Hold me Tight

26 Olá, estranho


Notas iniciais
Perdoem meu sumiço. Juro que voltarei à programação normal agora. ;n;

— Jimin POV -

— E então eu soquei a cara dele. – concluí.

— Você fez o quê? – Taehyung exclamou, quase engasgando com a própria saliva. Seus dedos interromperam os afagos nos meus cabelos enquanto ele me encarava de olhos arregalados, incrédulo.

Havíamos aproveitado o restante da hora do almoço pra colocar os assuntos em dia, uma vez que Taehyung me fizera prometer que nunca mais esconderia as coisas dele. No momento Tae estava sentado com as costas apoiadas no tronco de uma árvore antiga e imponente, que lançava sobre nós a sombra de sua copa vasta e folhada. Eu me encontrava deitado sobre o gramado, com a cabeça apoiada na sua coxa esquerda enquanto recebia cafuné e narrava detalhadamente os acontecimentos da tarde anterior. Descansar ao ar livre havia sido uma boa ideia; assim poderíamos desfrutar do sol e do calor que o início do verão trazia consigo.

— Eu dei um belo de um soco na cara dele, bem no meio da fuça. – imitei o golpe no ar, visualizando o rosto de Yoongi na minha frente. – Foi tão libertador.

— Mas... eu pensei que você gostava dele. – comentou, trazendo um leve rubor às minhas bochechas.

— Eu gosto. Mas o que ele fez foi errado. – afirmei, franzindo o cenho de raiva só de lembrar tudo que eu e Kookie passamos por causa daquele branquelo. – Quem ele pensa que é? Ele deve se achar muito especial se pensa que pode me beijar e sumir sem dar explicações, depois envolver o Jungkook, que não passa de uma criança, numa rixa ridícula entre gangues, e ainda sair ileso disso tudo. Sinceramente, será que ele pensa que eu sou idiota? E ainda tem a audácia de falar na minha cara que não se arrepende de nada, e que ainda faria de novo se fosse pela minha proteção. É isso que ele chama de proteção? Machucar meus amigos é uma forma de me proteger? Onde? Só se for naquela cabeça doentia dele, né?

— Jiminie, respira. – Taehyung pediu, notando que meu rosto tomara um forte tom de vermelho, e não era de vergonha. – Você tá hiperventilando.

— Desculpa, Tae. – pedi, respirando fundo algumas vezes pra me acalmar. – É que toda vez que eu penso nisso, sinto uma vontade louca de socar ele de novo.

— Você só precisa se distrair, esquecer ele um pouco. – falou ao retomar o carinho nos meus cabelos, me fazendo fechar os olhos e ronronar como um gatinho. – E eu conheço o jeito perfeito pra isso. – acrescentou, seu sorriso quadrado apresentando um brilho de travessura.

— Que ideia maluca você arquitetou ai nessa cabecinha dessa vez, Tae-Tae? – perguntei com um pouco de relutância, pois conhecia bem esse olhar.

— Sabe, Jiminie, é que no sábado haverá a inauguração de uma boate nova em Gangnam, e eu gostaria muito que você fosse comigo. – pediu, piscando os olhos grandes e formando um bico nos lábios, sua forma mais injustamente fofa de aegyo. De repente minha memória levou-me para alguns meses atrás, assim que acabara de conhecê-lo, e ele conseguira me convencer à ir numa festa consigo. Taehyung me abandonara assim que colocamos os pés na boate, sua natureza extremamente social obrigando-o a ir cumprimentar e conversar com todas as pessoas do recinto, menos comigo. Aquela fora uma noite extremamente longa e tediosa, e desde então eu prometera que nunca mais o acompanharia em nenhuma festa.

— Você não trabalha no sábado? – perguntei, tentando desviar do assunto e quem sabe me livrar do problema.

— Nah, eu consegui alguém pra cobrir meu turno. – disse ele, desconsiderando minhas preocupações. – Então, Jiminie? Vamos? Hein, diz que sim. Vamos, por favor! – choramingou com a voz mais manhosa que possuía. Sério, de onde esse garoto tirava tanta fofura?

— Tae... – suspirei, sem vontade de aceitar mas ao mesmo tempo sem coragem de dizer não. – Eu preciso mesmo ir?

— Você está me devendo uma, lembra? – disse, erguendo uma sobrancelha quando eu o olhei sem entender. – Por ter escondido coisas de mim.

— Aish, você vai jogar isso na minha cara por quanto tempo? – resmunguei, levando a mão ao bolso traseiro da calça quando recebi a notificação de uma nova mensagem. Apenas quando vi o sorriso de Hoseok numa selca que ele havia mandado juntamente com o texto que dizia “sinto sua falta”, foi que uma ideia clicou na minha mente. – Tae-Tae... eu posso levar um amigo?

