Histórias de um Mundo Sem Fim
2 [Shoujo-ai] Crush
Notas iniciais
Crush
Quando ela entrava na sala de aula, parecia que o ar-condicionado diminuía dez graus.
Era instantâneo. Assim que ela entrava na sala, eu me remexia toda na cadeira, procurando a posição mais confortável para me sentar, uma posição em que eu não sentisse tanto frio. E olha que dificilmente a sala ficava muito fria. Era tão normal brigarem por causa da temperatura — acho que em toda escola é assim, não é? — que acabavam colocando o ar quase em trinta graus para matar a gente de calor. Mas assim que ela entrava, parecia que eu estava no Alasca.
E eu ainda sentava na frente, bem nas primeiras carteiras. E ver ela ali andando na minha frente de um lado para o outro era ainda mais amedrontador. Minha coluna ficava arrepiada durante os cinquenta minutos em que ela ficava falando sobre como o Brasil foi explorado enquanto era colônia portuguesa.
— O Rei Luís VI saiu de Portugal e foi pro Brasil fugindo do Napoleão. — Então ela me encarava, aqueles olhos azuis penetrantes e muito, muito gelados, e dizia meu nome com uma espécie de ódio camuflado na fala: — Tá entendendo, Fernanda?
— Uhum — eu respondia, me sentindo numa geladeira, num freezer, melhor dizendo. Eu ficava completamente paralisada quando ela me olhava daquele jeito, aqueles olhos me deixavam com um medo tão, tão terrível que parecia que ela iria me fazer mal a qualquer momento.
Os olhos dela me deixavam numa espécie de alucinação que parecia misturar admiração e medo. Eu tinha medo dela. Acho que por causa da frieza. Acho não; tenho certeza.
Eram azuis, muito azuis, parecia uma piscina. Soa clichê, eu sei, mas é a única maneira que posso descrevê-los. Uma piscina congelada, porque a impressão que eu tinha quando eu a olhava nos olhos era de frio. Eu me sentia no Polo Sul, dentro de um iglu congelada até os ossos.
Me lembro quando ela ia entregar prova, e era uma tortura para mim porque eu nunca queria ir lá pessoalmente pegar das mãos dela. Eu sempre pedia a alguma das minhas amigas para pegar minhas provas ou trabalhos por mim.
— Por favor, Letícia, vai lá pegar pra mim, tô com preguiça de levantar da cadeira — eu dizia, fingindo alguma preguiça ou sono, coisas normais para adolescentes em pleno terceiro ano de Ensino Médio. Mas naquele dia, Letícia não estava muito a fim de levantar também, porque me respondeu com uma certa grosseria:
— Deixa de ser preguiçosa, Fernanda, vai lá você!
— Ah, tá bom.
Levantei a contragosto e fui até à mesa dela, minhas pernas tremendo de nervosismo. Eu cheguei bem perto dela, porque senti o cheiro do perfume dela, pude ver detalhes da pele dela — não que tivessem muitos, já que ela não era muito velha. Não tinha nem trinta anos, aparentemente —, e claro, consegui ver com ainda mais clareza os olhos azuis gelados que me encaravam durante quase toda a aula.
Normalmente, professores gostam de perseguir alguns alunos. Ela, por sua vez, me escolheu para ser sua vítima.
Ela nem tinha reparado que eu havia chegado perto da mesa dela, porque continuou rabiscando as provas de outros alunos com uma caneta vermelha — uma cor que não parecia nem combinar com ela, que era um poço de frieza.
— Ahm, fessora... — eu chamei ela timidamente.
— Ah, oi. — Ela tirou os óculos de perto dela e olhou bem na minha direção. Eu dei um passo para trás instintivamente, com medo daquele olhar ameaçador. Ela pareceu não reparar e voltou a analisar as outras provas. — Pera, vou pegar sua prova. — Ela folheou várias e várias folhas brancas, a maioria completamente rabiscada de vermelho, e parou em uma que eu sabia que era a minha por causa da letra. Ela tirou a folha do meio do maço de papéis e me entregou.
