Hold On
1 No one above you.
Notas iniciais
O gemido gutural atravessava sua garganta como uma navalha, como se puxasse o corpo suado da superfície da cama e o colocasse sentado, a energia das estocadas entrando e saindo do corpo dela o impulsionando ainda mais para frente, para cima, para perto, quase sem se segurar, quase avançando em cima da mulher que subia e descia com maestria. Ele segurava com força seus cabelos e sua nuca, sua outra mão apertando e marcando as coxas roliças, as cadeiras largas e a cintura emoldurada. Seus olhos violeta penetrando os verdes dela sem desviar, com lascívia e um certo desespero; o Santo adorava vê-la corar daquele jeito, no esforço do ato. Beijando seu pescoço, sua clavícula, puxando seu corpo sentado sobre o seu para mais perto e cadenciando os próprios quadris ele a sentiu chegar ao ápice, vendo seu corpo estremecer procurou a boca cálida de imediato. A gratificação que aquilo lhe proporcionou mais os movimentos contínuos logo o levaram ao ápice também, projetando-se dentro da cavidade quente e macia dela.
Manigold abraçava o corpo dela tentando ajustar a própria respiração, tarefa que parecia impossível quando tudo em que ele conseguia pensar era no quanto seu perfume o embriagava e em como suas línguas se entrelaçando o faziam pedir por mais. Mas Dalilah já se adiantava separando o beijo com pequenas mordidas em seu lábio inferior, aproveitando a frouxidão dos braços dele para tira-lo de dentro de si:
—Já faz tanto tempo assim? – Ela perguntou levando o corpo nu do leito até a banheira no outro cômodo, sentiu o corpo relaxar na agua ainda quente. Manigold revirou os olhos, a pele sedosa dela lhe atribuía o privilégio de ser perigosamente esquiva e a voz doce quase o fazia esquecer disso. Ele se sentou na cama observando a mulher se sentar na banheira.- Você tem até hematomas novos, Manigold.- Dalilah disse apontando com as unhas longas nas mãos pequenas para o peito do Santo que a observava com o queixo apoiado no punho, desenhando aquele sorriso de canto no rosto masculino.
—Não, não faz tanto tempo assim. – Ele a olhava ali, nua, rodeada de vapor. Não era muito esguia, mas a baixa estatura era compensada em corpo, era uma mulher farta de tudo e se um corpo de violão é desejado, o dela era um violoncelo. Mas nem era preciso estar de pé para ser conquistado, já que o sorriso branco, decorado por covinhas e de lábios carnudos quase sempre vermelhos, era conquistador. Ele sorriu mais uma vez para ela. Um sorriso sacana.- Eu senti saudade.
—Sentiu nada. – Ela riu dele, acariciando o próprio ombro de pele negra, olhando com aqueles olhos verdes e dissimulados. Ela sentia saudades também. O tempo todo. Arqueou as sobrancelhas ruivas e mordeu o lábio inferior, como se o chamasse. Era só sorrisos perto daquele homem.
—Ah, não faça assim. É verdade! – Manigold entrava na banheira quente enquanto tomava-a em seus braços fortes, abraçando sua cintura; beijando as bochechas proeminentes com repetidos selinhos. – Se bem que você sente mais saudades do meu... –Quem diria que o degenerado Cavaleiro de Câncer pudesse ser tão carinhoso? Ela o censurou levemente com o olhar, antecipando o que quer que fosse ser dito. Ele apoiou o queixo em seu ombro enquanto alisava as coxas grossas e o pomo dela, divertido.
—O que eu posso fazer? – Dalilah suspirou longamente enquanto prendia as longas madeixas cacheadas em um coque ruivo, o coração batendo mais rápido por causa dele. Sorriu como o composto melânico de cinismo e graça que era, voltando-se para beijar as madeixas azuis que lhe pediam carinho — Eu sou uma profissional, e você sempre volta.
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Quando era mais novo Manigold saía louco por intriga, explorando todos os cantos do Santuário, e Sage já não sabia o que fazer para detê-lo. Não havia uma pessoa sequer com quem ele não houvesse brigado, fosse para o bem ou para o mal. E nesse caos também não houve uma menina que não fosse assediada pelo inconsequente discípulo, fossem elas aldeãs, servas, sacerdotisas, amazonas ou aspirantes; casos que acabavam rapidamente com a fúria feminina ou nem começavam, e isso todos sabiam. Até mesmo Dalilah, a misteriosa menina que foi parar na cozinha dos aposentos pessoais do Grande Mestre.
