Notas iniciais
Nos meses que se seguiram, ela foi internada num hospital, esvaecida. Dias após teve um derrame cerebral, em seguida uma parada cardíaca e finalmente expirou enquanto dormia na solidão dos doentes terminais. Bebel se debruçou chorando por cima da cama, pois não teve tempo de falar com ela antes de morrer. Depois, acompanhou o velório, o enterro, com os olhos vermelhos de tanto chorar. No outro lado da vida, um espírito veio ao encontro de Adriana para recebê-la. Depois lhe falou que viajariam para outra dimensão do Universo, onde o homossexualismo era normal entre os seres humanos e, em cujo lugar, poderia casar com Bebel e serem felizes pela eternidade. Em seguida, elas entraram num túnel verde com luzes amarelas, e viajaram de mãos dadas.

Aqui na Terra, duas lésbias passavam por um drama terrível. Adriana, uma arquiteta de 36 anos estava com AIDS avançado, às portas da morte e sua namorada tinha-a abandonado para não se contaminar com a doença. Sozinha numa igreja, Adriana elevou uma prece e pediu que na próxima reencarnação Deus as juntasse de novo, pois ambas se amavam com ternura.

Mais calma Adriana saiu para rua perdida nos seus pensamentos.

E lembrou-se do passado: abusada aos treze anos por um parente, ela havia fugido dos homens como se foge do demônio. A dor terrível que sofrera a atormentava através de pesadelos horríveis, e a felicidade e a paz de espírito só a havia encontrado depois que foi viver com Bebel num apartamento pequeno. Ambas haviam vivido dez anos de muita felicidade, comunhão, e sucesso profissional. Agora, sozinha de novo, nem sabia o que ia ser de sua vida.

Nos meses que se seguiram, ela foi internada num hospital, esvaecida. Dias após teve um derrame cerebral, em seguida uma parada cardíaca e finalmente expirou enquanto dormia na solidão dos doentes terminais. Bebel se debruçou chorando por cima da cama, pois não teve tempo de falar com ela antes de morrer. Depois, acompanhou o velório, o enterro, com os olhos vermelhos de tanto chorar.

No outro lado da vida, um espírito veio ao encontro de Adriana para recebê-la.

Depois lhe falou que viajariam para outra dimensão do Universo, onde o homossexualismo era normal entre os seres humanos e, em cujo lugar, poderia casar com Bebel e serem felizes pela eternidade. Em seguida, elas entraram num túnel verde com luzes amarelas, e viajaram de mãos dadas.

Numa outra Dimensão, no Mundo “X” do Sistema BETA, Adriana ficou a sós, sentada na Lua, onde dava para ver de longe o novo planeta com clareza. Era verde azulado e uma corrente de poeira luminosa girava ao redor dele. Enquanto observava tudo, foi rodeada por almas brilhantes que lhe mostraram seu novo mundo mais de perto, contando-lhe em detalhes como era a sociedade humana naquele lugar. Soube que não existiam doenças mortais, nem miséria, e muito menos guerras nem genocídios. Havia nesse mundo três sexos, masculino, feminino e hermafrodita, que eram pessoas que nasciam com os dois sexos (vagina, pênis, mamas e testículos). As hermafroditas nasciam estéreis, mas, podiam adotar uma filha hermafrodita, de algum casal que o desse para adoção.

E um dia, ela encarnou novamente, com um corpo diferente.

Ela nasceu como a quarta filha de um casal rico, que possuía 50 hotéis de luxo, e viviam viajando com os filhos em períodos de férias fantásticas. Adriana nasceu branca de cabelos negros, e seus pais a amaram tanto quanto os outros filhos. Vestiram-na com as roupas de seu sexo, todo azul, como mandavam as leis desse mundo. E cresceu entres seus irmãos que tinham cabelos vermelhos e loiros e que se vestiam com roupas coloridas, sem saber do motivo pelo qual ela era a única de azul.

