao meu lado dando beijos por todo meu rosto.
—Finalmente, pensei que você não fosse acordar — ela disse se apoiando em um braço quando abri meus olhos.
— Já está de manhã?
— Não, você só dormiu por meia hora. Mas eu tô querendo muito transar, vamos?
Ouvir aquilo me acordou por completo.
— Amém! Deus já está me recompensando por assistir a missa.
— Edward. — Bella bateu em meu braço, com tanta força que eu gemi. Aquilo a fez sorrir, a mulher montou em mim, segurou meus pulsos na altura da minha cabeça e indagou. — Eu vou pegar a gravata que você vai usar amanhã e te amarrar, o que acha disso?
— Uma excelente ideia, não tem como melhorar.
— Tem sim, eu trouxe um vibrador especial.
— E vai usá-lo em você para me torturar?
— Não, eu vou usar ele em você para te torturar.
Eu sorri, ela piscou e soltou meus pulsos.
— Não se mexa.
***
Eu precisava beber água, estava morto depois do sexo. Bella, por outro lado, tomou um novo banho e já estava dormindo profundamente, provavelmente durante o sexo ela sugou todas minhas energias para si como uma bruxa.
Peguei uma garrafa na cozinha e bebi quase meio litro de água, aproveitei que estava por ali e comi um pedaço de torta que Rosalie tinha comprado no restaurante. Depois de comer e beber estava disposto a voltar para o quarto e apagar junto de Isabella, mas passei por meu antigo piano na sala e não fui capaz de resistir.
Sentei no banco na frente dele e sorri um pouco, pensando em todas as outras madrugadas que desci para tocar. E naquela não foi diferente, toquei um pouco de Garota, mas logo me vi arriscando uma melodia nova, talvez pudesse servir para a canção inspirada naquele livro, foto e flor que encontramos aquela tarde.
— Essa é nova? — Me assustei e parei de tocar na hora, estava tão concentrado até ali que não ouvi meu pai se aproximando. — Desculpe, pensei que tivesse ouvido minha aproximação.
—Não. — Engoli em seco, meu coração ainda disparado. — Eu te acordei? Foi mal.
— Ah não, eu nem dormi ainda. — Carlisle sentou ao meu lado. — Subi cedo para dormir, mas acabei com insônia. Estava lendo até agora.
— Algum livro chato de medicina?
Ele riu da minha afronta, o que foi um milagre.
— Não é chato para mim, eu amo a medicina como você ama a música.
— Ok, eu aceito. E você deveria ter tomado algo para dormir, amanhã vai estar um caco para seu casamento.
— Vou fazer um chá, você também está com insônia?
Eu balancei a cabeça em negação.
— Não, estava dormindo muito bem, mas Bella me acordou…
— Não precisa me dar informações. — Carlisle se levantou. — Eu já estou fingindo que Rosalie não está no mesmo quarto que o namorado dela.
— Eca — resmunguei. — Eu também estava fingindo. Vou subir e dormir. Faça o mesmo.
— Ei — Carlisle tocou no meu ombro antes que eu pudesse me levantar. — Da próxima vez que estivermos na mesma cidade você poderia me ensinar a tocar piano?
Aquilo me paralisou, mas consegui perguntar:
— Por quê?
— Quero entender melhor seu amor pela música, isso parece uma boa forma de começar.
Senti uma animação gigantesca tomar conta de mim ao ouvir aquilo.
—Eu vou te ensinar sim, vai ser muito legal. E posso te indicar umas canções atuais que o senhor pode gostar e ir escutando para tocar elas depois, vou fazer uma curadoria e te mando tudo, pode ser?
— Pode sim. — Ele sorriu para mim. — Obrigado, filho.
— De nada, pai!
***
Carlisle estava casado. Um casamento que foi mais intimista do que o meu, aconteceu em um cartório. De convidados apenas minha esposa, minha irmã, meu cunhado, eu e os pais da noiva.
Saímos do cartório e fomos todos jantar em um restaurante caro. Minha irmã ainda estava tendo mais dificuldades de aceitar aquilo do que eu, então eu puxei para mim a responsabilidade de ser o filho perfeito, tratei Emma e os pais dela tão bem que Bella estava olhando para mim como se eu fosse um alienígena.
E os pais de Emma eram muito chatos, mas dei o melhor de mim para não deixá-los notar — ou no mínimo os fazer ignorar — a expressão abatida no rosto de Rose. Que com o passar do jantar foi suavizando enquanto eu fingia interesse na vida da família de Emma.