Na primeira vez em que a viu Manigold ficou extasiado, pois os cabelos ruivos, curtos na época, contrastavam com a pele negra de um modo inumanamente perfeito. Sempre atrás de confusão, nas horas vagas o garoto adorava perturbar a harmonia dos afazeres da governanta Ava, que era a mãe que Sage lhe dera. Em uma dessas excursões ele a viu, ela já era a melhor cozinheira dali pelo que a velha Ava havia lhe dito, não existia um só ser que tinha a ousadia de não gostar dos seus preparos, em compensação era sempre calada quanto a si mesma e ninguém sabia de onde teria surgido tamanha beldade culinária. E o Manigold tão travesso de sempre se viu enrubescido. Primeiramente, por sua beleza deveras peculiar. Em segundo lugar, por um incomodo que ele não sabia definir ao certo o que era, mas com certeza o deixava inquieto.
Logo Dalilah cozinhava só para ele. E Manigold ia como um ritual, todos os dias depois dos treinamentos, tarde da noite, para a cozinha do Templo, só para receber os sorrisos da menina. As refeições dela alimentavam seu corpo e sua alma, como se o transportasse novamente para o pequeno vilarejo em que vivia antigamente; ele imaginou que ela fosse de algum lugar perto de sua terra natal já que sua comida era muito diferente daquela servida no Santuário, era uma comida que o lembrava de casa.
Foi nessa época que seus pesadelos diminuíram também, já não sonhava mais tanto com os mortos, e permaneceu por muito tempo sem acordar desesperado no meio da noite. Seu mestre atribuía aqueles avanços ao árduo treinamento, que não deixa de ter seus méritos, mas Ava sabia bem qual era o verdadeiro motivo daquela mudança. Eles brigavam tanto, mas nunca brigaram seriamente, a verdade era que quanto mais ele instigava a ira dela, mais ela o conduzia à aproximação: Ela o acertava de alguma forma e ele frequentemente pedia desculpas pelas provocações. Ficava sempre tudo bem.
Ele nunca disse nada sobre seus sentimentos, nem ela; mas a verdade é que nada precisava ser dito. Eram muito mais do que amigos, mesmo que não tivessem chegado a ser verdadeiramente amantes. Ele prometia sempre, especialmente nas situações mais bobas, que a protegeria a qualquer custo, garantindo que o Deus da Morte jamais a alcance enquanto ele estivesse ali para chutar a bunda dele. Ela sempre ria, é claro. Muito mais pelo modo como ele falava do que pela impossibilidade de levar as palavras do jovem a sério.
Manigold sempre a sentiu mais distante do que gostaria, como se nunca pudesse conhecê-la por completo; para pôr fim a esse incomodo ele sempre tentava aplacar essa distância entre os dois, foi assim que, mesmo não conseguindo decifrar todos os seus mistérios ele a conheceu mais do que a qualquer outra pessoa e ela o conheceu mais que qualquer outra pessoa o conheceria.
Depois de comer eles sempre saíam correndo por aí, brincando e se aventurando pelo por todo canto que pudessem, rindo alto e gritando; incomodando todo mundo. Os anos se passaram e os dois cresciam cada vez mais próximos, até mesmo outros aspirantes e cavaleiros estreitaram seus laços de amizade graças à simpática ruiva, Albafica por exemplo, passava menos tempo isolado no templo de Peixes (isso graças também à impetuosidade do espirito brincalhão do canceriano). Então, por pequenos instantes ele esquecia toda guerra, toda morte, toda pressão e sentia que tudo iria durar para sempre. A mesma sensação de explosão do universo latente em seu corpo que sentia ao elevar o cosmo, ele sentia quando seus olhos encontravam os dela. Até ganhar a armadura de Câncer.
Naquele dia ele estava mais do que radiante, ostentando um orgulho de si mesmo que apenas um Santo de Ouro entenderia. Mas ela não foi vê-lo receber a armadura de ouro. Nem foi parabeniza-lo pela noite. Naquele momento uma Estrela Maligna brilhava muito forte. Manigold foi em busca dela por todos os arredores nos dias que se seguiram, mas Dalilah havia simplesmente desaparecido e tudo em que ele conseguia pensar era no porquê de aquilo estar acontecendo. Quando Sage o encontrou, na semana seguinte, em uma poça de vinho barato num bordel qualquer quase o destituiu da posição de Santo de Atena por abandonar seu posto tão prontamente. Mas o canceriano tinha um coração caótico e precisou de um longo período de silencio para enterrar todas as lembranças e todos os sentimentos que havia experimentado nos últimos anos. Um silencio que foi muito estranhado por todos no Santuário, sem exceção.