Assim que ela me estendeu a prova, eu sem querer, sem querer, toquei nas mãos dela. Ela não percebeu, e se percebeu, não ligou, mas eu enrubesci completamente. As mãos dela eram quentes. Achei estranho, porque as minhas sempre estavam geladas por causa do ar-condicionado. Mas pensando bem, o ar nem gelava tanto a sala. Eu nem prestei atenção na minha nota porque fiquei muito concentrada tentando rememorar o toque mínimo de nossas mãos se encontrando. E também nem prestei atenção nela me chamando de novo.
— Fernanda! — ela praticamente gritou no meu ouvido. Se tem uma coisa em que professores são ótimos é gritar nos ouvidos dos alunos. Eu, como sentava na frente, sabia exatamente como era. Outra coisa era a chuva de cuspe que alguns professores faziam. Felizmente, a Natália não era desse tipo. Normalmente só os professores mais velhos e desdentados gostavam de cuspir nos alunos. Às vezes eu tinha vontade de levar um guarda-chuva para as aulas deles. Para as aulas da Natália, eu só queria levar uma capa de invisibilidade do Harry Potter ou um casaco de peles.
— Oi, desculpa, fessora, o que foi?
— Minha aula vai acabar daqui a pouco, e eu não vou dar conta de entregar todas as provas. Entrega pra mim?
— T-tá.
— Que bom. Se sobrar alguma de alguém que faltou, vai lá na sala dos professores que eu vou ficar lá, tenho horário vago agora.
— Aham — sim, eu era monossilábica quando conversava com ela.
— Você não percebeu que fechou a prova? — ela me perguntou, levantando da cadeira e arrumando as coisas dela.
— N-não, eu tava pensando em outras coisas. — O sinal tocou assim que eu respondi.
— Opa, tenho que ir. Lembra, se sobrar alguma prova, vê se não esquece de me entregar, tá? — ela já estava de caminho para a porta quando me disse aquilo. Eu assenti ou respondi um okay (não me lembro bem porque existem tantas opções de respostas monossilábicas que eu até confundo) e ela foi embora.
Eu terminei de entregar as provas, mas era um inferno entregar provas durante trocas de horário, todo mundo levantava da cadeira para ir conversar com os amigos, e eu tinha que ficar andando pela sala inteira procurando as pessoas. Infelizmente ou não, sobraram duas provas de dois meninos que tinham faltado. Bom, um não tinha faltado, mas levado uma suspensão dada justamente pela Natália. A outra tinha pegado alguma coisa, zika vírus, dengue, alguma coisa desse mosquito safado, acho.
Eu sentei de volta na minha cadeira, com preguiça de ir para a sala dos professores entregar as provas restantes para a Natália.
— Letícia — novamente tentei terceirizar as tarefas com a minha melhor amiga —, leva essas provas pra mim lá na sala dos teachers — eu também tinha (ainda tenho, na verdade) o costume de misturar inglês com português. Mas acho que todo aluno faz isso, não é? E ainda reclamam das aulas de inglês.
Mas Letícia parecia estar de TPM naquele dia, porque mais uma vez me respondeu com um coice — de ferradura, ainda por cima:
— Puta que pariu, Fernanda, você tá com problema nas pernas? Não tá podendo andar? Daqui a pouco vai pedir pra eu ir no banheiro pra você! Vai você, aproveita que o Márcio ainda não chegou, porque se ele chegar, saiba que você só vai conseguir pedir pra sair da sala quando o horário acabar de tanto que aquele homem fala!
— Ah, tá bom, hoje você tá muito imprestável — eu reclamei, levantando da cadeira.
— Imprestável é seu cu, eu sou sua melhor amiga, você que tá muito preguiçosa.