A médica e meu pai estavam muito felizes, ainda que a nova senhora Cullen estivesse um pouco tensa toda vez que falava com minha esposa. Bella, eu sabia bem, podia ser muito intimidante.
— Ai desculpa — Emma pediu no meio de uma história que contava. — Eu ainda não acredito que estou sentada perto de Isabella Swan.
— Isabella Cullen — Bella a corrigiu na hora.
— Isso, claro. É que você é tão famosa, fico constrangida.
— Você não ficou constrangida quando me conheceu — apontei e Emma olhou para mim.
— É que seu pai falava tanto de você que parecia que eu já te conhecia, Ed. Mas a Bella, nossa, parece que estou encontrando uma estrela de Hollywood.
— Bom, no passado eu fui uma. — Bella deu de ombros.
— Eu sou uma estrela de Hollywood — sussurrei enciumado e Bella fez carinho na minha orelha.
— Você é tão bonita! — a mãe de Emma disparou para Bella. — Não achei que pudesse ser ainda mais bonita pessoalmente, já é tão linda na TV.
— Ei, você não é a garota daquele vídeo? — o pai de Emma indagou, naquele instante parecendo que tinha resolvido um enigma gigante em sua mente.
Na hora Bella largou minha orelha e agarrou minha mão por cima da mesa. Eu estava abrindo a boca para mandar aquele velho calar a porra da boca dele, mas meu pai falou primeiro.
— Robin, não vamos tocar nesse assunto.
— Mas…
— Vamos falar sobre outra coisa, Robin! — meu pai ordenou. — Esse não é o tipo de conversa que teremos no meu jantar de casamento. — Ele olhou para Bella e disse. — Me desculpe por isso, ninguém mais irá falar sobre.
— Tudo bem — Bella murmurou afrouxando o aperto em minha mão. E Rosalie despertou, colocando um sorriso no rosto e puxando assunto com a mãe de Emma para mudar o clima. — Estou bem — Isabella disse baixinho para mim. — Continue sendo o bom menino que estava sendo, não vamos estragar o dia do seu pai e da Emma.
— Tem certeza? Não me importo em estragar para te defender.
— Não, sem confusão. Vamos ignorar.
Beijei perto da orelha dela e sussurrei:
— Eu amo você, me desculpa pelo o que ouviu.
— Não foi nada, ele só lembrou. Todos sempre acabam lembrando, eu já aprendi a ignorar.
Eu sabia que ela não tinha aprendido.
***
Naquela noite eu desci novamente de madrugada para tocar piano, mas daquela vez foi acompanhado de Bella. Queria mostrar para ela a melodia nova que estava rodando minha cabeça.
— Eu ainda não tenho uma letra para ela, mas talvez sirva para a canção que será tema do primeiro episódio da sua série.
Minha esposa não disse nada, apenas riu e eu continuei a tocar.
— Diz algo — pedi depois de tocar pela segunda vez.
— Acho que tenho uma letra para ela, ou uma ideia ainda distante de letra, mas não é sobre aquele possível roteiro.
— É sobre o que então?
— Holly.
Bella apoiou o queixo em meu ombro e beijou minha bochecha.
— Vamos fazer uma canção para nossa garotinha, meu amor.
— Ei, filha. — Tirei uma mão do piano para afagar a barriga de Bella. — Você está pronta para a primeira música em sua homenagem?
— Ela está. — Bella uniu sua mão a minha.
— Eu toco e você canta, Capitã.
***
Isabella e eu ainda estávamos tocando quando Rosalie apareceu na sala, segurando seu celular em mãos e uma expressão nada boa no rosto.
— Desculpa atrapalhar vocês — ela disse.
— Aconteceu alguma coisa? — Bella perguntou.
— Sim, Renesmee me ligou, ela disse que estava te ligando, mas você não atendia. Aí veio falar comigo, aparentemente Alice soltou um vídeo no Instagram dela revelando que Renée era amante de Phill Dwyer.
— Puta merda — Bella e eu falamos juntos. — É, eu deveria ter notado que os últimos dias estavam muito tranquilos mesmo após a demissão de Renée.
Isabella estava certa, até aquele momento a produtora não tinha se pronunciado e tudo estava calmo, mas talvez o golpe final de Alice fosse fazer a mãe delas enfim falar algo.
— Sabe o que mais Alice disse nesse vídeo, Rose? — Bella se levantou.
— Que Renée bateu nela.
— Eu amo minha irmã, mas vou matar ela. Minha família não sabe ficar longe de problemas, impressionante.
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