— É aquele seu amigo bonito? – perguntou cheio de curiosidade, inclinando-se pra olhar a tela do meu celular. Travei o aparelho mais do que depressa, sentindo minhas bochechas ficarem quentes. Taehyung apenas me lançou um sorriso sacana e um arquear de sobrancelhas, o que me fez corar ainda mais. – Claro, Jiminie. Você pode levar quantos amigos quiser. – disse num tom sugestivo e provocante, antes de notar as horas no próprio celular, que o fez suspirar e fazer menção de sair. – Agora levanta, eu preciso ir no prédio de Direito antes da minha próxima aula. Prometi ao Kookie que pegaria o conteúdo das aulas que ele tá perdendo com seus colegas.

— Você conhece os calouros de Direito? – indaguei enquanto me colocava numa posição sentada e o observava ficar de pé e ajustar a mochila no ombro, batendo a parte de trás da calça numa tentativa fútil de se livrar de qualquer sujeira que tenha se instalado ali.

— Jiminie, querido. – chamou, lançando-me um meio sorriso por cima do ombro, estalando a língua como se não pudesse acreditar na minha inocência. – Por acaso há alguém nessa universidade que eu não conheça?

— Tem razão. – admiti estupefato, arrancando uma risada do outro enquanto ele se afastava com um aceno de despedida. Agora era hora de botar meu plano em ação. Levantando-me e fazendo caminho até a sala de aula, vasculhei os contatos do celular até encontrar o número que eu precisava.

Chim-Chim!— a voz alegre e estridente de Hoseok me cumprimentou do outro lado da linha, após dois míseros toques. Me esforcei muito pra controlar uma risada, pois agora eu precisava utilizar o melhor aegyo que eu tinha.

— Olá, Seokie-hyung~! – cantarolei, atraindo a atenção de alguns estudantes que passavam por mim e me olhavam torto. Me xinguei internamente por recorrer à golpes tão baixos e ainda por cima falhar miseravelmente. A linha ficara silenciosa por alguns instantes, antes da risada escandalosa do mais velho ecoar nos meus ouvidos.

Seokie? Que bicho te mordeu, Jimin?— perguntou ele com divertimento na voz.

— Olha, eu sei que meu aegyo é péssimo. Não precisa jogar na cara. – retruquei, largando a atuação de lado, enquanto um bico se formava nos meus lábios.

Eu nunca disse isso, Jiminie.— tentou me assegurar, mas eu podia ouvir as risadas que ele tentava reprimir do outro lado. – Porém tenho que admitir que você conseguiu fisgar minha curiosidade. O que você quer?

— Quem disse que eu quero alguma coisa? – tentei desconversar, fingindo estar ofendido com a suposição.

Por favor, Jimin. Por que outro motivo você usaria aegyo comigo? Você só pode querer alguma coisa. Vamos lá, desembucha.

— Eu quero que você vá comigo numa boate sábado à noite. – respondi na mesma velocidade que alguns rappers cuspiam suas letras. Eminem ficaria orgulhoso.

Que? Fala mais devagar, Jiminie. Não consegui te entender.— pediu e, suspirando, repeti minha fala; aproveitei também pra explicar melhor a situação e evitar algum mal-entendido, contando como eu devia algo à Taehyung, mas ele era uma péssima companhia, por isso minha necessidade de levar alguém comigo. Terminei meu relato um pouco apreensivo pela falta de reação do outro lado da linha. – Isso significa o que eu penso que significa?

— Se você está se referindo ao encontro que eu te prometi... então sim. Pensei que poderia matar dois coelhos com uma cajadada só. – respondi sinceramente, encolhendo os ombros.

Escuta, Jimin. Estou muito chateado de saber que você considera nosso encontro como um coelho que precisa ser morto com uma paulada na cabeça.— Hoseok começou com o tom sério, e por um instante temi ser rejeitado. Droga, Jimin. Você tem que estragar tudo. – Mas como você é uma graça, eu te perdoo. Que horas passo na sua casa?

— Às oito tá ótimo. – respondi, sem conseguir esconder o sorriso. – Muito obrigado, hyung. Você é o melhor.

Eu sei, Chim-Chim, eu sei. Mas não me agradeça ainda. Você tá me devendo uma.— despediu-se com o som de um beijo estalado, desligando o telefone antes que eu pudesse contestar. Encolhi os ombros, aceitando meu destino. De qualquer forma, minha dívida com Hoseok não poderia ser assim tão ruim. Certo?

