Notas iniciais
Então, eu vou dedicar esse capítulo hj ao Dellavechia, por ter lembrado da fic e me cobrado mais. Eu sei, eu devia escrever com mais frequencia, sorry :/
Espero que não fiquem com raiva pq esse nem é um capítulo em si, mas um bônus que eu tinha pensado em escrever.
Mas não se preocupem, já estamos trabalhando no próximo capítulo, é q ele é um pouco decisivo e meio complexo de ser escrito, mas vamos tentar postar o mais rápido possível, viu Sr. Dellavechia? :)
ENJOY!

FREDDIE

Corremos até o outro lado da viela entre os prédios, procurando desesperadamente por ar fresco. Paramos de correr quando finalmente alcançamos a rua oposta, felizmente encontrando-a sem viv’alma. Encostamo-nos na parede de um dos prédios, procurando apoio, recuperando o fôlego. Meus pulmões doíam mais que qualquer ferimento que eu pudesse ter conseguido na briga.

Depois de algum tempo, olhei o céu, e percebi que as nuvens de fumaça já subiam alto, espiralando no ar frio da noite. Eu não precisava ser nenhum gênio para entender que o fogo estava perto e que já havia entrado nos prédios abandonados, lambendo o concreto pichado:

–Sam, precisamos sair daqui, a polícia vai chegar logo. – baixei o olhar para ela, e ela franzia a testa em uma leve expressão de dor. Tinha abaixado uma manga da jaqueta e da blusa, e apertava o corte, tentando conter o sangue.

–Vem, vamos cuidar disso. Vai ficar tudo bem. – procurei acalmá-la e peguei sua mão, apertando-a carinhosamente. Não ia ser fácil tratar da loira, ela odiava hospitais.

Caminhamos rapidamente até o carro, que não estava tão longe dali. Assim que acionei o alarme, Sam abriu a porta bruscamente, jogando-se no banco com um gemido abafado. Fechei a porta e me permiti observá-la por alguns segundos. O suor da corrida e do calor do fogo fazia seus cabelos grudarem na testa e no pescoço, e ela mantinha os olhos fechados. Respirava fundo. A pele extremamente pálida em contraste com o sangue escuro que manchava suas mãos.

Eu precisava fazer alguma coisa sobre aquele tiro de raspão. Ela era teimosa e provavelmente recusaria cuidados, mas não podia dar ouvidos à teimosia dela, cruzar os braços e assistir enquanto ela sangrava no carro todo.

Esquecendo a dor dos meus próprios ferimentos, comecei a tirar minha jaqueta, com o intuito de fazer um torniquete no braço dela. Eu sabia que poderia muito bem ter feito com o dela, mas acho que doeria muito mais para ela tirar a jaqueta com aquele corte. A dor nas costelas foi intensa quando fiz menção de tirar a jaqueta, tanto que soltei um gemido baixo. Sam abriu os olhos rapidamente, surpresa com o som, e começou a me encarar com um olhar desconfiado:

–Por que está tirando a jaqueta, Freddie? – perguntou, o olhar oscilando entre a jaqueta que eu lhe estendia e meu rosto.

–Para fazer um torniquete no seu braço. Precisamos conter um pouco o sangramento até chegarmos ao hospital. – expliquei, enquanto dava um nó apertado em seu braço.

Mas, à menção da palavra hospital, ela recuou, dando um tapa na minha mão e me encarando irritada:

–Eu não preciso de hospital, nub. Acho que eu posso cuidar de mim mesma. – ela declarou, estreitando os olhos. Era uma clara mensagem: ‘Se você insistir, eu te mato. ’

Está vendo? O que eu disse? Eu sabia que ela ia dificultar com a história do hospital.

–Ah, é? E cuidou tão bem de si mesma que agora está com um tiro de raspão no braço! – rebati com minha melhor cara de desdém.

–E eu aposto que ainda consigo te vencer, mesmo com o braço machucado. – ela provocou – Mas isso não vem ao caso. Não vou ao hospital e pronto. Agora será que dá para voltarmos para o hotel? Como você mesmo disse, a polícia vai chegar logo. – e desviou o olhar irritado para a janela, dando o assunto como encerrado.

