Hold me Tight

34 Vamos à praia assistir o amanhecer


— Jimin POV -

Eu estava ansioso pra ver meus pais. Agora que minhas provas finais acabaram e o recesso de verão começara, resolvi que seria boa ideia fazer uma visita à minha cidade natal. Os exames em si passaram sem maiores dificuldades, graças à ajuda de Jackson e, por incrível que pareça, de Hoseok. Eu havia conseguido tirar boas notas nas matérias teóricas com muito esforço e noites passadas em claro estudando, mas quase reprovei na aula de dança prática, uma vez que os movimentos estavam comprometidos devido à falta de treino e o longo período de desuso de meus membros. Se não fosse por Hoseok me ajudando a montar uma coreografia que exigisse menos do meu corpo e ainda conseguisse ser memorável, talvez tivesse que repetir a matéria no próximo semestre. De qualquer forma, o professor responsável resolvera pegar leve com o pobre estudante que acabara de se recuperar de um acidente de carro – afinal, não era qualquer um que tinha a sorte de se recuperar rápido o bastante para sequer dançar de novo. Aos olhos de todos, minha recuperação era um milagre: não restara um mísero arranhão em minha pele que servisse de prova para o terrível acidente que havia sofrido. Poucos sabiam da existência de algumas marcas esverdeadas que custavam à desaparecer – marcas essas que eram facilmente encobertas com a maquiagem de Taehyung.

Aparentemente não eram apenas os professores que tinham piedade de um garoto acidentado. O atestado médico que Jin arranjara me garantia folga remunerada nos dois empregos que tinha, e mesmo que essa folga estivesse para expirar em pouco tempo, obrigando-me a voltar a trabalhar no começo das férias de verão, eu havia ganhado passe livre de Qian-noona para retornar apenas com a chegada do novo semestre – diminuindo minhas responsabilidades pela metade, mesmo que por um curto período de tempo. Desse modo, eu ainda era capaz de aproveitar alguns dias livres para fazer uma curta viagem até Busan e matar as saudades de casa.

Assim que compartilhei o desejo de voltar pra casa com meus colegas de quarto, Jungkook e Taehyung foram rápidos em pedir para me acompanhar. Receber tal pedido do maknae era até esperado, uma vez que sua família também estava em Busan – mesmo que afirmasse que não queria vê-los – e seu estágio no escritório de advocacia só retornaria no semestre seguinte, juntamente com o início das aulas. Quem realmente me surpreendeu foi Taehyung, que além de ter que pedir folga do trabalho, ainda deixaria de visitar a própria família em Daegu pra conhecer a minha. Quando o questionei sobre suas razões, ele apenas deu de ombros e disse que gostaria de passar um tempo de qualidade com seus dois melhores amigos – teria tempo de visitar o pai e irmãos depois.

Por este motivo eu agora me encontrava no quarto arrumando as malas ao lado de um quieto e aborrecido Jungkook e um extremamente animado e tagarela Taehyung. Mesmo que seu quarto fosse do outro lado do corredor, o garoto de cabelos lilases resolvera que seria uma boa ideia pegar mais da metade das roupas de seu armário e jogá-las todas sobre minha cama, perguntando nossa opinião sobre diferentes trajes de banho e sandálias apropriadas para o verão. Honestamente, sua escolha de roupas não interessava à nenhum de nós dois, mas Taehyung insistia em ouvir o que os nativos de Busan tinham a dizer.

— Aish, sinceramente... você é tão barulhento, Taehyung. – queixou-se o mais novo, contorcendo as feições numa careta enquanto continha a vontade de cobrir as orelhas com as mãos. Seu sofrimento não poderia ser mais visível.

— Eu não sou barulhento, você que é um velho chato e ranzinza no corpo de uma criança. Não é verdade, Jiminie? – acusou, virando-se para mim em busca de confirmação. Eu apenas encolhi os ombros e decidi não tomar partido nas infindáveis discussões dos mais novos; descobrira da maneira mais difícil que simplesmente não havia jeito de mediar uma briga entre os dois, custando-me muitas dores de cabeça.

— Não me chame de criança, Taehyung. Você sabe que eu odeio isso. – Jungkook retrucou, mas não havia nada de ameaçador no modo como encarava o amigo, com o cenho franzido e um leve bico projetado nos lábios; na verdade, seu semblante se assemelhava terrivelmente ao de uma criança birrenta e fofa.

— Me chame de Tae que eu paro de te chamar de criança. – sorriu, sabendo perfeitamente que pegara o outro numa armadilha.

— Vai sonhando. – o moreno respondeu com desdém, voltando à sua tarefa anterior de dobrar meia dúzia de camisetas simples e gêmeas, porém de cores diferentes, e colocá-las dentro da mala.

— Você é quem sabe, Kookie. – Taehyung encolheu os ombros, dando ênfase no apelido de propósito para irritar o amigo enquanto fingia inocência ao socar algumas peças de roupa de qualquer jeito na bolsa de viagem.

O bate-boca prosseguiu por um bom tempo, até mesmo depois de todos estarmos banhados, vestidos e com as malas devidamente prontas; apenas quando os lembrei com um berro ríspido que estávamos atrasados pra pegar o trem foi que a discussão chegou ao fim. Por estarmos com bagagem, optamos por pegar um táxi até a estação, o que se mostrara uma decisão sábia quando chegamos no horário exato do embarque: mais cinco minutos e teríamos perdido o trem. Após guardar as bagagens no espaço apropriado, acomodei-me no assento – daquele tipo que um defronta o outro – com Taehyung ao meu lado e Jungkook à minha frente, próximo à janela. Eu até tentei engajar numa conversa animada com Tae-Tae sobre todas as coisas que poderíamos fazer assim que chegássemos em Busan, mas com uma longa viagem de três horas pela frente, estávamos simplesmente fadados ao cansaço.

Qual fora o momento exato que pegamos no sono eu não saberia dizer, mas assim que abri os olhos e examinei o entorno pela janela, constatei que não deveríamos ter mais do que uma hora de viagem restante. Em instantes pude sentir Taehyung – que adormecera no meu ombro – agitar-se ao meu lado, despertado pelo súbito movimento. O garoto soltou um longo e demorado bocejo sem se incomodar em escondê-lo, causando uma reação em cadeia em mim e Jungkook, que só agora eu percebera que ainda estava acordado, observando a paisagem correr diante de seus olhos com uma expressão pensativa no rosto.

— Você acha que a sua mãe vai gostar de mim, Jiminie? – indagou-me Taehyung, ainda com a cabeça apoiada em meu ombro, trazendo minha atenção de volta para si enquanto brincava com a barra de sua manga comprida; aqui estava uma curiosidade sobre o garoto: não importava o quão quente estivesse o dia, Taehyung sempre cobriria seus braços. Tentei olhá-lo pelo canto dos olhos, mas pela posição que estávamos, tudo que eu conseguia ver era o topo de uma cabeça lilás.

— Claro que sim. – respondi sem hesitação. Eu sabia que minha mãe simplesmente o adoraria. Ela vivia me importunando para trazê-lo comigo e apresentá-lo formalmente da próxima vez que a visitasse, já sentindo-se íntima do garoto apenas pelas informações que eu passava por telefone. – Por que a pergunta?

— Não sei. Acho que só estou nervoso. – admitiu um pouco envergonhado. – Sua mãe já conhece o Kookie, então eu serei o único estranho na sua casa.

— Eu não vejo a senhora Lee há anos. – comentou Jungkook, participando da conversa pela primeira vez desde que entramos no trem. – Ela provavelmente nem deve me reconhecer mais.

