Historias de amor
11 Adormecido
Notas iniciais
Num dia de festa, Sílvia se encontrava preparando a maionese quando o telefone tocou insistentemente. Foi atender e em seguida caiu dura no chão com a notícia que recebeu do outro lado da linha.
Seu marido, que estava chegando, veio a socorrê-la. Tomou-a nos braços, colocou-lhe uma toalha molhada na testa e esperou que saísse do desmaio:
— Que aconteceu, meu amor?
— Chamaram do hospital... Marquinho teve um acidente de carro... Está grave na UTI...
E começou a soluçar abraçada no seu marido, pois seu único filho podia vir a morrer a qualquer momento.
Enquanto a empregada avisava os amigos que a festa estava cancelada, Sílvia e Mariano saíram para o hospital, ainda chorando muito. Chegando lá, Sílvia desmaiou de novo quando viu o filho cheio de mangueiras, em estado de coma profundo. Depois foram chegando os amigos íntimos, rodeando o casal, todos se perguntando do por que dessa tremenda desgraça.
Abraçado à sua mulher e rodeado de seus amigos, Mariano se lembrava do filho correndo atrás de uma bola, cheio de vida. Agora vê-lo deitado numa cama sem se mexer o deixava revoltado. O que é que iam fazer? Levar o menino para os Estados Unidos, numa tecnologia mais avançada? Trazer um especialista da Europa? Afinal, de que servia ser milionário se nada podia fazer pelo seu filho?
E dia após dia, Marquinho foi melhorando das feridas do corpo, seus ossos cicatrizaram, recuperou a saúde no geral, mas, nunca mais saiu do estado de coma. Era como se ele não quisesse acordar nunca mais. E pouco a pouco, perceberam que tê-lo no hospital não resolvia nada.
Por esse motivo, Mariano e Silvia montaram uma sala especial em casa e contrataram uma enfermeira especializada. Compraram aparelhos para mantê-lo vivo, e escolheram um horário entre eles para estar sempre ao lado do filho, tanto de dia quanto de noite. Depois fizeram adaptações numa cadeira de roda, onde Marquinho era sentado com a cabeça firme, recostado num almofadão macio, com os braços e pernas confortáveis por cima de outros almofadões. Ele não abria os olhos, nem mexia o corpo, mas tomava Sol, ou ficava na sombra entre as plantas do jardim.
E os dias começaram a rolar sempre igual. Mariano e Silvia se revezavam cuidando do filho, lendo historinhas, fazendo-lhe carinho, passeando com ele, sem que nada tirasse Marquinho do coma profundo.
Um dia, enquanto Silvia lia para ele “Aladim” na beira da piscina, chegou sua amiga Ana, recém-chegada da Europa:
— Que bobagem, menina. Esse guri não escuta nada em onda BETA!
— Ah, é? E é médica por acaso?
— Se fosse médica, eu o teria no hospital, numa sala fria, sozinho, morrendo um pouco a cada dia. Como não sou, cheguei aqui para te ajudar a acordá-lo. Na França fiz um curso de Parapsicologia, conheci gente incrível, como um guru da Índia!
— E o que é que te ensinaram, afinal?
— Bem, para começo de conversa, a mente possui vários degraus, agora estamos em Beta onde operam os sentidos da audição, visão, olfato, tato, mas, depois existe Alpha, que é a semiconsciência, quando a gente começa a se desligar da realidade e entra no sono. Marquinho está preso nas profundezas, num lugar que não nos escuta, não sente nosso contato, e ele não quer acordar. Se quiser eu te ensino a entrar em Alpha e tentamos falar com ele, o que achas?
— Ótimo... O que vamos fazer?
— Hum... Trouxe de tudo, menina, incenso, velas, música mística, só vamos levar Marquinho para a sala e te mostro tudo.
Quando Mariano chegou, caiu na gargalhada, pois sua mulher e sua amiga dormiam que nem anjos deitados no chão, aliás, até roncavam. Acordou-as sem parar de rir, e ficou chateando-as por longo tempo. Depois, na hora do jantar, Ana continuava a insistir que um paranormal conseguia entrar em Alpha, falar com Marquinho lá no fundo da inconsciência, e convencê-lo a voltar para a realidade e retomar sua vida interrompida.
