Holes in your coffin
1 Parte I - Capítulo 1 de 2
Notas iniciais
Levi nunca tinha parado para refletir sobre coisas no momento em que se deitava para dormir, não desde que tinha morrido como humano. Era muito simples: bastava que deitasse em seu caixão e fechasse os olhos; ele só saberia do mundo de novo na noite daquele dia. No entanto agora estava deitado naquela porcaria de caixa fechada na qual era obrigado a dormir e sua mente estava perturbada demais para conseguir se desligar e o deixar em paz.
Tudo isso porque... Tinha o encontrado.
E Levi nem mesmo sabia que estava o procurando até o momento em que seus olhos caíram sobre ele na noite anterior. Naquele instante a única coisa que tinha certeza era de que o tinha encontrado, assim como havia acontecido duas outras vezes... Mas era agora que isso importava.
Desde que tinha feito à escolha de viver por conta própria, uma das coisas que mais gostava era frequentar locais cheios de pessoas e observá-las. Em duas situações tinha o visto: uma vez na Inglaterra, segurando a mão de uma menina que devia ser sua filha e outra vez como uma garota com seu namorado, na última vez que tinha estado na França. Em ambos os casos isso não valia de nada para Levi. Não podia se aproximar dele assim e por isso nunca se deu conta de que estava atrás dele; haviam sido apenas dois encontros aleatórios que não alteravam nada.
Aquele, no entanto, modificava tudo. Ele estava sozinho e sem dúvida era ele. Bastante diferente do Adam em termos físicos, mas a essência era a mesma e ele estava sozinho. Finalmente sozinho. Seduzi-lo seria uma tarefa muito fácil para si, mas não era isso queria fazer. Queria que ele gostasse de si porque tinha se atraído de verdade, porque tinha visto algo de interessante em si e não porque tinha poderes para isso.
Foi deixando de lado seus poderes e sendo o mais humano possível que Levi se aproximou dele, o homem loiro e alto sentado sozinho em um canto do bar. Seus olhos se encontraram por alguns instantes e o homem – Erwin, Levi descobriu poucos minutos mais tarde – aceitou sua companhia sem hesitar.
Antes que se dessem conta estavam no apartamento de Erwin, na cama de Erwin e... Erwin tinha aquela merda de marca, mas era apenas uma noite, então por que devia se importar?
Levi achava um tanto irônico que assim como muitos dos monstros, os caçadores também pareciam humanos normais até terem algo que mostrasse o contrário. No caso deles era aquela merda de tatuagem que todos carregavam, como numa espécie de seita secreta que não era tão secreta assim se você soubesse o que estava fazendo. E Levi sabia. Se ele fosse um humano comum aquilo seria apenas uma tatuagem para si, mas ele não era e por isso sabia que devia ficar longe daquele tipo de encrenca.
Agora estava ali um tanto frustrado consigo mesmo. Devia simplesmente ter ignorado que tinha o visto e indo embora sem fazer nada? Ou tinha feito certo? Não parecia certo quando a maior parte de si pensava que uma noite nunca seria suficiente. Porém Erwin era humano e ele continuaria humano mesmo que não fosse caçador.
Uma noite tinha que bastar pela eternidade.
***
Erwin estava surpreso com o homem ao seu lado, surpreso em como Levi se movimentava com graça e certeza, não hesitando um momento que fosse era quase como se ele tivesse o mundo em suas mãos. Seu jeito de andar lembrava um felino, na opinião de Erwin. Sua expressão era de pura neutralidade, como se nada demais tivesse acontecido, mas observando melhor era possível ver como Levi parecia cansado e como havia tensão em seus ombros, como se ele não pudesse relaxar ainda.
Ele também estava surpreso com a força de Levi, em como para ele tinha sido simples se livrar de homens maiores e mais fortes do que si. Pela pequena estatura dele, Erwin esperava que ele fosse do tipo rápido, bem mais rápido do que tinha sido momentos antes, na verdade.
Não fazia ideia de quantos anos Levi tinha, o que ele fazia da vida ou qualquer coisa do gênero, mas o outro parecia saber muito sobre si, o que não tinha sentido já que aquela era apenas a segunda vez que se viam. Ainda assim ele soube exatamente como encontrar Erwin e parecia de alguma forma saber que o maior precisava de ajuda.