— Eu não posso responder pela minha mãe, mas eu certamente não te reconheci quando você apareceu de mudança no apartamento. – brinquei, recebendo um revirar de olhos do mais novo e uma risada alta de Taehyung.

— Você lembra daquele dia? Eu fiquei tão bravo com você, Kookie. Não queria dividir o meu Jiminie de maneira alguma. Veja só onde chegamos. – sorriu o seu característico sorriso quadrado, trazendo boas lembranças de volta à tona.

O resto da viagem passara num piscar de olhos, nós três tão imersos em memórias e piadas internas que não nos demos conta da passagem do tempo. Só quando o trem parou e a chegada à estação de Busan fora anunciada, eu me permiti ficar nervoso. Meus pais estavam cientes da minha visita, lógico, mas num ato impulsivo e infantil eu resolvera deixar de lado o detalhe que traria comigo mais duas cabeças, na esperança boba de fazê-los uma surpresa. De repente eu sentia como se a insegurança que Tae sentira há alguns momentos atrás fosse transferida pra mim, mesmo que eu soubesse que era infundada – meus pais adorariam conhecer Taehyung e rever Jungkook.

Com a mala em mãos, conduzi os outros dois pelas escadas e saguões até onde meu pai dissera que estaria esperando para me dar uma carona. Felizmente era final de semana, o que significava que meu pai estaria à nossa disposição o dia inteiro; apenas minha mãe poderia ter alguma emergência no hospital que trabalhava como enfermeira e precisar sair, mesmo que tivesse me assegurado que hoje era seu dia de folga e que estava louca pra me entupir de comida e ouvir todas as novidades sobre Seoul. Apressei o passo assim que os avistei na entrada da estação, olhando ao redor como se procurassem por mim. Exclamei um “mãe!” para lhe chamar a atenção, correndo ao seu encontro e envolvendo os braços ao redor de sua figura pequena num abraço apertado.

— Aigoo, meu menino! – riu, retribuindo meu abraço e aproveitando para afagar-me os cabelos. – Sentiu falta da sua mãe, é?

— Muito. Se eu pudesse te levaria pra Seoul comigo. – confidenciei-lhe, afundando ainda mais o rosto em seu pescoço. Era bom estar de volta.

— Quem são esses rapazinhos? – a voz de meu pai ecoou ao nosso lado, quebrando o momento entre mãe e filho e me trazendo de volta à realidade. Jungkook e Taehyung haviam ficado alguns passos pra trás, ambos igualmente constrangidos e sem saber o que fazer.

— Jimin! – ralhou mamãe, dando-me um tapa dolorido no braço. – Você não me disse que traria visitas.

— Ai! Me desculpe. – pedi, massageando o local agredido. – Esses são Kim Taehyung e Jeon Jungkook. Eu os trouxe pra passar o final de semana conosco.

— Jungkookie? É você mesmo? – minha mãe parecia incrédula e maravilhada ao mesmo tempo, segurando o rosto do moreno nas mãos a fim de analisá-lo melhor antes de puxá-lo num abraço apertado. – Você cresceu tanto, meu menino. Está maior que o nosso Jimin.

— Ei, eu ouvi isso. – resmunguei, acarretando risadas de todos os presentes. Bufei de indignação, cruzando os braços e fazendo beicinho numa birra infantil.

— O-olá, senhora Lee. Muito prazer, meu nome é Kim Taehyung. Jiminie fala muito bem da senhora. – o segundo mais novo cumprimentou-a com uma reverência perfeita de noventa graus, à qual ela desconsiderou totalmente ao pegá-lo num abraço de urso também.

— Deixe de bobagens, Tae-Tae. Me chame de Eunyoung. – dava pra perceber que Taehyung fora pego desprevenido pela atitude espontânea e calorosa de minha mãe, ficando petrificado por um momento com os braços pairando no ar, sem realmente tocá-la. Porém, recuperou-se rapidamente e retribuiu o gesto na mesma intensidade, enterrando o rosto na curva de seu pescoço da mesma forma que eu havia feito alguns minutos atrás.

— Como vai, Jungkook? Faz tempo que não nos vemos. – meu pai estendeu a mão para o mais novo, que a apertou de maneira firme com a adição de uma breve reverência respeitosa. Quando Tae ficara livre dos braços apertados de minha mãe, repetiu o gesto para o outro. – Prazer em conhecê-lo, Taehyung. Meu nome é Park Jisung. É bom finalmente sermos apresentados, Jimin sempre fala de você em suas ligações.

— Oh, é mesmo? – o sorriso que Taehyung deixara escapar era tão grande, tão contagiante, que resisti-lo se mostrava uma tarefa impossível. Logo meus pais sorriam de volta, ambos igualmente encantados com o garoto.

Como era de se esperar, eu era uma perfeita mistura dos dois. Minha mãe era baixinha, tinha uma voz doce e melodiosa e ainda era a responsável por minhas bochechas e dedos rechonchudos. Já meu pai era um pouco mais alto e forte, tinha os cabelos grisalhos nas têmporas e sorria da mesma forma que eu – não só com os lábios, mas com os olhos também. Assim que todas as apresentações estavam devidamente feitas, meu pai bagunçou-me os cabelos e tomou a mala de minhas mãos, conduzindo-nos para a caminhonete que eu conhecia desde que me entendia por gente. O veículo era um daqueles modelos antigos que só tinha duas portas e os bancos da frente, por isso nós três tivemos que nos acomodar na caçamba. Não que eu me importasse; na verdade, me trazia ótimas memórias de infância.

O caminho para nossa casa era um pouco longo, uma vez que morávamos num humilde bairro residencial distante do centro. Porém, durante todo o percurso podíamos apreciar a vista das belas praias que eram o cartão postal de Busan e sentir o cheiro da brisa marítima que vinha agitar nossos cabelos. Nenhum de nós três conseguia esconder o sorriso no rosto, em parte felizes por estar de volta à terra natal – pelo menos eu e Jungkook –, e em parte por poder tirar uma folga e respirar outro ar que não fosse o de Seoul.

Cerca de meia hora depois meu pai estacionava a caminhonete na vaga de casa, os portões automáticos abrindo-se com o pressionar de um botão. Minha casa era simples e modesta, e apesar de ter dois andares, era pequena e só tinha dois quartos, a suíte principal e um segundo quartinho que servia de escritório pro meu pai. O meu quarto na verdade era um anexo nos fundos da casa, equipado com um banheiro próprio e espaçoso o suficiente pra abrigar pequenas festas do pijama. Descemos da caçamba do carro com facilidade da minha parte e dificuldade dos outros dois, que não estavam habituados a viajar em caçambas quase a vida inteira. Instados pelos comandos insistentes de minha mãe, deixamos nossas bagagens no meu quarto recém arrumado – sem dúvida obra de Lee Eunyoung – antes de nos juntarmos ao meu pai na mesa enquanto ela terminava de preparar a comida.

Naquela tarde nós teríamos uma refeição tipicamente coreana, cada um com sua tigela de arroz enquanto uma variedade incrível de pratos secundários adornavam a mesa. Fazia tanto tempo desde a última vez que eu comera uma refeição completa como aquela, que eu mal tivera tempo de agradecê-la antes de devorar a comida como um ser faminto, sendo rapidamente seguido pelos outros homens na mesa. Minha mãe, como uma senhora bem educada, mastigava o alimento com calma enquanto revirava os olhos para nosso desespero.