Quando Mariano deu-se para si mesmo 30 dias de férias, deixando seu melhor amigo no comando de sua empresa, Silvia pediu imediatamente uma viagem para a Índia. Queria levar Marquinho até um guru daquele país, para se comunicar com seu filho. E o que parecia uma piada, pouco a pouco, foi se tornando um caso sério. Mariano fez um trato com ela, se não encontravam um médico europeu que curasse o menino, eles seguiriam caminho para a Índia. Reservou passagens para a enfermeira de Marquinho, teve que pagar uma passagem diferenciada, pois o filho viajaria num compartimento especial no avião e marcou escalas em vários países da Europa para consultar outros especialistas. Depois, deu uma festa de despedida para os amigos em casa, e partiram em busca de uma cura. E todos lhes desejaram sorte e sucesso nessa empreitada.
E como nenhum médico europeu fez o milagre de tirar o filho do coma profundo, rumaram definitivamente para a Índia.
Foi em Nova Delhi que eles finalmente encontraram uma esperança para o filho.
Havia nessa cidade um guru que entrava em transe e também possuía o poder de hipnotizar pessoas. Através de um intérprete, Mariano conseguiu falar com ele, e explicar a doença de seu filho. Depois, com o coração acelerado, levaram o indiano para o hotel, e depois ficaram olhando para esse estranho sujeito desde longe. Ele sentou-se no chão na beira da cama, tomou a mão do menino, e entrou em transe profundo.
O que aconteceu depois nunca se soube na verdade, pois o guru ficou convertido em estátua de pedra durante 4 dias, sem mexer um músculo sequer, indiferente aos movimentos da enfermeira que alimentava o menino, nem de Silvia e Mariano que espionavam de longe a toda hora. Ninguém escutou a conversa telepática através de imagens mentais que Marquinho e o guru travaram. Conversa que tratou de tudo, mortalidade infantil, assédio sexual com menores, espancamentos, suicídios, injustiça, ou seja, todas as excentricidades da vida que empurra a juventude a beber demais, ter comportamentos suicidas e ficar no estado vegetal, onde ficam as pessoas que nunca mais querem saber nada com a realidade.
Mas a lembrança da família, dos amigos, de seu lar, colocados com imagens mentais do guru, deram coragem a Marquinho a voltar de sua viagem para o inconsciente e a enfrentar a vida com todos seus defeitos, mais uma vez. A vida não era fácil para ninguém, nem para rico nem para pobre. Isso ficou bem claro para Marquinho, e um dia, ele foi mexendo braços, pernas, enquanto um calor percorria seu corpo, como uma energia que o invadia e queimava. E, finalmente ele abriu os olhos e reconheceu seu pai.
Mariano pulou no pescoço de seu garoto chorando como uma criança, enquanto Sílvia chorava abraçada a ambos, agradecendo a Deus lá no alto pela graça recebida. O guru ficou observando-os com seus olhos penetrantes, negando-se a receber dinheiro, ofendido. Depois se retirou do hotel, enfrentando a mídia como um herói, pois a cidade inteira sabia do fato.
Dali para frente eles se dedicaram finalmente a passear. Frequentaram templos, visitaram feiras de artesanatos para levar aos amigos, e Mariano fez caridade em todo lugar. Cada vez que um grupo de crianças os rodeava, ele repartia dinheiro, como pagando pela graça recebida nesse país magistral. Amaram a Índia com seus mistérios desde o fundo do coração.
Marquinho demorou um pouco para deixar a cadeira de rodas, por causa da fraqueza generalizada, mas, à medida que as comidas o fortaleciam, ele foi ganhando firmeza, e antes de voltar para o Brasil caminhava abraçado aos pais, sorrindo o tempo inteiro. Agora já perguntava pelos amigos, pelas gatas, e queria voltar para a escola com ânsia para ver todo mundo.
No aeroporto, Ana e os amigos do casal esperaram ansiosos a chegada desse avião. Depois Ana se abraçou na amiga chorando abraçadas por longo tempo. Marquinho não parava de falar para os amigos do que trazia nas malas, um presente para cada um, pois tinha até elefante de marfim, para ser entregue a todos eles. Mariano pela sua vez preferia sorrir, agradecer a todos pela acolhida, e convidou a todo mundo ir para casa a uma festa “improvisada”. Mais ou menos 200 amigos que partiram em caravana pela cidade buzinando, fazendo farra, pois aqui no Brasil, a mídia nada sabia do guru da Índia, nem dos milagres que os paranormais fazem, de vez em quando, agindo anonimamente.
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