Highly Dangerous

3 Quem vê cara...


Notas iniciais
Demorou, mas saiu! Boa leitura!

É hora do almoço e, mais uma vez, Rachel está sozinha. Ela pega seu lanche no armário e segue pelo corredor vazio. O refeitório parece a cada dia maior e ela não tem coragem o suficiente para abordar qualquer grupo daqueles e se sentar com eles, então ela segue para seu esconderijo: Debaixo das arquibancadas do campo de futebol americano. O que ela não esperava era encontrar companhia lá.

– Ora, veja só. Olá. – Diz Quinn após afastar o cigarro da boca. Um sorriso se forma em seus lábios.

– O que é isso, seu almoço? – Rachel aponta com a cabeça para o cigarro na mão da garota.

Quinn dá uma leve risada. – Não, estrelinha, eu já almocei. Essa é a sobremesa.

– Muito saudável.

– Eu não estou exatamente procurando por uma vida longa. – Ela percebe que Rachel abaixa os olhos ao comentário. – Então… A que devo a ilustre visita?

– Visita? – Rachel pergunta, incrédula. – Eu venho aqui há anos. Você acha que pode simplesmente aparecer e tomar o meu lugar? De onde você veio, afinal?

– Estive aqui o ano todo. – Ela dá uma tragada. Solta a fumaça. – Quer dizer, tecnicamente.

– Nunca te vi aqui.

– É porque eu matei aula o ano todo, mas agora que estamos no meio do ano letivo, eles acabaram chamando a atenção da minha mãe. Não que isso importe, mas eu tive que vir ou eles iam levar isso pra justiça ou algo do tipo Mesmo assim, já estou aqui há mais de um mês, não sei como você não me percebeu. – Quinn sorri. – Enfim, não importa. Eu só preciso ficar aqui até fazer dezoito anos, o que é daqui a dois meses. Daí eu me mando daqui.

Rachel a encarava. – Uau. Você liga mesmo para o seu futuro. Agora, se você não se importa, eu sou uma aluna que realmente frequenta as aulas e meu tempo de almoço está acabando... – Ela já se prepara para virar as costas e encontrar outro lugar para comer.

– Ei! Não deboche de mim. – Quinn joga o cigarro para trás e solta o que restou de fumaça em sua boca, correndo para se colocar na frente de Rachel. – E não vá embora. – Seus olhos a estudam sem sair do lugar.

– Saia da minha frente.

– Não. Vamos almoçar juntas. – Diz Quinn. Rachel tenta dar a volta nela, mas Quinn é rápida e sempre se coloca na sua frente.

– Você já almoçou. – Rachel responde, impaciente. A morena sentia o cheiro de cigarro em Quinn e não achava que poderia comer assim.

– Não importa. – Quinn pega os pulsos de Rachel e olha em seus olhos. Sua voz assume um tom suave. – Fique aqui.

– O que você quer de mim?

– Sua companhia. – E, do nada, Quinn sorri. Simples assim, ela está ali, segurando Rachel e exibindo um sorriso sincero.

Mas Rachel simplesmente não entende. Ela balança os pulsos para se soltar de Quinn.

– Por que? Eu nem te conheço. Por que você se interessaria em ser amiga de alguém como eu? – Ela se refere a si mesma como se fosse um monstro. – Ninguém fala comigo.

– Eu falo.

– Por que?

Quinn hesita por um momento, como se não quisesse admitir aquilo. Ela parece entrar em conflito consigo mesma, mas por fim acaba dizendo: – Porque eu te achei interessante. Eu simplesmente tenho vontade de te conhecer. Já te ouvi cantar e já te vi por aí algumas vezes. Eu sei que por trás dessa parede que você levantou contra o mundo tem algo a mais… alguém que você libera toda vez que abre a boca para cantar.

Rachel está sem palavras, e com razão. Quinn está completamente certa. É esquisito que uma estranha saiba tanto sobre ela, mas ela sabe. Quinn é uma observadora e observadores normalmente têm ideias mais concretas sobre as pessoas.

– Surpresa, estrelinha?

– É só que… Você sabe muita coisa.

Quinn sorri. – Então, você vai almoçar comigo hoje? Ou vai manter a parede erguida?

Rachel pondera por um instante. Quinn é estranha e tem uns vícios nada convidativos, mas ela também parece ser uma pessoa interessante. Por trás daquela atitude, de todo aquele jeito de garota má, deve haver algo a mais. Exatamente como Quinn disse sobre ela mesma. Principalmente depois do jeito com que Quinn pediu para que Rachel a fizesse companhia, aquilo ficava mais evidente.

