Hold me Tight

35 Tente não dormir


— Yoongi POV -

A silhueta de Seoul apontava no horizonte, seus arranha-céus altos e imponentes aproximando-se a cada quilômetro percorrido na autoestrada que conectava Busan à capital. Enquanto dirigia, assisti o cenário pitoresco do litoral coreano ser gradativamente substituído pela paisagem bucólica do interior até tomar a forma da selva de concreto indicando-me que estava próximo do meu destino – o coração do país, o centro econômico e político, onde as pessoas iam atrás de sonhos e oportunidades, esperançosas de um futuro melhor. A cidade que hoje seria palco de uma possível chacina; a cidade que esta noite presenciaria minha vingança.

Até agora não conseguia acreditar no que acabara de fazer; agi completamente por impulso quando peguei a estrada para Busan após a última reunião que tivemos pra debater estratégias antes de invadir o armazém que pertencia à Bang Yongguk, ao invés de ir pra casa dormir como deveria. Sobrevivi a viagem à base de uísque e cigarros, além de ocasionais doses de energético quando avistava algum posto de gasolina ou loja de conveniência no caminho; não que eu fosse precisar, já que a ansiedade e o nervosismo que sentia diante de uma missão tão arriscada e importante não me deixariam dormir de qualquer jeito. Eu não sabia exatamente o que me levara a tomar uma decisão tão repentina e irresponsável quanto aquela, mas sabia do que precisava naquele momento: Jimin.

Algo dentro de mim me compelia a ir vê-lo, certificar-me de que estava bem e à salvo antes de me aventurar no desconhecido que seria aquela invasão ao armazém. Eu precisava ver Park Jimin em carne e osso diante de meus olhos antes de dar o primeiro tiro no escuro, na esperança tola de tomar coragem a partir de seu sorriso radiante – um lembrete do que realmente importava. Eu estava fazendo isso por ele, afinal de contas.

Entretanto, não pretendia importuná-lo tão cedo na madrugada. Assim que cheguei à cidade, encontrando ruas vazias sob um céu ainda escuro, estacionei o carro no primeiro beco recluso que encontrara, para que pudesse tirar um cochilo enquanto esperava uma hora mais apropriada pra contatar Jimin e revelar minhas intenções de encontrá-lo. Talvez tenha conseguido dormir por uma hora ou menos quando a notificação de nova mensagem do celular me acordou com um sobressalto. Era uma foto do mar, suas águas cristalinas reluzindo com o reflexo do Sol que fazia seu caminho lentamente pelo horizonte. Junto com ela, uma mensagem de texto que refletia meus próprios sentimentos.

Gostaria que estivesse aqui comigo.

Descobrir que Jimin estava acordado numa hora tão ímpia era uma surpresa, mas uma surpresa bastante agradável. Qualquer traço de sono havia desaparecido enquanto pedia instruções para sua localização, sentindo-me ansioso por um motivo completamente diferente. À medida que acelerava pelas ruas desertas de uma Busan que ainda dormia, não consegui conter as batidas frenéticas de meu coração, que podia sentir reverberando dentro do peito. Em pouco tempo Jimin estava logo ali à minha frente, tão próximo e ao mesmo tempo tão dolorosamente distante; tudo que eu queria era envolvê-lo nos meus braços e apenas afogar-me na sua presença.

Os beijos e carícias que trocamos não estavam nos meus planos, mas não podia negar que havia antecipado aquele momento desde que resolvera reconhecer e aceitar a imensurável afeição que sentia por ele. Se antes estava apreensivo quanto à dar o último passo restante e simplesmente lançar-me sobre o abismo que eram meus sentimentos por Park Jimin, uma de suas falas – recheada com verdades escondidas sob tom de brincadeira – acabou por dar o empurrão que eu precisava. Jimin me fez perceber que eu era o único capaz de impedir não só a sua felicidade, como a minha própria também. Naquele momento eu soltei a borda do abismo, que antes segurava com todas as forças como se minha vida dependesse daquilo, e caí.

A sensação de entregar-se ao sentimento era indescritível. Se há alguns meses atrás, alguém me contasse que em pouco tempo eu estaria perdida e irreversivelmente apaixonado por um garoto baixinho e irritante com cara de bebê e impressionantes habilidades de dança chamado Park Jimin, eu gargalharia como se tivesse acabado de ouvir a melhor piada do século e diria que não conhecia nenhuma droga que tivesse tamanho efeito alucinógeno. Porém, era exatamente nesta posição que encontrava-me no momento: explorando cada canto da boca de Jimin com a língua enquanto ouvia os mais deliciosos sons escaparem de seus lábios inchados pelo beijo, ansiando ouvir e sentir cada vez mais. Tinha orgulho em dizer que não me arrependia nem por um segundo.