Foi na escola que ela finalmente soube de suas diferenças de sexo e de seu destino, ela teria que um dia namorar, ou casar, com outra hermafrodita, ou ficar solteira para sempre, pois os homens gostavam de casar com mulheres férteis para ter muitos filhos. E as mulheres daquela escola eram promíscuas, na opinião de Adriana, pois beijavam os meninos dentro e fora das salas de aulas.

Quando Adriana entrou na Universidade, ela finalmente reencontrou Bebel. Ela nascera morena igual ela, era magra, possuía cabelos negros até a cintura, e estava vestida com um terno azul-claro. Assim que ficaram frente a frente, Adriana sorriu e soube que ela seria o grande amor de sua vida. Nos dias seguintes, elas fizeram amizade, e um dia foram a namorar num motel, próprio para hermafroditas, todo pintado de azul. Como ambas eram virgens, descobriram pouco a pouco que se podiam amar de diferentes formas, alternando os papeis. Podia-se ser homem durante a relação, ou mulher, pois ambas possuíam órgãos femininos e masculinos.

Depois, esse namoro virou rotina. Adriana e Bebel passavam o fim de semana viajando para lugares distintos, sempre se hospedando em hotéis de luxo, onde se amavam e juravam amor para toda a vida.

E a felicidade teria sido eterna, se Bebel não tivesse enganado Adriana com outra hermafrodita. Numa tarde ensolarada e quente, Adriana as encontrou se beijando num laboratório da Universidade. Para cúmulo Bebel nem fez questão de pedir perdão nem de reatar o namoro com Adriana. Mudou-se para a casa da outra hermafrodita e tempo depois foram viver numa outra cidade.

Arrasada e chorando muito, Adriana recebeu os sábios conselhos de sua mãe:

— Esse seu sexo é assim mesmo, querida. Não há fidelidade entre as hermafroditas, nem antes nem depois de casar. Somente os casamentos entre homem e mulher são fiéis, meu anjo. Eu perguntei ao seu médico se há possibilidade de uma cirurgia para você transformar-se em mulher, e ele me disse que sim. Você tem colo, útero, trompas, ovários, que podem ser acionados com um amadurecimento especial a base de hormônios femininos. Depois, poderia se apaixonar por um homem, ter filhos e ser feliz como eu.

— Eu morro de medo deles, mãe... Eu fui abusada na vida anterior... Não consigo nem chegar perto de um homem.

— Mas a vida passada foi há muito tempo e você nasceu de novo para perdoar, esquecer, e tentar o amor verdadeiro de novo. Experimente um macho, meu bem, que desta vez vai ser diferente, pois estamos numa sociedade maravilhosa. Vá a uma festa, pois ali rola muita coisa. Há homens solteiros que gostam de uma hermafrodita para variar de experiências amorosas. Conheça um homem e se mudar de ideia fazemos uma cirurgia. Seu primo sempre a convidou para sair com ele. Aproveita. Ele gosta muito de você. Vá com ele num festão e namore alguém, ou namore com ele mesmo.

— Ernesto? Esse grosseiro? Prefiro ficar solteira a vida toda, mãe...

Mas Adriana caiu numa armadilha mais uma vez, igual à sua vida anterior.

Um dia em que estava sozinha na casa de praia, deitada num sofá olhando a TV, Ernesto apareceu de surpresa, com ela sem ter para onde fugir nem para quem pedir socorro. Ele simplesmente entrou em casa, sentou do lado dela, e esticou o pescoço para beijá-la. E sem pedir licenças, ele acariciou os seus cabelos, beijou-lhe o pescoço, tudo com tanta ternura que parecia incrível. Bebel era ansiosa, mordia-a às vezes, e seus braços eram de aço. Ernesto, o machão de quem tinha tanto medo, era terno, sensual e seus braços a acariciavam, na espera que ela correspondesse aos seus carinhos.

E Adriana se deixou amar. Deitados sobre a alfombra, Ernesto a namorou até que dormiriam abraçados no chão.