Se a Letícia soubesse realmente o porquê atrás de querer pedir pra ela entregar as provas, provavelmente iria ficar me zoando. Ela não era preconceituosa que nem os outros alunos, mas que iria ficar me enchendo o saco falando da Natália e de mim o dia inteiro, ah, com certeza iria. Aposto que iria até me chamar no WhatsApp pra ficar falando besteira do tipo “EAE PUTA como é q tá a sua crush ultimate natalia?”.
Então eu mesma saí da sala — tive sorte de não esbarrar com o Márcio durante o caminho, porque se isso acontecesse, ele iria ficar me enchendo o saco também falando que eu tenho a bexiga solta ou que eu sou cagona e preciso sair da sala toda hora pra escorrer o aipim, e Deus me livre de passar por essa humilhação. Entre essa encheção de saco e a da Letícia, eu prefiro a da Letícia. Pelo menos ela não iria contar para ninguém.
Desci as escadas que levavam até o andar térreo e caminhei até à sala dos professores. Chegando lá, reconheci o cabelo bem curto e loiro — não oxigenado, loiro verdadeiro — da Natália. Entrei lá e fui em sua direção, com as provas na mão prontas para entregar a ela.
— Sobraram duas provas — eu disse baixinho, mas não era necessário. Só estávamos eu e ela na sala. Todos os outros professores estavam ou em aula ou tinham folga naquele dia.
— De quem? — Ela pôs a xícara de café dela na mesa e pegou as provas.
— Da Larissa, que tá doente, e do Pedro, que a senhora suspendeu — era estranho chamá-la de senhora, porque ela deveria ter no máximo trinta anos e no mínimo vinte e cinco. Mesmo assim, era costume meu de chamar os professores de senhor ou senhora em alguns momentos formais.
— Eu não suspendi ele, eu só mandei ele pra coordenação. A coordenadora que suspendeu — ela se explicou, mas eu não ligava muito. Eu sequer conversava com aquele garoto. Era um dos rapazes da “turma do fundão”, e como eu sentava na frente, só conversava com o pessoal de lá.
— Posso subir? — perguntei, mas uma parte de mim queria ficar ali, tomando café com ela.
— Pode. — Eu já tinha dado meia-volta até que ela me chamou de novo. — Espera, quem tá dando aula na sua sala?
— O Márcio.
— Você tem nota com ele?
— Tenho nota com todo mundo. — E era verdade. Só não eram notas boas. A única exceção, por incrível que pareça, era com a Natália. Acho que mesmo se eu errasse todas as questões de propósito, ela iria me dar dez no final. Às vezes parecia que ela me perseguia porque me odiava, mas às vezes parecia que eu era a aluna favorita dela, porque eu era a única que conseguia fechar as provas dela.
— Ele tá dando matéria?
— Não que eu saiba, ele disse semana passada que ia corrigir a prova dele no quadro.
— Ótimo! Preciso que você me ajude com uma coisa.
— O quê?
— Teve um trabalho dos meninos do primeiro ano, preciso que você me ajude a colar os cartazes na parede. — Estamos em pleno século XXI e professores ainda pedem aos alunos para fazerem trabalhos com cartazes. Lamentável. Porém, eu preferiria cabular a aula do Márcio para ajudar a Natália a chegar lá e ele me humilhar perante toda a classe, dizendo “Olha aí! Que pouca vergonha, viu? Matando aula! Nem pra esperar eu sair da sala pra voltar!”.
— Tá, eu ajudo. — Na verdade, eu apenas ajudaria a Natália porque era a Natália. Acho que se fosse a velha chata da Janaína, eu iria voltar para a sala. Pelo menos o Márcio era engraçado. Às vezes eu até ria de algumas humilhações que ele fazia comigo.
— Okay, vamos pro pátio, eu já separei os cartazes e o resto do material lá.