Enquanto o tempo que passei em Busan parecia um sonho do qual eu jamais desejava acordar, retornar à capital era como um choque de realidade, despertando-me para o verdadeiro pesadelo que me aguardava. Dentro de algumas horas eu deveria encontrar-me com Rap Monster e uma porção da gangue, quem quer que fosse louco ou estúpido o bastante para nos acompanhar nessa missão suicida. Aproveitando o tempo restante que tinha até o momento combinado para o encontro, peguei a rota mais rápida até o decrépito prédio de apartamentos que chamava de casa, a fim de otimizar o número máximo de horas que poderia usar pra pregar os olhos e obter algum descanso. Diante da minha porta encontrara um bentô cuidadosamente preparado com comida caseira; o pacote não apresentava remetente, mas eu não precisava de nomes pra adivinhar quem era o responsável pelo deleitoso aroma que invadia o corredor – admirava-me que nenhum de meus vizinhos se atrevera a simplesmente roubá-lo. Não os culparia se fizessem.

Uma vez dentro do apartamento, já livre de sapatos, touca e moletom – a temperatura em Seoul estava bem mais amena do que no litoral –, encontrei-me prostrado no sofá com um bentô praticamente devorado na mesa de centro diante de mim; estava faminto, já que precisara sobreviver à viagem de volta com lanches rápidos e pobres em lanchonetes na beira da estrada. Quando já não havia mais sinal de comida à minha frente, desabei sobre o sofá que ocupava, exausto demais pra preocupar-me com coisas frívolas como higiene pessoal e conforto, atingindo o estado inconsciente em questão de segundos.

Uma estranha vibração no bolso traseiro de minha calça jeans despertou-me de um sonho sangrento, e a sensação de apreensão e medo que invadia minha mente devido ao sonho logo fora substituída por desespero quando percebi que havia dormido por mais tempo do que o planejado. O céu estava escuro novamente, mas o relógio no visor do celular dizia-me que ainda era começo de noite. Sem pensar duas vezes, recusei a ligação de Seokjin, enviando-lhe uma curta e direta mensagem de texto em seguida avisando que já estava à caminho. Sem me importar com roupas amassadas e rosto inchado pelo sono, dirigi-me para o covil da gangue em velocidade recorde, costurando entre o trânsito e furando alguns sinais, encontrando o braço esquerdo do líder na pequena sala restrita nos fundos do estacionamento.

— Finalmente! – exclamou Jin, exasperado, jogando as mãos para o céu como se alguma entidade maior tivesse atendido suas preces. – Onde você se meteu? Eu fui no seu apartamento mais cedo, mas não te encontrei lá.

— Eu notei, recebi seu bentô. – comentei com um encolher de ombros, sem paciência pros sermões maternais que sabia que Seokjin estava pronto pra dar. – O que você foi fazer na minha casa, aliás?

— Fui me certificar de que você estava bem descansado e alimentado, obviamente. – bufou, revirando os olhos. – Eu posso cuidar de Namjoon pessoalmente, mas não de você. – continuou, ignorando completamente meu escárnio quando agradeci aos céus por não tê-lo no meu pé o dia inteiro. – Por um momento cheguei a pensar que você ainda estava dormindo, mas quando saí do prédio não vi seu carro em lugar algum.

— Óbvio que não viu, porque eu não estava em casa. Cheguei há pouco tempo. – esclareci, tentando revelar o mínimo possível. Não estava afim de contar todos os detalhes da minha viagem. Principalmente pro médico que tomara para si o fardo de assumir o papel de uma espécie de figura materna pra mim.

— Mais uma vez, eu repito: onde diabos você se meteu? – Seokjin insistiu, apoiando as mãos na cintura e batendo o pé nervosamente no chão, exatamente como uma mãe controladora e implicante faria. Revirei os olhos. Ugh, tão irritante.

— Se quer tanto saber, eu estava em Busan. Satisfeito? – o sorriso que lhe direcionara estava longe de ser sincero, todo feito de linhas finas e rígidas numa precária atuação de simpatia. Na verdade, o que eu realmente queria dizer era: não enche a porra do meu saco.

— O quê?! – o berro que o mais velho deixou escapar fora o suficiente pra me causar dor física; com uma careta, cobri os ouvidos na tentativa de poupá-los de um escândalo ainda maior. – O que quer dizer com isso? Busan? Mas que porra você foi fazer em Busan numa hora dessas? Você dirigiu até lá? Você tá maluco?

— Jin, por favor, cala a boca. – pedi num tom cansado, sentindo-me genuinamente tonto com a enxurrada de perguntas. – Sim, eu fui dirigindo. Peguei a estrada assim que saí daqui ontem à noite, e cheguei hoje no começo da tarde. Não se preocupe, eu estou descansado e bem alimentado, sua comida como sempre estava ótima. E eu fui porque precisava ver Jimin.

— Já chega. – disse de repente, os braços que havia cruzado em algum momento descruzando-se bruscamente enquanto encarava-me com determinação na voz e no olhar. – Mandarei Namjoon cancelar a missão. Você não está em condições de invadir armazém nenhum esta noite.