Assim que Adriana acordou, Ernesto já tinha um café pronto numa bandeja, e com vontade de namorá-la o dia todo, perdidos nessa sala aconchegante.

Quando se passaram 15 dias sem fazerem nada além de namorar e comer pastilhas especiais que evitavam perder tempo, comendo e indo para o banheiro, Ernesto a pediu em casamento.

— Mas eu não quero ser mulher... Gosto muito de mim assim como sou.

— Tá bom... Não vou pedir de novo... Mas, só podemos casar se vocês mudar, se assumir o sexo feminino. Você já sabe disso.

— Me dá um tempo para pensar?

— Tá bom... Dá-me um beijo?

Dias depois, Adriana pediu o iate para seu pai e viajou sozinha pelo mundo.

Durante esse cruzeiro pelo mar, ela namorou mais uma vez um homem, para tomar uma decisão. Convidou o seu piloto de bordo para seu camarim, e se preparou para saber se todos os homens eram doces e ternos como seu primo.

E o piloto era ainda muito mais doce, tenro, gentil, e gostava de conversar. Seus beijos eram delicados, e seus braços a cingiam com ternura.

Ao nascer do Sol do dia seguinte, Adriana estava radiante. Os homens deste mundo em nada se pareciam aos homens de sua vida passada, que maltratavam as fêmeas, as matavam, torturavam, numa mostra de superioridade entre os sexos. A brutalidade masculina, naquele lugar, só era conhecida através de histórias de ficção na biblioteca da Universidade. E Adriana havia lido muitas, principalmente da Terra, que era classificada nas aulas de Cosmologia como um “Mundo selvagem”.

Chamou sua mãe pelo telefone, e contou-lhe que ia se internar para fazer a cirurgia de reversão, assim que abandonasse esse navio. Sua mãe lhe deu o endereço de uma ótima clínica e prometeu se juntar com ela em poucos dias.

Antes de fazer a operação, os médicos pediram-lhe escolher sua nova aparência. Decidiu ser ruiva de olhos celestes, e sua pele levemente morena. Ela foi estendida por cima de uma cama verde, foi adormecida, e uma equipe médica mudou seu corpo por fora e por dentro. Amadureceram seus óvulos femininos com massagens suaves e injetaram hormônios no útero para amadurecê-lo e tomasse sua forma definitiva. Depois extirparam o pequeno pênis, e alongaram sua vagina mais cinco centímetros, até atingir o colo para em seguida abrir uma passagem para o útero. Outro médico abriu uma passagem no útero em direção das trompas, e as uniu aos ovários.

O tempo de cicatrização entre todas as ligações internas durou 8 dias, com Adriana dormindo, para não atrapalhar o processo.

Quando acordou viu sua mãe chorando ao seu lado, seu pai com os olhos úmidos pela emoção, e todos seus irmãos ao redor de sua cama, como se ela estivesse nascendo mais uma vez.

Dentro de um dormitório cheio de flores, Adriana soube finalmente de sua transformação completa. Havia espelhos por toda parte, onde podia admirar sua beleza de fêmea. Com uma camisola decotada percebeu que seus seios haviam crescido, seus quadris estavam mais largos, e um dia seu cabelo cresceria até a cintura como o de sua mãe e suas irmãs. Seu útero doía um pouco, por tanto se recostou na cama, e tentou fechar os olhos.

E foi ali que uma médica lhe anunciou a visita de seu noivo.

— Mas, eu não tenho noivo...

— E quem é o mastodonte que esta revirando tudo, perguntando como foi à cirurgia, se vai poder ter filhos, se esta pronta para casar, enfim. Ele está enlouquecendo todo mundo com perguntas...

— Deve ser meu primo Ernesto...

— Haja primo, hem... Case com ele Adriana. Ele é um macho fora de série... Muito másculo...

— Conheço a masculinidade dele. Trancou-me em casa durante duas semanas e me namorou sem descanso...

