Historias de amor
9 Será que sou gay?
Notas iniciais
Ricardo acordou de mais um pesadelo, suando muito e com a respiração ofegante. Pouco a pouco foi se acalmando. Sentou-se na beira da cama, acendeu um cigarro e ficou a pensar sobre sua vida e o sonho que o atormentava há algum tempo: — “Ele estava numa casa velha, levando uma surra e transformado em mulher”. Afinal, o que havia de errado com ele?
Dentro da Universidade, ele era o melhor aluno de Psicologia, brilhante, aliás, como sempre fora. Ao seu redor, havia um grande número e amigos e meia dúzia de mulheres, provocando-o a cada dia para fazer um belo programa. Era só marcar a data e namorar. Seus pais eram ricos, amorosos e ele era o que poderia se dizer, um gato. Lindo, moreno, alto, corpo atlético, que chamava a atenção assim que entrava em qualquer lugar. As mulheres sempre o chamavam de gostoso e outros apelidos similares. Droga! Como é que podia ser tão indiferente a todo esse panorama?
Para piorar a situação de Ricardo, um amigo dele, Raul, o deixava nervoso cada vez que se cruzavam, pois ele era ainda mais lindo, loiro, sensual, e cheio de namoradas. Afinal, será que ele era gay? Impossível! Ele até havia escrito um trabalho sobre as origens da homossexualidade no último semestre. Havia estudado 200 gays e lésbicas e a única coisa que havia encontrado em comum era uma vida de mágoas, desilusões, abusos, ou seja, nada que combinasse com ele próprio, pois se considerava feliz, alegre e bem sucedido. Seu pai era seu melhor amigo, sua mãe o adorava, e ele os amava a ambos com ardor. O que será que havia de errado, afinal?
Como Ricardo perdera o sono, foi até a biblioteca de casa, procurou um livro e foi ler na cama. Ele era do Chico Xavier e falava de vidas passadas, vida espiritual e outras coisas. No dia seguinte saiu da cama para tomar o café com seus velhos na beira da piscina. Seu pai o abraçou sorrindo:
— Oi, filho! Que cara é essa? Passou a noite namorando uma gata? Não mente para mim...
— Não pai, eu virei à noite lendo...
— Mas, o que se passa, não há mulheres nessa universidade?
— Muitas e todas polpudas, pai... Só não sei decidir qual é a mais linda e gostosa...
— Filho, namore todas e depois escolhe a melhor delas... Pronto!
E a conversa correu divertida, como sempre acontecia e ficou em casa para terminar de ler outros livros sobre Reencarnação, pois isso o estava fascinando. O tema era interessante, e na Faculdade completamente desprezado como folclore popular. Ao anoitecer foi com seus pais para casa de amigos. Entrou numa rodada de cartas com os homens enquanto sua mãe conversava com suas amigas.
E foi ali que aconteceu algo diferente.
Ricardo e seu pai eram jogadores natos. Jogavam pôquer desde sempre, apostavam dinheiro, e às vezes perdiam feio, o que não os incomodava, pois ambos eram ricos. Mas nesta noite Ricardo só ganhava todas, ria alto e tinha a impressão de ter vivido essa experiência em outras vezes. Parecia uma miragem, um filme já visto. Uma coisa que a Ciência não conseguia explicar.
Essa noite, ele teve um pesadelo diferente.
Estava numa roda de baralho, numa outra época da história, e a mulher loira estava ganhando uma fortuna, com ele mesmo ao lado, dando-lhe um beijo. Como ficou sem sono novamente se encaminhou até a biblioteca a pegou todos os livros que encontrou sobre Espiritismo e Reencarnação.
A partir desse dia, sua filosofia de vida mudou.
Começou a frequentar um Centro Espírita e fez amizade com um Parapsicólogo que fazia regressão a vidas passadas. Passaram a trocar longas conversas e Ricardo marcou uma visita ao consultório de seu novo amigo para conhecer seu trabalho. Intrigado, ele próprio fez um tratamento, para tentar descobrir tudo sobre ele mesmo.
Foi com rapidez que Ricardo voou para o passado. A mulher loira apanhava do marido desta vez, estava histérica e gritava coisas terríveis como veado, cornudo etc. Só que Ricardo era ELE e a loira era sua esposa que o traia com Raul, tão loiro e formoso como nesta vida. Depois, viu o final de sua vida como galhudo, ou seja, o desprezo dos amigos e dos filhos, a solidão, a doença e finalmente seu suicídio.
Quando Ricardo voltou da regressão ficou a conversar longamente com seu novo amigo e marcou definitivamente aulas com ele para aprender esse novo método de cura. Quando saísse da Faculdade faria pós-graduação em Parapsicologia, com especialidade em “Regressão a vidas passadas”. Estava mais do que decidido, pois isso era bom demais para curar desde dor de cabeça até dor de cotovelo. Saiu do consultório rindo feliz.