— Não se atreva. – rosnei em tom ameaçador, aproximando-me dele instintivamente com o intuito de intimidá-lo, mesmo que fosse inútil; Jin era bem mais alto e forte do que eu, seus ombros largos e musculosos vencendo os meus estreitos e frágeis com grande margem. – Eu esperei por esse momento por um longo tempo. Nada vai me impedir de ter minha vingança, Seokjin. Nem mesmo você.

— Você não entende, Suga? Seu corpo não está na melhor forma possível. – rebateu, seu tom calmo e paciente; Jin não se deixaria abalar pela minha hostilidade, preferindo apelar para a razão e o bom senso. Pena que eu não daria ouvidos à nenhuma das duas coisas. – Você quase não dormiu, se alimentou mal; não me olhe com essa cara, porque eu sei que a única coisa nutritiva que você comeu foi o bentô que eu preparei, e isso ainda não é o suficiente. Além do mais, uma viagem de quase cinco horas é desgastante se percorrida apenas uma vez, e você ainda fez duas viagens seguidas. Sinceramente, você acha que tem condições de sobreviver? Ou de sequer segurar uma arma?

— Não me subestime, Jin. Você sabe que eu estou mais do que preparado pra o que quer que aconteça esta noite. – afirmei, convicto de minhas palavras.

— Mesmo assim, sua irresponsabilidade pode botar muitas coisas em risco. E a troco de quê? – havia desapontamento na sua voz, eu podia ouvi-lo. Uma parte de mim reconhecia que Jin tinha razão; era irresponsabilidade minha agir por impulso e dar ouvidos aos meus desejos num dia crucial como este. Mas eu não queria reconhecer a existência dessa parte.

— Eu já disse, precisava ver Jimin. Não me pergunte o porquê. – cortei, prevendo a pergunta na ponta da língua do mais velho, pronta pra ser disparada. – Apenas confie em mim.

Antes que Jin pudesse retrucar e continuar me importunando sobre os perigos de mergulhar de cabeça numa missão arriscada enquanto estava privado de sono, Namjoon entrou na pequena sala com o modo líder ativado, expressão séria no rosto enquanto me oferecia duas armas: um fuzil de alto calibre na mão esquerda e uma submetralhadora na direita.

— Suga, que bom que você chegou. Escolha sua arma. – ordenou, ao passo que escolhi a submetralhadora sem hesitar. Fuzil era uma típica arma de retaguarda, feita pra ser mirada cuidadosamente de um local alto ou protegido, e eu simplesmente não tinha paciência para tal. Era mais do meu feitio estar nas linhas de frente, fazendo um belo de um estrago. Namjoon acenou quase imperceptivelmente com a cabeça, aprovando minha escolha enquanto mantinha o fuzil para si, seguro em ambas as mãos. – Estamos todos prontos, só falta você.

— Namjoonie, eu não sei se é uma boa ideia prosseguir com o plano. – Jin começou, mexendo-se nervosamente no lugar. O líder lançou ao médico um olhar curioso, mas eu já estava farto de sua superproteção. Impaciente, abasteci-me de munição extra e caminhei em direção à saída com passos firmes e certos. Como dissera antes, nada me impediria de botar as mãos naqueles desgraçados.

— Você vem? – perguntei à Namjoon por cima do ombro, já alguns bons metros adiante. Os dois pareciam trocar algumas palavras sussurradas em tom urgente, mas a distância não me permitia distingui-las. Com o meu chamado, Namjoon cortou a conversa de súbito e despediu-se do namorado com um breve beijo na testa, trotando até mim a fim de acompanhar meus passos.

— Tenham cuidado! – ouvi Jin exclamar quando estávamos no portão, reunidos com os outros oito idiotas com tendências suicidas que aceitaram nos acompanhar, todos armados até os dentes. Seria uma péssima noite pra Bang Yongguk e seu bando.

— Tá bom, mãe! – devolvi, dando-lhe o dedo do meio por puro capricho.

Finalmente livre de Seokjin e seus infindáveis sermões maternos, acompanhei Rap Monster até sua picape, abdicando meu próprio carro à favor do dele por inúmeras razões. Uma delas, a principal e mais importante, era que sua picape era mais rápida e mais resistente do que a lata velha sobre rodas que eu chamava de carro, perfeita para o caso de precisarmos fugir sob forte ataque. Além disso, estrategicamente falando era mais prático utilizar menos veículos possíveis para nos transportar até lá, de modo que três dos oito homens que nos acompanhavam – dois deles ótimos atiradores do grupo de Zico – ocupavam seus lugares no banco traseiro enquanto acomodava-me ao lado do motorista. Os outros cinco completavam um segundo carro, e assim que estávamos todos prontos, seguimos viagem.

