Diante da total escuridão daquela fria noite, apenas o que podia ser ouvido era o som inquieto do oceano que varria suas águas contra o pequeno bote onde os jovens sobreviventes se encontravam. Uma única lanterna nas mãos de Saya clareava as águas negras e um caminho sem horizonte para ser traçado e nenhum ponto de referência, poderia se dizer que estavam perdidos em um deserto de água e a qualquer momento poderiam ser engolidos pelo pavor do desconhecido.

- Não quero reclamar nem nada, mas... Por que diabos eu estou remando, enquanto esse gorducho fica segurando uma arma apontando pro nada!? – As palavras de Rei enquanto a mesma remava a pequena embarcação juntamente de Saeko e Takashi, refletiam o que estava acontecendo naquele momento em que o grupo saiu daquela vila amaldiçoada.

- Eu sou o que enxerga melhor meio a essa escuridão, além do mais, força física não é comigo! Minha especialidade é com esses brinquedinhos aqui, todos concordam não? – A expressão de Kouta era de superioridade mas fora ignorado pelos outros que se concentravam em suas funções.

- Eu preciso cudiar da Alice-Chan, é perigoso pensar que ela poderia cair do barco e se afogar! – Alice olhava para Shizuka com o rosto emburrado.

- Não sou uma criança pra cair, além do mais, eu sei nadar!

O grupo tentava voltar novamente até o navio, mas não tinham nenhum ponto de referência, a não ser um dos sinalizadores que, supostamente, Rika havia lançado minutos atrás, visto que antes de partirem, ela avisou que daria tais sinais para eles se encontrarem novamente. Saeko e Rei remavam do lado direito do bote, enquanto Takashi tomava conta do lado esquerdo, Saya tomava conta da lanterna e Kouta vigiava os arredores, apesar das águas estarem turbulentas, o silêncio predominava no local, quanto mais eles remavam, mais tudo ficava distante, a ansiedade de todos aumentava, estarem no meio da escuridão em um oceano desconhecido era ainda mais perigoso do que ficar diante de mortos vivos sedentos.

- Não recebemos a mais de 10 minutos nenhum outro sinal. Não acham que tem algo errado? – Saeko parava de remar por um instante, logo em seguida, os demais também interrompiam seus movimentos, um clima de tensão fora criado no ar.

- Tem razão, nós demoramos apenas alguns minutos pra encontrarmos aquele lugar, não devia estar tão longe do navio, demos sorte por ver o bote da Rei encostado na baía, mas agora parece que estamos distantes de tudo. – Takashi ficava em pé tentando enxergar ao menos algum ponto de luz ou algo que os levasse para alguma direção.

- Estamos seguindo o sinal que recebemos, o caminho é esse, as ondas não poderiam ter nos arrastado pra longe, eu calculei bem isso, talvez os sinalizadores tenham acabado. – Saya pensava em possíveis explicações para estarem ali, supostamente perdidos.

- Aliás, eu não queria dizer mas, tenho a impressão de que tem algo atrás da gente. – Os olhos de Kouta naquele momento se viravam para a parte traseira do bote encarando a escuridão como se fosse um dos monstros prestes a atacar vorazmente.

- Isso é sua imaginação, não tem como alguém estar atrás da gente. Depois que deixamos aquela ilha não vi ninguém nos seguir, até porque eles estavam ocupados demais fugindo dos zumbis, e tenho certeza que o Uchida conseguiu resolver as coisas por lá. – Apesar das palavras, Rei não estava tão confiante na situação do grupo, a verdade é que tremia ao estar naquele impasse, estava ansiosa para ver alguma luz ou algum sinal de terra ou do navio, o pequeno bote em que todos estavam começava a ficar ainda menor quanto mais os minutos se passavam.

- Bom, vamos logo descobrir então. – Kouta, sem pensar, apontava sua calibre 29 para a traseira do barco e disparava repentinamente.

- O que foi isso seu retardado!? – Saya dava um chute no garoto o repreendendo, mas ao menos isso iria confirmar as suspeitas de Saeko.

- Se tem alguém lá atrás, ao menos agora eles ficaram espertos. – Os olhos do rapaz se enchiam de excitação, aquela situação desconfortável parecia lhe agradar.

- Ei pessoal, fiquem quietos por um estante! – Alice segurava as mãos de Kouta e pedia para que todos ficassem em silêncio por um instante sem dar explicações.

Por alguns segundos, todos do grupo apenas ouviram ruídos do mar e certo som desconhecido que intrigava todos.

- Isso... o que diabos é isso? – Shizuka se encolhia no fundo do bote ao temer o som desconhecido que ouvira, era um ruído baixo que parecia vir dos confins do oceano e invadir a mente de todos no barco.