O almoço fora agradável e recheado de histórias engraçadas e curiosas, com Taehyung contando um pouco sobre sua história, sua família e o que fazia na universidade, enquanto minha mãe dizia à Jungkook que talvez fosse uma boa ideia se o mais novo pudesse visitar seus próprios pais, ao passo que este respondera polidamente que ambos estavam fora da cidade à trabalho. Eu não sabia se a informação era verdadeira ou se só inventara uma desculpa para não ver os pais por ainda estar ressentido com eles por impedi-lo de seguir a carreira de sua escolha. De todo modo, o assunto fora descartado e ao final da refeição minha mãe enxotara todos pra fora de sua cozinha, alegando que nós apenas a atrapalharíamos com a louça. Meu pai sugerira que nós três fôssemos à praia, e prontamente acatamos sua ideia. Os conduzi de volta para o quarto a fim de trocar a vestimenta para uma mais apropriada, animado com a ideia de me banhar no mar depois do que parecia uma eternidade.

Como três garotos que moravam juntos, nós não tínhamos nenhum pudor em ficar despidos na frente um do outro; bom, pelo menos eu e Taehyung não tínhamos. Jungkook preferiu trancar-se no banheiro pra colocar os calções de banho, e quando saiu de lá sem camisa, eu não pude deixar de admirar seu corpo surpreendentemente tonificado. Claro, eu já havia visto seu torso desnudo antes, mas como o mais novo gostava de se esconder atrás de camisetas desnecessariamente grandes e largas, às vezes esquecia-me que Jungkook tinha um corpo bonito. Quando percebi que estava encarando e desviei o olhar para seu rosto, encontrei seus olhos negros fixos em mim e uma leve coloração em suas bochechas. Na mesma hora eu quis abrir um buraco na terra, enfiar a cabeça dentro e morrer, mas felizmente Taehyung desviou nossa atenção para outra coisa.

— Olha o que eu encontrei, Jiminie. – chamou, revirando as gavetas de meu criado mudo como bom enxerido que era. Ao me aproximar, vi que tinha meus antigos óculos de aro redondo nas mãos. – Coloque-os, eu quero ver como você fica.

— Eu estou usando lentes, Tae. – lembrei-lhe. – Não vou enxergar nada.

— Jiminie, deixa de ser chato. Não quero que enxergue, só estou pedindo pra colocar porque estou curioso. – disse aproximando-se de mim e colocando o objeto sobre minha face sem permissão. Ficar de olhos abertos era simplesmente impossível, as duas lentes anulando-se mutuamente e tornando minha visão embaçada e difusa. Contudo, eu não precisaria ficar de óculos por muito tempo, pois não haviam se passado nem dois segundos antes que Taehyung caísse em gargalhadas. Até Jungkook soltava algumas risadinhas entretidas. Tirei os óculos de forma brusca, indignado pelo fato de torturar minha vista pra ser motivo de piada.

— O que é tão engraçado?

— Você, usando esse óculos. – Taehyung esclareceu, ainda se recuperando da crise de risos. – Você fica com muita cara de nerd. Acho que eles combinariam mais comigo. – ponderou, tirando o adereço de minhas mãos e colocando-o no rosto. Taehyung arregalou os olhos comicamente no momento que assentava-o em seu nariz, antes de fechá-los com força e retirar os óculos com pressa. – Nossa, Jimin. Você é cego ou coisa parecida?

— Coisa parecida. – concordei, tomando uma pequena dose de satisfação ao vê-lo piscar os olhos inúmeras vezes na tentativa de aliviar a dor. Porém, a experiência não fora o suficiente pra impedi-lo de tentar de novo, e dessa vez os manteve semicerrados para admirar seu reflexo no espelho ao lado do armário.

— Como imaginava, eles ficam bem melhores em mim. Não acha, Kookie? – indagou o moreno cheio de expectativa na voz, que por sua vez não fora devidamente retribuída quando este apenas encolheu os ombros e murmurou um “tanto faz”. Taehyung deu-lhe a língua antes de se virar pra mim com olhos grandes e pidões. – Posso ficar com eles?

— Por que você quer os meus óculos, Tae? – questionei-lhe, incapaz de enxergar valor num óculos velho e usado.

— Porque eu quero um souvenir de Busan pra levar pra casa. E eles são bonitos. – sorriu, como se sua resposta fizesse todo o sentido do mundo.

— Você acabou de dizer que eu ficava com cara de nerd. E geralmente as pessoas encontram souvenires em lojas especializadas, não na casa dos amigos. – rebati, cruzando os braços.

— Você realmente fica com cara de nerd, mas eu pareço sexy e inteligente. Pare de arranjar desculpas e apenas diga sim. Céus. – bufou, revirando os olhos com impaciência. Não consegui conter uma risada baixa; Taehyung sabia que havia me vencido no momento que colocara os óculos sobre o rosto – eles realmente combinavam mais com o outro.

Assenti fingindo estar desconfortável com a ideia enquanto o mais novo comemorava e guardava os óculos seguramente dentro de sua caixa e por sua vez a guardava dentro da mala. Em seguida, voltou a vasculhar as gavetas em busca de mais algum item pra furtar, quando deparou-se com uma pequena pulseira de contas que não cabia mais no meu pulso, e eu sinceramente já não lembrava mais da existência. Assim que encarou-me para indagar sobre o que se tratava, Jungkook diminuiu a distância até ele com passos rápidos e tomou o objeto de suas mãos, olhando-o com uma mistura de espanto e incredulidade.

— Você ainda tem isso? – indagou-me com a voz vacilante, dirigindo seu olhar estupefato para mim. A expressão no seu rosto deixava claro que ele conhecia perfeitamente o significado por trás daquele objeto, mesmo que eu próprio tivesse vagas lembranças.

— Ahn... Sim. Você também? – devolvi a pergunta. Minha mente buscava memórias antigas e confusas de duas crianças muito novas visitando a praia pela primeira vez. Algo me dizia que aquela pulseira estava diretamente ligada à essa memória, mas eu não tinha completa certeza, e me sentia mal por isso. Ela parecia bastante importante para o mais novo. Jungkook, sempre observador, lançou-me um pequeno sorriso que parecia terrivelmente triste, percebendo minha hesitação.

— Tenho. – foi tudo o que conseguiu dizer antes que meu pai abrisse a porta de súbito, apenas o suficiente pra colocar a cabeça pra dentro do quarto.

— Vamos, filho. Sua mãe foi chamada no hospital, a levarei até o trabalho e deixarei vocês na praia no caminho. Estão todos prontos? – ao receber três respostas afirmativas, nos guiou de volta à caminhonete, onde minha mãe já esperava acomodada no bando do carona. O trajeto para o hospital onde minha mãe trabalhava era quase o mesmo de volta à estação de trem, e coincidentemente nossa praia favorita ficava no caminho.

O local em questão era uma praia mais reclusa e menos frequentada, longe do centro da cidade e de todo seu burburinho, perfeita para famílias com crianças ou pessoas que preferiam lugares menos apinhados de gente, como eu. Durante o dia podia-se avistar barraquinhas de comida e vendedores dos mais variados tipos de bugigangas, mas à noite não encontrava-se viva alma – diferentemente das outras praias mais badaladas do centro, que viviam cheias de residentes e turistas, independente de horário.