Às oito horas em ponto de sábado, pude ouvir o tocar da campainha ecoando no apartamento. Estava terminando de maquiar os olhos quando ouvi Jungkook grunhir e arrastar os pés para atender a porta, murmurando algo pra Hoseok que eu não consegui entender. Chequei minha aparência no espelho e corei levemente diante do meu reflexo, sentindo-me extremamente autoconsciente. Eu vestia as roupas que o próprio Taehyung escolhera dentre as inúmeras opções presentes no meu armário, todas mais comportadas do que a atual: uma calça preta cheia de rasgos na altura das coxas que mostrava mais pele do que qualquer shorts e uma regata preta com detalhes dourados cujas aberturas pros braços eram tão grandes e reveladoras que mostravam minhas costelas. Meu cabelo estava estilizado pra cima com gel – já que Tae insistia que eu parecia mais másculo com a testa à mostra – e eu até mesmo escolhera usar lentes de contato em detrimento dos óculos quadrados. Respirando fundo para conter a vergonha e a vontade absurda de colocar uma jaqueta sobre o corpo, saí do quarto para encontrar Taehyung já pronto na sala; vestia calça jeans com uma lavagem desbotada, camiseta estampada com recortes de jornais e revistas e uma jaqueta de couro por cima. Seus cabelos tingidos estavam cuidadosamente penteados e partidos pro lado, e seu ar de badboy só aumentara com a intensidade de seus olhos bem maquiados – será que aquilo era sombra?

— Oh, finalmente. – ouvi Taehyung resmungar assim que entrei no seu campo de visão. – Última chance, Kookie. Não quer vir com a gente? – perguntou ao maknae, que agora estava imerso nos vários livros e cadernos dispostos sobre a mesa de jantar. Seus ferimentos estavam cicatrizando-se rapidamente, mas seu queixo apresentava um tom esverdeado e ele ainda mancava levemente ao andar. Deixá-lo sozinho num sábado à noite era algo que me apertava o coração, não que Taehyung me deixasse alguma escolha.

— Não. Eu preciso estudar. – respondeu num tom contido, beirando o frustrado. Não consegui deixar de sentir pena diante de uma visão tão miserável.

— Tem certeza? – indaguei.

— Absoluta. Agora vão embora, vocês estão me atrapalhado. – bufou, fazendo uma careta para o livro, suas sobrancelhas franzidas em concentração. Lançando um último olhar em sua direção, despedi-me dele enquanto calçava os sapatos e seguia Taehyung e Hoseok pra fora do apartamento. O ambiente dentro do elevador estava um pouco tenso, por isso resolvi ser o primeiro a quebrar o gelo.

— Esse é Taehyung, e esse é Hoseok. – disse, tentando apresentar os dois ao mesmo tempo. Claro, ambos já sabiam o nome um do outro, mas achei que apresentá-los formalmente era a coisa certa a se fazer. Assisti cada um fazer sua versão de uma reverência respeitosa, e tive que me controlar pra não cair na gargalhada. Hoseok e Taehyung eram as pessoas mais sociáveis e divertidas que eu conhecia, mas aqui estavam eles, sendo esquisitos e vergonhosos.

Quando as portas do elevador abriram-se para o térreo, pude ouvir Hoseok soltar o ar que prendera durante o percurso, o que só tornava toda a situação mais hilária. A viagem até a boate fora um pouco menos embaraçosa, já que ele agora se esforçava para puxar assunto, inclusive com Taehyung. Mas, assim que passamos pela entrada guardada por dois seguranças que mais pareciam armários – furando toda a fila que chegava a dobrar a esquina, graças à Tae e seu acesso VIP – e a batida alta de EDM invadiu meus ouvidos e reverberou em meu peito, Taehyung se afastou com a desculpa de ver alguém, o que apenas comprovou o fato dele ser um péssimo amigo e companhia.

— É, você não estava brincando. – riu Hoseok quando eu lhe lancei um olhar incrédulo. Olhei ao meu redor, ficando um pouco intimidado com a quantidade de pessoas bonitas que zanzavam pelo local, algumas empoleiradas nos bancos ao redor do bar, outras se acabando na pista de dança. Todo o ambiente era muito chique e de bom gosto, dava pra ver que era direcionado à mais alta classe de Seoul. Sentindo meu desconforto, Hoseok me puxou pela mão até que encontramos uma cabine vazia no canto mais recluso da boate, onde alguns casais e grupos de amigos sentavam-se para comer, beber e jogar conversa fora.