O caminho até o armazém fora curto porém tenso, percorrido no mais absoluto silêncio. Enquanto observava a cidade passar como um borrão diante de meus olhos, minha mente recapitulava tudo que a semana de observação tinha nos informado. Aparentemente o armazém ainda estava sendo utilizado, mesmo que os únicos indivíduos que podiam ser vistos entrando e saindo do local tinham suas identidades escondidas por bandanas vermelhas. Até ai nenhuma novidade. Porém, mesmo com toda a atividade suspeita, não havia nada que entregasse qual exatamente era o propósito daquele armazém. Não sabíamos se era alguma base de operações ou apenas um lugar para onde pessoas indefesas eram levadas com o intuito de levar uma surra e servir de recado para gangues rivais. Mesmo com toda a preparação e cautela, aquele armazém ainda era um grande ponto de interrogação; estávamos nos metendo em território desconhecido, e isso quase nunca acabava bem.

Namjoon estacionou o carro de forma que o veículo ficasse de fácil acesso e próximo o suficiente do local para o caso de uma fuga apressada, mas longe e escondido o bastante para ninguém descobrir que estávamos ali antes da hora. Saímos em silêncio, verificando armas e munições enquanto os atiradores faziam seu caminho para os telhados dos prédios vizinhos, buscando vantagem na boa visibilidade que a altura proporcionava. Assim que recebemos o sinal para que pudéssemos prosseguir, eu e mais dois tomamos a dianteira enquanto Rapmon ficava para trás, protegendo a retaguarda. Percorremos o restante do caminho a pé de forma rápida e eficaz, sem quebrar a formação. Até então, não avistamos nenhum sinal de vida; não só no armazém, como em todo o entorno da quadra. Uma espécie de alarme soara na minha mente, avisando-me que havia algo de errado, mas a adrenalina que corria em minhas veias tornava impossível a possibilidade de agir com cautela.

Um dos garotos que estavam sob a asa de Rap Monster – não me recordava direito seu nome – tomara a iniciativa de abrir os portões de ferro do armazém após confirmar com todos que a área estava limpa, pois certamente o barulho atrairia atenção para nós. À medida que o interior do armazém ia revelando-se lentamente, eu esperava encontrar tudo: desde centenas de armas apontadas para nós, prontas pra nos dizimar em questão de segundos, até mesmo o próprio Bang Yongguk de pé majestosamente no meio de seus súditos com aquele sorriso predatório estampado no rosto. Eu esperava encontrar literalmente qualquer coisa, menos um armazém vazio.

Bem, se eu estivesse sendo honesto, o armazém não estava exatamente vazio. O espaço era amplo e podia-se ver nuvens de poeira dançando nos feixes de luar que passavam através das janelas quebradas no teto. Haviam contêineres e maquinários espalhados pelo local, há muito não utilizados e empoeirados, além de alguns mobiliários de aparência mais nova, sem dúvida trazidos pela ocupação da gangue de Yongguk; bem no centro do ambiente, havia uma gravadora de vídeo apoiada num tripé e um enorme gancho preso ao teto. Ao aproximar-me do gancho, pude notar pequenas gotas de sangue no chão cimentado e, mais adiante, um objeto que possuía tenebrosa semelhança com o óculos de Jimin, agora quebrado e com as lentes em cacos.

Minha reação imediata fora franzir o cenho e cerrar as mãos em punho com força, sentindo meu sangue ferver e minhas feições contorcerem-se numa carranca do mais puro ódio. Era inevitável recordar-me do dia que fizera uma visita ao hacker do grupo de Zico, a cena que as câmeras de vigilância haviam me mostrado retornando ao subconsciente para assombrar meus sonhos ainda hoje. Agora meu subconsciente era invadido por imagens perturbadoras que dançavam diante de meus olhos: Jimin amarrado em ângulos estranhos, sendo descartado no pavimento duro como lixo, fraco demais pra sequer se mover. Se olhasse para o gancho à minha frente por muito tempo, podia visualizar claramente seu corpo pendurado como um saco de pancadas enquanto o maldito adicionava mais algumas marcas à sua tez antes imaculada. Apenas o ato de imaginar tal barbaridade já me deixava enjoado e enojado, alimentando ainda mais minha sede de sangue.

— Suga, você precisa ver isso. – ouvi Namjoon chamar atrás de mim, seus olhos grudados na câmera que agora encontrava-se ligada. Pela expressão horrorizada que estampava seu rosto, as imagens que reproduzia não eram nada agradáveis.

Coloquei-me ao seu lado com cautela, temendo a cena horrível que me aguardava; se minha imaginação já conseguia ser ruim o suficiente, eu tinha a impressão de que ver Jimin amarrado como um porco no açougue e gravado em vídeo com certeza não seria uma boa experiência. Pela primeira vez na vida, eu amaldiçoava o fato de estar certo: definitivamente, ver Jimin daquela forma superava qualquer cenário doentio que a minha imaginação poderia criar. A imagem do vídeo era péssima, em preto e branco e chuviscada, devido à tecnologia obsoleta da gravadora. Mesmo assim, dava pra notar que era noite quando o vídeo fora gravado, a precária iluminação que a lua fornecia dando ao ambiente um tom soturno. A câmera focava exclusivamente a figura desacordada de Jimin, preso pelos pulsos numa corda conectada ao gancho e com ambas as pernas presas atrás do corpo por uma corda na cintura. Sua cabeça pendia relaxada, o queixo encostado no peito, de modo que eu não podia ver seu rosto. O vídeo não enquadrava mais ninguém, mas uma voz masculina e estranhamente familiar – que eu assumia pertencer ao sujeito que gravara o vídeo, possivelmente o responsável por toda aquela barbárie – podia ser ouvida.

