Hitsuzen
1 Cerejeira
Notas iniciais
WATANUKI\'S POV
O vento soprava frio. Dei alguns leves espirros, mas nem liguei. Bocejei cansado, pondo minha mão na frente da boca. Eu mal havia acordado, e já queria voltar para casa. Bocejei mais uma vez, tendo minhas mãos ocupadas demais para evitar qualquer coisa. Uma pétala da árvore de cerejeira que estava perto de mim, entrou na minha boca. Engasguei. Óbvio.
Eu pude ter uma bela vista, ao menos. Uma menina. Ela tinha longos cabelos, mais negros do que qualquer coisa. A pele era pálida como um papel, ou tão branca quanto. Os olhos pareciam duas poças de sangue fresco. O corpo era esguio e, apesar da idade, tinha seios bem grandes. Ela estava com umas das mãos apoiadas no tronco de uma árvore, enquanto fitava a mesma, sorrindo.
Iniciou uma canção. Pequena e breve. Sua voz era a idêntica à de um anjo que havia visto em meus sonhos. Ela tirou a mão da árvore, pegou uma pétala que estava a dançar em sua frente. Cheirou-a contente. Possivelmente, ela era gentil e delicada. A menina mais bonita que eu tinha visto, mais bonita até que minha colega, Himawari-chan. Ela usava o uniforme da minha escola, felicitei-me instantâneamente.
- P-Por quê..? — disse eu, involuntáriamente. Cobri a boca percebendo que havia interrompido-a.
Ela parou de cantar.
- Porque é inevitável. — falou ela, ainda não olhando pra mim. — O fato de você visitar esse lugar... também.
Virou-se bruscamente. Assustei-me brevemente. Os olhos pecaminosos tinham um tom de malícia, que continham toda sua beleza angelical para si. Eu apenas suspirei confuso. Seu vermelho-sangue misturou-se com meu azul-celeste. Não conseguímos parar de nos fitar nem por um minuto sequer.
- Inevitável? — perguntei, ainda não compreendendo o que ela queria dizer com aquilo tudo.
- Nada acontece por acaso. Tudo tem seu propósito.
- Hãn?
Um longo silêncio. Era como se eu estivesse falando em japonês, e ela em chinês arcaico. Ou vice-versa, não sei. Mas uma coisa era visível tanto pra ela quanto pra mim, eu estava completamente perdido. Percebendo isso, ela mudou de assunto.
- Quem é você mesmo?
Gelei. Era como se ela fosse a psicóloga e eu o paciente, a conversa estava tensa a poucos instantes atrás. Era divertido, de certa forma. Não me conti, acabei rindo. Ela ficou sem ação, me senti meio mal. Me aproximei dela e extendi a mão.
- Meu nome é Watanuki. Kimihiro Watanuki.
Ela olhou para a minha mão num sinal de reprovação. Afastou-se um pouco de mim mantendo uma distância segura pra ela.
- Watanuki... — disse ela, como se estivesse refletindo. — É escrito como Primeiro de Abril, certo?
Gelei, mais uma vez. Talvez esse fosse um poder sobrenatural dela, gelar as pessoas com seus comentários presunçosos.
- Venha. — falou a menina, pegando a mochila que estava no chão. — Vamos acabar nos atrasando.
Ela carregava a mala de uma forma bem estranha. Se me lembro bem, era daquela forma que os meninos carregavam os materias, Doumeki disse que aquela era a forma mais máscula. Enquanto eu, carregava delicadamente, assim como as meninas. Por que eu arriscaria a perder todos os meus materias?
Se eu não a tivesse visto a alguns minutos atrás, jurava que ela era um menino espião. Está bem, estou exagerando. Queria puxar papo. Ela não parecia ser o tipo de pessoa em que eu pudesse confiar se estivesse no \'campo inimigo\'.
- Voc-
- Quando é seu aniversário? — me interrompeu. Parecia que estava esperando uma oportunidade para fazê-lo desde o início.
- P-Primeiro de abril... — falei, hesitante.
- Você é bem inocente ao dar seu nome e aniversário verdadeiros para uma estranha, hein.
- M-Mas não foi você que perguntou?
- Deixando que alguém saiba seu nome, você dá o que ela precisa pra ter sua alma. — enquanto caminhava dizendo tais palavras incompreensíveis, chutou uma pedra no chão. — Informando-lhe o dia em que você nasceu, você está dando a habilidade de ver o seu passado, futuro, e direcionar a sua vida.
Agora sim, eu REALMENTE estava com medo dela. Me senti um perdido, um completo sem noção. Mas, talvez, as palavras daquela menina não fizessem sentido nem pra mim nem pra ninguém.
- Ahm... como?
Ela colocou a mão nos lábios, de uma forma bem sedutora. Me senti estranho, jamais me senti assim quando alguém estava por perto, exeto com Himawari-chan.
- Meu nome? — ela perguntou.
- Não, não perguntei.
- Ichihara Yuuko.
- Depois de tudo que disse...
- Mas claro, é um nome falso. — um tom superior surgiu naquela voz.
- E AINDA POR CIMA É FALSO?
Eu estava no meu limite. Minha paciência tinha se desvanecido por culpa de uma conversa de poucas palavras -ao menos, de minha parte. Estávamos nos aproximando cada vez mais da escola. Ouvi uma voz vinda de trás de mim. Uma voz muito familiar, e querida.
- Watanuki-kun!
Virei-me, era Himawari-chan.
- HIMAWARI-CHAAAAAAAAAAAAN~
Ela riu com a minha saudação. Me envergonhei por um breve momento. Pensei em apresentar a psicóloga falsificadora de nomes chineses arcaicos -juro, não sei de onde tirei isso. Mas, quando olhei para o lado, Yuuko tinha sumido. Como? A pouco conversávamos sobre algumas banalidades.
- Ué...
- O que foi, Watanuki-kun?
- Queria te apresentar alguém, mas ela sumiu.
A menina a minha frente apenas sorriu. Yuuko provavelmente já tinha entrado. Ouvi dizer que alunos novos tem que passar pela sala do diretor primeiro, e já estávamos em cima da hora.
- Vamos, ou perderemos a hora! — disse eu, indo em direção à porta com passos largos.
Depois de um curto tempo subindo os lances de escadas, chegamos no extenso corredor onde estariam as classes. Haviam duas, este ano. 1- A e 1- B. Um grande memorando grudado à parede designaria os lugares de cada um em suas respectivas salas. Encontrei meu nome, 1 — B. Himawari-chan estava feliz por estar na mesma classe que Doumeki, porém, na 1 — A.
Eu estava sozinho? Sei que Doumeki era um infortúnio que eu teria de carregar para o resto de minha vida como colegial, mas, mesmo assim, antes ele do que nada. Li um nome, certamente familiar. Cuja a dona sentaria ao meu lado, na mesma sala que eu, durante todo o ano. Ichihara Yuuko.
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