A tarde que passamos na praia fora incrivelmente agradável, apesar da água estar fria e nenhum de nós três conseguir permanecer no mar por muito tempo. Mesmo assim, havia uma infinidade de coisas que poderíamos fazer; Taehyung – como sempre o mais sociável entre nós – fizera amizade com uma criança, uma adorável garotinha que se apresentara como Haru, e tão logo estávamos os três ajudando-a a construir um castelo de areia, ainda que ninguém tivesse experiência no assunto. Despedimo-nos de Haru assim que seu pai fora buscá-la, optando por darmos mais um mergulho na água gelada antes de caminhar até a outra ponta da praia, com Jungkook soltando risinhos toda vez que as ondas atingiam seus pés. Era uma experiência nova, vê-lo tão solto e divertindo-se tão livremente, sendo raras as vezes que eu chegava a vislumbrar esse lado seu – descontraído, como um garoto de dezoito anos deveria ser. No caminho, Taehyung encontrara um ahjussi que vendia pulseirinhas coloridas eu tinham uma pequena lâmina de madeira onde gravava nomes com caracteres miúdos, mas precisos. Imediatamente o garoto insistiu para que adquiríssemos uma cada, como símbolo de nossa eterna amizade— utilizando suas palavras. Por incrível que pareça, Jungkook fora o primeiro a aceitar a ideia. Minha pulseira era uma fina fita de couro trançada na cor azul com o nome Park Jimin; Jungkook tinha uma vermelha e Taehyung escolhera verde, ambas com seus respectivos nomes gravados em madeira.

Retornamos pra casa quase na hora do jantar, de ônibus, encontrando minha mãe já de volta preparando a comida enquanto nos mandava tomar banho e parar de sujar a casa com areia. No meu quarto encontrei papai terminando de arrumar os colchões para os garotos dormirem, dispostos no chão ao lado da cama de solteiro. Depois de estarmos todos limpos e com os estômagos cheios, meus pais retiraram-se para o quarto com um desejo de boa noite e nos deixaram sozinhos para fazer o que bem quiséssemos. Como meu quarto estava fora do corpo principal da casa e ficava no térreo, não corríamos o risco de incomodá-los com o provável barulho que faríamos. Acontece que esse barulho consistia em músicas agitadas e extremamente chiclete – mais precisamente, de grupos idol femininos – ecoando pelo quarto através dos alto-falantes do laptop, enquanto fazíamos uma competição pra descobrir quem conhecia mais coreografias. No fim, o vencedor fora Jungkook, surpreendentemente se mostrando ser um bom dançarino ao copiar todos os movimentos com precisão. Eu dançava bem, mas não conseguia memorizar a coreografia de todas as músicas lançadas, e Taehyung estava apenas brincando sem se importar com nada além da diversão; o mais novo desconsiderara nossos esforços com uma careta e um certo ar de superioridade enquanto nos lançava um olhar julgador pelo canto dos olhos.

— Vocês não sabem nada de Girl’s Day.

Ao ficarmos cansados após todo o exercício físico, resolvemos deitar sem necessariamente dormir. Taehyung não hesitara em ocupar minha cama, deixando-me com o colchão ao lado de Jungkook. A luz estava apagada, mas a janela com as cortinas ligeiramente abertas deixava passar a claridade da lua, de modo que ainda podíamos enxergar um ao outro. Ficamos a noite toda conversando sobre os mais variados assuntos, desde compartilhando histórias da infância até fazendo planos para o dia seguinte. Eu sentia uma estranha porém gostosa sensação, um excitamento que é comum em crianças que recebem os amigos em casa pra passar a noite. Quando vimos, já eram altas horas da madrugada e nenhum de nós tinha o menor pingo de sono.

— Nós podíamos ver o sol nascer. – sugeriu Jungkook subitamente. Olhei-o com cautela, tentando medir a seriedade de suas palavras, mas Taehyung sentou-se na cama tão depressa que chegou a me sobressaltar.

— Sim! Poderíamos ir à praia de novo. – o segundo mais novo acrescentou, com a voz tão animada e os olhos tão brilhantes que mais parecia que haviam lhe oferecido um caminhão de doces. – Seria a primeira vez que eu veria o amanhecer na praia. Podemos ir, Jiminie? Diz que sim. – implorou, voltando aqueles olhos grandes e beicinho projetado nos lábios na minha direção.

— À essa hora? Vocês estão loucos? Meus pais estão dormindo. – tentei argumentar, mesmo sabendo que não valeria de nada.

— E daí? Na verdade, é até melhor que estejam dormindo. Eles não precisam saber que fomos. – o maknae tinha um sorriso travesso no rosto, sem dúvida tramando algum plano maquiavélico pra me convencer a fugir de casa na calada da noite.

— E como vamos chegar lá? Os ônibus já pararam de rodar há muito tempo. – rebati.

— Eu vi que você tem uma bicicleta no quintal. – apontou Taehyung, calando minhas tentativas fúteis de colocar juízo naquelas cabecinhas jovens. – Não seja um chato, Jiminie. Qual foi a última vez que você fez algo arriscado? Vamos, será divertido.

Bastou apenas um par de sorrisos radiantes – um quadrado e outro que me trazia a imagem de um coelho – e grandes olhos travessos pra me convencer a tomar a estúpida decisão de sair de casa no meio da madrugada a fim de assistir o nascer do sol à beira-mar. Eu havia optado por sair pela janela, já que essa dava acesso direto ao quintal e eu não queria arriscar a possibilidade de acordar meus pais com o barulho da porta da frente. Mas antes de ir, eu me esgueirara até a cozinha como um gatuno na própria casa e roubei a toalha de mesa, para que pudéssemos sentar na areia com mais conforto e não sujar tanto as roupas. Antes que pudesse me dar conta de que toda a situação era realmente muito idiota e mudasse de ideia, pulei a janela do quarto com cuidado pra não ser ouvido, seguido de perto pelos outros dois.

Encontrei facilmente a bicicleta velha que eu tinha desde meus quinze anos de idade, parecendo incrivelmente solitária estacionada próxima à caminhonete. Pedi para que Jungkook a erguesse nos braços enquanto eu abria o portão baixo de madeira delicadamente, procurando fazer o mínimo de barulho possível enquanto enviava olhares afiados à Taehyung que tentava segurar risadinhas atrás das mãos. Apenas quando estávamos seguros na calçada e havíamos andado alguns metros de distância do portão por precaução, foi que pedi à Jungkook para apoiar a bicicleta no asfalto pra que pudesse montá-la. O mais novo ocupara a garupa atrás de mim enquanto Taehyung acomodou-se de lado no quadro à minha frente. A bicicleta cedera um pouco devido ao nosso peso combinado, deixando a viagem lenta e instável, mas o vento nos cabelos somado com a adrenalina de fazer algo aparentemente errado tornava-a menos cansativa, e felizmente conseguimos chegar à praia intactos.

Após escolhermos o melhor lugar, perto do mar mas não perto o suficiente pra sermos molhados pelas ondas, deixei a bicicleta escorada na areia próxima à nós enquanto Taehyung preparava o local para deitarmos com conforto e admirarmos as estrelas enquanto o Sol não aparecia. A praia, como o esperado, se encontrava deserta; por estar localizada num bairro mais calmo e residencial, até mesmo os arredores estavam completamente vazios. Poderia até ser enervante e assustador, se não conhecesse a área desde que era moleque. Eu sabia que estávamos seguros; na verdade eu acolhia o silêncio, apreciando a paz interior que sentia ao ter um céu estrelado sobre a cabeça e apenas o barulho constante das ondas como trilha sonora.