Olá, Suga. Se você está vendo isso, é porque meu plano funcionou.— começou a voz, seu tom presunçoso me fazendo ranger os dentes. – Muito em breve eu pedirei à Jiminie para que te mande um recado, mas eu não acredito realmente que ele vá transmiti-lo. Algo me diz que nosso doce Jiminie vai se rebelar contra minhas claras instruções e recusar-se à revelar qualquer coisa que tenha acontecido entre essas paredes, certo?— a voz riu, uma risada seca e debochada. – Mas eu preciso que você venha até mim, e sei que sempre posso contar com a sua impulsividade e temperamento explosivo. O demônio dentro de você deve estar sedento de vingança. Por isso, resolvi documentar este pequeno momento, para que veja exatamente o que aconteceu aqui dentro. Gosta do que vê?

A voz dera uma pausa no seu monólogo, claramente proposital para que eu tivesse tempo de absorver suas palavras. O modo presunçoso e casual com o qual a voz dirigia-se à mim enervava-me de uma maneira que jamais imaginaria ser possível. Eu queria urrar, socar alguém, quebrar a câmera. Qualquer coisa que aplacasse um pouco da ira que ia lentamente tomando conta do meu ser. Era ele. Aquele era o maldito que colocara as mãos no meu Jimin. Aquele era o desgraçado que lhe causara dor – se eu prestasse atenção na imagem, poderia ver manchas de sangue na camiseta de Jimin, algo que o dono daquela voz pagaria com a vida. Mesmo que eu ainda não conhecesse sua identidade, sua voz seria pista suficiente para que eu o caçasse até os confins do inferno.

Sabe,— continuou, trazendo minha atenção de volta ao vídeo. – nosso querido Jiminie aqui é um lutador. Ele nos deu um bocado de trabalho. Incapacitou dois de meus homens com as mãos atadas, utilizando apenas as pernas, acredita? Por isso tivemos que amarrá-las também. Quem diria, não é mesmo?— riu, sarcástico. Naquele momento, eu decidira que além de tirar-lhe a vida, eu também o torturaria da pior forma que conseguisse imaginar. – Eu certamente não esperava por isso, não depois dele cair na minha armadilha como um patinho. Jimin é uma pessoa tão bondosa, não é? Confia tão cegamente nas pessoas.

Cale a boca, era o que eu queria gritar. Mas sabia que estaria desperdiçando meu fôlego; aquilo não passava de um vídeo e a pessoa à qual me dirigia não poderia me ouvir. Ao invés, contentei-me em fechar ainda mais os punhos, sentindo a ardência de unhas contra a palma da mão. Mesmo sabendo que estava me machucando, eu não dava a mínima. O ódio que alimentava era tanto que podia sentir minha respiração descompassada e minha boca salivar com a promessa de colocar minhas mãos no garoto à quem a voz pertencia e fazer com ele coisas inimagináveis, deixando-o totalmente à mercê do demônio que habitava meu interior.

Você está com sorte, Suga. Eu desenvolvi uma afeição genuína pelo seu namoradinho, por isso não irei matá-lo. Mas as ordens de Yongguk-hyung foram bem claras: dê uma lição no maldito traficante. Então assim o fiz, mesmo que você não tenha sofrido a punição pessoalmente. O meu método é muito melhor, não acha? Pensei que infligir dor à alguém que você ama surtiria um efeito maior que o desejado. Está funcionando? Eu espero que sim. — as risadinhas que inundaram o áudio chegavam à me dar calafrios; o riso doce de uma criança travessa contrastava dramaticamente com o tópico perturbador que lhe causara graça. – Seria uma pena se Jiminie passasse por tudo isso à toa, como seu amigo. Como era mesmo o nome do pivete? Eu vivo me esquecendo. Você sabe, aquele que conseguiu manipular pra fazer o sacrifício pelo bem do time. Ou melhor dizendo, do casal. Tsc, tsc. — a voz fizera outra pausa, estalando a língua no céu da boca como se desaprovasse minhas ações. – Você realmente achou que poderia me enganar, Min Yoongi?

Com a simples menção de meu nome, eu fora reduzido à uma estátua aterrorizada e imóvel, incapaz de raciocinar apropriadamente em meio ao turbilhão de pensamentos histéricos que invadiam minha mente. Ele sabia meu nome. Como ele poderia saber disso? Pouquíssimas pessoas conheciam meu nome verdadeiro. Praticamente todos os integrantes de qualquer gangue – de Yongguk, de Zico e até mesmo de Rap Monster – me conheciam pelo pseudônimo Suga. A não ser que...