Nós duas saímos da sala, ela na minha frente e eu logo atrás. Enquanto eu andava, senti meu celular vibrar no bolso. Peguei ele, abri, e vi que era uma mensagem da Letícia, apelidada carinhosamente de “Demônia” no meu celular.
“onde vc tá????/ ta cagando??”, ela escreveu.
“tô no pátio”, eu respondi.
“c qm?”
“com a Natália”
“HMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM”
“?”
“vc e a natalia, aham sei”
“e daí?”
“vcs duas sozinhas no patio, aposto q tão aprontando rçrçrç”
“eu ainda não tô entendendo o que você quer dizer com isso”
“ah, slá, vc fica td sem jeito perto dela, parece q ta crushada nela. eu reparei hj qnd vc foi pegar sua prova c ela e vc ficou td timida”
“e se eu estiver?”
“smp soube q vc era viada”
Mandei um emoji de olhos revirados.
“como tá a aula do Márcio?”, perguntei, mudando de assunto.
“um cu”
“ainda bem que não tô aí KKKKKKKKK”
“aff sua disgraça, pimenta no zoi dos outro é bom msm, ne? aki, eu ja vou pq se o marcio ver q eu to usando cell na aula dele, ele vai mandar eu ir pra coordenação e eu n qro levar suspensão q nem o pedro, flwwwww”
“até daqui a pouco”
Desliguei o celular e percebi que já tínhamos chegado ao pátio. Havia algumas cartolinas coloridas, tesoura e fita adesiva sobre uma mesa. Natália separou o monte de cartolinas em dois e me deu as instruções:
— Você pega esses cartazes aqui — Ela apontou um dos dois montes de papel — e cola ali naquela parede. — Apontou para uma parede à nossa frente.
— Aham — eu simplesmente respondia a cada instrução que ela me dava.
Logo comecei a trabalhar; peguei algumas cartolinas e fita adesiva e comecei a colar os cartazes na parede. Parece algo fácil à primeira vista, simplesmente colar cartazes, mas eu demorei um pouco mais porque queria que ficasse perfeito, apenas para que Natália chegasse até mim depois e dissesse que fiz um ótimo trabalho. Não sei por quê, mas, àquela altura, receber um elogio dela era como poder comer chocolate o dia inteiro: algo muito prazeroso e que eu queria muito. Na verdade, eu trocaria todos os chocolates só para poder ouvir a voz dela.
A voz dela parecia ter textura. A voz dela se encaixava perfeitamente no que chamam de “aveludada”. Mas para mim, particularmente, a voz dela se assemelhava ao som que se faz quando pisamos em carpete com salto. Não era aguda demais, que nem a voz da múmia da Janaína, nem grave demais que nem a do Márcio. Ficava ali no meio, entre uma coisa e outra. E ela normalmente falava baixo quando não estava em aula — porque quando estava, pelo amor de Deus, era uma gritaria que parecia até barraco do Casos de Família. Às vezes, a voz dela ficava tão, mas tão no meio entre uma coisa e outra, que a voz dela ficava meio parecida com a de um garoto, dependendo das palavras, do tom e do volume que ela usava. Por outro lado, a voz dela conseguia ser, às vezes, uma voz de uma mulher sedutora.
Quando terminei meus afazeres, voltei até ela, que estava me esperando no sol escaldante no pátio. Era incrível como ela conseguia ficar cinco minutos no sol e já ficar com o rosto todo vermelho. Também era uma gracinha, devo confessar, parecia até o rostinho de uma criança. Os olhos dela ficavam ainda mais brilhantes com o sol batendo no rosto dela, mas mesmo assim eu ainda sentia um pouco de frio quando o olhar dela pairava sobre mim. Mesmo sendo bem simpática naquele dia, eu ainda tinha um pouco de medo dela. Mas quando Letícia me dissera na mensagem que eu poderia ter um crush nela, então pensei que o que eu realmente poderia estar sentindo por ela talvez não fosse medo, propriamente dito. Acho que estava mais para medo de agir feito boba perto dela ou de decepcioná-la.
