Historias de amor
3 Mulher solteira
Notas iniciais
Num planeta do Sistema GAMA, Fabiana estava encrencada mais uma vez. Era a quadragésima vez que ela recusava um pedido de casamento e seu namorado estava abalado, pois não podia entender. E ele perguntou:
— Tem algo de errado comigo?
— Não. Você é o homem mais lindo que já namorei, mas não amo você o suficiente para casar, me desculpa...
— Você está no mundo errado meu bem... Está querendo um primitivo? Um macho cruel e sanguinário?
— Claro que não! Eu estou desconcertada, é só isso...
E ele saiu furioso, dando um golpe na porta.
Depois que seu namorado foi embora, Fabiana entrou na depressão mais uma vez. E se perguntou a si mesma: –“Como é que uma mulher nascida em “F” de GAMA podia saber o que era o amor verdadeiro?” Nos Mundos Selvagens havia homens lindos e feios, inteligentes e burros, assim era fácil amar alguém. Era só procurar a fórmula certa. Agora em “F” onde todos os homens tinham corpo perfeito e cara de anjos, ou de deuses, como é que se podia escolher? Ela havia namorado com 40 homens e todos eles eram maravilhosos. Na verdade, ela casaria com todos eles. Mas isso era ridículo, em “F” o matrimônio era entre duas pessoas, pela eternidade de todas as vidas.
Horas mais tarde, sua mãe tentou dar-lhe conselhos, mais uma vez:
— Escute, filha, se nunca casar e morrer solteira, na próxima reencarnação, você vai repetir os amantes, e assim por diante. Um dia vai nascer em “A”, de ALPHA, no fim de nossa evolução e vai ficar sozinha pela eternidade, meu anjo...
— Existe outra saída, mãe?
— Claro! Enfrentar a BESTA de novo. Nascer como um animal...
— Que horror! Não seria melhor conhecer um primitivo numa guerra?
— Mas a guerra é o serviço do “Mundo dos guerreiros”! Nós somos uma sociedade dedicada ao “Lazer e ao amor”... Nosso trabalho é apenas ser feliz!
— Mas é isso que vou fazer, mãe. Vou me alistar no exército e procurar um primitivo. Depois regresso com 50 netos. O que acha?
— Filha, eles são feios! Eu me nego a receber netos cheios de cabelos e com cara de macacos...
— Mãe, eu sou cirurgiã plástica, esqueceu?
Em seguida, mãe e filha começaram a gargalhar. Afinal, elas eram lindíssimas, corpo afrodisíaco e nesse mundo não se conhecia o rancor. Apenas a dor da separação, que deixava a mãe de Fabiana triste pela sua partida.
No Mundo da Guerra, e bem longe de Fabiana, o Comandante Estevão estava arrasado e com dor de corno. Havia passado cinco anos estudando para Comandante em “B” de GAMA e regressado com o maior anel de noivado da Galáxia, para dar a sua noiva de infância. Mas o destino cruel havia colocado um marido de “outras encarnações” na vida de sua noiva. E ela se havia casado com o outro, é claro. Para piorar a situação, a missão “Z” de BETA estava em suas mãos, queimando com um pesadelo. Tinha que selecionar 50.000 guerreiros, marcar a data da partida, escolher seus tenentes, e não havia tempo para o lazer, para o amor, nem para nada. O que ia fazer? Foi ali que recebeu uma mensagem telepática, informando que havia 100 voluntários vindos de outros mundos superiores, metade homem e metade mulher para se alistarem na tropa, todos solteiros. Sorriu com ele mesmo. Essas voluntárias vinham todas em busca de um macho de verdade, pois nos mundos superiores só havia bonitão. Estava começando a se consolar. Revistaria todas as fêmeas em pessoa e escolheria a mais gostosa para ser sua assistente particular, e depois ia seduzi-la com ardor. Saiu sorrindo do bar, um pouco bêbado de tanta cerveja.
Fabiana partiu de seu mundo, congelada numa nave em forma de cápsula, na velocidade do pensamento, como uma bala primitiva. Quando chegou em “L” de GAMA, o planeta dos guerreiros, foi retirada com cuidado, descongelada, e levada para internamento. Recebeu tratamento de luz, calor, frio, micróbios de “L”, e quando seu corpo estava aclimatado ao seu novo mundo vestiu seu uniforme e foi levada à Base Lunar para conhecer o Comandante de tropas. Como sua cintura era mínima e o uniforme se colava nela como uma luva, cruzou os corredores chamando a atenção de todos os homens com sua extraordinária beleza.