Não consegui concluir minha linha de raciocínio. Enquanto os outros estavam distraídos assistindo a gravação e eu encontrava-me perdido na minha própria mente, absorto demais com as inúmeras explicações plausíveis para aquele estranho saber meu nome, ninguém reparou nenhum movimento suspeito, nenhum vulto espreitando nas sombras, até que o portão do armazém fechou-se com um estrondo, aprisionando-nos ali. Nesse momento, o local transformou-se num verdadeiro pandemônio. Pelo menos vinte homens armados com bandanas vermelhas cobrindo metade do rosto irromperam de dentro dos contêineres, distribuindo tiros aleatoriamente na esperança de acertar pelo menos um de nós enquanto estávamos despreparados. Presos e sem a menor possibilidade de fuga, tínhamos poucas opções além de procurar cobertura e tentar não morrer.

Imediatamente encontrei abrigo atrás de um dos pesados maquinários, segurando-me à submetralhadora que tinha em mãos como se a arma pudesse garantir minha sobrevivência por si só. Em meio à confusão de tiros e gritos histéricos, eu havia perdido Namjoon e o resto do grupo, todos dispersando-se na tentativa de salvar o próprio rabo. Separar-se nunca era uma boa opção, pois ao quebrarmos a formação não tínhamos como retaliar de acordo com o plano estratégico que havíamos criado. Agora, era cada um por si. Havia força na união, mas isolados éramos presas fáceis para a gangue rival.

Com pulsos firmes e dedos ágeis, saí brevemente de trás da cobertura para distribuir tiros rápidos e consecutivos pela linha inimiga. Notei com certo orgulho que havia acertado dois deles, mesmo que não tivesse tempo de certificar-me se estavam mortos ou não; precisava me proteger, antes que me acertassem também. Pelo canto dos olhos, observei um novato que acabara de juntar-se à nossa gangue tentar copiar minhas ações. Antes que sequer tivesse a oportunidade de disparar a arma, um tiro acertou-lhe em cheio na cabeça, fazendo seu corpo cair inerte no chão. Ao fundo, eu podia ouvir os disparos estrondosos e certeiros do fuzil de Namjoon, seguido por gritos agonizantes e xingamentos profanos. Se algo como o inferno na terra existisse, esse certamente seria um deles.

A intensidade do confronto era tamanha que dava a falsa impressão que estávamos naquilo por horas, quando na verdade não passava de alguns minutos. Eu havia presenciado outros dois rapazes serem baleados e mortos na minha frente, um recebendo outro tiro certeiro na cabeça enquanto o segundo era cravejado de balas. Mas a gangue rival não estava muito atrás no quesito de homens perdidos; eu mesmo derrubara minha cota de mascarados, todos muito lentos ou desatentos pra evitar a morte certa. Depois de algum tempo, o barulho ensurdecedor de armas sendo disparadas e urros desesperados de moribundos que soava pelo armazém dera lugar à um estranho silêncio; haviam cadáveres por todos os lados, pintando o chão cimentado ao redor de seus corpos de vermelho, enquanto os poucos sobreviventes que restaram esperavam o melhor momento para o próximo ataque, uma vez que a paciência lhes garantira a sobrevivência em primeiro lugar. Nesse instante, ouvi algo que fez meu sangue congelar. O silêncio fora quebrado por uma voz masculina e estranhamente familiar – a voz que havia encontrado no vídeo.

— Suga~ – cantarolou. – Onde você está? Eu sei que está aqui, não adianta se esconder. Você quer sua vingança, não quer? O que acha de vir me encarar como um homem? – o desafio me atingira em cheio no orgulho. Era ele. Era o maldito que machucara meu Jimin. Aquele cuja vida eu pretendia tirar da pior maneira possível. E estava ali, desafiando-me à finalmente confrontá-lo.

Cuidadosamente, espiei por detrás do contêiner que agora usava como cobertura avistando um garoto desnecessariamente alto com cachos rosados no topo da cabeça e bandana vermelha cobrindo a metade inferior do rosto de pé atrás de um dos maquinários, com as mãos – ainda armadas – erguidas em rendição e aparentemente desprotegido. Apertei involuntariamente a submetralhadora nas mãos, louco pra encher sua fuça de bala, mas frustrado por não ter a mira desimpedida. Sem querer entregar minha posição e arriscar ser atingido, assisti imóvel o garoto abaixar a bandana até o pescoço, revelando seu rosto e consigo um meio sorriso confiante. Meus olhos arregalados piscavam incrédulos, e não pude segurar o arquejo que escapara de meus lábios. Aquele era ninguém menos do que Choi Junhong, conhecido entre as gangues como Zelo.