- Parece que está bem longe, talvez sejam gritos das pessoas em alguma cidade? Com a falta de energia não da pra ver nada, nem se quer o fogo que queimava antes, estamos distante de qualquer cidade que seja, impossível ser isso, pra falar a verdade. – Saeko ficara atenta a qualquer acontecimento que viera logo em seguida, seus nervos estavam ainda aflorados devido ao que acontecera minutos atrás, estava preocupada com Uchida mas, mais ainda, com o navio que os esperavam.

- Não é nada bom, está ficando cada vez mais alto, escutem. – Takashi pedia silêncio novamente e todos podiam ouvir gritos e tiros vindos de algum lugar distante ao norte da embarcação dos mesmos.

- Isso foi um tiro não foi!? Eu ouvi! Não pode ser... – Rei já se preocupada ao pensar na segurança de sua mãe e das pessoas do navio.

- Mentira né? – Naquele exato momento, as pilhas da lanterna que Saya carregava se esgotaram, a escuridão agora era completa, só as estrelas e as manchas da via láctea podiam ser vistas claramente pelo grupo que se apavorada diante dessa situação.

- Shizuka-San... – Alice poderia não ter medo das águas mas o escuro que tomava o local e a oscilação do bote dado pelas ondas que ficavam cada vez mais fortes amedrontavam a garotinha que se agarrava nos peitos da enfermeira.

- Takashi-Kun! – Rei se deslocava indo até onde Takashi estava, também assustada. Naquele instante, ao olharem para frente, um enorme clarão podia ser visto, um clarão que se espalhava por todas aquelas sombras da noite, clareando a vastidão que os cobria, a fumava subia até o céu, um enorme som de explosão ensurdecia todos que se abaixavam no bote instintivamente, temendo o que pudera ter acontecido.

- Puta.. merda. — Kouta se inclinava na popa do barco e já sabia o que estava acontecendo.

- Foi Tóquio? Explodiram Tóquio finalmente? – Shizuka cutucava Takashi mas ele parecia não ter voz para responder.

- Não... o navio. Mãe! – Rei ficava atônita, o desespero tomava conta do seu coração, aquele clarão que se espalhou segundos atrás era indício de que algo havia acontecido no navio, algo grande e devastador.

- Porra, o que foi isso? Temos que sair daqui rápido, vamos até lá. – Takashi apontava para onde a luz começava a se dissipar, a escuridão voltava aos poucos a tomar conta daquele breve horizonte de chamas enxergado por todos de maneira atordoante.

Durante alguns minutos, o grupo seguiu em direção ao norte buscando explicações para a explosão que haviam visto. Em certa área, o grupo começou a encontrar pedaços de metal e outros materiais espalhados pelo mar, apesar de não enxergarem direito devido à escuridão, sabiam bem do que se tratava.

- Foi o navio né? Foi o navio né? – Rei começava a chorar de maneira discreta mas sentindo uma enorme dor ao prever o pior.

- Ei pessoal, olhem lá! – Alice se levantava do colo de Shizuka e apontava para uma grande mancha que cobria a vista de todos no bote, parecia um enorme iceberg ou um prédio meio ao oceano, mas quanto mais perto o bote chegava, mais eles podiam perceber claramente a identidade daquele objeto que parecia diminuir conforme os segundos corriam.

- Filho da puta. — Kouta deixava sua arma cair no fundo do bote ao se deparar com a proa do navio que antes, todos estavam, virada de ponta cabeça enquanto o mar a engolia lentamente.

- O que diabos aconteceu aqui? – Saeko começava a tremer ao ver vários corpos boiando em direção á correnteza. Rei começava a chorar enquanto abraçava Takashi, este, apenas torcia seu rosto ao ver restos do navio e corpos espalhados por todos os cantos de um mar manchado de sangue.

- Precisamos desviar, se não vamos bater! – Saya deixava todos atentos para remarem até um local distante dali, já que estavam chegando perto da parte do navio ainda imersa na superfície.

Naquele momento de apreensão, uma forte luz invadia o rosto dos jovens, parecia um farol, mas se tratava de uma outra embarcação, um pouco maior que um bote convencional, parecia estar a alguns metros do bote onde os jovens estavam.

- Quem está aí!? – Shizuka gritava procurando alguma resposta. A embarcação parecia chegar cada vez mas perto do barco do grupo, Kouta já preparava sua arma e Saeko ficava atenta a qualquer movimento.

- Espere... aquilo... – Rei se dirigia até a frente do bote e abria um vasto sorriso em sua face ao se deparar com sua mãe em cima de um bote reforçado carregando um enorme farolete e acompanhada de mais algumas pessoas.

- Miyamoto-San! – Shizuka via ao lado dela sua amiga Rika junto de outras pessoas que estavam no navio anteriormente.

Ao se encontrarem, os dois barcos se encostavam, Takashi lançava uma corda para a outra embarcação, Rika a pegava e prendia em um suporte de madeira deixando os dois barcos conectados, e então, reunidos, discutiam o que havia acontecido com o navio.

