Hisoka, assassino compulsivo
2 Viva La Vida
Notas iniciais
A caravana viajou a noite toda e finalmente parou em um grande terreno baldio, cercado por casas pequenas e bem simples.
— Enfim, Boi’s Hole City – anunciou o chefe da trupe.
— Isso é sério? – perguntou uma mulher obesa de meia idade – você acha que as pessoas desse lugar tem dinheiro pra pagar a entrada do circo?
— Aqui o terreno é de graça e podemos cobrar um ingresso bem barato. Quando tivermos mais dinheiro, podemos armar um espetáculo mais luxuoso e ir pra uma cidade melhor.
— Está bem. E quanto aquele garoto que você pegou ontem? – a mulher apontou para Hisoka, que naquele momento dormia na carroceria de uma pick-up.
— Ele não vai ficar por muito tempo, mas enquanto ele estiver aqui dê o mesmo tratamento das outras crianças.
A mulher concordou, então foi até o menino e o acordou.
— Acorda moleque, aqui ninguém tem moleza!
Ele acordou meio assustado, mas logo se lembrou do que aconteceu no dia anterior.
— Como é seu nome? – ela perguntou.
— Hisoka.
— Eu sou a Towanga. Quando eu era nova e magra, era a linda assistente do mágico, mas agora o antigo mágico morreu e eu fiquei velha e gorda, então eu cuido das coisas por trás dos palcos... não é bem palco, maneira de dizer.
— Estou entendendo.
— Percebi que você é esperto, então só vou explicar uma vez. Aqui todo mundo tem tarefas, e a sua por enquanto vai ser dar comida aos animais.
O menino apenas acenou concordando, não que ele tivesse escolha. Enquanto os adultos descarregavam os caminhões e já começavam a montar o circo, Hisoka e mais um pequeno grupo de crianças, todos filhos de artistas do circo, cuidavam dos animais, macacos, cães e outros animais pequenos, além de um elefante velho e um leão desnutrido. Não era um trabalho tão simples, eram baldes de comida – ou melhor, lavagem – muito pesados. As crianças também tinham que lavar os animais, o que era uma tarefa bastante perigosa.
Foram dois dias de trabalho até estar tudo montado. O circo faria a estreia na cidade na próxima sexta-feira, então os artistas começaram a se ocupar mais com os ensaios. Os únicos que não participariam do espetáculo era o Hisoka, a senhora Towanga e Samy, uma menina dois anos mais velha do que o Hisoka, e como todos estavam concentrados nos treinos, o trabalho rotineiro da trupe ficou todo com esse trio.
— Ai ai, quem me dera entrar pro time que se apresenta – a menina suspirou em um desabafo, enquanto carregava latões de lixo para longe do circo junto com o Hisoka.
— Por que você não está no espetáculo? – perguntou o garoto.
— Eu sou burra de mais. Tentei malabarismo mas sempre deixava tudo cair, no trapézio eu caí e se não tivesse rede tinha morrido. Não posso ajudar o domador porque tenho medo dos bichos, também sou muito sem graça pra ser palhaça.
— Hum – Hisoka foi econômico no comentário.
— Você é tão bonitinho e arrumadinho que até parece um menino rico, como veio parar aqui?
— Não sei.
— Se você aprender logo alguma coisa que presta, tipo mágica ou coisa assim, não vai ter mais que carregar esse lixo fedido.
Eles chegaram ao local onde jogavam o lixo fora, era apenas outro terreno menor e cheio de lixo, baratas e ratos. Em meio ao monte de sujeira, um jornal amassado do dia anterior chamou a atenção do Hisoka, então ele o pegou para ler a manchete.
“Na noite passada, o empresário Theo Morow e sua esposa foram brutalmente assassinados, esquartejados e as partes dos seus corpos foram penduradas em diferentes locais da cidade de Nova Era. O filho do casal, de apenas seis anos de idade, está desaparecido e a polícia não tem pistas do seu paradeiro e a motivação do crime ainda é um mistério.”
— O que tá escrito aí? – a menina estava curiosa.
— Nada importante.
Hisoka amassou o jornal até ele virar uma bolinha e o jogou de volta no lixo. Ele não demonstrou tristeza, raiva ou qualquer outro sentimento, apenas teve a certeza de que agora aquele circo seria o seu novo lar.
Finalmente chegou o dia da estreia. O circo estava cheio e apesar do Hisoka estar ocupado com algumas tarefas, conseguia ver bem o espetáculo. Aquilo era novo para ele, o menino já havia assistido a peças teatrais, orquestras e óperas, porém nunca havia ido a um circo e assistia a tudo com curiosidade e entusiasmo.