– Só hoje. – As duas sorriem se sentam em um canto no chão. Rachel tira uma maçã e suco de uva de seu saco do almoço.

– Saudável. – Quinn comenta.

– Bem mais saudável do que isso aí. – Rachel rebate, apontando para o cigarro que Quinn está acendendo.

– Você detesta tanto assim?

– Sim. E não tenho a menor vontade de me tornar uma fumante passiva.

Quinn ri baixinho e afasta o isqueiro do cigarro, colocando-o de volta na caixa. – Minha pós sobremesa terá que ficar para mais tarde, então.

Rachel revira os olhos perante ao tratamento de Quinn ao seu vício, como se fosse uma refeição.

– Então… – Quinn começa a falar e Rachel percebe que ela está passando o dedão da mão direita na palma da mão esquerda, como se não soubesse direito o que fazer com as mãos a não ser pegar um cigarro. Uma mania que acompanha o vício. – O que vai fazer quando sair daqui?

– Não acha essa pergunta um pouco pessoal? – A morena rebate antes de dar uma mordida na maçã.

– Não, na verdade todos do último ano costumam falar sobre isso, então achei plausível tocar no assunto.

Rachel não espera terminar de mastigar para responder: – Tecnicamente, você não é do último ano.

– Nós papéis, sim. E, como eu disse, foda-se. Vou me mandar daqui mesmo.

– E para onde você vai?

Um sorriso travesso se forma nos lábios de Quinn. – Não acha essa pergunta um pouco pessoal?

Mais uma vez, Rachel revira os olhos. – Ah, por favor. Eu não tenho o direito de saber?

– Não. Eu não sei sobre você.

– Então tudo bem. – Ela diz por fim e continua a comer, sem dar atenção a Quinn. Um silêncio desconfortável toma conta do ambiente por alguns minutos, mas nenhuma das duas dá desculpa nenhuma para sair dali. Rachel provavelmente ficaria sozinha novamente e Quinn ainda estava curiosa demais sobre a garota sentada ao seu lado. Quando Rachel finalmente termina de comer e beber seu suco, checa o seu relógio e vê que ainda tem dez minutos de sobra. Ótimo. Mais dez minutos com a louca viciada.

– Hum… O que você gosta de ouvir?

Pelo canto do olho, Rachel vê as mexas cor de rosa de Quinn se mexerem e sabe que a garota a está encarando, provavelmente com uma expressão divertida no rosto.

– Como é?

– Bem, que tipo de música você gosta?

Quinn pondera por um instante. – Na maior parte do tempo, provavelmente rock. – Ah, claro. Quem poderia imaginar? – Também curto indie. Metal. Esse tipo de coisa.

– Imaginei.

Agora ela parecia surpresa. – Por que?

– Você tem cara de quem gosta… dessas coisas.

– Ah, é? E sabe do que você tem cara? – Rachel permanece em silêncio. – Dessas meninas que curtem boybands, divas pop e todo o tipo de besteirol.

Por um momento, Rachel se mostra ofendida. Como ela ousa dizer uma coisa dessas? Como fã dos melhores clássicos da Broadway e da deusa Barbra Streisand, ela se vê tentada a rebater o comentário quando Quinn dá um sorriso.

– Mas é claro que você não gosta de nada disso, pois quem vê cara não vê coração, estrelinha. Pelo seu jeito, suponho que você seja fã de coisas mais cult, coisas que você considera de qualidade. Como, hummm… – Ela morde o lábio, encarando Rachel. – Musicais?

E ali está Rachel, boquiaberta de novo. Essa garota só podia ser vidente.

– Pela sua cara, eu acertei de novo. Talvez deva começar a apostar em você, quem sabe eu fico rica assim. – Ela tira sua atenção de Rachel e vira o rosto para a sua frente novamente. As duas apenas ficam ali até o sinal tocar, e a morena repassa a frase de Quinn na sua cabeça.

Quem vê cara não vê coração, estrelinha.

Ela esperava que não, mas tinha quase certeza de que aquilo era mais do que um ditado antigo. Era uma dica. Uma dica sobre a própria Quinn. E isso com certeza só tinha servido para deixá-la mais curiosa.

Notas finais
Não se esqueçam de comentar! :)