Nos sonhos dele eles ainda corriam e gritavam.
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A verdade é que Dalilah nunca foi uma garota comum e a recusa dela em falar sobre o seu passado só confirmava isso. Ela conseguia ver as almas que um humano comum não conseguiria, e tinha um domínio incomum sobre o próprio cosmo, daí o primeiro estranhamento que era sentido pela sua aproximação. Seu passado com certeza era uma incógnita para todos no Santuário, e naquela noite, por mais que o coração pedisse que ela ficasse, por mais doloroso que fosse abandonar aquelas pessoas que lhe eram tão queridas, era seu dever para não as ferir ir embora. A Guerra Santa se aproximava cada vez mais rápido e ela precisava manter-se longe daquele caos.
Foi quando Manigold voltava de sua missão em Veneza que, juntamente com Albafica, quase no final da cidade dos canais, ele a viu. A armadura de Câncer não parava de ressonar desde que se despediram de Giocca e quando seu olhar inspecionou a multidão lá estava ela. A pele cor de caramelo e o sorriso cheio de dentes que ele jamais esqueceria, Manigold sentiu seus sentidos lhe abandonarem. Era como se fosse uma miragem, um sonho, como se ela nunca tivesse deixado tudo para trás naquele dia, como se fosse a primeira vez que ele a visse naquela cozinha. Nem mesmo Albafica entendeu quando ele saiu correndo pelas vielas se embrenhando entre a gente estranha do local, até perceber de quem se tratava.
E quando ele a alcançou, segurou com tanta força seu pulso fino que ela acabou deslizando os sapatos nas pedras lisas do calçamento, caindo de joelhos diante dele. As outras pessoas que a acompanhavam correram para a rua mais próxima. Tamanha foi a surpresa dela ao perceber quem segurava seus braços: suas sobrancelhas arqueadas, a boca entreaberta e a repentina respiração descompassada diziam tudo. Agindo por impulso, ele não sabia o que dizer, e sinceramente, seu coração ainda estava profundamente machucado, mas o corpo se moveu antes que pudesse pensar em qualquer outra coisa: mesmo que fosse apenas para pôr um ponto final o Cavaleiro sentia que não poderia deixa-la ir novamente. Pelo menos não tão facilmente.
—Manigold! — O nome dele foi balbuciado em um sussurro surpreso, audível para apenas os dois. Ela estava corada, envergonhada, não sabia o que dizer, ou melhor, como deveria lidar com aquela situação.
—Eu... – O Santo respondeu também num sussurro. Albafica chegava ao encontro deles um pouco menos impressionado; logo Manigold percebeu que todos ao redor observavam a cena aos cochichos e soltou o pulso da moça, ajudando-a a se erguer. – Perdão, eu... – Percebendo que nada do que dissesse dissiparia a tensão entre os dois ele manteve-se calado, o que configura um sacrifício enorme para o Santo de Câncer. Olhando bem, na verdade ela havia mudado bastante. Não sabia se era a roupa, mas o corpo ganhara mais forma, mesmo que não tivesse ganhado tanta estatura, os lábios estavam tingidos de um vermelho que ele não estava acostumado a ver na boca carnuda dela, os cabelos encaracolados iam encorpados em volume e comprimento até bem abaixo da cintura, mesmo que o rabo de cavalo os domasse um pouco, e não, não estava nem um pouco feia; era exatamente o oposto, mas ainda assim era diferente.- Não pude evitar.
—Tudo bem. Eu que devo desculpas. – Respondeu prontamente, limpando o comprimento da saia longa. Ela sorriu levemente ao notar a aproximação do Cavaleiro de Peixes.
—Dalilah, por Atena, o que faz aqui? – Questionou Albafica ao chegar a uma distância segura para ambos.
—Albafica! – Ela exclama mudando para seu semblante alegre de sempre, ao notar o distanciamento do pisciano ela espertamente brinca com o mesmo – Vejo que nada mudou, não é mesmo? Sinceramente, é um prazer revê-los.
