Hold Each Other
3 Capítulo 3
Não foi um ato para desafiar o que nos foi imposto em minha terra natal, mas acabamos por dormir juntos. Peguei no sono enquanto ainda conversava com Shun, enquanto falávamos sobre as senhoras espanholas e sobre Irina. A sensação de proteção, com ele me abraçando por trás sempre me acalma: o corpo dele, menor e mais esguio, se encaixa perfeitamente ao meu, emanando uma energia protetora que consegue demonstrar todo o amor e afeto que sentimos um pelo outro.
Algumas pessoas deturpam a relação entre pessoas do mesmo sexo — ou outros que eles não consideram seus semelhantes. As pessoas não conseguem enxergar que há companheirismo, amizade, carinho e amor — ou, se enxergam, focam em aspectos que são propositalmente desfigurados e inseridos em contextos pecaminosos e ameaçadores. Nestes 28 anos de vida e com algumas relações consideradas “padrões” (e fracassadas, devo dizer), em nenhuma delas houve tanto companheirismo e compreensão quanto às relações fora do “padrão” que tive. Sempre existia proteção mútua e entendimento. Óbvio que vejo casais heterossexuais sendo felizes e me dando exemplos constantes, como Shiryu e Shunrei, que estão sempre ao nosso lado e que nos aceitam como somos. Talvez, a ideia de estar dentro dos padrões não seja para mim, mas não me importa muito.
Com Shun, encontrei alguém que sempre zelou por mim (e por todos), alguém que não é o meu oposto, mas sim, meu complemento. É alguém que sabe e partilha dos meus problemas, das minhas alegrias, das minhas ansiedades, perdas e vitórias; é alguém com quem há a reciprocidade em tudo. Com exceção da minha mãe, ele é o único que eu realmente amo de uma maneira diferenciada, com todos os meus sentimentos e coração — que muitos insistem que é gelado.
Shun é o sol que brilha e me aquece.
—---
Acordo com a porta da cabine sendo aberta e fechada com cuidado. Ouço alguns barulhos — tênis sendo tirados dos pés, plástico e algo sendo dito baixinho, como se a pessoa estivesse tomando o maior cuidado para não fazer barulho algum. Algumas coisas são colocadas na mesa da cabine, ouço passos e um zíper sendo aberto. Algo é colocado na mesa. Mais passos.
Sinto a mão de Shun em minha panturrilha direita, apertando e chacoalhando minha perna com cuidado.
— Trouxe alguma coisa para comermos, já é manhã. De acordo com uma das moças do vagão restaurante, ainda temos 6 horas de viagem. Estamos saindo de Ni- nizhny...
— Nizhny Novgorod… ugh. Bom dia… sobe a mão mais um pouco…?
— Hyoga! — A voz de Shun parece surpresa e eu só consigo me segurar para não rir.
— Coça minhas costas? É sério. — Antes de atender meu pedido, Shun dá um tapa em minha perna, mas senta-se ao meu lado, coçando minhas costas e, logo depois, afagando meus cabelos.
— Obrigado, Shun. Obrigado por tudo até hoje. — Viro meu rosto em direção a Shun, antes de virar todo meu corpo na direção dele e entrelaçar os dedos de nossas mãos.
O sol entra na cabine pela fresta da cortina, iluminando o rosto de Shun — os cabelos castanhos ficam mais avermelhados, os olhos azuis parecem mais claros. Os lábios rosados curvam-se num sorriso tímido, a pele pálida tem um leve rubor. Lentamente, seu rosto se aproxima do meu e fecho meus olhos, esperando: sinto o ar quente, minha pele eriça antecipando o contato, meu coração dispara. A ansiedade fala mais alto e eu inclino minha cabeça, procurando pelos lábios dele que, ao roçar nos meus, murmuram benções e promessas.
— Eu te amo...
É a única coisa coerente e sincera que consigo dizer neste momento. É a única coisa que consigo sentir e expressar.
—---
Quando terminamos nosso café da manhã improvisado, volto à minha cabine para arrumar minhas coisas e uma ideia vem à minha mente. Pego o celular e mando um email para Katya. Sei que muito provavelmente ela poderá me auxiliar — ou falar com alguém que possa fazer algo.
A resposta chega em cerca de trinta minutos.
—---
As horas acabam por passar rapidamente, em menos de duas horas chegaremos em Moscow. Quando me dirijo ao vagão restaurante, vejo Shun conversando com María e Carmén, em espanhol e me sinto orgulhoso dele. Paro na mesa onde eles estão, dou bom dia e pergunto como todos estão.
Carmén e María parecem estar mais felizes e seguras do que estavam ontem e tenho certeza que a presença de Shun ajuda muito nessa mudança; o ambiente também parece estar mais leve, o dia, mais claro e a temperatura mais elevada também.