Sentamo-nos numa das mesas menores, cujas poltronas faziam fronteira com as poltronas das mesas vizinhas. Hoseok sentou-se de frente pra mim, e assim que fomos atendidos pelo garçom, pediu duas bebidas de nome difícil que eu não reconhecia. Quando, momentos depois, fui agraciado com um drink colorido disposto numa taça alta e elegante, com direto a enfeites e tudo, arregalei os olhos para o ruivo que sorria abertamente à minha frente.

— Hyung, o que você estava pensando? Essa bebida deve custar uma fortuna. – tive que elevar o tom de voz para ser escutado sobre a música, mas não era como se eu já não quisesse gritar em desespero. Eu definitivamente não tinha dinheiro pra gastar com bebidas extravagantes numa boate de gente rica.

— Chim-Chim, não se preocupe com isso. Hyung vai pagar por tudo. – disse enquanto desconsiderava meu pequeno surto, tomando um gole de sua própria bebida extravagante no canudinho preto que apontava pra fora do copo alto.

— Nem pensar. De novo não. – reclamei, recordando-me da última vez que saíra com ele.

— Jimin, para de ser estraga prazeres. Num encontro, é sempre o homem quem deve pagar. – anunciou, estufando o peito como se fosse o macho alfa do recinto.

— Você por acaso tá me chamando de mulher? – retruquei, desafiando-o a responder com o olhar.

— Claro que não. Só estou me auto proclamando o ativo da relação. – respondeu com o sorriso mais reluzente que eu já vira. Maldito Hoseok, a cara nem queimava.

— Eu te odeio, sabia? E pra sua informação, nós não temos nenhuma relação.

— Claro, claro. Continue enganando à si mesmo. O que te fizer dormir melhor à noite. – brincou, piscando um olho na minha direção ao passo que minha carranca apenas se intensificava. Em seguida, indicou a taça diante de mim com um aceno de cabeça. – Agora bebe, enquanto ainda está gelado.

Ainda com raiva e um pouco à contragosto, levei a taça aos meus lábios, provando a bebida desconhecida com um pouco de relutância. Fiquei surpreso com o gosto doce e levemente cítrico de frutas tropicais, que conseguia camuflar muito bem – se não completamente – o gosto de álcool. Naquele momento eu descobri que drinks extravagantes em boates chiques eram meu tipo de bebida favorito, pra infortúnio dos meus bolsos – ou, nesse caso, dos de Hoseok. Uma taça de repente viraram três, e a leve tontura que eu sentia me dizia que aqueles drinks eram mais fortes do que pareciam ser.

— Eu nunca imaginei que você fosse o tipo de frequentar boates, Chim-Chim. – Hoseok comentou depois de algum tempo, descansando o cotovelo sobre a mesa e o rosto sobre a palma aberta.

— Não sou. Tae-Tae me obrigou a vir. – encolhi os ombros, bebericando o drink como se ele fosse precioso e devesse ser saboreado. – De onde você tirou esse apelido, aliás? – acrescentei, recordando-me de dúvidas antigas.

— Não sei, só acho que combina com você. – foi a vez dele de encolher os ombros. – Me diga, Chim-Chim. Como estão as coisas com Yoongi? – perguntou casualmente, enquanto comia a carambola que adornava seu segundo copo. Apenas a menção daquele nome trazia uma carranca ao meu rosto. Bufei de irritação, esvaziando o resto do copo com apenas um gole.

— Não me lembre dele. Eu ainda quero socar aquela cara branca. – bufei, fazendo o ruivo irromper-se em gargalhadas. Encarei-o com sangue nos olhos. – Que foi?

— Você é muito fofo, Jiminie. – sorriu, esticando o braço livre pra deslizar o dedão sobre a ruga que se formara entre minhas sobrancelhas, obtendo sucesso em tirá-la dali. – Ainda não se acertaram depois do beijo no clube de rap?

— O q-quê?! – gaguejei, quase engasgando com a minha própria saliva. Eu não precisava de um espelho pra saber que minhas bochechas estavam tão vermelhas que podiam ser notadas mesmo na luz baixa da boate. – Co-como você s-sabe disso?

— Bem, naquela noite Yoongi parecia um bicho quando te arrancou de perto de mim, e minutos mais tarde você volta corado como um tomate e um pouco embasbacado, sem Yoongi e querendo voltar pra casa imediatamente. Eu não sou idiota, só precisei juntar as peças. Além do mais, eu notei como você o devorava com os olhos em cima do palco. – seu sorriso ficou um pouco mais largo, um pouco mais travesso. Tive vontade de morrer ali mesmo. – É mais do que óbvio que vocês gostam um do outro.