Era engraçado como os mais novos, ambos igualmente ansiosos e insistentes na ideia de ver o nascer do sol na praia foram os primeiros a cair no sono, encolhidos na toalha de mesa estendida sobre a areia; Taehyung roncando audivelmente à minha esquerda enquanto Jungkook ressonava à minha direita. O céu ainda estava escuro, mas naquele tom um pouco mais brando que denunciava a chegada iminente do Sol. Deitado de costas sobre a toalha, com os braços cruzados atrás da cabeça e preso entre os corpos dos meus dois melhores amigos, fiquei observando o céu clarear gradativamente enquanto me deixava invadir por um estranho sentimento nostálgico. Com a brisa fresca e quase gélida de uma noite de verão no litoral agitando meus cabelos e roupas, o cheiro de mar invadindo minhas narinas e o som das ondas chocando-se contra as rochas eu percebi que sentia falta desse tipo de coisa – sentia falta de passar um momento descontraído com os amigos, de rir e brincar como se minha mente não estivesse cheia de preocupações e medos, de tomar decisões estúpidas e irresponsáveis como fugir na calada da noite pra assistir o amanhecer na praia. Mas, sobretudo, eu sentia falta de casa. Por mais que eu estivesse feliz em Seoul e não me arrependesse nem por um segundo de ter ido atrás de meus sonhos, eu ainda sentia falta do porto seguro que eram meus pais e a cidade onde nasci e cresci, cidade essa que conhecia como a palma de minha mão. Mas esse tipo de sentimento era natural, não era? Eu só estava feliz de poder experimentar essa nostalgia ao lado de duas das pessoas mais importantes da minha vida. Duas pessoas que estavam perdendo a aurora do dia, inclusive.

Quando o primeiro raio de sol apontou no horizonte, ajeitei-me confortavelmente numa posição sentada para que pudesse apreciar a vista sem perder nenhum detalhe. Era incrível como aquele ponto de luz que parecia tão distante, pequeno e insignificante era capaz de clarear toda a vastidão da abóbada celeste, espantando a escuridão em seu caminho. O amanhecer por si só já era algo que não podia ser facilmente descrito com palavras, mas aquele que desenrolava-se diante de mim era particularmente belo, capaz de me tirar o fôlego. Querendo eternizar esse momento – e mostrar para os dorminhocos o que eles perderam –, tirei o celular do bolso e brinquei um pouco com a câmera até achar o ângulo perfeito para a foto perfeita. Satisfeito com o resultado, peguei-me observando a fotografia recém-tirada até que um pensamento surgisse em minha mente sem aviso. Não era apenas com Taehyung e Jungkook que eu queria compartilhar esse momento. Havia uma terceira pessoa, um certo loiro rabugento que ficara para trás, em Seoul, que eu gostaria que tivesse a oportunidade de ver o mesmo amanhecer que eu.

Sem desperdiçar sequer um segundo com hesitações e inseguranças, abri a janela de conversa de um certo Yoongi-hyung e enviei-lhe a foto, juntamente com uma curta e sincera mensagem:

Gostaria que estivesse aqui comigo.

Eu não esperava resposta, uma vez que o relógio do celular indicava cinco e vinte da manhã, portanto apenas voltei minha atenção para o fenômeno que agora aproximava-se de seu final, a fim de assistir todo o espetáculo sem futuras interrupções. Os dois ao meu lado ainda dormiam profundamente como bebês, o que trouxe um sorriso aos meus lábios. Ambos se gabavam tanto por serem mais jovens e terem mais energia, mas veja só quem fora o único a permanecer acordado. Eu estava a meio caminho de tomar a decisão de atormentá-los pelo resto da viagem com esse fato quando sobressaltei-me com a notificação de uma nova mensagem. Intrigado, desbloqueei o aparelho apenas para sentir meu estômago sendo revirado e atacado por um panapaná de borboletas.

De Yoongi-hyung: Onde você está?

Para Yoongi-hyung: Na praia, em Busan.

De Yoongi-hyung: Isso eu posso ver na foto, idiota.

De Yoongi-hyung: Quero saber qual delas.

Eu ainda não entendia bem o porquê dele querer tal informação, mas de qualquer forma lhe dei instruções para a praia que me encontrava agora. Não podia negar que aquele súbito interesse despertou em mim a esperança de poder apreciar a aurora na companhia de Yoongi, mesmo que a ideia chegasse a ser hilária de tão ridícula. Yoongi sabia que eu viria para Busan, mas ficara em Seoul, há quase cinco horas de viagem de carro; alimentar tais esperanças era um ato fútil e infantil. A única coisa que eu conseguiria ao insistir nessa ideia estúpida seria me decepcionar.

De Yoongi-hyung: Olhe pra trás.

A notificação da mensagem me assustou, mas seu conteúdo me deixou completamente aterrorizado. Fiquei encarando as palavras com olhos arregalados e boca entreaberta, incapaz de compreender seu sentido. Senti meu estômago revirar e suor frio brotar de minhas palmas e têmporas. Receoso, virei lentamente minha cabeça na direção indicada, na direção das ruas vazias da madrugada-quase-manhã de Busan. O que Yoongi quis dizer com aquela mensagem? Olhe pra trás. Certamente ele não estaria...

De fato, ele estava. A primeira coisa que notei foi um familiar carro preto e um pouco amassado estacionado no espaço reservado junto ao calçadão da praia, o capô virado na direção do mar. Sobre ele, estava uma ainda mais familiar figura empoleirada com os joelhos dobrados contra o peito e as costas curvadas, enquanto os braços rodeavam as pernas e o queixo repousava sobre os joelhos. Seus olhos, contudo, não estavam fixos no horizonte e no belíssimo nascer do sol, mas sim em mim. Aqueles profundos olhos negros que escondiam-se por trás de uma cortina de fios loiros, que por sua vez era parcialmente ocultada por uma touca preta. Pisquei os olhos algumas vezes, certificando-me de que não estava diante de nenhuma miragem, mas não restava dúvida: era ele. Yoongi estava aqui, diante de mim, à apenas alguns metros de distância.

Eu já não tinha mais controle de meu corpo; minhas pernas caminhavam sozinhas em sua direção, com passos contidos e um pouco oscilantes, enquanto meu coração martelava dentro do peito como um trem desgovernado. Sua presença ali era como um sonho se tornando realidade, difícil de crer inicialmente mas extasiante uma vez que acostumava-se com a ideia. Meus olhos estavam travados nos seus como se pudessem desaparecer caso eu piscasse ou pisasse em falso. Porém, provando-me que de fato eu me encontrava bastante acordado e que não estava tendo apenas um sonho muito bom, Yoongi moveu-se para apoiar os dois pés no chão, adotando uma postura ereta enquanto abria os braços num convite silencioso, seus lábios puxados num sorriso que tentava esconder sem muito sucesso. Percorri o resto do caminho numa corrida desesperada, catapultando-me em seus braços sem pensar duas vezes. Envolvi sua cintura fina num abraço apertado, enterrando meu rosto na curva de seu pescoço enquanto me deixava ser rodeado e nocauteado por seu perfume. Seu cheiro era tão único, tão viciante, tão Yoongi, que me fez perceber o quanto sentia sua falta. Nós mantínhamos contato, claro – principalmente através do celular que me fora presenteado por ninguém menos do que o próprio –, mas nada se comparava à tê-lo em pessoa diante de mim. Nós estávamos separados pelo que pareciam anos, mesmo que não passassem de semanas – tempo demais, se quer saber minha opinião.

Sentir os braços de Yoongi rodeando meus ombros enquanto retribuía o abraço na mesma intensidade era algo impossível de descrever. Não era a primeira vez que eu sentia seus braços ao meu redor, mas pelo tempo que eu o sentira pela última vez, poderia muito bem ser. Aproveitei a rara oportunidade de trocar contato físico com o loiro para apertá-lo ainda mais em meu enlace, arrancando dele uma risada curta e divertida. O som ainda era tão estranho e estrangeiro aos meus ouvidos, mas tão fascinante; tudo que eu queria era ouvi-lo rir mais e mais, sem nunca me cansar.

