Hide & Seek

3 Eu queria saber mais. Ninguém iria me impedir.


Notas iniciais
Demorei um pouco, mas aqui está! Eu gostaria muito de agradecer a Luna Vladescu Dragomir pela recomendação e pelo apoio!! ♥

–Lara-

–Lara, eu estou falando muito sério! – minha mãe gritou brava. –Eu não mandei você estar pronta há mais de uma hora? – ela sempre se estressava por tudo. Eu nem ao menos sei por que ela estava tão brava hoje.

–Calma, mãe! – eu gritei de volta, deitada na minha cama.

Minha mãe queria que nós saíssemos, isto é, eu, ela e meu pai, para fazer alguma coisa que eu não tinha a menor ideia do que era. Primeiro, deixe-me falar sobre a minha mãe, Clarisse Gall, uma mulher de trinta e cinco anos, sempre aventureira e cabeça-dura, com cabelos curtos castanhos repicados e olhos pretos, que pareciam sempre brilhar com uma animação enorme.

Como o inverso dela, Gabriel Gall, meu pai, era mais velho, mas parecia ter trinta anos, sempre calmo e gentil, com cabelos curtos lisos e ruivos, com olhos verdes bem claros, sempre calorosos e felizes. Já eu sou mais cabeça-dura que nem a minha mãe e ainda não sei como meu pai não enlouqueceu conosco. Mas continuando, eu tenho cabelos longos castanhos, meio cacheados e olhos pretos que nem a minha mãe.

–Lara, é a última vez que eu vou te chamar! – ela realmente não desistia! Eu não estava com ânimo para sair de casa hoje.

Não demorou muito para que ela aparecesse na porta do meu quarto, com uma cara preocupada.

–Mãe, o que aconteceu? – eu perguntei assustada. Mesmo quando estava preocupada, ela nunca demonstrava tanto quanto agora.

–Nada, só... – ela hesitou. Minha mãe nunca hesitava.

–Fala o que aconteceu, mãe. Pode contar comigo. – ela estava muito nervosa, quase chorando.

–Lara, por favor, se arrume. – ela me pediu uma última vez com a voz chorosa, enquanto estava de roupão, tentando se arrumar.

E é claro que eu me arrumei o mais rápido possível. Não demorou mais do que alguns minutos até que eu saí pronta do meu quarto, com uma bela blusa e a minha calça jeans mais bonita, prendendo o cabelo num rabo-de-cavalo alto. Quando cheguei à sala, vi minha mãe, com um lindo vestido azul de bolinhas brancas e uma maquiagem delicada, tentando sorrir e animar meu pai, que estava sentado no sofá com uma cara de preocupação e nervosismo acompanhado com um belo terno, parecendo um galã de televisão.

–O que está acontecendo? – perguntei preocupada, percebendo que eles não sabiam que eu já estava pronta.

–Bem, já que estamos prontos, vamos lá! – minha mãe falou com uma falsa animação. Meu pai percebeu rapidamente, parecendo ainda mais cabisbaixo. –Calma, querido! Tudo vai dar certo.

–Não vai! – meu pai respondeu, parecendo culpado. –Eu não devia ter envolvido vocês nisso junto comigo. – agora ele escondeu o rosto em seus joelhos.

–Pai, eu não sei o que está acontecendo, mas eu tenho certeza que não é a sua culpa! – eu afirmei com certeza, mas isso não pareceu melhorar a situação.

–Não, Lara, minha princesa. – mesmo nesses momentos ele me tratava como uma criança. –Isso é minha culpa!

–Eu concordo com a Lara, Gabriel. – minha mãe me apoiou, colocando suas mãos em meus ombros. –Você não tem culpa em nada disso, então deixa de drama e levanta logo. Ficaremos lá por pouco tempo, querido. Vamos mostrar que os Gall sabem brilhar! – a animação da minha mãe voltou, fazendo meu pai rir um pouco e levantar.

