Banhado a sangue, sem saber onde estavam as únicas virtudes que ainda lhe restavam, apenas sucumbindo aos gritos grotescos daquelas criaturas que, apesar dos dias de massacre, já estivera acostumado, ao se deitar, tudo que sentia era o cheiro da ferrugem do sangue entrando em suas narinas, seus sonhos já não existiam em uma mente conturbada pela morte, palavra que o prendia a cada dia, a cada luta, a cada movimento de seu bastão, pregava o seu próprio evangelho da destruição, não havia nada em seu caminho além de morte.

Uchida sorria de maneira elegante, como se estivesse em um baile de formatura, algo que nunca tivera, dançando com sua companheira tão desejada durante todo o semestre, um fato que também não lhe acontecera, diante dos rótulos diversos que eram dados por diversas pessoas, o vínculo de amizades do garoto era formado por difamações e humilhações constantes, não havia se quer a esperança de alguém que lhe estendesse a mão. Nunca lhe estenderam a mão ou o agradeceram, todo rancor que o menino guardava era agora descontado com aqueles bruscos movimentos de seus braços, o bastão de beisebol que ele tanto amava quebrava violentamente os crânios apodrecidos daquelas criaturas, com certo tom de restauração de sua alma, ele apreciava o sangue jorrando por seu rosto, não sossegava até ver todos os órgãos daqueles demônios espalhados pelo chão, e mesmo jogados a deriva, os esmagava até não sobrar mais nada. Uchida derrotou aqueles cinco zumbis vorazes em menos de dois minutos, o público daquela arena entrava em delírio, o garoto era uma unanimidade, sinônimo de louvor, não havia maneira daquele grupo ser ameaçado com alguém como ele na linha de frente, era todos submissos à Toma, mas mesmo assim, se sentiam mais seguros do que no mundo exterior, graças a desgraça maior que era causada por aqueles dois, em comparação com os monstros que os cercavam.

- Já pode parar agora meu caro, não quero que se canse, afinal, pelo visto, nós temos convidados essa noite. – Toma acendia um enorme charuto seguindo em direção ao garoto, que, no meio da arena, ofegante, continuava esmagando os pequenos pedaços dos corpos dos monstros que ainda restavam pelo chão.

- Convidados? Quer dizer que vou me divertir mais? Pode mandar vir. – O menino não hesitava em matar, era tudo que ele conseguia fazer, sua vontade em criar carnificina, a sua determinação pela vingança que nunca existira no mundo que antes, era real.

- Gouji, pode trazer a moça pra cá. – O público se calara diante de uma garota que era trazida nos braços de um brutamontes deformado com várias cicatrizes que mais parecia um troll, um dos guarda-costas de Toma.

- Que merda é essa hein? Vocês ficaram malucos? O quê... o que diabos é isso? – Miyamoto Rei, segurada fortemente por Gouji, sentia ânsia de vômito ao se deparar com tal cena em sua frente, aquele emaranhado de tripas e pedaços de zumbis e humanos misturados naquela terra avermelhada. A imagem de Uchida em sua frente era translúcida, o garoto não conseguia sorrir mais, ao olhar para os olhos de Rei, ansiava por mais justiça.

- Vejam, pessoal, parece que alguém ousou entrar em nosso território sem ser convidado, agora, com a opinião público que usamos aqui para tomar todas as decisões, vejamos o que podemos fazer com essa garotinha. – Toma, como ditador carrasco, um manipulador de mentes, conseguindo facilmente manipular todas aquelas pessoas ao seu redor, usava de suas artimanhas para ser elevado como um rei naquele lugar. Mais duas tochas eram acessas nos arredores da arena, o homem se aproximava de Rei e colocando uma de suas mãos em seu queixo, ouvia gritos das pessoas clamando por mais violência.

- Morte, morte, morte, morte, morte, morte! – Todos gritavam eufóricos, aquela comunidade não podia ser mais estendida, era uma regra, todos que entrassem, seriam colocados diretamente nos jogos diabólicos de Toma, se eles mostrassem força de vontade suficiente para sobreviver, então, seriam formalmente convidados a participarem daquela sociedade.

- Muito bem querida, parece que já decidiram rapidamente, todos, escutem, teremos um jogo bônus essa noite, devido a chegada inesperada de nossa convidada. Uchida, por favor, daria lugar a nossa amiga? – Toma olhava para Uchida com certa superioridade, e por incrível que pareça, o olhar frio do jovem desaparecia naquele momento, obedecia o homem como se o temesse, por mais grotesco e violento que o garoto podia ser, Toma era o único capaz de domá-lo. Ele passava perante os dois olhando rapidamente para Rei, que estremecia, suas pernas tremiam e sua voz mal conseguia sair, longe de seus amigos, longe de Takashi, se via colocada em uma situação que supostamente, teria um único desfecho.

