Hiroshima

2 Capítulo II – Promessas


.II.

Promessas

Reiko havia saído cedo de sua casa em direção ao centro onde trabalhava nas confecções de roupas para uma empresa. Antes da guerra, a moça estudava arduamente com a esperança de formar-se em literatura, porém, com o início das batalhas, vários dos habitantes da cidade tinham ido para as mesmas; e os jovens, obrigados a trabalhar para o sustento da economia.

A caminhada até o local, não era tão longa, porém, conseguia cansar-lhe as pernas. O céu, como era típico da primavera, estava limpo e ensolarado. As flores brotavam por todos os lados; e quem não tivesse o conhecimento do sofrimento que as pessoas dali passavam, poderia dizer que aquela era uma bela cidade para se viver.

Mas, a dor no peito da moça era tão aguda e profunda, que nem sua estação predileta fora capaz de suavizá-la.

– Está com a cabeça na lua, Reiko? – Perguntou Yoko, lançando seu corriqueiro sorriso falso. Reiko sempre pensara que era seu jeito de espantar a dor: Azucrinar outras pessoas; porém, aquele dia, ela não estava com paciência para a mulher amargurada. Sem querer dar início a um diálogo sem futuro, permaneceu sem nada dizer. – Além de seus inúmeros defeitos, agora também é mal educada? – Soltou um risinho. – Não poderia esperar outra coisa de uma órfã.

A palavra ecoou nos ouvidos da moça, e em meros segundos, ela estava com a mão cravada em um aperto no rosto de Yoko. Franzia os lábios, estreitando os dedos e fitando-a com os olhos em fúria; estava sem controle.

– Posso ter perdido meus pais, mas antes que se fossem, eles tiveram a decência de me ensinar a ter amor e compaixão em meu peito; coisa que os seus não fizeram. – Grunhiu, felina. – Mulher amargurada, mal amada; por mais que viva cem anos, não saberá o que é estar apaixonada e ter reciprocidade. Está fadada à solidão, Yoko; e isso é a maior maldição que um ser pode carregar.

Largou o rosto da mulher, que se encontrava vermelha e atônita; e partiu, saindo do centro de confecções, por entre as ruas de Hiroshima. Não bastaram vinte minutos para que estivesse no único local que ainda a trazia um pouco de paz. Deu dois toques na porta, antes de virem abri-la.

– Reiko? Você está bem? – Perguntou Sunao, preocupado.

Deixando lágrimas caírem de seus olhos, a mesma balançou a cabeça. – Por favor, não me deixe. Já perdi muitas pessoas amadas, não posso perdê-lo também... – Suplicou.

Abraçando-a, Sunao beijou-lhe os cabelos. – Não irei a lugar algum. – Prometeu-lhe, sem saber se poderia cumprir.