Highschool Of The Dead - The Last Journey
7 Capítulo 7 - A Determinação que Supera os Mortos
Nove Anos Atrás
- Tenha certeza de não desapontar o seu pai, esse torneio é a chance de mostrar que você é uma pessoa diferente do que o velho Busujima acha, vá em frente sem olhar para trás, minha filha. – Busujima Kaoru, enquanto amarrava a cinta que prendia sua roupa de kendô sua filha, incentivava-a o máximo que podia, era a única naquela casa que acolhia a menina.
- Pode contar comigo mamãe, eu treinei muito pra esse dia! – Era a final do campeonato mirim de kendô no dojo dos Busujima, clássico na região onde os mesmos moravam. Busujima Hotaru, famoso espadachim e pai de Saeko, era um homem rígido, tinha os olhos grandes e determinados, sempre andava por aí com a expressão emburrada, nunca deixara seu orgulho ser ferido, tinha a frieza de um leão em frente a sua presa e a coragem de um leopardo ao correr frente a um mamute. Atualmente, Hotaru via Saeko como uma simples criança descartável, era sua única filha, mas apenas iria aceita-la quando a mesma se mostrasse digna diante de seus olhos vívidos.
Naquela ocasião, a garota tinha passado duramente por 5 adversários, até chegar na fase final. Todos da família estavam assistindo ansiosos pelo desempenho da menina, porém, seu pai desprezava suas lutas, tratava aquele momento como perda de tempo, mesmo que Saeko fosse a vencer, jamais iria gratifica-la ou demonstrar fraternidade para com a menina. Consciente dos sentimentos de seu pai, Saeko aprendeu a reprimir sua solidão o máximo que podia, conviveu muitos dias em total isolamento do mundo exterior, apenas treinando com o intuito de ser mais forte, para que talvez, um dia, de maneira inesperada, uma pequena faísca de luz lampeje nos olhos de Hotaru. Sua mãe era a única que estivera ao seu lado, a única que poderia lhe dar amor em momentos dolorosos, a única para quem Saeko realmente se empenhava.
- A próxima batalha será a final, onde será decidido o campeão municipal de kendo na categoria mirim. Peço para que os oponentes se apresentem.
Saeko caminhava lentamente até o meio daquela arena escura que ficava dentro do seu antigo dojo, todos os torneios aconteciam naquele local, ela á estava acostumada com o ambiente, apesar de ser o seu primeiro campeonato, demonstrava segurança diante de várias pessoas que a fitavam com espanto. Apesar de ser criada docilmente por sua mãe, a determinação de Saeko a fazia se tornar cada vez mais dura consigo mesmo, seus objetivos já eram firmados na pré-idade, conseguia enxergar um futuro onde só a vitória lhe importava.
- Saeko Busujima, espero que tenhamos um bom combate. – A garota se curvava em frente a seu adversário, um rapaz que aparentava ser de sua idade. Como não havia muitas garotas para separarem o torneio por gêneros, desde o ano anterior, as categorias passaram a ser mistas, dando a chance para garotos e garotas se enfrentarem, apesar dessa regra, Saeko foi a única a participar, mesmo sendo uma garota, vista como inocente e indefesa na visão de terceiros, havia vencido cinco adversários que eram dois anos mais velhos que a mesma.
- Prazer em conhecê-la, com certeza vamos ter uma boa luta. Sou Uchida Katsushima, não importa quem vença, vamos nos divertir. – O garoto demonstrava um sincero sorriso em sua face estreita e bem definida, o que deixava a garota um pouco recolhida, pois até agora, só tinha enfrentado jovens que sabia que mereciam algumas pancadas, mas ao ouvir a declaração de Uchida, sentiu que não deveria pegar tão pesado. Acabaria com a luta da forma menos dolorosa possível.
Dias Atuais
- Espere aí, o senhor disse que ele se chama como mesmo? – Saeko segurava sua lâmina de maneira precisa sem tirar seus olhos do seu adversário, mantinha o foco como se uma mosca fosse o seu alvo cambaleando em frente a seus olhos fixados em um único ponto.
- Ele é nossa joia especial, depois de salvar a vida do bastardo ele jurou lealdade a mim, e agora, vamos parar de enrolação pois pelo visto o Uchida-Kun já não está mais paciente. – Enquanto Toma respondia Saeko, Uchida respirava como um touro antes de acertar um chifre no estômago do toureiro confiante, segurava em sua mão direita uma bokken, tradicional espada de madeira usada em dojos que ensinam a arte do kendo.