— O que faz aqui? – indaguei, genuinamente curioso, enquanto me desvencilhava de seus braços e me colocava à uma distância socialmente aceitável; me arrependi imediatamente, ansiando o calor e a segurança que o contato proporcionava.

— Vim ver com meus próprios olhos o que você anda aprontando em Busan sem mim. – respondeu num tom brincalhão, encolhendo os ombros com indiferença enquanto enfiava as mãos no bolso do moletom que usava. – Não está feliz em me ver? – provocou, deixando um sorriso presunçoso adornar seus lábios ao mesmo tempo que voltava a se sentar sobre o capô do carro, apoiando os pés sobre o para-choque.

— Claro que estou! – deixei escapar um pouco ávido demais, conquistando-me mais um riso entretido de sua parte. Aquele riso fazia o vergonhoso rubor que coloria minhas bochechas num tom forte de rosa valer a pena, pensei. Porém, mesmo que estivesse disposto a fazer de tudo para ouvi-lo rir mais vezes – inclusive me envergonhar de variadas formas –, eu ainda tinha em mim algo chamado orgulho próprio. Encontrando-o escondido em algum canto obscuro de minha mente, acrescentei tentando parecer um pouco mais calmo e controlado. – Quer dizer, eu só não imaginava que pudesse te encontrar aqui.

— Você devia ser mais agradecido, sabia? Não foi nada fácil dirigir a madrugada toda de Seoul até Busan. – comentou, sua voz adquirindo um falso tom de reprovação.

— Você dirigiu até aqui?! – exclamei, sendo tomado por um espanto inadequado; era óbvio que ele havia dirigido, principalmente com o veículo preto servindo de prova, porém eu não esperava que Yoongi fosse capaz de tal feito. – Ficou louco? Você deve estar exausto!

— Da última vez que eu chequei, carros não se dirigiam sozinhos, Jimin. – brincou, sem captar o real motivo da minha surpresa. – Mas você tem razão, eu realmente estou exausto. Por isso mereço alguma forma de agradecimento, não acha?

— No que está pensando? – o questionei um pouco hesitante, temendo alguma resposta dúbia e constrangedora – ultimamente o loiro encontrara prazer em me provocar numa frequência constante, fazendo-me quase sentir falta da sua postura fria e distante de antes.

— Te contarei depois. – respondeu enigmático enquanto indicava o espaço ao seu lado com leves batidas na lataria do carro. Parte de mim ainda não confiava plenamente no suposto gesto inocente, mas a outra parte desejava a proximidade com o loiro. Como eu era uma pessoa naturalmente submissa e obediente, aceitei seu convite e empoleirei-me no capô ao seu lado. – Por que está aqui e não em casa, dormindo?

— Tae-Tae e Kookie queriam assistir o amanhecer na praia, já que não podemos fazer isso em Seoul. – expliquei, olhando as figuras ainda adormecidas na areia, completamente alheias ao fenômeno que começara e acabara enquanto estavam perdidas no mundo dos sonhos. O Sol brilhava mais forte e imponente, obtendo sucesso em iluminar toda a imensidão do céu, este que agora se encontrava azul e sem sinal de nuvens. – Só que os dois acabaram dormindo e eu tive que assistir sozinho. – Yoongi não respondeu, mas eu pude notar que tentava reprimir outro riso. – O que foi?

— Você fica fofo quando faz biquinho. – disse, deixando seus lábios se puxarem num sorriso felino enquanto assistia minhas bochechas queimarem.

— Eu não estou fazendo biquinho. – tentei me defender, mas sabia que seria em vão. Se não estava fazendo antes, definitivamente estava fazendo agora.

— Está sim, e agora tem uma ruguinha entre as suas sobrancelhas também. – brincou, cutucando dita ruga com o indicador. – Sua expressão está simplesmente adorável.

— Cala a boca. – resmunguei, desviando o olhar e cruzando os braços sem intenção, percebendo tarde demais que isso só contribuiria para seu deleite em me provocar. Como esperado, minha postura emburrada acarretou mais uma risada do loiro, dessa vez alta e desimpedida.

— Calma, Sunshine. Só estava brincando com você. – tentou me assegurar, segurando meu queixo na tentativa de fazer-me olhar para si. Contudo, Yoongi não precisou insistir muito; o uso incomum e repentino da palavra estrangeira conseguira atrair minha atenção sem esforço. O inglês saíra de seus lábios um pouco diferente, carregado de sotaque, o que seria engraçado se eu não tivesse a realização de que Min Yoongi acabara de me dar um apelido.

— Do que m-me chamou? – gaguejei, querendo checar se minha audição ainda funcionava bem. Eu o encarava de olhos arregalados, e se minhas bochechas incrivelmente quentes pudessem servir de indicação, diria que estava corando furiosamente também.

— S-sunshine? – repetiu, incerto, seu tom de voz soando mais com uma pergunta do que uma afirmação. Era a primeira vez que eu o via sem jeito. – Por que, não gostou?

Ao invés de respondê-lo, resolvi permitir que meus lábios se abrissem desimpedidos num sorriso bobo capaz de partir meu rosto ao meio, daquela maneira que eu sabia que iria transformar meus olhos em duas fendas escondidas atrás de minhas bochechas avantajadas. Que tipo de pergunta idiota era aquela? Era óbvio que eu não havia gostado. Eu havia amado o apelido novo.

— Por que está sorrindo tanto? Pare, você está me assustando. – resmungou, franzindo o cenho e desviando o olhar, mas eu podia ver o modo como a ponta de suas orelhas ficavam vermelhas. E pensar que eu era o adorável.

— Estou sorrindo porque estou feliz, hyung. – admiti, dando especial ênfase ao honorífico para provocá-lo um pouco. Era bom estar na outra ponta, pra variar.

— Por causa de um simples apelido? – indagou, incrédulo, ao passo que eu apenas concordei com um aceno de cabeça, ainda sorrindo. – É muito fácil te fazer feliz, Park Jimin.

— Eu nunca disse que não era. Você é quem insiste em pensar o contrário. – disse em forma de brincadeira, encolhendo os ombros, mas Yoongi parecia enxergar um significado maior por trás de minhas palavras. A intensidade com que me olhava era tamanha que um arrepio violento percorreu minha espinha, fazendo-me tremer involuntariamente.

— Está com frio? – perguntou-me num tom suave, notando o modo como eu ainda estremecia.

— Um pouco. – não era bem mentira, visto que a brisa marítima que bagunçava nossos cabelos era gélida até mesmo numa manhã de verão com céu aberto. Eu só não queria admitir em voz alta que sua presença era capaz até mesmo de desviar minha atenção do frio, cuja existência eu só percebera quando ele próprio a mencionou. Neste momento eu me arrependia da péssima escolha de roupas – eu usava apenas uma camiseta e um casaco fino e gasto, longe de ser a escolha mais sensata para passar a noite fora próximo ao mar. Numa tentativa fútil de espantar o frio, eu abraçava meu próprio corpo enquanto deslizava as mãos pela extensão de meus braços, mas eu ainda não conseguia impedir que meus dentes se chocassem vez ou outra.

— Venha, vamos entrar no carro. Eu ligo o aquecedor pra você. – disse já levantando-se de seu lugar sobre o capô e direcionando-se para a porta do motorista, indicando para que eu o seguisse.