–Mas agora, sem enrolação, o que está acontecendo? – perguntei com o máximo de delicadeza misturado a um tom de brincadeira para tentar deixar o clima mais leve.

–Visitaremos meu antigo grupo, Lara. – meu pai falou, rindo um pouco com raiva e tristeza pela situação e me encarando, como se quisesse ver qualquer reação minha.

–Então estamos esperando o que? – respondi, sorrindo.

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Chegamos ao nosso destino no final da tarde, com um jardim grande, e eu me deparei com uma linda mansão com um enorme jardim cheio de flores das mais diversas espécies, lindas árvores e com uma linda fonte, parecendo um cenário de algum filme romântico de época. Quando estava prestes a entrar, alienada pela bela visão, meu pai me segurou pelo ombro.

–Lara, aqui é muito perigoso! – ele me avisou com muita seriedade. –As pessoas que você vai conhecer aqui não são confiáveis, muito menos boazinhas.

–Pai, calma! – eu tentei acalmá-lo, enquanto minha mão segurava a sua. –Eu sei que não devo falar com estranhos, principalmente os que são imortais. – não consegui deixar essa piada de lado, mas só fez com que ele me mandasse um olhar reprendedor.

Ah, meu pai é um vampiro. Sim, vampiro, como aqueles que têm nos livros e filmes, que bebem sangue humano e tal. Minha mãe, como uma pessoa muito normal, nunca ligou para esse fato. A única coisa que ela não gosta nessa história toda é quando Gabriel deixa cair alguma gota de sangue no tapete ou coloca sangue em jarras de sucos. Supernormal, não?

Não, ele não mata humanos para se alimentar. Ele compra ilegalmente em alguns bancos de sangue. Bem, de um ponto de vista é errado, mas eu continuo a achar melhor do que matar a sangue frio. Opa, piadinhas sempre acabam aparecendo!

Depois de um tempo, minha mãe acalmou meu pai e entramos na mansão. Ela era ainda mais bonita de dentro, com um gigante salão e um palco de mármore no centro. Era impossível não ficar encantada. Fiquei tão distraída que não percebi quando me afastei um pouco dos meus pais, fazendo-me esbarrar em uma pessoa.

–Ei, cuidado por onde anda! – gritou um garoto extremamente irritado que parecia ter entre dezessete e dezoito anos, alto, de cabelo preto espetado e olhos castanhos avermelhados. Ele se chocou quando percebeu com quem estava falando. –O que você está fazendo aqui? Quem é você? – ele me encarou assustado e ameaçador ao mesmo tempo, deixando seus próprios olhos vermelhos rapidamente e mostrando suas presas, curvando o seu corpo como um verdadeiro predador.

Recuei provavelmente de olhos esbugalhados, assustada e nervosa com o que ele poderia fazer comigo. Droga, o que eu faço agora?

–Não é assim que se trata uma dama, certo Damian? – ouvi uma melodiosa voz conhecida enquanto braços me cercavam num abraço. –E quanto a você, mocinha, como ousa vir até aqui sem dar um oi para o seu titio Alex? – com muito alívio, me virei e vi o sorriso carinhoso e gentil do meu loiro preferido, com os seus olhos azuis como o céu no dia mais claro. Ele estava vestido com um terno branco elegantíssimo com uma rosa vermelha em sua lapela, segurando uma taça com uma substância vermelha.

Acho que estou exagerando um pouco, mas o alívio era grande. Eu já havia visto um vampiro matar um ser humano de maneira extremamente violenta e fria e eu não queria ser morta desse jeito. Quanto virei o meu rosto em direção ao garoto, percebi que ele desaparecera. Não que isso fosse ruim, muito pelo contrário, mas era estranho mesmo assim.

–Desculpe-me por isso, princesinha do papai. – ele tentou quebrar o estranho silêncio que prevaleceu depois dessa cena.