“Você é mesmo idiota, nem mesmo um cara do seu tamanho consegue dar conta de três ao mesmo tempo. Eles eram tão grandes e fortes quanto você”, a voz de Levi era tranquila e ele nem mesmo se deu ao trabalho de olhar para Erwin, continuando o caminho como se já o tivesse feito um milhão de vezes.
“Ainda assim você conseguiu dar conta deles”, por algum motivo Erwin sorriu de canto ao falar aquilo, olhando um momento para o menor. Talvez fosse o efeito do álcool, talvez fosse à presença de Levi, ou talvez fosse apenas à perda de sangue misturado com os outros dois fatores, ele não sabia dizer ao certo.
“Estávamos juntos. Claro que dei conta deles”.
Levi queria apressar o passo naquele momento, porém Erwin parecia mais disposto a um passeio noturno até o apartamento que dividia com Hanji. O loiro ao seu lado podia não ligar muito para o fato de estar sangrando, no entanto Levi se importava e se importava muito. Se controlar no momento estava exigindo mais de si do que esperava. Nem mesmo fazia ideia de qual tinha sido a última vez que sentira tanta necessidade pelo sangue de alguém, mas o cheiro do sangue de Erwin parecia extremamente... Convidativo.
Já estava velho o suficiente para o sangue não ser uma necessidade tão constante e latente quanto no começo, por isso estava se repetindo isso de novo, de novo e de novo e mais uma vez apenas para garantir que não perderia o controle.
“Vamos logo com isso, Erwin! Não quero você desmaiando no meio do caminho”, existia uma espécie de autoridade na voz de Levi e de repente Erwin apenas se viu o seguindo sem hesitar ou pensar naquilo, chegando logo em casa.
“Não sei onde minhas chaves estão”.
Levi suspirou, o olhando meio de canto antes de tocar o interfone para o apartamento de Erwin, esperando quem quer que fosse atender. Começava a sentir uma espécie de suor frio se formando em seu corpo pelo esforço que fazia para ignorar a vontade pelo sangue do maior. Sentiu vontade de empurrar Erwin para dentro e o forçar a ir rápido até o apartamento quando a porta abriu, mas se conteve e apenas o seguiu pelas escadas até o segundo andar.
“O que aconteceu?”, Hanji olhou de Erwin para Levi, parecendo momentaneamente atraída por sua palidez, corpo pequeno e os olhos cinzentos, mas sua atenção se voltou toda para o amigo quando ele começou a explicar o que acontecera, os três parados a porta do apartamento, conversando no corredor.
“Hm... Podemos entrar, por favor? Precisamos cuidar desse ferimento no braço do Erwin”.
Hanji olhou de novo para Levi, o analisando mais um momento antes de rir e dar espaço para os dois entrarem. Levi não se importava muito com olhares, mas algo no jeito que ela o analisava era incomodo e fazia parecer que ela queria ver através de si, como se soubesse que havia mais do que o visível em si.
“Eu vou cuidar desse corte”, Hanji forçou Erwin a se sentar numa das poltronas da sala, indo logo buscar o kit de primeiro socorros, falando o tempo todo enquanto fazia aquilo.
Agora que estavam em um local fechado Levi sentia o autocontrole escapando por entre seus dedos, seu corpo ficando ainda mais tenso enquanto podia perceber o gosto do sangue de Erwin apenas pelo aroma. O aviso de que ia ao banheiro não passou de um sussurro, nem mesmo olhando para o outro enquanto seguia o caminho que Hanji havia feito, esbarrando de leve com ela no caminho.
Hanji entrou na sala com o kit na mão, olhando para trás, a testa um pouco franzida, sendo despertada pela voz forte e tranquila de Erwin chamando seu nome.
“Quem é ele? Ele está bem?”, ela começou a falar enquanto se sentava e abria o kit, olhando o braço de Erwin.
“Ele é o cara do bar. O que eu trouxe aqui quando você não estava”, Erwin acompanhava cada movimento de Hanji, relaxado no lugar, a deixando cuidar de tudo sem hesitar. “Acho que ele está bem. Ainda estou um pouco surpreso com a facilidade que ele teve para lutar”.