- O quê? Ele vai enfrentar a katana da Busujima com aquele brinquedo? Eles só podem estar loucos! – Saya se indignava com a desvantagem aparente que vira em Uchida, porém, isso a deixava feliz mas ao mesmo tempo desconfiada, no território inimigo, era impossível receber uma vantagem tão grande, ela analisou os olhos do garoto e via que o mesmo estava bem mais confiante que Saeko, o que a deixava ainda mais preocupada.
- Você percebeu não é mesmo? Tem algo por trás disso tudo, olha o sorriso daquele velho desgraçado. – Kouta observava através da mira de sua sniper e também percebia a estranheza dos fatos naquela arena rodeada pela claridade do fogo que emanava violentamente das tochas se espalhando com o vento.
Enquanto isso, Rei e Takashi observavam tudo, ansioso pelo combate que aconteceria em segundos.
- Qual o objetivo dele? – Komuro sentia alguns calafrios tomarem conta do seu corpo, se inquietava toda vez que seus olhos pousavam em direção a Toma. Algo nele não parecia estar certo dentro de uma realidade em que o mesmo impusera.
- Eles são perigosos, mas o Uchida é ainda mais. Eu vi tudo o que ele fez agora a pouco, ele é um monstro, diria que bem mais profissional que a Busujima, acho melhor cancelarmos isso. – Rei, mantendo-se ao lado de Takashi, ainda assustada por estar cercada de pessoas sedentes por violência, ansiava por uma saída daquele inferno aberto, e por breves segundos, seus olhos também percorriam todos os cantos angulares do recinto procurando alguma brecha para fugirem, na pior das hipóteses, o que era uma hipótese tão provável que seus pés já ficaram atentos.
- Isso é uma piada de mal gosto, certo? – As palavras de Saeko, tanto poderiam se referir à espada que seu adversário portava, tanto ao próprio adversário, que, para sua própria surpresa, foi o garoto que acabou mudando sua vida familiar drasticamente, até para reforçar, ela diria que ele traçou uma nova rota que Saeko jamais poderia imaginar existir enquanto caminhava em cima de fios de seda que com qualquer movimento falso se partiriam a levando para um profundo campo de flores negras cobertas com espinhos de metal que perfuravam não só o corpo mas também a alma. Seu orgulho era a única coisa que ainda a mantinha em pé, sua única lembrança daqueles tempos no seu dojo, tentava não pensar muito naquele momento, tinha a obrigação de vencer, depois de ver a coincidência que surgira, ela só podia crer que os Deuses estavam lhe dando uma chance para provar sua dignidade e firmar seus pés naquele concreto que ela tanto riscou anos atrás, mas que nunca conseguira perfurar, por mais que sua força fosse avassaladora.
- Piada? Piada vai ser você caindo em menos de dois minutos! Você não percebe? Estamos lhe dando uma vantagem enorme, mas ainda assim, as chances de Uchida de vencer são bem maiores! A única chance de você vencer, seria se ele lutasse vendado ou sem armas, apenas isso. – As palavras de Toma só podia ser um blefe, mesmo sabendo de seu dom manipular, Saeko tremia. Inevitavelmente, em sua mente, aquelas lembranças se encaixavam pouco a pouco, montando um quebra-cabeças que ela pensou ter jogado fora a muito tempo.
- Você não se lembra de mim, certo? – Seus olhos lacrimejavam ao olhar, dessa vez, de maneira piedosa para Uchida, entretanto, o comportamento do garoto era sempre o mesmo, preparado para matar o que visse pela frente.
- Depois de dilacerar sua carne eu não vou mais me lembrar nem do seu rosto. – Assim como a nove anos, Uchida partiu de maneira descuidada.
Nova Anos Atrás
- Saeko-Chan! Não se canse agora, você ainda pode vencer. – Saeko havia quebrado um de seus braços, era quase impossível terminar aquela luta. Sua mãe gritava desesperada motivando ainda mais sua filha, pois ela também conseguia enxergar que, essa, seria senão, a última e decisiva oportunidade para trazer seu pai de volta à vida.
- Não vou perder... não pra você! – Saeko era vaiada por todos ao seu redor. Nunca passou por tanta humilhação. Uchida, desde o começo, era o único a lutar de maneira séria demonstrando vontade e uma enorme convicção. Ao perceber que Saeko não tinha o que era preciso para se igualar ao garoto que a atingia fortemente, mudando sua expressão, de um sorriso singelo para olhos ardentes como de uma cobra dando o bote mesmo vendo que sua presa já está morta.