Acomodei-me no banco do carona ao seu lado, assistindo-o mexer em alguns botões e controles até que ar quente começasse a sair pelos condutores de ar do veículo. Não perdi tempo ao posicionar minhas mãos mais próximas da fonte de calor, na esperança de esquentar meus dedos gelados mais rápido. O alívio fora imediato, e logo percebi que não era apenas a ponta dos meus dedos que se aqueciam.

— Obrigado. – murmurei, sorrindo para Yoongi e sentindo-me verdadeiramente agradecido e talvez até emocionado com sua atitude atenciosa e protetora. Vê-lo retribuir o sorriso sem qualquer traço de escárnio ou zombaria, mesmo que ainda um pouco acanhado, fazia meu coração palpitar.

— O apelido combina com você, Sunshine. – disse de repente, retornando ao assunto sem aviso enquanto esticava a mão para afastar a franja dos meus olhos. – Você é realmente um raio de sol.

Eu não sabia porque Yoongi estava dizendo aquilo, nem porque estava sendo tão gentil e carinhoso, aparentemente sem motivo. Mas eu não podia negar que tal tratamento vindo dele fazia meu coração martelar contra as paredes do peito, chegando a reverberar em meus ouvidos, ao mesmo tempo que um novo arrepio percorria meu corpo e eriçava os pelos de meus braços e nuca. Foram raras as vezes que Yoongi me tratara com tamanha ternura, e a cada palavra ou gesto doce eu parecia me apaixonar mais por ele; era algo que eu não podia evitar, a paixão e o afeto eram reações óbvias diante do ser incrível que era Min Yoongi.

— Ainda está com frio? – perguntou, notando o modo como minha pele ficara arrepiada diante da intensidade de seu olhar e da doçura de suas palavras, mas confundindo seu real significado. Antes que pudesse responder, Yoongi inclinou-se na direção do banco de trás e trouxe consigo um casaco pesado de nylon com pelos sintéticos ao redor do capuz. Ainda sem dizer uma palavra, envolveu-me com o casaco, certificando-se de que estava seguro ao redor de meus ombros. O que ele não tinha reparado até então foi que ao fazê-lo, seu corpo havia se aproximado um pouco além do necessário, por conta própria, do meu; apenas quando seus olhos desviaram a atenção de suas mãos atarefadas para meu rosto, foi que notou o quão próximos nossos lábios estavam.

Eu estava completamente petrificado no lugar, encarando suas orbes negras com um misto de desejo e apreensão. Minha respiração saía em suspiros curtos e superficiais enquanto eu tentava normalizá-la juntamente com meus batimentos cardíacos. Eu não me atrevia a mover sequer um músculo, por isso Yoongi resolvera tomar para si a iniciativa de fazê-lo.

Num ato súbito e desesperado, Yoongi eliminara a distância até meus lábios, tomando-os para si com um beijo ardente e sedento. Minha boca parecia ter criado uma mente própria, movendo-se contra ele sem minha permissão, enquanto eu ainda tentava processar o que estava acontecendo. Sentindo-me tonto e sobrecarregado com as mais diversas sensações, apoiei ambas as palmas contra seu peito, empurrando-o firme mas delicadamente, tentando recobrar o fôlego e minha sanidade.

— O que... O que está fazendo? – indaguei, ofegante.

— Cobrando meu agradecimento. – foi a única explicação que deu antes que seus lábios voltassem a colar-se aos meus.

Dessa vez, eu não o empurrara; ao invés, agarrei o tecido de seu moletom nos punhos e o puxei pra mais perto. Eu retribuía os beijos na mesma ferocidade que Yoongi os dava, deixando transparecer a falta que eu sentia do gosto de seus lábios – álcool e tabaco, como da primeira vez. Era bem verdade que eu não simpatizava com nenhuma das duas coisas, mas por algum motivo senti-las nos beijos de Yoongi era uma experiência completamente diferente; quase como se fizessem parte do seu ser, e se por acaso seus lábios não apresentassem um dos dois sabores, não seria a mesma coisa. Enquanto me perdia no ósculo, não percebi que sua mão havia encontrado o caminho da minha cintura, a ponta dos dedos esgueirando-se sob o tecido de minha camisa, arranhando a pele que encontrara ali, enquanto a outra massageava minha coxa. Deixei um ruído embaraçoso de desejo escapar, ruído este que fora engolido logo em seguida pelos lábios ávidos de Yoongi, enquanto minhas mãos migravam de seu peito para seus cabelos, correndo os dedos pelos fios macios enquanto removia a touca que usava no processo, deixando-a cair em algum lugar do banco atrás de si.

O ato parecia atiçar ainda mais o loiro, que prendeu meu lábio inferior entre os dentes com força antes de passar a língua pela ferida num silencioso pedido de desculpas. Ter o músculo úmido contra meus lábios me fez arfar, e Yoongi encarou tal gesto como um convite para colocar sua língua à trabalho. O rapper sabia muito bem como usá-la, não restava dúvidas; sua língua flexível explorava cada canto da minha boca, encontrando dentes, palato e, frequentemente, minha própria língua. O jeito com que Yoongi me beijava era quente, apaixonado e necessitado, como se eu fosse seu mais precioso vício ou a fonte vital de sua sobrevivência. Meu peito transbordava de emoções, todas elas unicamente voltadas para Yoongi. Eu não conseguia pensar em mais nada que não fosse seu cheiro, seu gosto, sua mera presença me rodeando. Eu queria sentir mais disso, muito mais.

No momento que Yoongi apertara minha coxa, utilizando um pouco mais de força e perigosamente perto da virilha, não consegui segurar o gemido baixo que escapara meus lábios ao mesmo tempo que deixava minha cabeça pender pra trás sem forças. O loiro tomou a oportunidade para distribuir beijos pela extensão de meu maxilar, envolvendo o lóbulo de minha orelha direita com os lábios num chupão antes de deslizar a língua por meu pescoço. Outro gemido seguiu quando senti seus dentes cravarem a pele na junção entre ombro e pescoço, mas quando seus lábios se fecharam ao redor do meu pomo de Adão e logo em seguida sua língua pressionara contra o ponto de pulsação bem abaixo da mandíbula, encontrei-me completamente perdido e impotente em seus braços, incapaz de conter os sons de prazer que escapavam de meus lábios como cascatas.

Apenas quando meus ouvidos captaram um som diferente, baixo e distante como se pertencesse à outra dimensão, mas que se parecia perturbadoramente com dedos batendo contra a janela do carro, foi que abri meus olhos para encontrar o rosto de Taehyung pressionado contra o vidro enquanto suas mãos envolviam a lateral dos olhos para que visse melhor a cena que se desenrolava no interior do veículo. Seus lábios estavam puxados num sorriso travesso e havia um Jungkook divido entre o decepcionado, irritado e constrangido a alguns passos de distância de si. Eu empurrei Yoongi tão depressa e de forma tão brusca que por um momento o loiro me encarara confuso e frustrado, antes de pousar os olhos sobre o intruso que assistia tudo com uma expressão perversa no rosto. Assim que a realização caiu como um tijolo sobre sua mente nublada pela luxúria, tive certeza que o vermelho que coloria suas orelhas espelhava aquele que tomava todo o meu rosto. Com um gesto impaciente, Taehyung pediu para que abrisse a janela, pedido este que obedeci à contragosto, temendo a quantidade absurda de piadas e provocações que viria a seguir.

— Suga-hyung! – cantarolou com a voz grave que não combinava com seu rosto delicado, seu tom animado parecendo falso e forçado e seu sorriso perturbador. – Que coincidência te encontrar aqui em Busan.

— É... Pois é. – respondeu estupidamente, vendo-se em falta de palavras. Ao perceber isso, o sorriso de Taehyung atingira seu limite máximo, formando um retângulo perfeito nos lábios grossos.