— Terminei de colar — eu disse.
Ela olhou seu relógio e respondeu:
— Melhor você voltar pra sala, o último horário vai começar daqui a pouco. Quem vai dar aula?
Franzi as sobrancelhas, tentando lembrar.
— Acho que vai ser o André.
— André? Ele não trabalha hoje.
— Que dia é hoje?
— Quarta.
— Ah, não! É o Márcio de novo! Hoje ele tem dois horários seguidos, merda.
Natália riu da minha lamentação, achando graça.
— Melhor você ir, então.
— Você pode ir comigo? Sabe, se eu chegar lá, no meio da aula...
— Sei, sei bem como é. Ele já foi meu professor. — Não estranhei. Era comum ver professores meus que tiveram aulas com outros professores meus. Principalmente Natália, que era bem jovem, então era bem capaz de que ela realmente tivesse tido aulas com ele. — Tá, então eu vou com você.
Fomos juntas, em silêncio. O caminho era longo, e então parecia que cada metro que teríamos que percorrer fora multiplicado por dez. Meu coração batia mais rapidamente e com motivos óbvios: ela estava do meu lado. Então tentei puxar assunto.
— Onde você mora? — tentei soar natural, mas pensando bem, pareci soar como uma stalker.
— Na parte leste da cidade. — Felizmente ela não percebeu minha maneira robótica de iniciar um assunto com alguém. — Por quê?
— Ah, é que às vezes peço carona pra alguns professores. — E era verdade. Às vezes eu pegava carona com a insuportável da Janaína. Ela gostava de mim, coitada, mas eu a odiava. Ela ainda ia falando que nem um papagaio no carro, e eu tinha que fingir que estava ouvindo e concordar com as coisas que ela dizia. Felizmente, eu tinha encontrado ali naquele momento uma ótima candidata a me levar pra casa para eu não ter de andar uma maratona.
— Você também mora na parte leste?
— Aham.
— Bem, eu posso te levar, mas eu não sei se você tá acostumada a andar de moto...
Não estava. Eu até tinha medo, na verdade, mas só de imaginar que eu iria pegar carona com a Natália já me deixava doida, completamente ansiosa, contando os milésimos para o fim da aula. E só de imaginar que eu poderia ficar bem, bem perto dela, ainda mais perto do que eu havia ficado na aula, meu coração pulsava com tanta rapidez que parecia querer sair do peito.
Infelizmente, estávamos chegando à sala de aula. Natália bateu na porta, e Márcio rapidamente a abriu.
— Pois não? — ele disse, com sua voz de locutor.
— Eu tive que pegar ela emprestada. — Ela sorriu para ele, que sorriu de volta, olhando para mim. Dei um sorrisinho amarelo, mas só de imaginar que eu teria de voltar ao meu lugar com os olhares de outros dezoito alunos me encarando já me deixava com uma sensação desagradável, completamente oposta da que eu senti quando Natália me ofereceu carona.
Antes de entrar na sala, olhei para Natália, que assentiu para mim e me disse para encontrá-la no estacionamento quando a aula terminasse, e então ela saiu, fechando a porta.
— É, parece que alguém andou tendo uma diarreia no banheiro, viu? — como era de se imaginar, Márcio não me perdoou nem mesmo com as desculpas de que eu estava ocupada ajudando outro professor. Em resposta, a sala inteira riu, Letícia principalmente. Que amiga da onça. — Não quero nem ver como anda aquele banheiro feminino, cruz credo! — Mais risos foram ouvidos, e eu já estava vermelha por causa daquilo. Mas até foi engraçado, não pude segurar um sorriso após finalmente me sentar em frente à Letícia.