Dei a partida no carro e comecei a dirigir pelas ruas de Los Angeles, sem saber o que fazer. Ela não queria ir ao hospital e eu não poderia voltar ao hotel. Ainda pensava em algum modo de convencer a cabeça dura sentada no banco do passageiro a ir ver um médico. Após algum tempo, estacionei em uma calçada qualquer e me virei para ela:

–Tudo bem, não vamos ao hospital, mas primeiro precisa me dar uma boa e convincente razão para que eu não te arraste para um agora mesmo. – exigi.

Ela me ignorou, continuando a encarar a rua como se ela fosse a coisa mais interessante do mundo.

–Sam, olha para mim. – disse ríspido. Ela já estava me tirando a paciência.

Ela gruniu, levantando as mãos para o alto, se rendendo:

–Ok, Freddie, você venceu! Eu tenho medo de médicos, satisfeito? – e me olhou nos olhos, a raiva ebulindo deles.

E abaixou os olhos num instante seguinte, parecendo, bem,envergonhada:

–E também porque eu não quero que sua mãe nos ache. Pensa bem, Freddie, ela deve estar vasculhando nossos nomes em todos os hospitais do país. Se eu der entrada em algum agora, ela virá atrás de nós. E eu não quero ser o motivo pelo qual essas férias acabaram. – confessou.

–E é com isso que você está se preocupando? Com a minha mãe? – balancei a cabeça, incrédulo – Não está nem se preocupando com o fato de que pode sangrar até a morte ou conseguir uma bela infecção se não fizer nada com esse braço? – indaguei.

–É, isso passou pela minha cabeça. – disse, monótona – Mas, como eu disse, eu vou cuidar de mim mesma. Sem chance de um médico tocar em mim.

–Droga, Sam! — soquei o volante, ultrajado com a teimosia dela. Aquele tiro devia doer como o inferno e ela se fazendo de forte.

Então uma solução pipocou em minha mente. Não era a melhor, mas teria que ser suficiente. Apertando o volante com força, girei a chave na ignição. Sam deve ter lido o olhar de obstinação no meu rosto, porque perguntou um segundo depois, hesitante:

–O que vai fazer?

–Conseguiu o que queria, um médico não vai tocar em você. – e me virei para ela – Mas eu vou te suturar, quer você queira ou não. – declarei, acelerando rumo ao hotel.

***

Não ia ser uma tarefa fácil colocar Sam para dentro do hotel sem sermos vistos. Afinal, nenhum de nós queria ser visto naquelas condições. Sujos, sangrando e pálidos.

Decidi que a melhor entrada seria pelos fundos. O acesso dos empregados. Era final de semana e já passava das três da manhã, então esperava que não houvesse muitas pessoas ali. Passamos pela cozinha, vazia àquela hora. Em um dos corredores encontramos um segurança que fazia a ronda noturna, mas entramos rapidamente na lavanderia, despistando-o e pegando toalhas extras. Por fim desembocamos no elevador de serviço e eu praticamente soquei o botão do nosso andar. Corremos até nossa porta e ainda vimos uma camareira dobrando o corredor enquanto girava a chave na fechadura.

Sam desmoronou em uma das cadeiras de uma mesa próxima e eu comecei a vasculhar as malas, procurando pelo kit de primeiros socorros que minha mãe tinha posto em algum lugar da minha bagagem. Agradeci aos Céus por ter uma mãe paranóica com segurança. Às vezes vinha a calhar.

Abri a pequena caixinha e vi tudo aquilo de que iria precisar. Tudo intocado e esterilizado. Mas meu estômago deu uma volta desagradável à visão de todo aquele material. E só o pensamento de ter que suturar alguém de verdade, saber que aquilo dependia de mim, me fez sentir pior. Quer dizer, eu sabia o que fazer. Minha mãe, como enfermeira, e na sua ânsia de tentar me convencer a seguir carreira na Medicina, tinha me ensinado. Eu era bom em suturar, mas não tinha passado de alguns cortes em bonecos. Nunca tinha costurado ninguém de verdade e muito menos tentado salvar a vida de ninguém daquele jeito.