Nos dias seguintes, Ricardo terminou definitivamente sua amizade com Raul e se concentrou na mulher que andava ao lado dele, que sempre o cumprimentava com os olhos brilhantes. O nome dela era Suzana, e ela lhe dava bola na frente do próprio Raul. Tinha um corpo perfeito, uma boca vermelha, um cabelão que escorria pelas costas e estudava Pediatria. Havia-a conhecido quando, junto com Raul, trabalharam juntos no Hospital universitário.
Na primeira oportunidade que teve, a convidou para ir num bar a beber no fim de tarde. Dentro do bar, entre cervejas e conversas, ele avançou devagarzinho e deu-lhe um longo beijo. E perguntou-lhe:
— Gostas de mim?
— Muito! Eu só me acheguei ao Raul para que tu finalmente descobrisses que eu existo...
— Sabias que eres muito linda? E jura que vás deixar o Raul...
— Já o deixei faz uns 6 dias...
E abraçados dentro do carro, eles finalmente tiveram a primeira experiência de amor.
Depois de cinco messes de namoro no carro, nos motéis, em parques da cidade, e aonde dava, Ricardo a pediu em casamento. Ela era definitivamente a mulher de sua vida. E tinha tanta certeza disso, que estava disposto a apresenta-la para seus pais.
Mas ela ficou olhando-o, e falou:
— Mas, eu ainda não me formei e você tem que estudar muito mais do que eu...
— E daí? Eu sou rico e podemos ter uma baba para cada filho enquanto vamos para a Universidade...
— Filhos? Acha que dá para ter filhos enquanto estudamos? E depois, quando eu comece a trabalhar? Quem vai ver as crianças?
— Não precisa trabalhar. Pode colocar o canudo na parede, ficar em casa passeando os meninos e me esperando com uma camisola transparente para me seduzir... E olha que quero ter uns 8 deles...
— Você é doido... Nem me conhece bem... O que sabe de mim, afinal?
— Hum... Linda, inteligente, doce, terna... E é apaixonada por mim como eu de você. O que mais é necessário para sermos felizes? Dá-me um beijinho, vai...
— Nem tem curiosidade de saber com quantos homens eu namorei?
— Amou algum desses palhaços?
— Só um... E tenho um filho de 4 anos... Sinto muito...
— NÃO VAI ME DIZER QUE ELE É FILHO DO PATIFE DO RAUL!
— Claro que não... É de meu primeiro namorado... Ele sumiu da cidade assim que soube da notícia, nunca conheceu o menino, nunca deu pensão, nem sequer sei se ele está vivo...
— Me perdoe, querida. Não quis magoar você, juro que vou adorar ser marido e pai ao mesmo tempo... E meus pais vão ser os melhores avós deste mundo, acredite...
E Suzana começou a chorar. Chorava numa mistura de alegria, vergonha de ser mãe solteira, e por seu triste passado de desprezo e abandono, pelo antigo namorado.
— Acalme-se meu amor... Seu tempo de sofrer acabou e o meu também. Vamos ser felizes até o fim de nossas vidas... Se você nunca me trair é claro, e já vou dizendo, eu sou ciumento. Se chegar perto do Raul, eu vou surrá-lo...
— Palhaço! E eu sou mais ciumenta ainda, se chegar de perto dessa magricela de novo, eu vou bater nela...
— Que magricela? Eu nunca olhei para nenhuma mulher...
— Depois que nasceu meu filho, eu nunca mais gostei de ninguém, até que vi você ao lado do Raul.
— Vamos esquecer o passado? Vamos casar? Quero-a na minha casa agora. Vai se mudar hoje, e vamos casar amanhã no cartório, com meus pais de testemunhas.
— Mas, e a festa? O vestido de noiva? O padre na igreja?
— Hum, vamos fazer diferente... Casamos no Cartório, depois do casamento lhe compro todos os vestidos que quiser e vamos para a Igreja a casar diante Deus, sozinhos, frente ao altar. Ao padre o convidamos para jantar com meus pais e aos amigos preparamos um churrasco no jardim de casa, num fim de semana... O que acha?
— Que você é doido... Nunca conheci um homem como você... Não consigo encontra-lhe nenhum defeito. Mais parece um príncipe encantado que entrou na minha vida e eu uma Cinderela que o adora e...
E na falou mais nada.
Sua boca foi calada com um beijo suave, terno, enquanto os braços de Raul a cingiam com firmeza. Amaram-se no carro e depois foram até a casa de Suzana a fazer a mudança.
Chegaram à casa de Ricardo na hora do jantar. Depois das explicações e das apresentações de Susana, seus pais choraram emocionados, pois a nora era belíssima, sorria como um anjo, e os olhos do filho estavam brilhantes de tanta felicidade. Quando abraçaram o menino de quatro anos foi pior ainda, pois o guri os conquistou apenas com um sorriso.
E Ricardo lhes perguntou, enquanto os abraçava a ambos:
— E daí? Gostaram de minha esposa e de meu filho?
— Adoramos, meu querido... Você não poderia ter escolhido mulher melhor para casar...
E os velhos limparam as lágrimas de emoção, sorrindo.
Afinal, o filho deles era um homem muito mais homem de que todos os machos que conheceram numa longa vida.
Mas a verdade mesmo, é que Ricardo era o filho primogênito de Tara e Ivan.
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