“Sério que três caras iam te derrubar? Passamos por coisas piores do que isso, Erwin. Não acredito que não posso te deixar sozinho por aí”, o tom dela era quase divertido e aquilo fez Erwin rir, ambos esquecendo um pouco Levi.
Foi com um quase alivio que Levi trancou a porta do banheiro e se encostou a ela, fechando os olhos por um longo momento. Sua mente estava confusa e ele ainda não conseguia entender a própria reação. Estava alimentado. Matar pessoas não era um problema, mas matar Erwin era. Se alimentar em alguém que tinha procurado por tanto tempo parecia simplesmente errado. Não ia matar Erwin e também não ia transformá-lo. Em toda sua existência como vampiro ele nunca tinha transformado alguém e tinha a intenção de se manter assim. Por outro lado, se fosse para transformar uma pessoa essa pessoa seria o homem na sala... Isso significaria a eternidade juntos, afinal.
Levi respirou fundo, abrindo os olhos e indo lavar o rosto, se sentindo um pouco fraco. O cheiro do sangue tinha diminuído, assim como o sabor que sentia nos próprios lábios, mas dali conseguia ouvir os barulhos da sala de forma alta como se não conseguisse separar os ambientes e a vontade de controlar toda a situação. Aos poucos sua mente clareava, no entanto tinha certeza que estava mais pálido e com aparência de mais cansado do que antes por não conseguir se controlar tão bem perto de Erwin naquela noite.
Por que se sentia fraco quando devia se sentir mais forte? Por que o controle escapava de si justamente perto de Erwin? Talvez o problema fosse não querer usar seus poderes com ele e querer ser tão humano perto dele, sendo que o humano em si tinha morrido há muitos séculos.
“Levi? Está tudo bem?”, era a voz da Hanji do outro lado da porta, pegando Levi de surpresa. Estava tão imerso em toda aquela confusão que não tinha percebido a aproximação dela. Sabia que existia algo nela que devia o preocupar, no entanto não tinha como pensar no assunto naquele momento.
“Já estou indo”, sua voz era completamente controlada e por um instante ficou surpreso consigo. Podia voltar ao controle de si mesmo. E foi se dizendo isso que abriu a porta e deu de cara com ela. “E o Erwin?”.
“Ah...”, Hanji parecia sem palavras por alguns segundos enquanto o encarava; seus olhos fixos nos dele. “Ele está bem, está pedindo algo para comermos. Você está bem?”.
Levi colocou as mãos nos bolsos da calça, acenado com a cabeça de leve enquanto dava espaço para ela entrar no banheiro, decidindo esperar por ela ali. A coisa mais sensata a fazer era se aproximar de Hanji.
“Ele não costuma ser idiota assim, mas pelo jeito não posso mais deixar Erwin sozinho e com álcool”.
“Aqueles caras estavam mal intencionados, não foi exatamente culpa dele”.
“Foi muita sorte dele você estar por perto, não foi?”.
“Não sei, você acha que foi? Talvez ele conseguisse sair daquilo sozinho”, Levi se desencostou da parede, seguindo Hanji para sala assim que ela passou por si.
“Estamos curiosos de como conseguiu brigar com aqueles caras...”.
“Sei uma coisa ou outra”.
“Você parece jovem demais”, Hanji o olhou mais uma vez, parecendo analisar quantos anos Levi tinha.
“Posso ser mais velho do que aparento”, Levi deu a ela um inesperado sorriso de canto, a deixando levemente surpresa.
“Pare de encher Levi com seu interrogatório, Hanji”, Erwin estava de volta à sala, sentando no sofá dessa vez com os olhos sobre Levi. A forma que ele olhava para o menor era completamente diferente da forma da Hanji, havia uma mistura de desejo e curiosidade ali.
“Não consigo evitar! Ele é... Interessante”, Hanji riu e se sentou na poltrona, olhando para Levi também.
Levi sentia que era suposto a ficar sem jeito com aquilo, mas não se importava. Estava mais do que acostumado a atrair olhares para si, sempre naquela variação de sentimentos: curiosidade, desejo, dúvida, às vezes até mesmo repulsa. “Eu devia ir”.