- Foi minha culpa... não tem mais jeito... – Rei abaixava sua cabeça se lamentando, sem vontade alguma de resistir.

- O que foi moça? Não tem forças pra lutar? Não precisa se preocupar, só usaremos dois contra você, seja grata por minha generosidade. – Aquele homem, Toma Lourence, lembrava muito alguém que Rei havia conhecido, alguém que ela desprezava mais do que qualquer coisa naquele mundo insano, essa comparação imediata fez com que os nervos da garota ficassem duros como aço, ela se recompôs logo após Gouji soltá-la.

- Tudo que preciso fazer é matar dois zumbis? Você só deve estar brincando, acabarei com isso antes que alguém pisque. – As palavras decididas de Rei faziam com aquela plateia em sua volta se surpreendesse, a garota certamente não era uma presa simples.

- Admiro demais isso! Me deixa eufórico, sendo um jogo bônus, espero que possa nos dar diversão, se bem que essa noite o cheiro de sangue já me deixou saciado. – Toma se afastava da menina ficando atrás das grades daquela pequena arena protegido por seus seguranças.

- Espere, e a minha arma? Vou usar um bastão igual daquele garoto? – Rei olhava para Toma sem entender o que usaria na luta.

- Arma? Ah, eu esqueci de mencionar querida, mas, convidados que chegam assim, como você, na primeira luta, não usam nada além de suas mãos como armas! Bem, é justo, e conforme você for vencendo, pode conseguir alguma coisa, assim como Uchida-Chan. Vença os dois ali e você será recompensada! – Naquele momentos os olhos de Rei quase saltava de seu rosto, ela jamais havia enfrentado algum zumbi sem usar nada, era impossível obter uma vitória dessa maneira, nem um lutador experiente em qualquer arte marcial que seja poderia vencer usando apenas a força, sem nada como suporte.

- Isso é uma piada? Me deem algo pra usar porra! – Rei já não tinha mais tempo, os dois zumbis eram soltos na arena e corriam em sua direção demonstrando uma fome animal.

- Merda... me desculpe, Takashi-Kun. – Rei se via sem saídas, olhava para os monstros correndo em sua direção, e como um flash antes da morte, recordava todos os seus momentos com seus amigos, tudo que passaram até chegarem ali, e logo que encontraram com sua mãe, eles teriam que se separar? Sem ao menos poder ver seu pai mais uma vez, sem poder se despedir de Takashi, tudo por sua culpa, por seu ego inflamado, seu orgulho que agora, à deixava a sete palmos de uma colina profunda, mas antes que pudesse se entregar ao Deus da morte, dois tiros acertavam as cabeças dos zumbis que caíam a poucos centímetros da garota.

- Algo assim, eu jamais pensei que fosse existir nesse estado em que o mundo se encontra, mas não espero mais nada dessa humanidade nojenta. – Saeko, juntamente de Takashi, apareciam atrás da arena enquanto abriam caminho diante das pessoas ali aglomeradas, um segurança rapidamente tentou impedir a passagem dos dois, mas, sem piedade, Busujima lhe cortava as pernas com um só movimento, fazendo com que o homem ficasse jogado no chão se debatendo para se levantar.

- Escutem seus filhos da puta, nem tentem se aproximar, temos dois atiradores a alguns metros daqui, eles que derrubaram os dois monstros, e vão derrubar quem se aproximar da gente ou da Rei. – Todos os seguranças de Toma e os residentes daquele lugar estavam preparados para atacarem, mas Toma os impedia:

- Todos, não façam nada, apenas me deixem resolver esse assunto. – Meras palavras do homem foram o bastante para acalmarem aquelas pessoas com sangue nos olhos.

- Você é o líder dessa merda? Eu não quero criticar todo o seu trabalho, pois, pelo visto, as pessoas daqui apreciam muito, só quero que entregue a garota e vocês ficam em paz, continuam seus jogos e suas doentes ideias, ok? – A expressão de Takashi demonstrava total fúria, mesmo assim, Toma não se intimidara, apenas sorria caminhando em direção ao garoto.

- Líder? Oh, mas que presunçoso de sua parte! Sou apenas o encarregado da segurança dessas pessoas, nada mais que isso, mas, antes de continuarmos nossa conversa, por favor, me deixe calar esse pedaço de lixo inútil. – Toma tirava de seu paletó um pequeno revólver e com um único tiro, matava o homem que Saeko havia cortado as pernas e que gritava clamando por ajuda.

- Pronto, agora podemos prosseguir amigos. – Toma virava-se novamente para os dois como se nada tivesse acontecido, mesmo depois de ter matado um de seus homens com total frieza, para ele, não era nada mais do que abater um mosquito com a palma de sua mão.