—Ah, por favor! – Manigold interveio, seu semblante um tanto furioso e um tanto triste transmitiam um bocado de indiferença e desprezo. Dentro de toda a magoa que ainda carregava a maior delas, logo depois de ter perdido seus entes queridos para a Morte, ainda era a de seu desaparecimento. E aquele tom de formalidade e um misto de estranheza com que ela os tratou trouxe essa constelação de sensações amargas à tona. – Dalilah por que? O que aconteceu? – Com a voz um pouco trêmula percebeu que ela se segurava com força para não explodir em choro, mas naquela hora, naquele lugar, tinha que ser forte o suficiente. – O que aconteceu com você?
—Manigold, perdão eu... – Ela tentava se explicar, mas as palavras necessárias não sairiam ali, naquela hora, na verdade, duvidava que elas jamais seriam proferidas. Um misto de alegria e tristeza por vê-lo e ter que deixa-lo novamente começou a tomar conta do seu espírito, deixando-a impossibilitada de qualquer articulação mais elaborada, ainda mais pelo contexto da situação. – Eu não fui capaz... eu não sou capaz de ficar. Eu não posso... – Nesse momento uma das moças que a acompanhava antes saiu da viela em que havia se refugiado, apenas para sussurrar algo em seus ouvidos e voltar para lá. Foi nesse momento que Manigold desviou seu olhar para outro elemento que não fosse Dalilah. Ele viu os trajes das outras moças que espreitavam da ruazinha e seus trejeitos, eram as mesmas roupas que ela estava usando. O olhar dele buscou o dela, procurando pela confirmação que logo veio. Eram meretrizes. Ela tentou ir embora furtivamente, mas ele segurou-a mais uma vez pelo pulso.
—Dalilah, mas que merda é essa? – O Santo a segurava, não queria deixar mais uma vez aquela mulher. Ou pior, ser deixado por ela. Ela se voltou com os olhos cheios de lágrimas e Albafica pôs a mão sobre o ombro dele, como se lhe oferecesse uma alternativa resignativa frente à situação. Dalilah ainda olhou mais uma vez para trás antes de sumir novamente, deixando-o atônito mais uma vez. – Vamos para casa.
No caminho de volta Manigold não conseguia tirar aquele inesperado encontro da cabeça, caminhava com a cabeça nas nuvens e sua mente estava tão perturbada com tanta informação que nem percebeu quando Albafica subitamente parou mais à sua frente, esbarrando com força no peito no pisciano:
—Oe! Alba-chan, o que deu em você que parou tão de repente? – Reclamou se recompondo de imediato, dando alguns passos para traz.
—Eu que pergunto, o que aconteceu agora a pouco? – Albafica tentava entender tanto quanto ele o que havia acontecido, apesar de sua solidão (ou talvez graças a ela) compreendia muito bem as complicações das relações humanas e, principalmente, da situação em que o amigo estava; a apatia em que se encontrava era totalmente normal, e por isso ele se sentia no dever de ajuda-lo.- Você não tem condições nenhuma de voltar para o Santuário desse jeito, Manigold. É mais do que óbvio que está sendo imaturo em sua recusa ao falar sobre isso.
—Do que você está falando, hein? – O canceriano tinha um semblante meio revoltado e desviava o olhar, mas quando observou o preocupado companheiro se acalmou. Manigold era um homem cínico, quase um moleque levado, e tinha medo de falar sério sobre o que quer que fosse, mas era mais civilizado e racional do que um dia já fora. – Eu queria ir até ela, você sabe que eu queria, mas... – Passou a mão pela cabeça desconcertado, o olhar distante no céu que começava a escurecer. Era como se ela escapasse o tempo todo do seu alcance e nada que ele fizesse pudesse evitar aqueles distanciamentos dolorosos. – E agora eu tenho essa droga de dever, de ser Santo. Não dá tempo de ficar correndo atrás dela.
—Você tem toda razão – Ele colocou um olhar serio ao falar como guardião da quarta casa, as sobrancelhas finas delineando sua bela face de olhar sempre determinado, precisava garantir a obstinação de que o outro parecia precisar em sua tremenda confusão- Mas que fique claro que é uma decisão sua fugir disso. Quero dizer, eu acho muitas coisas de você Manigold, mas nunca achei que fosse covarde. – Ele provocou tendo plena consciência do comportamento impulsivo do parceiro, esperando que isso levasse a alguma reação.- Vá.