Miyamoto explicava enquanto a maré levava os dois botes para o norte, mas logo fora impedido por dois homens que remavam violentamente no barco da mãe de Rei. Logo atrás dos mesmos, havia outro barco que parecia levar umas 8 pessoas, no de Rika e Miyamoto, haviam 6 pessoas, junto com capitão Howard e as duas.

- Então basicamente vocês abandonaram o navio e explodiram tudo por não conseguirem lidar com os zumbis que encontraram? Mas que diabos? Quem colocaria zumbis no navio que nos salvaria? Pra piorar, mais de 50! – Saya não se conformava com o que lhe fora explicado.

- Pode não acreditar mas foi isso que aconteceu. Alguém certamente tramou contra a gente, muitas pessoas não conseguiram se salvar, apenas 14 de nós escapamos em segurança, um outro bote ficou pra trás mas não sabemos se estão vivos, eu já havia preparado alguns explosivos caso algo acontecesse, minha única solução foi explodir o navio, os zumbis não eram normais, eles pareciam mais velozes, nem com nossas armas e meus soldados conseguimos lidar com boa parte, não vimos escolha a não ser afundar o navio e sair dali com esses botes. – Rika tentava dar satisfações aos jovens, que não podiam acreditar no ocorrido.

- E agora? Como vamos chegar na ilha? – Alice estremecia ao ter suas ilusões quebradas com a destruição do navio e o possível complô contra os sobreviventes.

- Não se preocupe, eu estou com as coordenadas aqui, basta apenas seguirmos para o norte e em alguns metros deslocamos os botes pro sudeste, devemos encontra-la se tudo ocorrer bem. – Miyamoto parecia positiva com a situação em que se encontravam, ela ainda mantinha suas esperanças de chegar no destino esperado.

- Ei, Takashi-Kun, isso é bem estranho. Rika disse que os zumbis não eram normais, certamente, eram parte daqueles mortos vivos que encontramos na ponte e que aquele velho maluco relatou, mas, sendo assim... quem poderia ter colocado no navio? Seria preciso muito tempo pra isso e muitas pessoas também, além do mais, ter a posse do navio, e as únicas pessoas que conseguiriam isso eram os homens de Rika e o grupo de Howard, temos que tomar cuidado. – Saeko cochichava com Komuro as possibilidades que podiam estar acontecendo.

Algum tempo se passou enquanto os três botes continuavam seguindo o rumo traçado por Miyamoto e Rika, nesse período de tempo, os jovens, exceto Alice, revezaram para remarem seguindo o barco principal, já cansados, depois de mais ou menos uma hora e vinte minutos, Miyamoto se levantava rapidamente, parecia aflita e estranhamente tensa.

- Mãe? O que houve? – Rei gritou para sua mãe mas a mulher apenas apontava, jogando a luz de sua lanterna em uma pequena fração de terra que se encontrava a alguns quilômetros dali.

- Finalmente, hein? – Saeko sorria ao perceber que a ilha em que o grupo pretendia chegar fora encontrada.

- Viram só? Eu disse que podiam confiar em mim como navegadora, haha. – Apesar da aparente exaustão, Miyamoto comemorava, todos na embarcação também se sentiam vitoriosos, apesar das perdas e de todo estoque de comida e armas que foram afundados com o navio, eles finalmente chegaram no destino final, mas ainda havia algo que incomodava o grupo de jovens sobreviventes.

- Isso não é estranho? Comemorarem... assim? O japão está prestes a ser explodido, muitas pessoas vão morrer, nem sabemos o que nos espera nessa ilha, além do mais, alguém dessas 14 pessoas podem ter colocado os zumbis no navio, não tá certo, algo aqui não está nada certo. – Rei olhava para todos dos dois botes em sua frente com certa suspeita. Tirado Rika, sua mãe e Howard, no primeiro barco, Scot, um soldado de Rika, juntamente de Jouchi, o velho esquizofrênico e Koukai, um senhor que vestia um terno, faziam parte dos 6 integrantes do barco principal. No segundo e mais cheio, estavam Teresa, uma senhora de 50 anos que era estrangeira, Masataki, um garoto de 18 anos juntamente de sua irmã Frau, comandando os remos estavam Urui, outro soldado do grupo de Rika e Yasu, um velho policial amigo de Miyamoto. Sentados perto da proa se encontravam o casal Hiku e Shizuru, juntamente de um figura estranha, que não falou uma palavra, tanto no navio, como nos botes, era uma jovem de cabelos vermelhos e olhos extremamente negros, sua aura era fria mas ela não aparentava ser uma má pessoa. Todos esses sobreviventes iriam tomar conta daquela desconhecida ilha, faltando apenas 50 minutos para a explosão de Tóqui, o grupo desembarcava sem esperar que aquele local que, aparentemente, lhes traria tranquilidade, era apenas o final de toda essa calamidade que sofriam até aquele momento.