Dormimos juntos em Paris. Ao chegar na capital francesa, mesmo de mãos dadas e nos abraçando, não há olhares estranhos e nem palavras proferidas contra nossa presença ou nossas demonstrações de afeto.

A mesma coisa ao chegarmos em Atenas.

Ao chegarmos no Santuário, cansados, avisamos sobre nossa chegada e somos dispensados de uma audiência com Saori — Alicia nos avisa que devemos descansar e que uma reunião está marcada para o dia seguinte. Nos dirigimos aos nossos aposentos, tomamos banho e nos deitamos juntos, mais uma vez. Devido às incessantes mudanças de fusos, ainda estamos sem sono. Shun está deitado sobre meu peito, o dedo indicador passeia sobre a cruz do norte.

— Ajudei Irina porque acredito que minha mãe, apesar de religiosa, não teria virado as costas pra mim… Acho que ela não teria nem fingido ser algo que ela não era e, se tivéssemos ficado por lá e minha vida não fosse esta, ela não se contentaria em simplesmente fingir...

— Ela te aceitaria, Hyoga… por tudo que ela passou para ficar com você, ela não viraria as costas pra você, de maneira alguma.

— Não… não viraria… Mas, apesar de toda a dor, essa experiência e a vida me ensinaram a ser forte. A única coisa que eu gostaria é que ela tivesse te conhecido, Shun. Vocês são as pessoas que mais me amaram neste mundo e são as pessoas que eu mais amo…

Shun segura o rosário com sua mão e usa o corpo como alavanca para subir e me beijar. O beijo, desta vez, já não é tão mais puro ou apenas um roçar de lábios, é como se ele pudesse colocar tudo o que sente naquele beijo. Ao final, ele encosta a testa dele na minha, olhando bem em meus olhos.

— Eu te amo, Alyosha.

As mãos dele traçam meu rosto, acariciam meus cabelos e os lábios depositam mais beijos pela minha face.

Quando adormeço, ainda sinto as mãos e os lábios dele traçando desenhos em minha pele.

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O ambiente parece ter uma névoa, ou talvez meus olhos estejam embaçados. Ao meu redor, um quarto com duas camas, uma delas com cobertores e um urso de pelúcia, já velhinho e cheio de remendos. Ela está sentada na cama, cantando uma canção russa que há muitos anos eu não escuto.

“Eu morrerei de saudades, esperando inconsolada,
Rezarei por todo dia e, à noite, imaginarei se você estará em apuros
Em uma terra muito distante.
Durma agora que você desconhece arrependimentos, bayushki bayu.

Na estrada, lhe darei uma pequena imagem sagrada,
E quando você rezar para Deus, você colocará a imagem na sua frente.
Enquanto se prepara para uma batalha perigosa, por favor, se lembre de sua mãe
Durma, meu bom garoto, meu belo garoto,
Bayushki bayu.”

— Mama?

— Alyosha…!

Ela me reconhece, se levanta da cama e me abraça forte, afaga meus cabelos. Eu a abraço de volta, apertando-a contra meu peito — hoje, sou bem mais alto que ela, mas ainda me lembro quando eu me encaixava perfeitamente nos braços dela.

— Tão forte, tão belo o meu Alyosha!

Aqueles olhos azuis que eu me lembro, tão apagados pela vida que levava, estavam cheios de vida e lágrimas.

— Mama, eu sinto tanto a sua falta!

— Eu sei, eu sei… mas a mama sabe que você se tornou um homem digno, mama é tão orgulhosa de você, Alexei. Ah, eu sou muito orgulhosa de tudo… de tudo, Alyosha. Você é um guerreiro que luta pelo o que é certo, Alexei. Tudo o que eu fiz por você valeu a pena, meu pequeno! Você é amado, você tem amigos que prezam por você, você tem alguém que te ama e te faz feliz. Era essa a vida que eu queria pra você, meu filho.

— Ele me ama muito, mama.

— Não precisa dizer em voz baixa, para a mama, não importa que seja ele. O que importa é que vocês se amam.

Eu sei que é um sonho, mas ouvir minha mãe me dizendo que está orgulhosa de mim e que é isso que ela queria para minha vida, me enche de esperança.

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Shun está aconchegado em meus braços, a mão ainda segura o rosário. Beijo o topo de sua cabeça e vejo seus lábios se curvando em um sorriso enquanto dorme.

Minha luta pode ser vista como privilegiada, já que eu não precisei passar por tudo aquilo que meus compatriotas e outros LGBTs precisam passar; eu reconheço isso.

Porém, não vou me calar. Ajudar Irina e a família dela, além de conhecer Carmén e María, acendeu algo em mim que não pode ser apagado tão facilmente. Não sei por onde começar, mas sei que pedras aparecerão em meu caminho e que preciso ter a força necessária para vencer esses obstáculos e ajudar a quem precisa. A vida real é basicamente como a minha vida sendo um guerreiro: se cairmos, temos que nos levantar e continuar lutando, enfrentando os inimigos a fim de proteger aquilo que acreditamos. Eu acredito que somos todos iguais, que temos os mesmos direitos de qualquer pessoa que caminha sobre esta vasta terra.

E aquele que me dá forças para seguir o meu caminho estará ao meu lado. Sei que não vamos conseguir mudar o mundo, mas o que conseguirmos fazer, já valerá muito.

Something happens when I hold him
He keeps my heart from getting broken
When the days get short
and the nights get a little bit frozen
We hold each other

Notas finais
Bayushki bayu = “Bayushki bayu” seria algo como “canção de ninar”. Uma tradução não literal seria o “dorme bebê” das canções em português. https://youtu.be/8f8WYvAo-RA