—Se eu não voltar com o relatório da missão meu velho vai me matar, eu preciso... – Ignorando as provocações ele ainda hesitava.
—Vá. – Albafica disse simplesmente, sorrindo com o canto dos lábios e sem precisar esperar por uma resposta saiu andando, certo de que suas palavras encontravam eco no espirito e na vontade do cavaleiro de Câncer. Manigold o viu acenar já distante – Eu me encarrego de tudo. E você me deve uma, tá certo?
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O crepúsculo pintado no céu era um alaranjado pressagio da penumbra que se aproximava com a noite.
Dalilah passou muito tempo prestando seus serviços a organização de Don Ávido e agora que ele se foi, mesmo que esse não tenha sido o motivo de sua fuga do Santuário, ela sentia o desnorteio característicos da maioria dos recomeços. O seu escritório era um salão bem decorado, deveras extravagante até, em um dos mais famosos bordeis de Veneza. Cortinas enormes de veludo vermelho, tapetes caros, móveis feitos especialmente para o cômodo e detalhes em dourado do chão até as pinturas angelicais do teto, uma mistura de Moulin Rouge com Capela Sistina.
Depois de muito tempo observando o Sol se pôr e as luzes do seu e de outros cabarés começarem a se acender é que a mulher se voltou para dentro do salão. Uma pintura imensa de Ávido decorava a parede atrás da sua mesa e da sacada ela o fitava em sua pose imponente e charuto na boca. Mesmo quando olhava para ele só conseguia pensar no cavaleiro de Câncer. É que mesmo sendo diferentes em alguns aspectos, e principalmente no destino que escolheram trilhar, ambos ainda eram tão parecidos em si e nos seus próprios mundos que pareciam irmãos de alma. Ela deixou-se abandonar em um divã qualquer, coçou os olhos ainda fixos na figura do falecido Cavaleiro Negro e mesmo que o estivesse encarando, a imagem e o cosmo que havia visto e sentido do Cavaleiro de Câncer não saíam da sua cabeça.
Quanto tempo havia passado? Ele estava tão forte. Como crescera tanto? Ele estava lindo mesmo. Tão diferente de quando vestiu a armadura pela primeira vez. E o cheiro de morte mais intenso... Era mesmo um Santo agora. A luz da sala a deixava deprimida.
Ou talvez sempre houvesse sido assim.
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—É mesmo a coisa mais linda que já vi na vida, senhorita. – Manigold ria faceiro para a horda de mulheres seminuas agrupada à sua frente, falando em especial com a loira que lhe exibia os seios pequenos desnudos. A única pessoa que talvez risse tão devasso quanto ele naquela situação fosse seu parceiro de bebedeiras, o Escorpião. As mulheres de mais diferentes tamanhos e formas lhe acariciavam os braços por cima da roupa, tocavam-lhe graciosamente os cabelos ou deslizavam os dedos sobre o peitoral dando boas-vindas. Ele se sentia familiarizado até demais com toda aquela libertinagem.
—Quanto planeja pagar por esses momentos inesquecíveis, meu garanhão? – Ela perguntou ajustando a gravata dele provocativamente enquanto se aproximava passando a mão livre nos cabelos curtos. O cavalheiro era jovem, bonito, desinibido e carregava uma misteriosa bagagem nas costas: Era um tipo muito peculiar de cliente que nenhuma delas gostaria de deixar passar.
—Infelizmente não é você que eu procuro, por mais bela que seja. – Ele respondeu para a infelicidade da meretriz, que se desvencilhou daqueles braços com um olhar de descontentamento.
—Então...? – Uma mulher de longos cabelos negros se aproximou, parecia ligeiramente mais velha pelas formas sinuosas que possuía seu corpo mais desenvolvido, vestida apenas com uma lingerie preta.
—Preciso de uma informação, sobre uma colega. – O cavaleiro passou a mão absorvendo o perfume das longas madeixas, pois mesmo concentrado em sua tarefa o seu espirito cortejador não se ausentava. Logo ele recebe a resposta de uma moça de cabelos castanhos e olhos verdes que segurava seu braço direito contra o corpo franzino, trajando finas vestes transparentes. Ela olhava fixamente em seus olhos instigantes:
—O pagamento é importante, Senhor cliente.
