Himitsu

6 As duas faces de um coração


6 — As duas faces de um coração

Os ataques a barreira pareciam mais agressivos, o que fazia Tsubasa ficar mais ocupado com os selos. Era uma forma de não sobrecarregar Afonso.
Depois daquele dia, só saiu para mais uma consulta de Kalisto e então se fechou para o Santuário.
Kalisto conseguiu a solução de seu problema e usava as camisas que Afonso lhe dera para ocultar seus seios.
Como no passado, pouco a pouco retomavam a amizade que tinham, embora aos olhos alheios, soasse preocupação pela saúde "debilitada" que Kalisto vinha apresentando.
A noite a reencarnação de Atena fugia de seu quarto e ia para a casa de Peixes, tendo noites calorosas com Kalisto. Ele se sentia atraído, tinha carinho por ela, mas buscava desesperadamente amá-la, para afogar as últimas lembranças de Frida. Kalisto entendia o que ele queria, mas não nutria esperança. Apenas se entregava e aprendia mais sobre o que faziam a noite em sua cama. Sem medo, agora que ela não podia gerar vida, Afonso se derramava dentro dela todas as noites que podia, várias vezes.
Era mais um segredo que deus e serva compartilhavam desde que se conheceram.
De dia, disfarçavam e agiam como o esperado. Amigos, apenas amigos. E sabiam que escondiam bem pois sequer Kiki implicava ou soltava indireta.
Emanuel corria para a terceira casa, sendo seguido calmamente por Frida. Viu que Noah estava passando pela sua casa, descendo.-Oh, perdão senhorita Frida! Não vi ninguém e fui passando.Frida o encarou desgostosa. Era o último resquício da época que fingira ser Atena para proteger Afonso.-Não precisa me chamar de senhorita. Não sou mais a mesma que antes. Segue para onde?Foi interrompida por Emanuel que pulou para abraçar o cavaleiro de Leão.-Tio Noah!
–Opa, e aí pequeno?Emanuel era muito popular entre os cavaleiros de ouro. O pequeno nem imaginava o perigo que corria, claro. Frida observava os mimos do leoninos sem qualquer expressão, mostrando-se fechada.-Passaram 6 anos e você ainda insiste em se fechar assim?
–Em que minha vida pessoal e o que penso tem haver com vocês? Cuidem de suas vidas.
–Sabe, nem todo mundo é um besta quadrada certinho como o Sinbad que acha defeito até na estátua de Atena. — disse o Leão quando a amazona de Gêmeos passou por ele.
–Tio Noah! Onde tá indo? — perguntou Emanuel, radiante. Não tinha pessoa que resistisse ao sorriso encantador do menino.
–Tava indo na vila comprar umas coisas pessoais, mas se quiser um sorvete eu te compro.
–Oba! Sorvete! Posso ir mamãe?Frida apenas olhou os dois e resmungou:-Vocês cavaleiros o mimam demais! — e subiu para sua casa, deixando os dois confusos.
–É... acho que isso é um sim. Vamos? — disse Noah, pegando a criança e colocando-a sentada em seus ombros.Frida colocou o elmo em cima da mesa e ficou fitando o chão. Ela odiava mais que tudo se lembrar de 6 anos antes. Mas aquele foi o castigo que se impôs. Iria aguentar, teria de aguentar.
Então sentiu algo úmido escorrer pelo rosto, ergueu o rosto para um pequeno espelho que enfeitava a sala de estar e mesmo com sua inexpressão, seus olhos não negavam a tristeza que sentia: lágrimas escorriam independente da vontade da dourada.-Merda! — e se retirou para o quarto.Naquela noite, Frida não conseguia dormir. Noah trouxe o pequeno Emanuel e precisou sair de novo, mas dessa vez, usava roupas casuais. Ia pro bar em Rodório, mas Frida não tinha pedido nenhuma informação. Quanto menos se ligasse a eles, melhor.
Se levantou da cama e verificou se Emanuel estava bem. Ele dormia como um anjo, com uma expressão suave e tranquila. Frida sorriu timidamente e fechou a porta.
Pensou em ir ao observatório para poder refletir sobre muitas coisas que se passavam na cabeça, no coração. Era alta madrugada quando ouviu passos e o cosmo de Noah.-Ainda acordada?
–Sim. To sem nenhum sono.Frida pegou um copo d'agua e serviu ao cavaleiro de Leão. Noah sempre foi um rapaz alegre e ouvir um suspiro pesado não parecia ser o normal dele.-Você ainda ama o Afonso, não?A pergunta caiu como um tapa em Frida, mas ela não revidou. Entendia que aquilo fazia parte de seu próprio castigo. Respondeu fechando os olhos.-Eu te entendo... A pessoa que eu amo seria meio... maluco amar. Afinal, toda a vida gostando de mulher e eu vou me apaixonar pelo Kalisto... Pf...
–Mas Kalisto parece uma mulher, não tem por que ficar de drama. — ela disse, com certa frieza. Por que mesmo opinou? — É o mesmo que cair numa armadilha.Frida se levantou e invocou sua armadura e foi saindo.-Ei, está indo onde?
