Hisoka, assassino compulsivo
1 Família
Notas iniciais
Era início de noite na residência da família Morow. O dono da casa, o rico e influente empresário Theo Morow, estava na sala recebendo dois dos seus parceiros de negócios enquanto seu pequeno filho Hisoka, de apenas seis anos de idade, tocava piano brilhantemente para a surpresa de todos.
— Bravo! – um dos homens bradou enquanto aplaudia, assim que o garoto terminou de tocar.
— Estou impressionado, para um adulto não é nada fácil tocar Tchaikovsky, ainda mais para um menino tão novo – comentou o outro.
— Muito obrigado! – Hisoka agradeceu educadamente.
— Ele tem muitos talentos e treina muito todos os dias – disse o pai, orgulhoso.
— Senhores, o jantar está servido! – anunciou a governanta da casa.
Todos se dirigiram à sala de jantar. Após comerem, os homens foram falar de negócios, a dona da casa foi dar instruções aos empregados e o pequeno Hisoka foi para o seu quarto brincar.
Depois que os convidados foram embora, o senhor e a senhora Morow foram ao quarto do filho e levaram um susto ao verem a cama do garoto coberta de sangue. O corpo decapitado de um gato angorá jazia sobre o lençol manchado de vermelho, enquanto Hisoka segurava a cabeça do animal.
— Hisoka... o que você fez? – perguntou a mãe, horrorizada.
— Ah, eu sempre ouvi dizer que gatos tem sete vidas mas acho que o Caramelow veio com defeito – o menino deu um suspiro, parecendo desapontado – e ele nem resistiu muito, foi só torcer o pescoço e depois puxar que ele morreu.
— Deixe esse bicho morto aí – disse o pai – Hana, vá dar um banho nele, eu vou mandar limparem o quarto.
Quarenta minutos depois o quarto e o garoto já estavam limpos e Hisoka, dormindo como um anjinho. Os pais, no quarto deles, conversavam sobre o ocorrido.
— Theo, temos que procurar um médico ou psicólogo, sei lá, algum profissional para ajudar o Hisoka, não é a primeira vez que ele faz coisas desse tipo – disse a mulher.
— Que nada, ele é criança, quando ele tiver noção do que é morte com certeza ele vai parar. Além disso, era só um gato, amanhã compramos outro.
Hana não concordava e ainda estava muito preocupada com a saúde mental do filho, porém ela fora ensinada desde nova que o seu papel era manter a casa em ordem, estar sempre bonita e arrumada e sorrir em público, enquanto as decisões importantes deveriam ser tomadas pelo marido. Assim, sem falar mais no assunto, o casal foi dormir.
******
Duas semanas após o incidente com o gato, Hisoka estava na escola em que estudava brincando tranquilamente com as outras crianças na hora do recreio. Em certo momento, uma das crianças sugeriu brincar de pique esconde, logo todos correram para procurar um bom esconderijo, o que não era tão difícil visto que era uma escola enorme, com muitas salas e um grande jardim repleto de arbustos e algumas árvores grandes.
Hisoka começou a correr em direção ao jardim, quando escutou a voz de uma menina.
— Espera Hisoka, deixa eu me esconder com você!
O garoto olhou para trás e viu Mara, uma das colegas da sua turma. Ele diminuiu a velocidade, deixando que ela o alcançasse e pouco tempo depois eles se esconderam atrás de uma árvore.
— Obrigada por me deixar me esconder com você!
— Sou um cavalheiro!
O tempo foi passando e mesmo tendo sido apenas alguns minutos, parecia uma eternidade para crianças daquela idade. Assim, para driblar o tédio, Hisoka teve uma ideia brilhante.
— Quer usar a minha gravata?
— Não sei, não é roupa de menino?
— E se eu usar seu laço de cabelo?
A menina riu alto, se a criança com quem “estava” naquele momento estivesse por perto, certamente teria encontrado a dupla. Ela tirou seu laço e o prendeu no cabelo do colega, achando muita graça.
— Você tá engraçado!
— Agora tá na hora de você colocar a minha gravata.
Hisoka tirou a gravata, parte obrigatória do uniforme dos meninos, e fez um laço no pescoço da colega. Depois disso ele começou a apertar, e a garota começou a ficar sem ar, vermelha e se debatendo. Dois minutos depois ela ficou bem quieta.
Nesse instante, outras crianças chegaram e ao presenciarem a cena, saíram correndo, chorando e gritando, muito assustadas.
Hisoka não era aquele cara que só faz o bem
Era alegre e bonito, mas tem um porém
Ele era um assassino compulsivo, é
Enforcou sua coleguinha quando era do pré
O senhor Morrow estava no trabalho, quando o telefone da sua sala tocou e a recepcionista informou que era a sua esposa. Ele atendeu preocupado, não era comum a mulher ligar no horário de trabalho.
—Theo, acabaram de ligar da escola do Hisoka e querem falar com nós dois, deve ter acontecido alguma coisa muito grave.
— Está bem, já estou indo.
Ele passou em casa, pegou a esposa e ambos foram para a escola. Lá, foram conduzidos até a diretoria, onde o diretor estava sentado na sua cadeira e parecia muito preocupado, para não dizer desesperado. O pequeno Hisoka também estava lá, mas ele estava tranquilamente sentado no chão e cantando “A barata”.