Engoli em seco, exalei um suspiro pesado e me virei. Era Sam ali, e ela precisava de mim. Não ia deixar que o meu medo me impedisse de ajudá-la. Ela me encarou, os olhos azuis me avaliando:

–Está tudo bem? – perguntou levemente preocupada.

Procurei colocar um sorriso confiante no rosto, e, assim que o fiz, minha apreensão se transformou em obstinação. Caminhei até ela:

–Tenho uma notícia não muito boa para te dar. Aqui não tem anestesia, então vai ter que aguentar firme. – sorri apologeticamente.

Ela pareceu ponderar aquilo por alguns instantes. Apertou os lábios em uma linha fina, mas, por fim, sorriu:

–Tudo bem, Benson, manda ver, a mamãe aqui pode aguentar. Só espero que saiba o que está fazendo. Não quero ficar com uma cicatriz horrenda pó sua culpa. – comentou.

–Bem, eu já fiz isso algumas vezes. – e completei – Em bonecos. – acabei confessando.

Ela revirou os olhos:

–Ah, que ótimo. Bom saber.

Trilha: http://www.youtube.com/watch?v=53ukFxQqwko

Ela estendeu o braço esquerdo com dificuldade e eu comecei a retirar minha jaqueta de seu braço. Depois demos um jeito de tirar a própria jaqueta dela, que grudava em sua pele por causa do sangue que começava a secar. Peguei uma tesoura e comecei a cortar a manga da blusa que estava sobre o ferimento. Já estava toda rasgada e chamuscada, então ela nem reclamou.

Só quando me livrei do pedaço de tecido, foi que pude ter uma visão mais geral do corte. Não era muito fundo, mas era extenso, tinha uns cinco centímetros de comprimento. Molhei o algodão no álcool e comecei a limpar todo o sangue de seu braço com o máximo de gentileza que me permiti aplicar. Estava esperando os protestos de dor por parte de Sam, mas eles não vieram. Apenas me olhou calada e séria durante todo o tempo. Não ousei devolver o olhar, sabia que se o fizesse aquilo me afetaria de algum modo. Então apenas me concentrei no meu trabalho.

Depois peguei agulha e o fio cirúrgico próprios para sutura e hesitei por um segundo. Eu não percebi, mas minhas mãos tremiam levemente. Sam, aparentemente tinha visto, pois depositou a mão sobre a minha e me assegurou, olhando-me confiante nos olhos:

–Você pode fazer isso, Freddie, eu sei que pode. – e apertou minha mão confortantemente.

Assenti uma vez, e me debrucei sobre o braço dela concentradamente. E novamente o silêncio se instaurou sobre nós. Ela não protestava, apenas me olhava, como fazia antes. Somente de vez em quando, quando dava um puxão mais forte, ela deixava escapar um silvo curto pelos lábios. Eu me desculpava e o silêncio voltava.

Demorou mais do que pensei, mas estava satisfeito com o resultado, afinal.

Por fim, peguei a gaze e me pus a fazer um curativo nela.

Quando terminei, levantei o olhar em sua direção e sorri aliviado:

–Conseguiu, Benson. Obrigada. — ela sorriu de volta, depois seu olhar vagou pelo meu rosto, até parar na minha garganta – Parece que vamos ter que dar uma olhada nesse corte. – indicou com o queixo.

Levei a mão à garganta e toquei o ferimento. Já não sangrava, só ardia um pouco. O que me preocupava eram minhas costelas. Havia alguma quebrada?

Sam, com a mão direita livre, começou a mergulhar o algodão no álcool e inclinar-se em minha direção:

–O que está fazendo? – quis saber.

–Estou cuidando de você, ué. – deu de ombros – Gosto de pagar as dívidas que eu tenho com alguém.

–Mas você está machucada, não pode cuidar de mim. Eu me viro sozinho, vá se limpar. – indiquei o banheiro.

–Não. Já disse que vou cuidar de você, e é isso que vou fazer. – teimou, inclinando-se para mim na cadeira e depositando o algodão com cuidado na minha garganta, limpando o corte.