— Que bom que está aqui. Estava mesmo querendo uma carona pra casa. – comentou, acomodando-se no banco de trás sem ao menos ser convidado, deixando a porta aberta atrás de si para que Jungkook pudesse entrar. – Vamos, Kookie. O que faz parado ai?

A voz de Taehyung pareceu despertar o mais novo, que sobressaltou-se e me encarou com uma expressão vazia no rosto. – O que eu faço com isso? – indicou a bicicleta que guiava, a mesma que nos levara até ali.

— Bom, não podemos simplesmente deixá-la ai. – comecei, procurando os olhos de Yoongi por ajuda, incerto de que atitude tomar.

— Deixe que eu resolvo isso. – assegurou-me, parecendo satisfeito em ter algo com o que se ocupar. Yoongi saiu do carro e abriu o porta-malas, ajudando Jungkook a encaixar a bicicleta ali da melhor forma possível, mesmo que boa parte da roda dianteira ainda pendesse precariamente para fora e impedisse que o porta-malas fosse fechado. Eu tinha problemas para confiar em tal arranjo, mas acho que era o melhor que poderíamos arrumar com tão poucos recursos. Yoongi e Jungkook entraram no carro ao mesmo tempo, e assim que o mais velho ligou o motor e preparou-se para tirar o carro da vaga sem a ajuda do retrovisor interno, um silêncio pesado e constrangedor se instalara no interior do veículo.

Taehyung tentara começar uma conversa casual com Yoongi, mas depois de tantas respostas curtas e evasivas, acabou por desistir. A atmosfera estava tão pesada que eu tinha dificuldade pra respirar, e mesmo sem ver, eu podia sentir o olhar afiado de Jungkook perfurando a parte de trás da minha cabeça. As únicas palavras que proferi foram instruções para a casa dos meus pais, de tão envergonhado que estava. Ser pego no flagra aos amassos com Yoongi era a última coisa na minha lista de coisas a se fazer em Busan com os amigos, se é que existia esse item na lista – provavelmente não, concluí. Ter momentos íntimos presenciados por terceiros não era algo que me interessava, longe disso. E, por algum motivo, ser flagrado por Jungkook não era o mesmo que ser flagrado por Taehyung; a dor presente no semblante do mais novo era algo que partia meu coração, mesmo que eu não compreendesse muito bem a razão.

Assim que Yoongi estacionara na frente do portão de casa, o moreno foi o primeiro a sair do carro, sendo seguido de perto por Taehyung. Os dois garotos tiraram a bicicleta – felizmente intacta – do porta-malas e o fecharam com um baque, passando pelo portão destrancado e entrando em casa como se já fossem residentes, mas não sem antes despedirem-se de Yoongi com acenos e um “até mais, Suga-hyung!” da parte de Taehyung, deixando a bicicleta no quintal em seu caminho. Antes de segui-los, virei-me para Yoongi pra encontrar seus olhos já focados exclusivamente sobre mim.

— Não quer entrar? – ofereci. – Talvez dormir um pouco? Você deve estar cansado de dirigir a noite toda.

— Eu sei que você só está tentando me apresentar aos seus pais, Sunshine. – brincou, relembrando aquela conversa embaraçosa no telefone. – Eu adoraria ficar, mas tenho coisas importantes a resolver em Seoul. Preciso ir agora, se quiser chegar à tempo.

— Não vou permitir que você volte sem ao menos um descanso. – insisti, firme na minha decisão de fazê-lo parar por um segundo. – Seria loucura pegar a estrada neste estado.

— Você é tão fofo. – provocou, soltando uma risada baixa enquanto estendia a mão para apertar a ponte de meu nariz de forma brincalhona. – Mas estou bem, eu dormi bastante antes de vir pra cá. Estou completamente descansado, eu juro. – tentou assegurar-me, e mesmo que eu não acreditasse numa palavra do que dizia, o tom de voz que o loiro usara não deixava brechas para objeções. Não tive outra escolha senão soltar um longo suspiro resignado e confiar nele.

Derrotado, saí do carro e dei a volta no veículo, parando ao lado do motorista enquanto esperava que abrisse a janela. Uma vez aberta, devolvi seu casaco e apoiei meus braços na porta, lançando um último olhar suplicante na esperança de mudar sua opinião. – Tem certeza que não quer entrar? Última chance.

— Absoluta. – afirmou, inclinando-se para depositar um breve e casto beijo nos meus lábios. – Não me olhe assim, prometo que da próxima vez eu me apresento formalmente pro seu pai. Combinado?

— Não diga besteiras. – resmunguei, escondendo o rosto nos braços na tentativa de disfarçar o rubor que coloria minha face. – Meu pai te expulsaria à vassouradas. – acrescentei, apenas brincando parcialmente, pois ao mesmo tempo que conhecia a personalidade alegre e descontraída de meu pai – que por sinal já estava ciente da minha sexualidade –, eu não fazia ideia de como meu progenitor reagiria ao conhecer Yoongi, uma vez que nunca o apresentei à ninguém além de amigos. Entretanto, a ideia parecia divertir o loiro, que deixara uma rara gargalhada divertida escapar de seus lábios.

— Tentarei a sorte com a sua mãe primeiro, então. – brincou, um sorriso tão largo no rosto que por um momento eu me perguntava se estava mesmo diante de Min Yoongi. Fui pego pela súbita vontade de beijá-lo, e assim o fiz. Nossos lábios se encontraram brevemente, mas foi o suficiente pra me deixar ansioso por mais.

— Vou sentir sua falta. – admiti, sentindo minhas bochechas ficarem ainda mais quentes, como se elas já não estivessem coradas o suficiente. – Dirija com cuidado.

— Pode deixar. – assentiu com um aceno de cabeça, religando o motor do carro. – Volte pra Seoul logo. É chato sem você por perto.

— Voltarei. – prometi, afastando-me do carro para permitir que seguisse caminho. Com um último aceno e um sorriso acanhado no rosto, assisti Yoongi dirigir pelas ruas calmas do bairro residencial até que o perdesse de vista, só então voltando para minha própria residência. Como era de se esperar, assim que passei pela porta da frente, fui saudado pelo sorriso sabido de minha mãe, que assistia tudo pela janela da sala.

— É uma pena que seu amigo teve que ir embora. – lamentou-se.

— É... realmente uma pena. – repeti de forma mecânica e abobada, envergonhado demais para elaborar uma sentença completa.

— Nos apresente da próxima vez, sim? Eu não pude ver direito, mas ele parecia bem bonito. – pediu, piscando de forma brincalhona diante de minha gagueira e protestos – Mãe!—, rindo às minhas custas. – Vem, meu amor. A comida está na mesa. Corra antes que seu pai e os meninos devorem tudo.

— Tudo bem. Obrigado, mãe. – aproximei-me para lhe plantar um beijo estalado na bochecha e agradecer-lhe de forma sincera, não só ao aviso de que a comida estava acabando mas também por todo o seu apoio e compreensão – em relação aos meus sonhos, à minha sexualidade, ao Yoongi, tudo. Eu realmente tinha a melhor mãe do mundo.

— Não há de que. – disse em meio a risinhos, que se pareciam extremamente com os meus. – Ah, Jiminie. – chamou novamente minha atenção, antes que eu fizesse caminho para a cozinha. – Eu estava falando sério. Adoraria conhecer seu amigo qualquer dia.

— Não se preocupe, mãe. Eu ainda o trarei aqui. É uma promessa. – sorri.

Eu só esperava poder cumpri-la, e logo.