Mais uma vez, a teoria de que a presença de Shun salvaria o mundo, os animais abandonados e quaisquer problemas que o mundo venha a enfrentar, vem à minha cabeça. Sorrio para Shun, que sorri docemente, como se soubesse o que penso.
Sento-me à mesa e, após algum tempo conversando, conto às duas espanholas sobre Irina e sobre seu pedido de desculpas. As duas não hesitam em aceitar o pedido, e María diz que sente por saber que as pessoas aqui não tem nem a liberdade de apoiar ou demonstrar empatia pela causa LGBT. Ela ainda diz que entende que Irina deva fazer isso para proteger o filho e o irmão e que gostaria de fazer algo por ela, mas não sabe como as coisas funcionam.
— Bem, eu falei com uma amiga que também é russa e expliquei a história de Irina. Ela conversou com outra amiga nossa, que tem recursos para ajudar Irina e a família dela de alguma maneira, seja com uma ajuda financeira ou até mesmo com advogados para ajudá-la num possível processo de imigração. Não sei se ela vai aceitar tal ajuda, mas não custa nada conversar com ela.
Shun olha para mim, surpreso e orgulhoso. Não havia lhe contado meu plano, mas não conseguia pensar em outra coisa a não ser poder fazer algo por essa família. Gostaria de ter condições e meios de estender essa ajuda a todos em situação de risco aqui na Rússia, mas não posso. Se eu puder ajudar três pessoas, embora não seja o suficiente ainda, poderei ficar em paz comigo mesmo.
— Vá até ela então, Alexei. Conte para ela.
Sorrio para María e aceno que sim com a cabeça, levantando-me e indo em direção ao bar, perguntando por Irina. O rapaz que está no balcão diz que Irina está no outro vagão à frente; peço por um guardanapo e uma caneta. A minha intenção é a de que ele interprete o gesto de maneira errada e, pelo olhar e pelo sorriso dele, tenho a certeza de que ele interpretou. Não quero arriscar Irina. Quando chego no outro vagão, ela está atendendo um grupo de jovens e quando me vê, acena para mim. Algum tempo depois, ela aparece.
— Podemos conversar? Prometo que é rápido.
Ela olha, com alguma desconfiança em seu olhar e me nos dirigimos para perto do fim do vagão, onde há um samovar. Não há muitas pessoas por perto e eu lhe entrego o guardanapo com um número e um contato que Katya me passou.
— Irina, guarde este número. Assim que chegarmos em Moscow, entre em contato. Quando você me disse que eu parecia com Petya, você estava certa em uma coisa — meu namorado está comigo aqui. Eu não posso livremente nem segurar a mão dele, eu mal posso estar ao lado dele enquanto estou aqui na Rússia. — Noto que o rosto dela fica ruborizado e ela tenta dizer algo, que eu acabo prontamente por interromper. — Eu quero lhe ajudar, ajudar a sua família também. Eu realmente não moro aqui na Rússia há muitos anos, não sei como as coisas estão por aqui, mas sei que ninguém deveria sofrer e ser perseguido por amar a quem ama. Entrei em contato com uma amiga que pode lhes ajudar a encontrar uma solução. Não sei o que vocês pretendem fazer, mas há pessoas em Yekaterinburg que vão ajudar vocês, seja saindo daqui ou lhes oferecendo proteção.
— Proteção é algo difícil por aqui, Alexei.
— Sim, eu sei… mas, independente de qual seja a decisão de vocês, eles vão ajudar. Por favor, entre em contato.
— Por que…?
— Eu não sei exatamente o porquê, Irina. Não sei se é porque eu não sou hétero, não sei se é porque meu senso de igualdade e justiça sempre fala mais alto… não sei… Eu gostaria de poder ajudar todos que se encontram nessa mesma situação, mas eu não posso, não tenho como. Mas se eu conseguir ajudar você e sua família, já é algo.
— Spasibo, Alyosha… Spasibo!
Irina leva as duas mãos ao rosto, tentando esconder as lágrimas, ainda não acreditando no que acabara de acontecer. Eu coloco a mão no ombro dela, num gesto para confortá-la.
— Sabe o ditado que você me disse ontem? Lembre-se dele. Aceite Gosha independente de quem ele venha amar e diga isso para ele, sempre que você puder. Minha mãe me protegeu até o fim da vida dela, mas não sei se ela me amaria e me aceitaria se soubesse quem eu amo...
Limpando as lágrimas de seu rosto, Irina se recompôs, sorrindo.
— Eu realmente não posso te dizer o que sua mãe diria, mas se fosse o Gosha que estivesse fazendo algo grandioso e generoso para um estranho, eu me sentiria orgulhosa dele. E eu lhe prometo, nunca deixarei de dizer isso a ele, Alyosha. Nunca.