Junhong, para a grande maioria da população civil, era o órfão que perdera os pais num trágico incêndio e, sem nenhuma família viva, fora adotado pelo altruísta e multimilionário magnata Bang Yongho, pai de Bang Yongguk. Os filhos do magnata – tanto o biológico quanto o adotado – eram frequentemente vistos juntos em reuniões e bailes de caridade. Com a morte de Yongho, Yongguk assumira seu papel como dono da vasta rede de hotéis e cassinos que seu pai construíra, enquanto o jovem Junhong tornara-se uma espécie de protegido. Para grande parte de Seoul, o garoto era uma referência de elegância e bons modos, criado com a melhor educação que o dinheiro poderia comprar.

Entretanto, no underground Zelo era conhecido como o braço direito de Yongguk, acolhido sob as asas do irmão adotivo com a finalidade de ser preparado para comandar a gangue algum dia. A morte de seus pais biológicos deixara marcas profundas e irreversíveis em seu psicológico, tornando-o uma pessoa tão fria e indiferente perante ao sofrimento alheio que beirava a sociopatia. Foram poucas as vezes que tive contato com ele; em tempos de paz, entregava-lhe as mercadorias quando Youngjae não estava disponível para recebê-las. Nunca gostara do garoto, pois seus sorrisos tímidos e doces pareciam forçados aos meus olhos; agora que descobrira que ele era o responsável pelo que acontecera à Jimin, o que antes era uma pequena antipatia transformara-se num ódio puro e cego.

— Até quando você pretende me fazer esperar, Suga? Eu estou bem aqui na sua frente. Jiminie-hyung já teria feito alguma coisa. – caçoou. – Aquele lá tinha culhões, ao contrário de um certo alguém que prefere se esconder como um covarde. – aquela fora a gota d’água; as palavras de Zelo conseguiam atingir meus nervos de tal forma que eu podia sentir um formigamento estranho sob minha pele. Pus me pé num ímpeto, saindo de trás do contêiner que usava como abrigo a fim de tê-lo sob minha mira, ao passo que a fúria que sentia impedia-me de perceber que ficara completamente exposto à outras miras. Antes que eu pudesse sequer apertar o gatilho, um de seus subordinados disparara a arma na minha direção, obrigando-me a reagir rápido e rolar no chão atrás de uma nova cobertura. Acabei encontrando uma mesa de madeira que fora tombada na confusão com um dos pés quebrados e perdendo a arma no processo. Infelizmente eu não saíra ileso do meu pequeno ato de bravura: minha perna sangrava com o ferimento causado por uma bala que passara de raspão pela coxa.

Assim que encontrava-me protegido novamente, pude ouvir o disparo do fuzil de Namjoon direcionado à Zelo e o inferno estava de volta. Apoiei as costas contra o tampo da mesa, procurando recobrar a calma mesmo que meu rosto estivesse contorcido numa careta de dor permanente. Ainda que minha perna estivesse doendo como nunca, uma coisa era certa: eu não podia ficar desarmado. Novamente eu seria salvo pelo revólver que insistia em carregar comigo em qualquer situação; alcancei-o na parte de trás da calça, certificando-me de que estava carregado antes de espionar por cima da mesa o que estava acontecendo. Ambos os lados trocavam tiros como enlouquecidos, e vez ou outra uma bala acertava seu alvo. Corri os olhos pelo recinto atrás de um vislumbre de cabelos rosados quando avistei Zelo aproveitando a distração pra fugir. Entretanto, ao invés de dirigir-se ao portão do armazém, o garoto tomara o sentido contrário, desaparecendo por trás de um conjunto de contêineres no que parecia ser uma saída alternativa.

Não pensei duas vezes antes de disparar em seu encalço, ignorando a dor na perna e mal registrando os gritos de advertência que Namjoon me enviava. Contornei os contêineres para constatar que, de fato, existia uma segunda saída no armazém que levava pra uma espécie de beco mal iluminado que corria entre os prédios vizinhos. Zelo já tinha uma grande vantagem, correndo metros à minha frente, quase alcançando a rua. Apertando o passo, impossibilitado de correr propriamente com uma perna mancando, disparei o revólver em sua direção, errando a mira por uma grande margem e acertando uma caçamba de lixo que Zelo rapidamente usou como cobertura. Aproveitando a deixa, abriguei-me atrás de um aglomerado de barris metálicos um pouco mais adiante de minha posição, tentando controlar a respiração e os batimentos cardíacos.

— Você demorou muito pra me encontrar, Suga-hyung. Achei até que tinha desistido da sua vingança. – caçoou o mais novo, falando mais alto pra ser ouvido mesmo com a distância.

— Me desculpe pelo atraso, Zelo. Se eu soubesse que era você, teria vindo bem mais cedo. – rebati no mesmo tom zombeteiro, mesmo que estivesse com zero paciência pra piadas.

— Então eu estava certo. Jimin realmente não transmitiu o recado, mesmo depois de ter sido tão claro nas minhas instruções. Aquele hyung é tão previsível. – suspirou.

