Histórias da Rua Cavalera
1 João
"Parabéns,João!" Disse a mãe e os amigos.
"Obrigado. Ganhei meu melhor presente, uma casa nova!" Disse ele,justificando o motivo do sorriso de orelha à orelha.
Então apagaram as luzes. O Parabéns começou.
"Parabéns pra você,nesta data querida.."
Ele via os rostos escuros,até que,no quarto de seu pai,viu um homem de capa preta,capuz e luvas brancas. Ele ficou perplexo. Olhava o homem parado,de costas. Desviou o olhar. Quando ele olhou,o homem não estava mais lá.
Depois do parabéns,todos foram à sala jogar videogame. Todos conseguiram entrar,porque eram três o total de amigos,e com João,quatro. Dava certo,pois o videogame era de quatro jogadores. A mãe foi para o quarto,e eles ficaram jogando a tarde inteira. A tarde de aniversário e pós-chegada à casa terminou. Ele tomou banho e foi dormir. O corredor era vasto. O quarto do pai era no meio,o dele,na ponta norte,e o da mãe na ponta sul.
"Boa noite. Amanhã o dia será melhor que esse."
Ele duvidava. Não podia haver um dia melhor que aquele.
O pai chegou às duas da patrulha da noite da Polícia Civil. Ele chegou muito exausto para acordar o filho,mas acordou-o.
"Olá,filho." Ele disse,no ouvido de João. "Como foi sua tarde de aniversário?"
"Foi boa demais para ser verdade." Disse João. "Estou sonhando?"
O pai riu.
"Não,filho,não."
Então o pai saiu,e deixou a porta aberta.
Ao ver a casa escura,lembrou da imagem do homem de capuz e luvas brancas,mas ele dormiu.
Horas depois,o menino acordou. Uma sirene tocava num local,como uma ou duas ruas acima da rua dele. Ele ficou curioso,mas não saiu.
Ele sentou na cama. Olhou em volta. O escuro o assombrava,mas ele estava sob a proteção da coberta. Ainda era verão,mas ele ficava com essa coberta à noite,para se proteger dos perigos da Rua Cavalera,que ele desconhecia.
Ele acordou às três da manhã em ponto,e viu mãos brancas acenando. Ele levantou. Queria tocá-las. Provar que era real,mas não era preciso tocar para mostrar que era real. Ele não fazia ideia do quanto real a situação era. Ele chegou mais perto. Mais perto,mais perto..Até que tocou. A mão era como se você ficasse sem luvas na Antártida por cinco dias. Era como se sua mão ficasse congelada.Depois disso,ele não dormiu de coberta. A mão o refrescava.
No outro dia,ele acordou e correu para abraçar a mãe. Deu um abraço forte,mas tão forte,que a mãe o soltou. Quando ela o soltou,veio uma imagem clara à sua mente. Um campo,uma estrada,luvas no chão e uma árvore. A árvore era gigantesca. Era quase do tamanho de um prédio.
Ele perguntou à mãe se ela já viu a imagem. Ela respondeu que não.
Ele caminhava para a escola. Pessoas se aglomeravam em uma rua. Ele ignorou e quase pegou o portão da escola fechado.
"Temos um aluno novo. É o João,ele mora na Rua Cavalera."
Todos disseram olás no começo do intervalo.
"Você gosta da Cavalera?" Disse um menino chamado Tobias. "Acho ela sinistra."
"Sim. Até agora nada aconteceu." Mentiu João.
"João." Alguém o chamou.
João virou para ver quem lhe chamou,mas não achou nada.
À noite,João acordou às três da manhã,e num piscar de olhos,luvas brancas apareceram. Ele não tocou,e também não dormiu,por mais que queria. Ele sentia que alguma coisa acontecia. A Luva sumiu. Uma mão com cactos apareceu,formou um punho e tentou socá-lo.Ele virou o rosto e sentiu uma coisa no travesseiro. Depois sumiu.
No outro dia,ele estava com medo. Decidiu fingir dormir e ficar acordado à noite inteira. Então ele fez isso. Ele fechou os olhos,e depois que a mãe saiu,ele sentou na cama. Viu o homem de luvas brancas. Ele procurava algo. Ele saiu da sala e caminhou em direção ao quarto de João. Assim que ele passou pela porta,ele sumiu. Depois de meia hora acordado,João sentiu o colchão afundando,como se alguém colocasse peso nele. Depois uma mão transparente tocou em seu calcanhar. Sentiu até a coberta formar peso. Então ele agiu.
"Mamãe! Mamãe! Tem alguém aqui!" Ele gritava,mas o quarto era longo. Ele saiu da cama e corria,mas ele não corria,ele corria devagar,devagar como uma lesma,ou até mais lento que isso. Ele chorou e gritou. Gritou até cansar. Então uma luz acendeu,e a mãe o viu,de costas para ela,a mão numa parede imaginária. Ela tocou nele.
Ele virou. Estava com os olhos pequenos. Negros e pequenos. Depois disso,nunca mais soube de João,nem na escola,nem na cidade,nem na Cavalera. O pai não chegou. A mãe não saiu. Ninguém entrou. Mais uma vez,o medo venceu.
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