Então, longos cinquenta minutos transcorreram, e eu contando os segundos para que as horas se acabassem. Olhei no meu relógio: cinquenta minutos. Depois de cinco minutos, quarenta e cinco. Depois, mais cinco minutos se passaram com uma falação chata sobre como funcionava a função cosseno. Restavam “apenas” quarenta minutos. Tudo bem, quarenta minutos era nada mais nada menos que duas porções de vinte minutos, que por sua vez eram duas porções de dez minutos. Eu aprendi mais matemática dividindo o tempo na minha cabeça do que com as aulas do Márcio, na verdade.
O sinal bateu. Trrrrrrriiiiiiiim!
— Gente, vamos terminar por aqui, tá bom? — o professor falou. — Me lembrem que eu parei na página trinta e quatro do módulo dois, okay?
Uns poucos alunos responderam ao professor. Eu e Letícia não fomos essas poucas. Estávamos ocupadas demais tentando não dormir sobre nossas mochilas arrumadas cinco minutos antes do sinal bater.
— A-le-lui-a — disse Letícia, colocando sua mochila nos ombros e levantando-se. Eu a imitei, e seguimos para a saída.
— Adivinha com quem peguei carona hoje? — eu perguntei retoricamente. Aquela pergunta fora tão retórica que eu até imaginava como Letícia iria respondê-la.
— Sua cru... — Eu tapei a boca dela antes de ela terminar de falar.
— Cala boca, desgraça! Sim, essa pessoa aí! — Eu destapei a boca de Letícia.
— Imaginei. Ela vai de quê, de carro?
— Moto.
— Ui, você vai ir toda agarradinha nela! — Ela riu. Minha vontade era de pegar Letícia e jogá-la do segundo andar do prédio da escola naquele momento, principalmente porque outros alunos poderiam ouvir. Felizmente, estávamos a uma distância um pouco maior deles porque Letícia andava tão rápido quanto uma tartaruga.
— A Natália namora?
— Não.
— Noiva? Casada?
— Não que eu saiba, ela não tem nenhuma aliança nas mãos.
— Nossa, você reparou?
— Claro, querida, eu reparo tudo!
— Você acha que ela pode ser...?
— Por que não? Olha, ela é muito bonita. Acho até estranho ela estar solteira. Talvez pode ser. Ou talvez ela deu um fora em todos os carinhas que deram em cima dela.
— Acha que eu... sabe... tenho chance?
— Pffftt. — Ela riu bem na minha cara. Que amiga da onça! — Mesmo se ela for, acho difícil ela querer se interessar por uma pirralha dez anos mais nova que ela.
— Ela tem vinte e sete?
— Aham.
— Como você sabe tudo isso?
— Facebook, querida.
— Você tem ela?
— Claaaaro! Tenho ela, o Márcio, a Judite, o André, a Janaína (por incrível que pareça, aquela múmia tem Face!), tenho até a coordenadora Priscila.
— Daqui a pouco você tem até o Mark Zuckerberg, e eu não tô sabendo.
— Você tem que aprender a ser stalker, Nanda!
— Eu não tenho tempo pra isso!
— Mas aposto que vai ter quando chegar em casa, aposto que tu vai querer adicionar a Nat!
— “Nat”?
— É, querida, apelido pra “Natália”.
— Eu sei, mas de onde você tirou tanta intimidade assim?
— Ela é minha amiga no Face, não é? Então pronto!
Já havíamos chegado ao estacionamento. Os pais de Letícia estavam parados na porta e buzinaram para que ela entrasse. Ela se despediu de mim:
— Aqui, sua vaca, depois me chama no Whats pra me contar do seu rolê com sua teacher predileta, beleza?
— Beleza.
Letícia entrou no carro e ele partiu. Outros alunos também foram embora, eu os observando ir. No final, sobraram alguns poucos, e alunos que normalmente iam embora a pé. Imaginei que Natália tivesse se esquecido de mim e ido embora sozinha. Mas havia uma moto estacionada ali, então ela ainda estava no edifício.
— Ei, vamos? — uma voz surgiu ao meu lado. Era ela, já de capacete, chaves numa mão e outro capacete na outra.