Os olhos de Erwin se arregalaram por um momento e então se ele endireitou no sofá. “Pensei que ia ficar aqui. Eu pedi comida e você... Você pode ficar, sabe?”, seus olhos estavam fixos nos de Levi. Queria passar tranquilidade, mas uma grande parte de si queria o outro consigo de uma maneira quase desesperada, porque havia algo nele que nunca tinha visto em outra pessoa e tinha sido um alivio revê-lo àquela noite, não apenas porque Levi o tinha “salvo”, mas porque eles estavam juntos mais uma vez. Levi o consideraria um louco se soubesse como se sentia em sua presença e como tinha pensado nele todos os dias desde que haviam se conhecido? Provavelmente.
Hanji olhava os dois com grande interesse, sentando mais na ponta da poltrona, parecendo entretida e animada em estudar aquela situação. Levi percebia toda aquela excitação sem ao menos olhar para ela, sua mente trabalhando no que devia fazer. Se não pensasse a resposta era um simples “sim”, mas tinha que pensar nas consequências do que estava fazendo ali.
Com um suspirou se deixou sentar no outro sofá, deixando um braço esticado sobre o encosto e as pernas cruzadas, olhando diretamente para Erwin. “Não estou com fome, mas vou ficar um pouco mais”.
***
“Você sempre parte antes de amanhecer?”, a voz de Erwin era sonolenta enquanto ele se virava na cama para ver Levi se vestindo, “Eu disse que não precisa fazer isso”.
“E eu disse que não existe uma regra que me obrigue a ficar até a manhã seguinte”, sentia os olhos de Erwin seguindo o caminho que seus dedos faziam enquanto fechava os botões da camisa, “Acho que se as pessoas fossem embora antes do amanhecer isso evitaria alguns dramas e momentos estranhos. Não é culpa minha se você tem sono leve e acorda sempre que saio da cama”.
Tinham tido uma conversa parecida na vez anterior e, mais uma vez, Erwin estava sorrindo de canto com aquelas palavras, deixando a cabeça descansar de novo travesseiro. Levi o confundia. Aquela atitude era a responsável por fazê-lo pensar que havia algo de diferente no menor, mesmo que o ato em si fosse algo completamente humano e combinasse com o jeito que Levi parecia pensar e agir. “Vou te ver de novo?”.
Levi parou um momento no meio do ato de se arrumar, inclinando a cabeça de leve para o lado, parecendo ter visto Erwin pela primeira vez e estar curioso sobre ele apesar de sua expressão pouco se alterar. “A pergunta certa é: Você quer me ver de novo?”, sua atenção estava de novo voltada a se arrumar.
“Sim”, a resposta veio com naturalidade, sem necessidade de qualquer reflexão sobre o assunto.
Levi colocou os sapatos, olhando para Erwin depois de pronto. “Então a gente se esbarra por aí”. E antes mesmo que Erwin tivesse chance de responder o menor havia ido e ele não podia deixar de sorrir com aquilo.
No momento em que chegou à rua o único objetivo de Levi era arranjar comida antes de ir para casa. Não estava com fome, mas sua mente ficava vagando para a ideia de que precisava de sangue mesmo assim. Não sentia culpa por isso. Não via problemas em matar alguém só para satisfazer uma vontade, da mesma forma que não via humanos como presas o tempo todo.
O que precisava no momento era achar alguém que não estivesse bêbado ou drogado demais, além disso, não tinha tempo para uma caçada decente, brincar de atrair alguém para si antes de atacar. Essa era sua parte favorita desde o começo: atrair as pessoas. Gostava de vê-las se renderem as suas vontades e depois ficarem surpresas quando percebiam que Levi não era o que esperavam.
Seus passos eram tranquilos enquanto pensava onde poderia ir sem desviar muito do caminho para conseguir alguém que atendesse suas expectativas. Não se importou quando ouviu o barulho de um carro se aproximando; o som era cada vez mais próximo e de repente se tornava mais lento, acompanhando seu ritmo. Levi sabia que aquele seria o momento para se preocupar se tudo não dependesse mais de si do que dos outros, o problema era que quem quer que fosse naquele carro não estava ciente disso ainda.