- Você deve se achar o maioral, já encontrei várias pessoas assim em meu caminho até aqui, e sabe o que aconteceu com elas? – Saeko apenas apontava sua katana manchada de sangue para Toma sorrindo sadicamente.

- Takashi-Kun! – Rei, quebrando o clima da conversa, corria em direção ao garoto o abraçando fortemente, respirando fundo e agradecendo por ainda estar viva.

- Isso é maravilhoso! E eu pensando que teríamos uma só convidada, mas agora aparecem todos vocês, é uma sorte tremenda! Pelo que observo, não são apenas simples estudantes, e, garotinho, por favor, pare de me olhar dessa maneira, eu fico constrangido. – Toma caminhava de volta, tranquilamente, até seus seguranças, ignorando Saeko com sua katana e Takashi com um fusil nas costas.

- Nós vamos embora daqui, e se alguém tentar nos seguir, garantimos que as cabeças deles vão ficar em pedaços assim como dos dois zumbis. – Takashi dizia isso mas não conseguia olhar para o chão, meio a todos aqueles corpos e pedaços de gente espalhados, quais eram os monstros que tinham derrotado. Longe dali, em pequenos morros, Saya, Kouta, Shizuka e Alice miravam com snipers naquela direção, apenas os dois primeiros portando as armas.

- Acha que eles conseguiram negociar? – Shizuka parecia preocupada ao perguntar a Saya o que ela achava da situação que observava logo abaixo.

- Não sei, estão demorando demais, de qualquer forma Kouta, fique preparado. – Kouta nem ouvia o que Saya disseram, se focava apenas na cabeça do suposto líder do grupo, pronto para espalhar miolos.

- Kouta-Chan está muito concentrado! Pessoal, o que é aquele garoto correndo ali? – Alice chamava a atenção para Uchida que corria em direção ao grupo sem ser notado.

- Merda, nessa velocidade eu não vou conseguir fazer nada! – Kouta mal podia mirar no garoto, e antes que ele pudesse se preparar, Uchida pulava por cima dos quatro que conversavam no centro da arena, e ao golpear Saeko diretamente com seu bastão, era bloqueado por sua katana. No momento daquela confusão, Toma segurava pelo braço de Rei a puxando para si e levando-a junto de seus seguranças.

- Hm? Essa é minha recompensa pelo trabalho Toma-San? Acho que eu preciso agradecer. – Uchida estava empolgado demais, seu sorriso era de uma criança em frente a uma montanha de doces.

- Temos mais um obstáculo Takashi-Kun, acho que não tem jeito. – Antes que Saeko desse o sinal para Kouta e Saya atirarem, Toma dizia:

- Se ousarem atirar em meu brinquedo, a ruiva aqui vai rodar. – Ele segurava uma faca apontada diante da garganta de Rei que não podia se mexer.

- Merda, parece que perdemos nossa vantagem. – Komuro parecia preocupado, o garoto em sua frente não era um humano qualquer, ele cheirava a sangue mais do que todos os zumbis que havia encontrado até chegarem ali.

- Basicamente, não irei voltar atrás com as regras, mas agora, temos uma pequena recompensa em jogo. A regra é simples, uma luta 1x1, o seu adversário será esse em sua frente, Uchida Katsushima, caso o vençam, eu devolvo a menina e vocês vão embora tranquilamente, mas caso percam, vocês e seus amigos farão parte da nossa sociedade!

- Haha, é só isso? Se afaste Takashi-Kun, vou pegar a Rei de volta. – Saeko, em uma súbita atitude, empunhava sua katana na frente de Uchida que gargalhava em exitação.

Aquele era o momento para Saeko se redimir, não só por ter causado a fuga de Rei, mas por todas as suas derrotas.

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Ilha de Kotakari – Sudoeste de Tóquio

- Então, vocês poderiam relatar como foram os testes? – Um homem trajando um terno bordô e tomando um copo de vinho, do que parecia ser da melhor safra da Itália do século XX, sentado em frente a uma mesa em um escritório escuro iluminado apena pela luz lunar, olhava em direção a dois homens em sua frente trajando roupas do que pareciam ser do exército ou algum batalhão de forças especiais do Japão.

- Pelo que tudo indica, o Dr.Kojika conseguiu completar os modelos número 22 à 45 com sucesso. A velocidade e força dos mesmos excedem as amostras anteriores, além é claro da resistência e pequena inteligência no instinto que os mesmos possuem para sobrevivência. – Um dos homens respondia de maneira formal, como se temesse o superior em sua frente.

- Então as expectativas foram ultrapassadas? Parece que com isso tudo e a detonação de Tóquio, não vai mais haver problemas. Agora que conseguimos o poder para controlar zumbis, e posteriormente, deixá-los mais fortes, podemos ganhar todo o território do sul. É hora do Japão avançar rumo ao progresso dos mortos.

4 horas restantes para a detonação de Tóquio