— Spasibo, Irina. Seja feliz com Pyotr, com Igor e que seu irmão encontre a paz que ele merece, assim como você.
Olho mais uma vez para ela e sorrio antes de me virar em direção à porta que divide o vagão, voltando para onde estava. Quando vejo Shun, María e Carmén, ainda conversando, sorrio.
—---
Antes de desembarcar, Carmén e María pedem para tirarmos algumas fotos delas e junto delas; Shun aproveita e também tira uma selfie de nós dois com elas. Quando estamos saindo do trem, avisto Irina e aceno em sua direção. Mostro para Shun quem Irina é e ele sorri e acena para ela também, que acena de volta e sorri.
Nos despedimos de Carmén e Irina, que estão indo para um hotel antes de explorarem Moscow por alguns dias enquanto nós começaremos outra jornada da estação Komsomosl’kaya até o aeroporto Sheremetyevo, de onde nosso voo parte para Paris e, depois para Atenas.
Durante o trajeto mostro lugares para Shun, conto algumas das histórias que escutei sobre alguns pontos e, por estarmos em público, mantemos uma distância um pouco maior até chegarmos no aeroporto. Lá dentro, embora possamos estar mais perto, ainda há uma pequena distância entre nós.
— O que você achou da experiência, Shun? — Eu pergunto, entregando um copo de café e um saco de papel onde há pirozhkis. Temos quatro horas antes do check-in e embarque, estamos sentados no chão, próximos ao check-in da Aeroflot, encostados em um pilar de sustentação.
— Hmmm, interessante. Eu até gostaria de, um dia, fazer todo o trajeto de Vladivostok até Moscow, mas contanto que possamos parar, aproveitar algumas das cidades e não só ficarmos no trem.
— Uh… também prefiro fazer isso. Quinze dias dentro de um trem não é nada fácil. Mas, prefiro que não seja algo que você esteja planejando para um futuro tão próximo, não sei se tenho estrutura emocional para voltar aqui tão cedo.
Ele sorri, porque sabe que o sorriso dele dissipa qualquer nuvem em meu humor.
— Nope. A experiência de viajar pela Rússia como um russo foi interessante, mas preciso me recuperar. Aliás, nosso voo é direto, não?
— Se a Aeroflot não nos decepcionar, sim. Mas de qualquer jeito, nosso voo para Atenas só sai amanhã à noite, então temos um tempo para descansarmos. Vamos ficar num hotel próximo ao aeroporto, quer fazer alguma coisa?
— Tomar um banho decente e dormir em uma cama, abraçando alguém.” -Ele sussurra, certificando-se que não há ninguém por perto.
— Eu também. — Sorrio.
—---
— Proshchay, Rossiya Matushka!
— Qual a diferença de ‘proshchay’ para ‘do svidaniya’, Hyoga? — Shun me pergunta.
— ‘Do svidaniya’ é uma despedida onde temos certeza que, em pouco tempo, veremos novamente a pessoa. ‘Proshchay’ demonstra mais tempo, um adeus.
Shun pondera minhas palavras por algum tempo e, após certificar-se que o cinto estava afivelado, vira-se novamente em minha direção:
— Eu entendo que, talvez, essa seja a melhor solução pra você. Um adeus temporário da parte física: não estando aqui, vai doer menos… eu te conheço há vinte e um anos e sei que o distanciamento físico não vai deixar de doer em você, Hyoga. Ainda vai martelar, ainda vai incomodar mas, se você me diz que você prefere a distância agora, eu te apoio. Se você mudar de ideia, eu também te apoio.... Esse coração que alguns dizem ser parte da Geleira Eterna é tão quente e humano quanto qualquer um outro.
A mão esquerda de Shun toca onde meu coração bate forte, com vários sentimentos misturados. Coloco minha mão direita sobre a dele e aproximo meu rosto do dele, tomando seus lábios delicadamente. Shun corresponde ao beijo com ternura, não aprofundando o mesmo.
— Senhor? Senhor?
Somos trazidos à realidade por um comissário de bordo parado no corredor ao nosso lado, Shun está com a face em rubor e eu olho para o comissário que me chama. Seguro a mão de Shun junto da minha — não vou me esconder mais uma vez enquanto estou aqui.
— Senhor, por favor, pode afivelar o cinto? Vamos decolar em menos de cinco minutos. Obrigado.
O comissário sorri e não há nojo ou desprezo em seu sorriso. Shun ainda está olhando para mim, e, quando o comissário certifica-se que eu afivelei o cinto, sorri mais uma vez, desejando uma boa viagem e sai de perto. Shun arregala os olhos e nós dois começamos a rir da situação.
— Acho que vocês russos menosprezam demais a Aeroflot.
Fale com o autor