Quando entrou na Base Lunar, ficou arrepiada, pois os guerreiros eram homens com mais de 2 metros de altura, fortes, musculosos, vestindo uniformes de cores variadas conforme o cargo. Os tenentes eram dourados e prateados, os sargentos eram azuis e os soldados trajavam a cor laranja, como ela mesma. Quando viu a figura do Comandante todo vestido de branco, ficou atônita. O sem-vergonha revistava as voluntárias com cara de lobo a ponto de comer sua presa. Cinicamente, devorava todas com o olhar. Para mais surpresa, assim que a viu, na frente, abraçou-a, e imediatamente a nomeou sua assistente particular. Teria que cuidar dele, passar o dia todo revistando a tropa e estar a sua disposição desde o raiar do Sol até o anoitecer. Ridículo! Para piorar sua situação, recebeu uma agenda de trabalho e uma caneta.
E seu tormento começou.
Subiu numa plataforma voadora, para ver as naves por dentro e por fora. Depois teve que revistar os dormitórios, as cozinhas, e só parou ao entardecer quando o Comandante a levou a um banquete com os outros voluntários, num jantar de boas vindas. Enquanto a festa transcorria, ele contou-lhe de sua vida e aproveitou para interrogá-la.
— Você é solteira desta vida, ou de todas as vidas passadas?
— De todas! Acho que eu nunca soube o que era o amor...
— Que ótimo! Imagina que minha noiva era casada de uma encarnação de um milhão de anos atrás e encontrou o marido enquanto ela era minha prometida, um ano antes de eu voltar para ela com um anel maravilhoso. Não gostaria de usá-lo? Ser minha noiva oficial?
— Não, Comandante. Já tive 40 namorados e nunca amei nenhum deles.
— Nossa! Um dia achas o homem certo, podes crer...
E dançaram até o amanhecer.
No dia seguinte, um grito telepático a acordou. Droga! A ressaca estava brava. Vestiu seu uniforme às pressas e abriu a porta. O Comandante estava com umas flores na mão e o sorriso cínico de sempre na boca, olhando-a com cara de guloso.
— Bom dia, princesa de todas as Galáxias! Aceita estas flores deste humilde lutador estelar?
— Onde pegou as flores?
— Na casa do Sacerdote, não são lindas? Mudou de ideia e hoje vai colocar o anel de noiva?
— Não, obrigada...
— Então, vamos namorar sem compromisso e podes me largar quando quiseres...
— Não, e não insista. Só aceito ser sua amiga. Só. Quer um chá de ervas?
— Quero. Depois vamos fazer reunião de estratégias de guerra e você vai ficar ao meu lado para me assistir. Em mais uma semana, estaremos no meio do espaço. Gostou?
-Adorei! E chegando a “Z” eu quero entrar em ação, eu vou para enfrentar os primitivos, viu?
Estevão sorriu! Era isso. Ela queria guerra e não amor... Nossa! Se dependesse dele, teria isso logo, logo.
Nos dias seguintes, ela teve mesmo que trabalhar. Estevão a enviava a revistar robôs, laboratórios, hortas, e ela tinha que escrever, pois ele exigia tudo escrito no final do dia. Ela não aguentava a dor nos pés todos os dias. Tinha que colocar gelo nos tornozelos, agulhas nos joelhos e nadar na piscina antes de dormir para relaxar.
No dia da decolagem, ela entrou na nave gigante e correu para dormir na sua suíte, cansada como nunca. Ela praticamente desmaiou, enquanto o Comandante dava instruções para decolagem, em 50 ondas telepáticas diferentes, para seus tenentes e o pessoal em terra que lhes deu um empurrão para a imensidão.
Voando no meio do espaço sua tortura continuou.
Estevão lhe enviava flores todos os dias, e desta vez, eram artificiais e nem dava para jogá-las fora. Seu dormitório parecia um jardim encantado. Além disso, ele lhe escrevia poemas de amor, e por telepatia a convidava a dormir na sua suíte com ele. E para acabar com tudo isso, ela foi até a danceteria, no 5º andar dessa nave gigante, em busca de um guerreiro para namorar e dar o fim nos assédios do Comandante.
O barulho do lugar era terrível! Para agravar a situação, haviam espalhado uma nuvem branca na pista de dança e mal dava para distinguir as pessoas. Todos falavam alto, dançavam, riam, e percebeu que não tinha nenhum pretendente ali dentro, pois o Comandante havia espalhado que ambos “tinham um caso secreto”. Furiosa, se encaminhou em busca dele.
Encontrou-o revistando a horta, com a cara de cínico de sempre. Para tornar pior, ele a agarrou pela cintura desta vez, beijou-a na boca e falou-lhe que estavam sozinhos e nem adiantava pedir socorro. Em seguida, começou a acariciá-la com doçura enquanto lhe falava o quanto a amava. Ele era louco por ela. Mataria mil primitivos para tê-la. E Fabiana foi sendo envolvida pela nevoa desse amor aos poucos. No fim do dia, estavam deitados sobre a grama dessa horta, sem data para terminar com o chamego.