— Cale essa boca, moleque. Não fale do Jimin como se o conhecesse. – rosnei, detestando o sentimento que me invadia toda vez que o mais novo mencionava o dançarino. O nome de Jimin era muito puro pra estar nos lábios de alguém doentio como Zelo tão frequentemente.

— Ah, mas eu conheço. Nós fomos bons amigos por um tempo, não sabia? Tão próximos que Jimin-hyung não queria saber de outra pessoa além de mim. Esqueceu todos os amigos num piscar de olhos. – Zelo lembrou, rindo. – Ouso dizer que ele nem mesmo se lembrava de você; seu nome não surgiu na conversa em momento algum. Talvez teria sido melhor se, ao invés de espancá-lo, eu tivesse o conquistado e roubado de você. Eu notei que seus lábios pareciam muito macios. Fico imaginando qual seria a sensação de tê-los contra os meus...

Já chega, minha mente gritava. Eu já estava farto de Zelo e suas tentativas triviais de irritar-me – o que eu detestava admitir que estavam funcionando. Agi por impulso quando, pela segunda vez, deixei que minhas emoções tomassem conta de minhas ações e saí de trás dos barris, mirando a arma na direção genérica que eu sabia que Zelo estaria. O que eu não esperava era encontrar Zelo aguardando este momento com a arma apontada pra mim e um sorriso vitorioso no rosto. Ouço um disparo e sinto uma dor tão aguda no ombro que deixo cair a arma. Soltando um urro de dor, tento segurar a ferida a fim de parar o sangramento quando um segundo tiro me acerta em cheio no peito, fazendo-me desabar de costas no pavimento frio. Pude ouvir Zelo se aproximar com passos seguros e relaxados, mas não tinha forças pra fazer nada senão encarar sem realmente ver o céu escuro sobre minha cabeça. Dentro de instantes o rosto de Zelo preenchia meu campo de visão enquanto pressionava o ferimento que acabara de infligir com o pé, arrancando de mim outro berro doloroso. Quanto mais ele pressionava, mas difícil era respirar. Agarrei sua bota na tentativa de tirá-la de cima de mim, porém eu estava muito debilitado pra obter qualquer sucesso.

— Olhe só pra você. Tão fácil de manipular. – eu podia ver os lábios de Zelo movendo-se ao redor das palavras, mas por alguma razão elas soavam distantes e abafadas, como se eu estivesse com a cabeça submersa em água, afogando-me. Era ainda mais difícil me concentrar no seu significado com a dor lacerante que sentia no peito sob o peso do seu corpo. – Além de não conseguir proteger aqueles que ama, ainda é estúpido o bastante pra se deixar levar por provocações baratas. Agora vai morrer nesse beco escuro e imundo, como o verme que é. Patético.

Suas últimas palavras foram proferidas em tom de repulsa, sua voz repleta de veneno. Sentindo-se poderoso, Zelo chutou-me na lateral do tronco com o pé que antes usava para pisar em meu peito, arrancando todo o ar de meus pulmões e um perturbador som borbulhante e engasgado de meus lábios. Neste momento, eu percebi que realmente estava me afogando – no meu próprio sangue.

Tentando manter a calma para não engasgar e piorar a situação, distraidamente notei que o constante ruído de disparos vindos do armazém havia cessado; aparentemente Zelo notara a mesma coisa, pois seus olhos voltaram-se brevemente na direção da chacina antes de retornar para os meus, com um sorriso enervante puxando os lábios. – Sabe, eu poderia acabar com seu sofrimento agora mesmo, mas acho que prefiro deixá-lo sangrar até morrer onde ninguém pode te achar. Nada mais digno de um cão sarnento e raivoso como você. Espero te ver no inferno, Suga-hyung.

Com a visão novamente desimpedida, concentrei-me nos passos apressados de Zelo afastando-se até desaparecer por completo enquanto observava o céu noturno e indagava-me curiosamente como o mesmo estaria em Busan. Provavelmente estrelado, diferente deste céu poluído que Seoul possuía. Por mais que eu apertasse os olhos e procurasse, não podia ver uma única estrela, um único ponto brilhante pra apaziguar meu espírito perturbado em seu leito de morte. Pouco a pouco minha visão começara a escurecer e respirar mostrava-se uma tarefa cada vez mais difícil – a cada inspiração minha garganta provocava um som molhado que simplesmente não era natural. Eu sabia que era importante manter-me acordado, mas meus olhos estavam pesados de sono. Podia ouvir gritos ao fundo, mas o som estava tão distante e difuso que não parecia pertencer à este mundo. Cansado de tentar lutar contra o inevitável, deixei que minhas pálpebras se fechassem e me entreguei completamente aos braços da inconsciência. Tudo que precisava era dormir um pouco.

“Suga! Não, não, não. Abre os olhos, cara. Por favor, fica comigo. Porra! Não, não, não dorme. Não dorme, Yoongi!”