—Mercenárias heh? –Ele retirou um saquinho de moedas de dentro do bolso, e aquilo foi como um farol para aqueles belos navios. Se as moças já estavam debruçadas sobre ele, agora então estavam quase famintas e o dourado podia sentir em seus olhos a ganância crescer, ele despejou duas moedas de ouro em sua palma e sentenciou: — Baixinha, pele negra e clara, cabelos ruivos e olhos verdes. – O entusiasmo não durou por muito tempo, pois ao terminar sua descrição as meninas se entreolharam e simplesmente se dispersaram a altos murmúrios, visivelmente descontentes.- Ora, vamos, não é tão difícil assim dar uma informação.
—Ah...! A patroa é lá em cima. – Lhe respondeu uma jovem apontando em direção às largas escadas, seus cabelos castanhos totalmente repicados na altura dos ombros emolduravam o rosto rebelde. Ela tomou as moedas e tragou mais uma vez o cigarro na piteira elegante; Manigold não conteve o sorriso sacana ao notar as belas pernas adornadas pela meia arrastão enquanto ela se retirava rindo, sem deixar de perceber que ela se referia a “patroa” — Mas não vai conseguir muita coisa sendo avaro assim, bonitão. Heheh
Ele desfez o sorriso com o comentário, revirando os olhos, tinha vontade de revidar, mas tentava ser um cavalheiro muito exemplar com as prostitutas em geral. O cavaleiro passou pelo bar buscando uma dose de rum antes de atravessar o imenso salão em direção às escadas, a música e a fumaça eram proeminentes no ambiente, as moças e os rapazes dançavam para os clientes, roubavam alguns bêbados e extorquiam os menos espertos. Virou a dose de uma vez ao terminar de subir o primeiro lance da escada, deixando o copo no corrimão. Não tinha nenhum segurança guardando a entrada do primeiro andar e aquilo lhe pareceu estranho, mas agora parando para pensar, conseguia mesmo sentir a presença dela ali.
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O lugar era menos movimentado do que o térreo, de um lado e de outro estavam os quartos que eram utilizados para os serviços da casa e no centro, à sua frente um corredor que ele supôs fazer parte do coração administrativo do estabelecimento. Caminhou até o final dele e entrou no escritório sem bater. Sentia a presença dela com mais força. Os cabelos ruivos cacheados caíam como cascatas pelas suas costas, balançando no ritmo do vento que os assoprava da janela. Ela fitava a paisagem à sua frente, a cidade escura ficava quase totalmente iluminada em noites como aquela, com as luzes formando uma constelação de ruas e casas no chão, aquela avenida por exemplo era pura luz e festa naquele momento. Ele parou a observá-la da porta, os olhos sagazes perfurando suas costas fizeram com que ela se virasse séria para fita-lo.
Ele não podia deixar de admirar a mulher que ela se tornou, talvez fosse o vestido azul marinho drapeado desde a cintura presa firmemente em um espartilho até a barra da saia que possuía uma fenda muito ousada deixando a perna adornada pela jarreteira à mostra; o ombro a ombro aveludado ressaltando o seu colo generoso adornado de colares dourados e pedras preciosas, brilhando muito. Talvez fosse simplesmente a presença dela que sempre lhe perturbava o juízo, ele não saberia dizer. Seus olhos marcados fortemente pelo lápis de olho preto continuavam ali, singularmente verdes e um tanto furtivos, quase dissimulados; assim como os lábios tingidos de um vermelho particularmente sangrento ainda permaneciam os mesmos que ele tanto sonhou em beijar.
A dama não deixava transparecer, mas estava profundamente abalada. Cada passo que dava em sua direção quando começou a se movimentar para dentro do cômodo era vacilante, como se seu corpo se movesse cheio de incerteza, vagante. Sentia seu espirito tomar conta de cada canto daquele escritório e expandir-se para fora, era aquela presença tão humana e ao mesmo tempo tão etérea que ela sentia a dias sem conseguir explicar. Cheiro de morte pela cidade inteira.
Ela simplesmente não conseguia deixar de admirar o homem que ele havia se tornado: O porte altivo com que a encarava seriamente naquele momento, com aqueles olhos violeta perfurando os seus; os cabelos azuis e ainda mais indomados do que antes, tudo nele a lembrava o tempo de infância e ao mesmo tempo a trazia de volta à realidade. Ele agora era um Santo. A armadura não deixava sombra de dúvidas, e ela ficava tão feliz em vê-lo daquela forma, ao mesmo tempo em que seu coração se enchia de um terrível pesar, quase desespero.
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continua
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