- Vocês... calem a boca, malditos! – A mãe de Saeko tentava acalmar o público, o fato era que, naquela época, o clã dos Busujima fora acusado de extorquir dinheiro de um templo, o responsável, era o pai de Hotaru, um velho sacerdote que morrera naquele mesmo ano. Desde então, todos os rivais dos Busujima, tanto em negócios como na arte do kendo, passaram a perseguir Saeko, que superou friamente todos os insultos e olhares frios que recebia desde quando era pequena. Em seu colégio, as crianças se afastavam da mesma a pedido de seus pais, ela nunca foi próxima a ninguém, mas isso, ao contrário do que outras crianças pensariam, a deixava feliz. Todos sendo inferiores a ela inflamava o seu ego indestrutível, crescendo em um ambiente rigoroso, tendo o desprezo do seu pai, o ódio dos seus vizinhos e amigos, e objetivos que ainda não sabia quais eram, a garota prometeu jamais perder para ninguém.
Saeko partira para cima de Uchida e com um rápido movimento, golpeava suas pernas derrubando o garoto no chão.
Dias Atuais
Uchida partia para cima de Saeko soltando um forte grito, rugindo ferozmente, ele finalmente encontrava sua presa ideal. Saeko se esquivava do primeiro golpe, a mesma se negava a lutar com uma katana de verdade contra uma espada de madeira. O fôlego de Uchida parecia não ter fim, ele disparava vários golpes em direção á menina, que mesmo atônita, tentava desviar dando vários passos para trás, mas em certos momentos era atingida de raspão, o que a impressionava era a força imposta pelo garoto que, mesmo usando uma arma de madeira, desferia golpes que cortavam sua pele como uma lâmina afiada a momentos atrás.
- “Quando foi mesmo que eu senti isso pela última vez? Ah, eu acho que já sei.” – Saeko sorria. Um olhar difundido pelos golpes pavorosos que o rapaz alçava cortando o ar e visando somente a cabeça de Saeko, queria pelo menos fazer um grande buraco em seu crânio. Sua estratégia era fazer com que o garoto se cansasse para então derrubá-lo com a parte de trás de sua katana, visto a brecha em um momento mais lento do jovem, Saeko virou sua espada, mas antes que pudesse atingir o garoto, com os olhos em movimento, tentando mantê-lo caído no chão, ao perceber, sentia um forte estrondo em seu tórax, cospia sangue segundos depois, seus olhos viravam-se para baixo e a mesma via a ponta da espada de Uchida um pouco abaixo do seu peito. O golpe fora tão brusco que Saeko se ajoelhou sem conseguir abrir seus olhos, resmungou algumas palavras que Uchida não podia entender, e mais uma vez, antes que pudesse puxar um suspiro, Uchida acertava um forte golpe em seu rosto, jogando-a para alguns metros de onde ele estava, mas com a mesma ainda segurando sua katana.
- Foi mais fácil do que eu imaginei. Uchida vai ficar furioso por ser iludido, tsc. Muito bem pessoal, ainda não acabou, agora é hora da... RETALIAÇÃO. – Com as palavras do chefe daquele lugar, Uchida corria em direção a jovem caída no chão preparado para partir todo seu corpo.
Nove Anos Atrás
A plateia estava calada. A mãe de Saeko parava de chorar, como se houvesse tomado um choque e estava em transe. Hotaru havia chegado ao local segundos atrás após ouvir alguns gritos. Seus olhos se mantinham arregalados ao olhar para sua filha, sua tão adorável filha, responsável por todo seu ódio, um ódio dissolvido por um sentimento cujo qual ele queria cortar com toda a força que seu corpo robusto possuía. Hotaru Busujima jamais queria que sua filha seguisse o seu mesmo caminho, quando a pegou pela primeira vez no colo, até seus três anos de idade, o homem sempre desejou que ela vivesse um caminho feliz, que escolhesse um seu próprio destino, diferente do mesmo, que obrigado por ser pai, se tornou um guerreiro incapaz de sair de uma jaula reforçada por grades que selavam um orgulho artificial que ele demonstrava erroneamente. Seu pai sempre foi um senhor feudal, mantinha propósitos antigos e a tradição era tudo que seguia, não aceitaria que Saeko se tornasse outra coisa, se não uma espadachim honrada, mas, diferente do destino que lhe fora tomado, Hotaru desejou que a garota fosse para o mais longe possível, até que não pudesse mais enxerga-la, até que todos os seus pecados fossem consumidos com o tempo. Ele se ajoelhou naquele momento vendo o seu próprio erro, fugiu a vida toda tentando mostrar para Saeko que aquilo não era algo para ela, mas já era tarde. Ele foi o próprio percurso da criação demoníaca que naquele momento, despertava das profundezas obscuras daquele amaldiçoado dojo. Saeko sorria ao ter quebrado duas pernas de Uchida e alguns de seus dentes, mesmo com o juiz tentando impedir, a mesma também o golpeou e todos que se aproximassem. Seu sorriso era insanamente cruel, mas regado de alegria. Não havia ódio em seu coração, apenas o prazer em vencer. Uchida Katsushima estava totalmente derrotado em sua frente, porém, consciente.