–No observatório. Graças a usurpação que fiz no passado eu aprendi a ler estrelas.Passado... Noah sabia do que se tratava, era sobre Saga. Notava que as poucas vezes que a amazona agia era confusa, ela não parecia saber quem era quem, se ela era a Frida ou se era o Saga.-Se não se importar, acho que vou junto. To precisando refletir um pouco.Os dois cavaleiros foram seguindo, subindo as escadas. O observatório ficava no templo de Atena e só podiam entrar os cavaleiros de ouro, o patriarca e Atena. Armaduras eram requeridas para a identificação no caso dos primeiros e em sua casa, Noah vestiu sua proteção.
Praticamente todos os habitantes do trajeto dormiam, com excessão daqueles dois que caminhavam rumo ao observatório, mas ao chegarem ao jardim de Peixes ouviram barulhos estranhos. Quando aprumaram o olhar viram que era Kalisto, subindo e descendo sobre alguém. Frida e Noah ocultaram suas presenças, e passaram a observar a cena. A pessoa que estava por baixo, deitado se sentou, para alcançar os lábios de Peixes e tocar em seu... seios? Frida pareceu congelar ao ver quem era o parceiro da outra amazona, era Afonso. Enquanto Noah estava parado, tentando processar que Kalisto era uma mulher ao contrário do que sempre pensou.
Frida não pôde conter a raiva torturante que sentia nascer em seu peito e disparou um golpe contra Kalisto, que só teve tempo de se abaixar com Afonso, protegendo os dois.
Quando o casal olhou para trás viu Frida, o cosmo em pura elevação e revolta.-Falsa... — murmurou Frida com a voz rasgada.Noah pressentiu o que sua colega faria e se antecipou, salvando Afonso da fúria do golpe que a amazona de Gêmeos lançou contra Kalisto. Ela teve dificuldades em conter o golpe, lançando-a contra uma coluna.
Frida não ouvia ninguém, nem os apelos de Afonso. Foi avançando na área do jardim, que diferente da maior parte dali, era um jardim de flores comuns. Kalisto se recuperava, e de joelhos invocou sua armadura. As duas amazonas douradas se encaravam, Frida com ódio e Kalisto com surpresa.
Gêmeos avançou com tudo, com um soco, que fora contido pela amazona de Peixes com dificuldades. De fato, tal como esperado da reencarnação de Saga, Frida era muito poderosa. A outra mão se fechou num golpe e Peixes novamente o deteve.
O cabo de guerra não durou muito, pois enquanto Kalisto se continha, Frida estava usando a raiva como combustível.-Vadia! — berrou a amazona de Peixes. — Afonso não é mais alguém para se tocar!Frida novamente avançou, e por mais que Afonso berrasse, as duas estavam concentradas demais em sua briga para ouvir alguém. Kalisto se esforçava em esquivar dos socos e chutes violentos que Gêmeos disparava. Parecia um jogo de gato e rato, até Kalisto revidar com uma rajada de cosmo, que fez Frida voar longe. Peixes encarava a rival, torcendo para que Frida se acalmasse.
Nada adiantou, Frida se levantou, o cosmo ardente iluminava o céu noturno. Novamente a amazona de cabelos azulados investiu, e Kalisto cruzou os braços para se defender de um chute, Frida girou para tentar acertar outro que foi defendido.
Foi acertar um soco e novamente Kalisto conteve. Um novo cabo de guerra surgiu."Frida... Então ainda continua com aqueles sentimentos?" — pensou consigo o jovem deus.Noah observava assustado, logo aquilo tomaria proporções de guerra de mil dias.-Vagabunda! Esperou tudo acabar entre eu e ele para furar olhos? Sua vadia desgraçada!
–Você quem abandonou ele! Você com esse castigo que inventou que terminou tudo! — revidou Kalisto. — Você não tem moral para me acusar, Gêmeos!Como um clique, Frida saltou para trás e diminuiu o cosmo. Ficou encarando Kalisto. Olhava meio atônita.-Isso não significa que o caminho está livre... Atena é uma divindade sagrada...Frida lançou um último golpe, mas contra todas as flores do jardim. Uma expressão de dor tomava sua face. Ela deu as costas e voltou para sua casa.
Noah foi ver Kalisto e tocou seu rosto.-Por que... Esteve mentindo? — indagou o Leão.
–Nunca menti... Me deixa...Kalisto se esquivou de Noah e adentrou a sua casa, deixando os rapazes para encarar Kiki, que descia assustado, querendo saber o que tinha ocorrido.-Quero que esqueça. — foi a ordem de Afonso. Ele ainda ia proteger Frida para sempre.

Frida se dirigiu para sua casa e encontrou Emanuel, parecendo assustado. A amazona abraçou a criança com força e delicadeza, um gesto que não parecia comum da guerreira e aquilo pareceu iluminar o mundo do pequenino.