— Nossa! Você é uma mulher de sorte, querida... Case com ele, que vai acordar todas as manhãs de sua vida com um sorriso amplo na boca... E se prepare que vida de mulher é cansativa, além de namorar o marido a gente cozinha, lava, passa roupa, dá de mamar aos filhos, enfim...

E adormeceu sorrindo. Quando sentiu uma boca percorrendo seu pescoço soube que Ernesto estava ao seu lado. Parecia incrível, ele estava chorando, pensando que tudo havia sido por causa dele, ou melhor, por amor a ele. Percebeu pela primeira vez como ele era lindo, com olhos verdes, cabelos castanhos e a boca era grande, gulosa, viciada em beijo. Desta vez, ela o abraçou ao pescoço e se beijaram longamente.

Depois Ernesto partiu.

Após o casamento, eles foram para o iate de Ernesto que estava pronto para zarpar, com um piloto muito velho e sua esposa, que os serviria na cama durante o cruzeiro pelo mar. Mas antes de partirem nessa viagem, abraçados na coberta do barco, Ernesto pediu-lhe seu perdão.

— Perdão? Você só me fez feliz até agora...

— Mas na outra vida passada eu a abusei com 13 anos. Eu tive essa visão através do “Espelho falante”.

— Foi você? Mas, porque é que fez isso comigo?

— Por amor... Se eu tivesse tido uma chance de você me perdoar, teríamos casado e formado uma família da mesma maneira... Afinal eu só tinha 16 anos, se lembra?

— Eu não sei se lhe dou um soco ou um beijo. Afinal, me namorou sem pedir licença durante duas semanas nesta vida também...

— E é possível que na próxima reencarnação, vou fazer isso pela terceira vez... Eu perco a cabeça assim que você fica em frente de mim... Eu sou louco por você...

— Acho que não vai ser tão terrível assim... Já não tenho mais medo dos homens...

Adriana o abraçou ao pescoço e beijou docemente desvanecendo lhe suas lágrimas de arrependimento.

Já na suíte desse barco, se amaram dia e noite, pois a fome de amor não tinha tempo para terminar. Tomavam banho numa hidromassagem, onde o chamego dentro da água continuava, comiam banquetes pela manhã com frutas, sucos, leite, doces, para renovar as energias e poder ficar na suíte do barco na eterna roda de amor. Olhavam filmes na TV de vez em quando, mergulhavam no mar quando estava ancorado, e assim que chegavam numa praia corriam entre as ondas do mar quais guris.

As coisas começaram a mudar, no dia em que Adriana começou a vomitar e ter desmaios. Ela caiu nos braços de Ernesto quando saía do banheiro, onde vomitara todo o café da manhã e depois vomitou o almoço, desmaiando de novo. Ernesto pediu urgentemente o helicóptero para seu pai, através do rádio de bordo, e voaram para uma clínica.

Quando Adriana foi examinada embaixo de uma chapa de cor vermelho, os médicos viram o motivo de tanto mal-estar, havia no útero duas crianças de 35 dias crescendo uma ao lado da outra. Ernesto chorou de novo, abraçado nela, e depois foi chegando toda a família, de avião, helicóptero, carro, para ver a novidade. A mãe de Adriana derreteu-se em lágrimas, os irmãos também, pois iam ser os primeiros netos dessa família.

E Adriana nunca foi tão feliz como naquele dia em que se sentiu um pouco heroína. E depois desse dia, jamais se arrependeu de ter-se transformado, pois ser hermafrodita era bom, mas, ser mulher estava sendo ainda melhor.

Notas finais
E adormeceu sorrindo. Quando sentiu uma boca percorrendo seu pescoço soube que Ernesto estava ao seu lado. Parecia incrível, ele estava chorando, pensando que tudo havia sido por causa dele, ou melhor, por amor a ele. Percebeu pela primeira vez como ele era lindo, com olhos verdes, cabelos castanhos e a boca era grande, gulosa, viciada em beijo. Desta vez, ela o abraçou ao pescoço e se beijaram longamente. Depois Ernesto partiu.