Depois de muitos dias e muitas noites de amor ele se acalmou. O Comandante voltou a dirigir seus tenentes com telepatia, pois toda a frota sabia que ele estava na sua “Lua de mel” adiantada. E começaram a falar a viva voz pela primeira vez dentro dessas naves de guerra:
— Querida, você é simplesmente maravilhosa, afinal quantos amantes teve em outras encarnações?
— Acho que nenhum. Em todas as miragens, no espelho do templo, eu me vejo numa casa cheia de mulheres vestidas de negro.
— FREIRA! Nossa, você era casada com um Deus!
— Mas isso é ridículo! Não se pode casar com um espírito, e muito menos um Deus... Os primitivos não sabem disso?
— Não, eles são tão burros que confundem tudo. Nada sabem de como é a vida das almas... E nem acreditam na reencarnação...
— Está me chamando de burra?
— Só um pouquinho. Ou ainda não entendeu que seu medo ao casamento vem de sua fidelidade que jurou ao seu Deus, quando era freira?
— Nossa! E você o que era em outras vidas?
— Gay! Sempre fugi das mulheres como se fossem demônios. Acho que sempre fui solteiro e nunca soube o que é ter uma esposa e uma família... Nasci para ser macho desta vez...
Fabiana olhou fundo nos seus olhos azuis, e percebeu como ele era belo. E lhe disse:
— Quer que seja sua esposa e tenha uma dúzia de filhos com você?
— Só depois da guerra, meu amor... Por enquanto vai continuar a ser minha assistente, e vou beijá-la dia todo. E saíram abraçados, para se reunir com a tropa.
Dali em diante, eles almoçavam com os tenentes e depois iam até uma janela em meio de um jardim a olhar para as estrelas, abraçados, se beijando, e falando de coisas do dia a dia. À noite, iam jantar novamente com os tenentes, pois era nesses encontros que o Comandante falava com todos em ondas telepáticas. Depois iam ao cinema, ou a danceteria onde Fabiana era abraçada com duçura e dançavam músicas lentas. Enquanto isso era beijada no pescoço, na boca, numa alegria sem fim. Quando chegavam à suíte, namoravam até o dia clarear.
E foi assim que Fabiana soube finalmente o que era o amor. A ternura de Estevão, que a tratava como se ela fosse se desmanchar entre seus braços, sua mirada de adoração, seus beijos ternos, eram algo novo na sua vida. Nunca se sentira tão amada por ninguém.
Num dia de sonhos pesados, Fabiana se viu a si mesma de regresso para “F” de GAMA, sozinha, e seu Comandante MORTO em estado de espírito viajando a encarnar num outro Sistema, bem longe dela. Acordou chorando e se abraçou nele soluçando de dó. Estevão a abraçou, intrigado, e perguntou-lhe:
— O que foi meu amor? Quer terminar o namoro? Não está mais gostando de mim? Fala! Juro que não vou pular por uma janela para o espaço vazio...
— Palhaço! Isso é que você é! Se você morre, eu vou me suicidar e seguir você! Não tente fugir de mim, viu...
— Mas eu não vou morrer! Eu vou dirigir a guerra com telepatia. Quem vai à luta são os guerreiros! Só vão ficar aqui comigo as mulheres casadas, com um bebê recém-nascido, fazendo o serviço das naves...
— E só agora que me fala disso? Fez-me chorar e sofrer, seu malandro...
— Você queria ir à luta atrás de um primitivo...
— Eu apenas não sabia o que era o amor, só isso. Adoro você e quero engravidar, casar, e ser sua assistente pela eternidade...
— Já fiz metade disso. Faz três meses que você come mais do que eu... Daqui a pouco essa cintura vai desaparecer...
— Bandido! Você é pior que primitivo, me engravida e nem me pergunta se eu queria menino ou menina...
— Por isso mesmo que a engravidei de dois, um menino e uma menina... Os filhinhos vão ser os bebês mais lindos de toda a frota de guerreiros...
— Você sabia que é primeira vez que vou ser mãe?
Depois de chorarem abraçados por longo tempo, saíram a caminho do templo dessa nave para casar frente ao espelho, que refletia desde o outro lado uma “Imagem divina”, ou, um DEUS!
Na saída desse lugar sagrado, as pessoas lhes jogaram flores da horta por cima das cabeças, na maior festa improvisada dentro dessas naves de guerra.
E Fabiana e Estevão caminharam felizes entre os amigos. Próprios de quem encontrara o verdadeiro amor no meio da imensidão do espaço infinito. Afinal, a guerra para eles havia sido apenas um acaso que os unira pela eternidade dessa vida, e de todas as futuras vidas, que haveriam de encarnar junto aos seus dois filhos.
Fale com o autor