Na luta com Uchida, naquele atual momento, ao cair como Uchida caiu, ela pode perceber de uma vez por todas. Saeko pode entender o significado de estar lutando, o motivo por qual ela perseguia a sombra do seu pai.
Assim como aconteceu no dojo, ao ver que seu pai estava a assistindo, imóvel, chorando, lamentando por todos os seus erros, Saeko se levantava lentamente, como se estivesse acordando de uma boa noite de sono. Mal ouvia os passos de Uchida que corria em sua direção, ela não havia percebido uma única coisa. Naquele tempo, Uchida fora treinado por um clã que também fazia parte do templo do seu avó, uma família rígida que não deixava o menino ir para a escola, ele recebia aulas em sua própria casa, e logo em seguida, partia para treinos intensos apenas com o objetivo de preservar o nome dos Katsushima. Uchida, assim como seu pai, haviam sido presos, e a diferente de Saeko para eles, era um só.
A garota estendia sua mão na frente de Uchida e segurava sua espada como se não fosse nada. Apenas uma mão era suficiente para parar o golpe que antes, havia a lançado para longe. Uchida se espantou, algo não estava certo ali. Ao perceber que a garota em sua frente se tratava da mesma que havia enfrentado a nove anos, a mesma mulher que o deixou marcas eternas, no meio daquele caos, estava enfrentando todo seu orgulho com uma arma ainda mais poderosa.
- Saeko...San? – Os olhos de Uchida pareciam mudar. Saeko jogava sua katana profissional para um canto qualquer, pedindo ao juiz do combate uma espada de madeira semelhante a de Uchida.
- Por quê você está aqui? Não pode ser!
- Pode sim, e é. – Enquanto o garoto ainda permanecia perplexo, Saeko segurava sua espada de madeira e se afastava do rapaz, em seguida, mantendo-se em posição, a mesma posição que seu pai fazia quando em uma luta decisiva, a espada abaixo de seus peitos, sua mão esquerda segurava a parte de baixo do suporte da arma suavemente, enquanto a direita, a parte de cima era espremida inclinando a espada um pouco abaixo dos seus olhos. – Sabe, Uchida-San, não creio que isso seja uma coincidência. Nos enfrentamos aqui pra terminar o que começou naquela época. Eu não te respondi aquela pergunta, se lembra? – Saeko partia para cima do garoto que tentava se lembrar o fator decisivo para sua derrota.
A nove anos, Saeko, derrotando completamente Uchida, olhava para seu pai se sentindo não vitoriosa pela luta, mas vitoriosa por poder decidir o seu próprio destino.
- Eu já sabia que você não era uma má pessoa papai, eu sempre vi em seus olhos o seu amor. Mas assim como o seu amor por mim e pelo kendo, também aprendi uma coisa importante pra poder amar, por mais que amamos alguma coisa, se não pudermos escolher o que nos deixa mais feliz, de nada vai adiantar, e eu decidi papai. – Saeko jogava sua espada no chão, ato que, em uma partida de kendo, demonstrava rendição para com seu adversário e, por Uchida permanecer, mesmo caído no chão, com a espada em sua mão, era considerado vencedor da luta.
Naquela ilha meio a escuridão que vinha do oceano, a espada de Saeko e Uchida mais uma vez se chocavam, o fundamental para seu pensamento, para sua convicção, tudo que havia aprendido naquela sua jornada quando era pequena, até as trilhas que a levou até ser a mulher que é, era colocado em jogo decidindo seu futuro.
- A única diferença entre eu e você, não é nossa força nem habilidade no kendo. – Com um único golpe, Saeko derrubava Uchida que já não possuía mais forças. – É a nossa força pra escolher o próprio futuro.
Hotaru, levando suas mãos ao rosto, envergonhado e feliz por possuir uma filha tão forte, não observou a menina que saía da arena com um sorriso em sua face, o sorriso de alguém que havia descoberto um propósito a mais. Naquele dia, nascia em Saeko o seu desejo por lutar.
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