— O que aconteceu com o Hisoka, ele está bem? – perguntou Theo.
— Como vocês estão vendo, ele está ótimo. Quem não está bem é a sua colega de turma.
— Eles brigaram? – perguntou Hana.
— Foi bem mais do que isso. Serei direto, ele a matou.
— Como assim? – os pais se assustaram.
— Exatamente. Ele enforcou a menina com sua gravata, quando vimos não havia mais o que fazer.
— Isso é culpa de vocês! – Theo se exaltou – deveria ter algum adulto supervisionando as crianças o tempo todo!
— Tem razão, e nós vamos arcar com a nossa responsabilidade, mas vocês também devem arcar com a sua.
— Eu falei com você Theo, alguma hora isso ia acabar acontecendo – a mãe começou a chorar.
— Vamos resolver a situação. Vocês já chamaram a polícia? – perguntou o pai.
— Ainda não – informou o diretor.
— Eu tenho uns contatos, vou fazer umas ligações – Theo pegou o seu celular, um aparelho caríssimo nessa época – tenho certeza que podemos converter um eventual processo criminal em indenizações, qual era o nome da menina?
— Mara Tielovik.
— Quer dizer... ela era parente do padrinho Tielovik?
— Sua filha pra ser mais exato.
Ao ouvir esse nome, o coração do homem congelou. Tielovik era o maior mafioso daquele país, sendo mais poderoso do que o próprio presidente, e também era famoso pela crueldade com a qual eliminava seus oponentes. Se ele era implacável com aqueles que atrapalhavam seus negócios, imagina o que faria com o assassino da sua filha?
— Temos que tirar o Hisoka daqui antes da notícia vazar, toma isso e nos deixa ir embora – Theo colocou um maço de dinheiro na mesa do diretor.
— Senhor Morow, não vou aceitar dinheiro para encobrir o que aconteceu! Vou ligar para a polícia agora.
O diretor pegou o telefone e quando ia discar, Theo desesperadamente arrancou o telefone do fio e bateu com ele na cabeça do homem.
— Está louco? – praguejou o diretor, com a cabeça sangrando.
Theo não disse nada, apenas pegou o filho no colo e junto com a esposa, saiu correndo para fora da escola.
Mas que belo assassino que Zé se tornou
Sempre alegre a cantar, a colega ele matou
O senhor Morow não foi para casa naquela tarde, dirigiu seu carro até um parque bem afastado do centro da cidade. Por ser dia de semana o lugar estava completamente vazio, com exceção dos artistas de um circo que passou um temporada por ali e que naquele momento estavam desmontando tudo para seguir viagem. Hisoka brincava em um parquinho enquanto os pais conversavam.
— O que vamos fazer agora? – Hana não conseguia pensar em nada.
— Temos que tirar o Hisoka da cidade, assim dá pra ganhar algum tempo.
— Não é melhor nos entregarmos na polícia? O Hisoka é criança, não pode responder pelo crime dele.
— Você não está entendendo, eu tenho contatos na polícia, o Tiolevik MANDA na polícia. Se formos a alguma delegacia, vão matar nosso filho lá mesmo.
A mulher apenas chorava, enquanto o homem olhou para os artistas, que já haviam desarmado o circo e estavam nos veículos e prontos para partir, então correu até os alcançar.
— Senhores – disse Theo – posso falar com o chefe de vocês?
— O que você quer? – um homem mais velho do que os outros, alto e com um grande bigode foi falar com ele.
— Está vendo aquele menino? – ele apontou para Hisoka – queria que vocês o levassem.
— Sem chance, não podemos simplesmente levar uma criança.
— Eu posso pagar bem pelas despesas que ele der – Theo entregou muito dinheiro para o homem do circo – se não for suficiente posso preencher um cheque agora, garanto que tem fundo.
O homem pegou o dinheiro e verificou que realmente se tratava de uma grande quantia.
— Pode trazê-lo.
Theo chamou o Hisoka, que veio até ele, assim como sua mãe.
— Hisoka, você tem que ir com essas pessoas – Theo disse.
— Mas por quê? – o menino não entendeu.
— Tem uns bandidos muito maus atrás de você e temos que te proteger. Quando eles forem presos eu volto pra te buscar.
— Hum... tá bom! – Hisoka, sempre obediente ao pai, concordou.
— Filho – a mãe o abraçou forte, com o rosto coberto de lágrimas – você vai gostar de ficar no circo, vai poder brincar o dia inteiro. Agora vá, seja bonzinho e lembre que mamãe te ama.
Hisoka entrou em um dos carros, e Theo foi falar com o dono do circo.
— Qual é o nome do circo de vocês e para onde estão indo?
— Somos o Circo Viva La Vida, estamos indo para Boi’s Hole City.
— Está bem, assim que possível eu vou buscá-lo. Obrigado!
A caravana se foi, deixando o casal chorando para trás.
— Será que ele vai ficar bem? Quando vamos vê-lo de novo? – Hana estava aflita.
— Temos que esperar a poeira abaixar, quem sabe eu consiga algum bom assassino de aluguel que aceite matar o senhor Tielovik. Estou certo que vamos ter a família reunida logo.
Hisoka, embora não entendesse o que estava acontecendo, não estava triste e simplesmente encarava tudo como uma mera ordem do pai. E não tinha ideia de como seria sua vida dali em diante.
Fale com o autor