“Hey, você pode me foder se eu estiver errado, mas seu nome é Easy Bottom?”.
Levi sentiu a própria mandíbula travar. O cara não estava nem mesmo um pouco alto para justificar a própria babaquice e isso o irritava profundamente. Não suportava a ideia de alguém se impondo sobre si daquela maneira, querendo fazer com que ele se sentisse acuado porque era tarde demais, ninguém estava por perto para ver e ele era consideravelmente pequeno para se defender, mesmo sendo homem também.
“Vamos lá, não se faça de difícil. Está tarde e frio, um cara bonito como você não devia andar sozinho por aí. Eu vou ser bonzinho com você”, o tom era de pura diversão enquanto o cara dirigia devagar, realmente acompanhando o ritmo de Levi, gostando de observar como ele tinha aumentado a velocidade dos passos e parecia incomodado.
As frases continuavam e se tornavam pior cada vez que Levi ignorava uma nova investida. Então era aquilo, Levi tinha se decidido, alguém assim merecia o que tinha em mente porque ele nem mesmo valia uma morte limpa.
“Certo, me mostre o que você tem aí”, a voz de Levi era suave, seu sorriso era levemente provocativo enquanto ele ia até o carro, se inclinando em direção à janela aberta agora que o carro estava parado.
“Bom garoto. Entre”, o sorriso do outro era grande, seus olhos escuros pelo desejo enquanto ele analisava Levi melhor.
***
Erwin segurava um copo de café que haviam pegado no caminho, caminhando ao lado de Hanji. Não tinha a questionado mais cedo quando ela entrou em seu quarto pedindo para que ele se arrumasse porque havia recebido uma ligação de Pixis, mas agora estava um pouco pensativo sobre todas as coisas que ainda não tinham discutido.
“Zoë. Smith.”, Pixis se aproximou dos dois assim que os viu chegando, também segurando um copo de café. Ele era chefe da polícia local e há muito sabia o que Hanji e Erwin faziam, por isso sempre os chamava quando algo estranho demais acontecia por ali, “Isso realmente parece coisa para vocês dois. Quanto mais procuramos mais estranho fica”.
Erwin e Hanji trocaram um breve olhar, o seguindo até o único carro presente no estacionamento além daqueles que pertenciam a policia local. Enquanto caminhavam Pixis contava sobre a ligação para policia naquela manhã, vindo de uma das funcionárias da pequena empresa ao qual o estacionamento em que estavam pertencia. Quando chegaram se depararam com um homem morto no banco do motorista, o que não parecia nada fora do comum, num primeiro momento. No entanto logo a pericia e os policiais começaram a achar que tinham algo fora do comum ali.
“Vejam vocês mesmos”, um simples comando de Pixis vez com que os peritos se afastassem do carro, dando espaço para Hanji e Erwin estudarem a cena. Hanji era quem se precipitava nesse tipo de situação e por isso foi quem chegou primeiro até o corpo, se agachando e analisando a cena por alguns minutos, enquanto Erwin ficava para trás, parado ao lado de Pixis.
“Ele não tentou lutar?”, Erwin perguntou, os olhos fixos no corpo, pegando o máximo de informação dali.
“Sim, mas estava preso, está cheio de hematomas nos punhos”, Pixis respondeu, olhando um momento para o corpo também.
“O carro é dele?”.
“Sim, e aparentemente foi ele quem dirigiu até aqui, então não sabemos se ele estava com alguém que conhecia ou o que exatamente aconteceu. Por que ele se deixaria prender por um desconhecido? Não sabemos no que ele estava envolvido”.
“Hanji?”, Erwin se aproximou dela ao ouvir uma exclamação de surpresa, olhando na mesma direção que ela. O pescoço do homem estava cheio de hematomas e um corte profundo era visível na região da jugular, mas não havia sangue algum ali, nas roupas ou em qualquer parte do carro, “Essa é a cena do crime? Ele não foi colocado aqui depois?”.
