Hiroshima
1 Capítulo I – A carta
.I.
A carta
Sunao adorava brincar com Ito; no momento, era um de seus poucos consolos. Sendo seu companheiro há oito anos, o gatinho ainda ficava de pêlos em pé, enquanto pulava de um lado para o outro, atrás de um novelo de lã amarela, que se desfazia pela casa.
Aos vinte anos, Sunao tinha o cabelo cheio e negro, bem aparado em um corte não tão baixo; os olhos da mesma cor, possuidor de um brilho ofuscador de luzes; e a pele alva, como a neve que caía no inverno. Mas, diferente do frio desta estação, o Japão estava em plena primavera. As cerejeiras faziam a pouca alegria do país; e Reiko, a do rapaz.
A doce menina que levava esse nome, não tinha mais de dezenove anos. Com as mesmas características, e os traços mais delicados que os de Sunao; em pouco mais de um mês, fariam dois anos de namoro. Pouco tempo em relação ao que ainda viveriam, dizia ele. Porém, nos últimos meses, não eram tão adocicados os pensamentos do mesmo.
Depois de deixar o leite posto na tigela para Ito, o rapaz correu em direção a varanda, com a carta lida e amassada há alguns minutos, enfiada num dos bolsos. As passadas eram firmes e rápidas, tinha que chegar ao local na hora certa, sem nenhum atraso.
Assim que pôs os pés na grama verde e florida do campo, permitiu relaxar-se. Ela ainda não havia chegado.
– Querido? – A voz melodiosa da amada adentrou os ouvidos do rapaz, que virou-se de imediato. Correu até ela, e segurou-lhe as mãos, tentando conter o tremor das mesmas. – Aconteceu algo? – Perguntou, preocupada.
– Vem acontecendo há muito tempo, Reiko, há anos. – Murmurou, abatido.
Triste, a moça tocou-lhe o peito. – Em mim, também dói. – Afirmou, compadecida.
– Eu sei, querida, e meu peito arde ainda mais ao saber disso. – Disse ele, deslizando os dedos por seus braços. Engoliu em seco, e sacou a carta do bolso. – Yamato mandou-me esta carta. – Falou, sôfrego. – Disse que não pode me dizer seu paradeiro, por motivos de risco, mas falou que o exército japonês já está saturado, à um fio do massacre...
– Querido, eu sinto... sinto muito. – Pôs as mãos na face do amado, e chorou. – Foi uma carta de despedida? – Perguntou.
Sunao assentiu. – Não verei mais meu irmão. – Fungou, sem querer demonstrar fraqueza. – E, você sabe... Posso ter o mesmo destino que ele...
– Não diga isso! – Exaltou-se.
– Dizem que a guerra na Europa terminou, mas a do pacífico continua, e logo, vão mandar outro exército, Reiko; posso estar entre os convocados, meu nome pode ser listado... Não quero que se prenda à um homem fadado a...
– Não tem o direito de dizer o que faço de minha vida! – Exclamou a moça. – Agora, cale-se ou terei que fazer isso, eu mesma. – O fitou nos olhos, decidida.
– Reiko...
Como foi dito, ela o calou. Encostou os lábios nos seus com demasiada pressão, fazendo força para que ele não se desvincilhasse, para que não fosse embora. Ela não queria e não iria perdê-lo. Pelo menos, não daquela forma.
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