Alex sempre foi uma pessoa despojada, mas agora eu percebia que ele, de alguma forma, estava mais solto do que o normal. Eu sabia que, nessa situação, contraria-lo por ter me chamado de “princesinha do papai” não iria mudar em nada, então ignorei o apelido.

–Droga, os novatos alteraram de novo o san... Quer dizer, eles alteraram a bebida. – o loiro realmente não estava no seu estado normal, provavelmente por essa “alteração”, mas eu acabei rindo com a sua tentativa de não falar “sangue”, como se eu fosse sair correndo por causa disso.

–Alex, eu não sou mais uma criança, por mais que você e meu pai pensem que sou. Não vou entrar em choque se você disser “sangue”. – respondi sorrindo gentilmente.

–Eu, sinceramente, também acho que você já não é mais uma criança, mas eu não quero ter que encarar o seu pai por ter dito qualquer coisa “violenta” para a princesinha dele. — a honestidade dele sempre foi a qualidade, ou defeito, dependendo do momento, que eu mais gostei nele. –Pior ainda seria a minha situação se eu falasse tudo o que já aconteceu aqui, exatamente nesse salão.

–Eu tenho uma ideia do que seja. Os banquetes. – eu falei com um pouco de receio, tanto pelo fato de lembrar como tinha sido a experiência quanto pelo risco de Alex contar tudo para o meu pai.

–Como você sabe...? – agora a expressão alegre dele se tornou uma expressão de choque.

–Por que o garoto me atacou? – perguntei desesperada para trocar o assunto.

Felizmente ele estava tão alterado que não reclamou nem nada do tipo. Ufa!

–Você está falando de Damian? O coitado não teve culpa pelo o que aconteceu, principalmente vendo uma humana da sua idade andando pela mansão um dia depois de um banquete. – ele parou por alguns segundos, provavelmente tentando lembrar o que eu havia acabado de falar. Para não correr o risco, pedi para ele continuar a sua explicação. –Ah, sim, todos os vampiros tem receio de que alguma humana tente escapar como daquela vez.

Essa frase me fez paralisar. Desde que descobrira sobre os banquetes, sempre quis saber se havia qualquer chance de sobreviver e escapar.

–Uma humana já conseguiu escapar de um banquete? – eu perguntei animada.

–Sabe, você me faz lembrar da Amy. O nome da menina daquela noite. Ela foi muito corajosa! Não conseguimos conversar muito na hora, mas a força de vontade dela era gigante, mesmo estando naquela situação. – ele começou a ficar cada vez mais enrolado na hora de falar, rindo em alguns momentos por nada, mas continuando logo depois.

–Alex, você não me respondeu. Ela escapou ou não? – minha voz saiu impaciente, exatamente como eu estava me sentindo.

Mas antes dele conseguir falar qualquer coisa, uma voz se colocou entre mim e a minha resposta.

–Clarisse, vamos para casa? – era a minha mãe, falando com toda a gentileza. –Com a sua licença, claro. – ela falou para Alex, com tom de brincadeira, fazendo-o dar uma risadinha.

–Pode leva-la! Está muito tarde para a princesinha do papai estar andando entre os aterrorizantes vampiros! – Alex respondeu sorridente, mostrando suas presas como se fosse uma ameaça muito falsa.

–Mas, Alex, você vai poder vir em casa amanhã? – eu perguntei, como um aviso silencioso para que ele me respondesse.

–Ora, se a sua mãe já não estiver enjoada de tanto vampiro. – o seu tom levava tudo com tamanha leveza que me deixa até brava. Como ele poderia estar dessa maneira, quanto eu estava quase enlouquecendo querendo saber a resposta.

–Estou casada com um vampiro, então não tem como eu me enjoar. E, além disso, você está sempre convidado, Alex. – eu amava esse lado da minha mãe, tão naturalmente gentil.

–Pena que ele estará ocupado amanhã o dia inteiro, não é mesmo, Alexander? – só tinha uma pessoa que o chamava assim: Leon.