“Não, ele não foi colocado aí depois, também não sabemos para onde foi o sangue. Com um corte desses... Ainda não estamos certos de qual tipo de arma foi usada. O corte parece muito fino para ter sido causado por uma lâmina comum”.
“Talvez um bisturi?”, Hanji falou baixo, olhando mais de perto o corte, “Ainda não explicaria para onde o sangue foi...”.
Erwin observava com ela, não se importando com o jeito que a Hanji falava. Quando ela começava a formar teorias ela tinha tendência de falar baixo, como se estivesse falando consigo mesma enquanto raciocinava. Erwin começou a notar melhor o homem, a expressão de surpresa, a camisa aberta, as marcas nos punhos...
“Por que o soltar?”, Hanji falou baixo naquele instante e eles se olharam como se compartilhassem da mesma pergunta no mesmo momento, “Por que o deixar aqui para ser encontrado?”.
“Alguma ideia do que aconteceu?”, Pixis se aproximou mais um pouco, parando ao lado deles, olhando ambos com interesse. Ele estava apenas nas suposições, afinal os especialistas ali eram os dois e quem realmente entendia daqueles assuntos, mas então a expressão de Erwin e de Hanji para si eram completamente desestimulantes. Eles também não sabiam?
“Nunca vi algo assim, só posso supor...”, Hanji se levantou, dando de ombros e olhando em volta, “Já checaram as câmeras?”.
Pixis deu um suspiro, cruzando os braços antes de responder, “Sim, mas... Não temos nada. Não é possível ver ninguém saindo do carro e o ângulo não ajuda muito, para ser sincero. Ele parece estar acompanhado quando chega, mas não é possível ver quem é, o que acontece dentro do carro ou alguém deixando a cena”.
“Podemos ver as imagens?”, Erwin parecia analisar todas as possibilidades mentalmente, assim como Hanji. Pixis concordou com um aceno, andando na frente deles para entrarem no pequeno prédio onde funcionava a empresa de contabilidade dona do estacionamento em questão.
“A funcionária passou mal, claro. Ela teve que ser socorrida, mas está bem, apenas um pouco chocada”, Pixis relatava enquanto andava. “E ele trabalhou aqui por algum tempo, na segurança ou algo do gênero, mas parece que ele era um tanto... Grosseiro com as pessoas e acabou sendo demitido. Não que isso justifique qualquer coisa, em nossa opinião”.
Pixis se aproximou do computador, dando alguns comandos antes de colocar o vídeo na parte de interesse. Já tinha visto a cena várias vezes, tentando descobrir qualquer informação útil, mas nada novo acontecia, nenhum detalhe ficava mais claro cada vez que assistia ao vídeo. Tinha visto tudo o que era possível logo na primeira vez, por isso seu interesse ficou voltado para os dois jovens ao seu lado, curioso por suas reações.
Erwin franziu a testa por algum tempo enquanto Hanji parecia ter sido pega de surpresa. De fato era possível ver que havia duas pessoas no carro, apesar de ser impossível identificar o gênero ou características dos ocupantes do ponto de vista daquela filmagem.
Hanji se precipitou em colocar o vídeo mais uma vez, sentando-se para prestar mais atenção na cena, pausando algumas vezes durante o processo. Erwin apoiou uma mão na mesa, olhando para o monitor com máxima atenção, tentando capturar todos os detalhes de cada quadro.
“Certo, ele chegou acompanhado e é possível ver alguma movimentação no carro por algum tempo e de repente isso acaba? É isso mesmo? Ninguém sai, ninguém entra, isso simplesmente acaba?”, Hanji olhou direto para Erwin depois de ver o vídeo pela terceira vez, parecendo nem lembrar que Pixis também estava ali.
“É como se a pessoa tivesse simplesmente evaporado... Como se isso fosse possível”, Erwin passou a mão pelos próprios cabelos, deixado os fios dourados mais alinhados, o olhar perdido em um ponto qualquer da sala por alguns instantes.
“Pixis, nós vamos estudar esse caso. Deixe-nos saber quando tiverem o resultado da autopsia”, Hanji olhou mais uma vez para o monitor, anotando mentalmente o horário, a mente trabalhando rápido para organizar todas as informações que tinham até ali.
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