Levantei um pouco o rosto para permitir que ela tivesse mais acesso ao meu pescoço e fechei os olhos com força, tentando esquecer a dor da ardência provocada pelo álcool contra minha pele aberta. Mas Sam foi tão gentil que doeu menos que esperava. Com uma única mão, fez um curativo habilidosa e rapidamente.

–Agora tire a camisa. – ordenou, autoritária. Mas pude observar um pequeno vislumbre de vermelho subir para suas bochechas.

–Para quê? – perguntei, estreitando os olhos.

–Você quer que eu conte suas costelas ou não? – disse de forma monótona – Aquele cara te bateu com muita força com aquele bastão. Quero verificar se quebrou alguma coisa.

Suspirei uma vez e levei a mão até barra da camisa, mas nos primeiros centímetros, percebi que não conseguiria tirá-la sozinho, a dor aumentava ao mínimo esforço. Depois de algumas tentativas, Sam perdeu a paciência e ergueu-se ficando parada aos meus pés:

–Deixe-me ajudar. Levante os braços. – ordenou.

Com um pouco de dificuldade consegui e ela após hesitar uma vez, tirou a camisa com cuidado para não me machucar, nem forçar seu braço recém-suturado. Ela não me olhou nos olhos, e o seu rosto corado de vergonha era simplesmente adorável. Quando finalmente retirou, seu olhar cruzou com o meu e eu a ouvi pigarrear uma vez e desviar o olhar, desconfortável. Jogou a camisa agora surrada em algum lugar e abaixou a mão, tocando o lado direito do meu corpo. Apalpava os dedos com eficiência, como se soubesse o que procurar. Parecia tanto concentrada quanto embaraçada:

–É, parece tudo intacto. – informou, por fim. Percebi que ela não se mexeu, nem tirou a mão do meu peito.

Levantei uma sobrancelha, decidindo que estava realmente feliz por saber o efeito que tinha sobre ela:

–Desde quando você sabe contar costelas? – eu ri, tentando quebrar a tensão.

Ela sorriu também, aceitando a provocação:

–E como você, Benson, sabe suturar e não contar costelas? Poupe-me. – revirou os olhos.

Mas a tensão era clara demais, e quando ela voltou a me olhar, nós dois paramos de sorrir. Ficamos nos encarando por um bom tempo, absorvendo um no olhar do outro o que tinha acabado de acontecer naquela noite. Estávamos vivos. E tínhamos salvado um a vida do outro. Mas, mais que isso, ela me olhava com sentimento, algo que era raro em seu olhar, e eu pude ler exatamente cada pensamento, cada desejo, cada emoção sua.

Então fiz a única coisa que eu vinha desejando há muito tempo. Toquei sua mão boa com a minha e a puxei para mim. Ela caiu sentada no meu colo no mesmo instante em que eu capturava seus lábios com os meus. Era um beijo cheio de sentimentos não falados e reconhecimento. Suspirei uma vez, inalando seu perfume cítrico, misturado ao álcool e às cinzas. Era um cheiro bom, afinal de contas. Ela parecia surpresa com meu ato, no começo, mas depois se rendeu a mim, moldando os lábios nos meus.

Após algum tempo, pegou minhas mãos e retirou-as gentilmente dos lados de seu rosto, quebrando o beijo. Olhou-me séria:

–Olha, Sam, eu sei o que você disse antes sobre não nos beijarmos, mas... – comecei.

Mas ela me calou com um selinho rápido:

–Está tudo bem, Benson. Só me pegou um pouco de surpresa. – ela sorriu – E sobre isso, me faz um favor? Esquece o que eu disse antes. – e voltou a me beijar.

Depois se levantou e rumou para o banheiro:

–Cuidado com esse curativo. Não vai molhar. Deu trabalho para fazer. – ralhei.

Ela olhou para trás e revirou os olhos:

–Relaxa, nub, tenho dezessete, não sete.

Notas finais
E aí, mereço ser perdoada pela demora? Perdoem-me com reviews, sim?
Ah, e cruzem os dedos e rezem pra q eu consiga ir pro show do Evanescence em outubro :)