— Aish, cala a boca. Você não tá me ajudando. – choraminguei, escondendo o rosto quente de vergonha nas palmas das mãos. Ouvi Hoseok soltar mais uma gargalhada antes de tentar remover minhas mãos do caminho.

— Vem, Jiminie. Eu tenho o remédio perfeito pra você esquecer aquele branquelo idiota. – chamou, levantando-se da mesa e me puxando pela mão novamente. – Vamos dançar.

Sem forças para impedi-lo, deixei que Hoseok me conduzisse até a pista de dança, no exato momento que outra música elétrica e dançante começava a tocar. Eu descobrira que em momentos como esse, Hoseok não gostava de exibir todo o seu infindável talento na dança, preferindo apenas pular e se mexer como os outros mortais na boate. Dentro de instantes me vi dançando com ele, talvez pelo fato de sua presença me passar uma estranha sensação de conforto, talvez pelo fato do meu julgamento já estar completamente deturpado pela grande quantidade de bebida alcoólica que eu ingeri agora há pouco. De qualquer forma, eu não me importava. Deixar-se levar pela música e pela massa de corpos ao redor era incrivelmente libertador. Dancei tanto que as músicas já começavam a embolar-se umas nas outras, e de repente, numa música um pouco mais sensual, me peguei esfregando meu corpo de encontro ao de Hoseok. Eu levara minha mão até seu pescoço, acariciando os fios curtos e vermelhos de sua nuca, enquanto a dele segurava-se firmemente em minha cintura, colando nossos corpos juntos. Trouxe sua testa para junto da minha enquanto eu rebolava os quadris contra sua coxa, que de alguma forma enfiara-se entre minhas pernas. Toda a cena era extremamente obscena e sexual, mas as pessoas ao redor não pareciam se importar, mesmo se tratando de dois rapazes. Nem mesmo eu estava me importando à essa altura, tamanha minha embriaguez de álcool e calor humano. Bem, pelo menos até Hoseok começar a se inclinar na minha direção, seus lábios apenas centímetros distantes dos meus. Então algo pareceu clicar no fundo de minha mente. Mais como um flash, pra ser exato. O rosto de Yoongi.

No último momento, reuni forças pra desviar o rosto para o lado, fazendo com que os lábios de Hoseok se chocassem contra a minha bochecha. Quando me afastei, pude ver um sorriso sem dentes adornando sua boca. Ele sorria, mas seus olhos denunciavam a decepção que sentia no momento. Vagarosamente, coloquei um pouco mais de espaço entre nós, deixando meus braços caírem ao lado de meu corpo e encontrando um ponto incrivelmente interessante no chão pra encarar. Murmurando algumas desculpas e até mesmo fazendo pequenas reverências embaraçosas, praticamente sai correndo da pista de dança, esbarrando em alguns corpos no caminho para a saída. Quando cheguei do lado de fora e finalmente pude respirar o ar puro da noite, notei que a fila já havia acabado e a calçada estava deserta, exceto por uma figura sentada no meio-fio. Era um garoto jovem, talvez alguns anos mais novo que eu, com pequenos cachos na cor rosa claro adornando sua cabeça. Mesmo sentado, eu podia notar que era um garoto alto, e seu rosto sereno parecia contemplar alguma coisa, admirando as muitas luzes da noite de Gangnam. Ele emitia a aura de um cachorrinho perdido, e talvez fosse por isso que eu decidi me sentar ao seu lado.

— O que faz aqui sozinho? – perguntei, sobressaltando o outro. Quando este virou o rosto pra me encarar, pude notar que ele possuía uma beleza diferente dos demais. Olhos grandes, maçãs do rosto proeminentes, queixo largo e um sorriso tímido nos lábios.

— Não gosto muito de boates. – admitiu, e notei que sua voz era encantadoramente suave e quieta. – E você?

— Estava ficando um pouco quente demais pra mim lá dentro. – confidenciei enquanto encolhia os ombros de uma forma que eu esperava não dedurar meu desconforto. O garoto concordou com a cabeça antes de me encarar por alguns segundos. Eu já estava ficando nervoso com a intensidade de seu olhar, assustado porém impressionado por não vê-lo piscar em nenhum momento, quando sua voz calma quebrou o silêncio novamente.

— Como você se chama?

— Park Jimin. – respondi com um sorriso, feliz pela conversa tomar um novo rumo. – E você?

O garoto levantou-se, sua altura excedendo minhas expectativas, ao mesmo tempo que estendia a mão para me ajudar a levantar. – Pode me chamar de Zelo.