— Aham. — Eu assenti.
Natália me ofereceu o capacete que estava em sua mão, e eu o coloquei na minha cabeça. Minha respiração ficou abafada, e minha cabeça pareceu pesar uma tonelada. Era muito estranho usar aquilo, porque eu estava acostumada a sempre andar a pé.
Ela subiu na moto, e eu subi na garupa. Eu já estava assustada. Não sei se era porque eu teria de tocar nela ou se era porque eu iria andar de moto, e aquilo por si só já me era aterrorizante. Natália pareceu perceber minha preocupação.
— Você tá acostumada a andar de moto?
— N-não.
Ela sorriu. Pude saber que ela estava sorrindo porque consegui ouvir um risinho através do capacete.
— Tudo bem, se sentir que vai cair, pode segurar em mim. — Aquilo me aliviou, mas não tanto. Eu ainda sentia vergonha, afinal, onde eu me seguraria nela? Na cintura, no ombro? Bom, eu provavelmente me seguraria no ombro. Seria menos invasivo e “romântico” que segurar em sua cintura. Mas se ela tivesse realmente me dado a liberdade total para me segurar nela, eu provavelmente a abraçaria por trás, praticamente a agarrando.
Ela deu partida na moto, e eu nem hesitei; me segurei nela. Eu falei meu endereço, e ela assentiu, dizendo que sabia onde era. Minhas mãos seguraram nela tão forte durante todo o trajeto que já suavam, e ela já deveria estar sentindo dor de tanto que eu a apertava. Quando ela chegou perto da minha casa, eu avisei, chegando mais perto dela:
— É aquela casa ali. — Apontei. Ela assentiu e parou logo em frente. Eu desci da moto, tirei o capacete e entreguei a ela.
Eu provavelmente estava tão branca que deveria estar transparente, e olha que eu não era muito branca. De tanto andar no sol, eu já era eternamente bronzeada.
Minhas pernas e mãos tremiam, e eu não sabia se era por causa de Natália ou por causa do trajeto percorrido.
— Ué, Nanda, você chegou mais cedo hoje! — Pude ver minha mãe através das aberturas do portão de casa.
— E-eu peguei carona. — Minha mãe aparentemente ainda não havia se tocado que havia uma moto em frente à garagem de casa.
— Ahh! — Minha mãe abriu o portão e foi em direção à Natália, que já estava sem capacete, observando a cena. — Obrigada por trazer minha filha, viu? A senhora não quer entrar, não, pra tomar um café?
— Não, não, obrigada. — Ela sorriu e consertou o cabelo, que ficou todo desarrumado quando ela tirou o capacete. — Talvez outro dia. Tudo vai depender se ela quiser carona de novo. — Ela olhou para mim e sorriu. Eu fiquei vermelha. — Se quiser, amanhã posso levar você.
— Ahm, obrigada. — Eu sorri para ela também. — Tudo bem, então. E obrigada por me trazer hoje.
— Não tem de quê. — Ela continuou sorrindo. — Agora eu preciso ir. Te vejo amanhã. — Natália colocou o capacete, deu partida na moto e foi embora, ainda seguindo a minha rua. Porém, não pude ver muito mais porque logo entrei em casa; estava morta de cansaço.
Eu entrei no meu quarto, joguei minha mochila na cadeira do computador e me joguei na cama sem nem trocar de roupa.
Lembrei-me da conversa que eu tinha tido com Letícia antes de irmos embora. Logo, tirei meu celular do bolso, mas ao invés de enviar uma mensagem a ela, eu abri o Facebook. Digitei “natália” na barra de busca e logo um resultado apareceu. “Natália Bach. Letícia Gomes e outros quatro amigos em comum.” Pela foto, era ela mesma: loira, cabelos curtos e olhos azuis congelantes.
Entrei em seu perfil e, sem hesitar, apertei o botão de “Adicionar amigo”.
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