De tudo o que assistiu, duas coisas chamarão mais a sua atenção, e a primeira delas foi o domador. Era curioso como os animais o obedeciam, mas por algum motivo, Hisoka não gostou de quando o domador se apresentou com o leão. O felino sentava, rolava e realizava todas as tarefas sob o comando do chicote do mestre. O menino achou um absurdo aquele animal forte, com presas e garras que poderiam rasgar um homem ao meio em poucos segundos, obedecer àquele humano fraco.
A segunda coisa que mais chamou a atenção do garoto foi o show de mágica. O mágico, um homem de vinte e cinco anos de idade, alto, magro e vestindo o tradicional fraque preto e cartola, se apresentava ao lado da sua assistente, uma adolescente de dezessete anos com longos cabelos violetas, usando um maiô apertado que fazia o público masculino prestar mais atenção nela do que nos truques.
O mágico tirou bombos da cartola, fez uma bola de tênis flutuar sem nada que a segurasse, fez surgir fogo das suas mãos sem se queimar e mais uma série de pequenos truques. O ápice da apresentação foi quando ele colocou sua assistente em uma caixa e a partiu em três pedaços. Hisoka não conseguia acreditar naquilo, em como aquele homem matou a garota na frente de todos, mas para sua surpresa, ele reuniu todos os pedaços e a assistente saiu ilesa e sorrindo, sob os gritos e aplausos do público.
Após o fim do espetáculo, Hisoka foi procurar pelo mágico na tenda onde ele dormia.
— Com licença, senhor mágico? – o menino chamou educadamente.
— O que você quer? – ele perguntou da entrada da tenda, com uma garrafa de bebida na mão.
— Como você fez aquilo?
— Os truques? Segredo profissional.
— Eu já tentei juntar a cabeça e os pés de uma tartaruga que eu esquartejei mas não deu certo.
— Por Deus, você arrancou os membros de uma pobre tartaruga? Entra, vou te ensinar umas coisas.
Hisoka entrou na pequena tenda, repleta de materiais de mágica e também algumas coisas pessoais do homem.
— Já que se interessa por mágica é melhor começar por baixo – ele tomou um gole da bebida e em seguida, pegou um baralho no bolso e o embaralhou – escolha uma carta e não mostra pra mim.
O menino pegou uma carta, conforme solicitado.
— Ás de espadas.
— É o A com um flechinha? – Hisoka perguntou.
— Isso mesmo. Pode mostrar.
O garoto mostrou a carta, que realmente era o ás de espadas.
— Posso tentar? – pediu o menino.
— Há há há, toma, mas eu ainda não te ensinei o truque e mesmo assim, leva um tempo até pegar a prática.
— Escolhe uma carta – Hisoka, após ter embaralhado, solicitou seriamente.
O mágico pegou a carta, com um sorriso incrédulo. Ao olhar, viu que havia pego o ás de espadas.
— Como...
— Eu prestei bastante atenção quando você fez e aprendi.
O homem ainda estava boquiaberto, como um garoto tão novo aprendeu o truque apenas olhando?
— Qual é o seu nome menino?
— Hisoka.
— Eu sou David. Amanhã você começa a treinar comigo como meu aprendiz. Agora me deixa terminar de beber e ir dormir.
*****
No dia seguinte – assim como em vários dias que se seguiram – Hisoka treinava truques de mágica com o seu mestre e tanto o David quanto a sua assistente e até mesmo o dono do circo se admiravam com a velocidade com a qual o menino aprendia e tinham a certeza de que logo ele poderia entrar para o espetáculo.
A única coisa que chateava o David foi misterioso desaparecimento dos seus pombos. Toda manhã havia um a menos até não sobrar mais nenhum, então o mágico teve que retirar o truque com os pombos do seu número, mas isso era apenas um pequeno inconveniente.
Três semanas após a estreia, o circo Viva La Vida deixou aquela cidade. No terreno aonde a trupe ficou por esse tempo sobraram apenas buracos, um pouco de lixo e a página rasgada de jornal que dizia.
“Três pessoas foram declaradas desaparecidas nas últimas duas semanas em Bois’s Hole City. Elas não se conheciam e as famílias relataram o sumiço em dias diferentes, porém a polícia não descarta a hipótese dos desaparecimentos terem alguma relação entre si. O comandante Pepper, quando perguntado sobre o assunto, disse que há pistas sobre o caso, mas que prefere manter o sigilo para não atrapalhar as investigações.”
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