Leon é do tipo de pessoa que parece inofensiva, mas é o vampiro mais letal que eu conheci em toda a minha vida. Com a sua aparência de um jovem baixinho de no máximo vinte e cinco anos, muito magro, cabelo castanho claro ondulados de tamanho médio e olhos cinzas brilhantes e perversos, ele é o líder de todo aquele bando de vampiros e sabia muito bem como coordenar tudo usando principalmente medo.

Meus pais não sabiam, mas eu já conhecia o Leon. Uma memória assustadora e traumática. Ele me reconheceu, sorrindo e fazendo uma pequena reverência, sorrindo de maneira doce, como no dia em que nos conhecemos.

–Esqueci-me completamente, Leon! Desculpe-me, terei que deixar para outro dia. – ele disse naturalmente, como se realmente tivesse esquecido, provavelmente ainda sob o efeito da bebida.

–Ah. Tudo bem! Vamos combinar outro dia, então. – eu tentei esconder a minha decepção, não passando despercebida pela a minha mãe que me puxou rapidamente.

–Então, Alex, Leon, adeus por hora. – ela disse de forma extremamente formal e educada, curvando-se como uma verdadeira dama.

Obviamente, como eu não estava de vestido, dei apenas um “tchauzinho” com a mão, e indo em direção ao meu pai que conversava com os seus antigos companheiros de maneira muito amigável, recebendo um olhar quase mortal de Leon, como um aviso para me manter quieta. Droga, ele deve ter escutado toda a nossa conversa e por isso disse que o loiro tinha compromisso. Que coisa clichê de vilão!

Fiquei pensando nisso todo o caminho de volta, sem perceber que havia todo um mundo a minha volta, até a minha mãe me chamar, já em casa. Nossa, como tinha sido rápido o caminho de volta.

–Essa foi uma excelente noite e não teve nenhum problema, como eu tinha dito que seria. Viu, Gabriel, você tem que se preocupar menos. – minha mãe realmente estava satisfeita por estar certa. –Bom, eu estou muito cansada, então já vou dormir. Boa noite, meus amores.

Ela logo entrou em casa e eu pude escutar a porta do seu quarto sendo fechada, enquanto eu e meu pai decidimos ficar na sala por um tempo. Eu bem que gostaria de dizer que foi uma ótima noite, mas a questão em aberto continuava a dominar os meus pensamentos.

Depois de alguns minutos constrangedores de silêncio, Gabriel se sentou no sofá, apontando para o lugar vazio do seu lado com o rosto preocupado. Lentamente me sentei, não entendendo a situação, enquanto ele me encarava numa mistura entre preocupação e fúria.

–Eu quero uma explicação agora, Lara. – em sua voz havia uma tentativa de expressar calma.

–Pai, eu não sei do que você está falando. – será que ele também ouviu a nossa conversa?

–Lara Gall, eu vi o jeito que o Leon te encarou. Ele é uma pessoa muito perigosa. — havia desespero em seu olhar, ao mesmo tempo em que ele parecia querer se controlar para não gritar.

–Pai, não aconteceu absolutamente nada. Eu só fiquei conversando com o tio Alex. – isso não deixava de ter um pouco de verdade, tirando o fato de que eu provavelmente estava na lista negra do cruel líder dos vampiros. –Acho que eu já vou dormir. Boa noite, pai. — falei rapidamente e corri para o meu quarto, ignorando os seus chamados.

Não demorou muito para que eu escutasse um rosnado baixo vindo da sala e o barulho da porta da frente sendo batida de maneira delicada ecoasse por toda a casa. Ele deve ter saído para se acalmar ou algo do tipo, o que me deu tempo para bolar e começar a realizar um plano maluco. Peguei tudo o que considero mais importante e arrumei uma mochila para a minha fuga de casa para descobrir tudo o que eu queria sem colocar a minha família em perigo. Eu queria saber mais. Ninguém iria me impedir.