Hide & Seek
1 Eu não sabia o que fazer. Era o meu fim.
Notas iniciais
–Trina-
A pergunta era onde ele tinha se metido nesses últimos três anos. Onde ele foi parar? O meu melhor amigo, Damian, tinha sumido e ninguém, absolutamente ninguém, tinha a menor ideia de onde ele poderia estar. No começo, Damian começou a faltar a escola mais do que o normal e eu, preocupada, fui procurar qualquer tipo de informação sobre o seu paradeiro. Nós éramos melhores amigos sim, mas ele nunca gostou de proximidade demais, então eu não tinha muito contato com o mesmo fora do terreno escolar, tirando poucas exceções.
Foi em uma dessas exceções que conheci sua mãe, Catarina, uma mulher muito simpática que havia criado o filho sozinha. Ele não sabia desse contato, mas nós duas nos falávamos sempre, já que, se não fosse por essas conversas escondidas, não poderíamos cuidar do irresponsável garoto. Lembro-me do dia em que fui falar com ela para saber se ele estava doente ou algo do tipo e descobri que ele havia fugido de casa.
Isso me deixou em estado de choque. Não por que eu iria sentir sua falta ou qualquer coisa do tipo, e sim por ele ter abandonado sua mãe, quem prometeu cuidar até o fim de sua vida. Eu tinha certeza que havia algo de errado nisso tudo e, desde então, procuro-o por todos os cantos e de todas as maneiras possíveis.
Todos os dias eram a mesma coisa, sempre escutando que eu devia desistir logo, que não conseguiria encontra-lo depois de tanto tempo, e outras coisas do gênero. Assim se seguiu, até que, em mais um dia comum, tudo mudou.
Eu estava indo, logo depois das minhas aulas terminarem, para a única delegacia da minha minúscula cidade pela quinta vez na semana atrás de qualquer informação sobre as investigações, sem nem passar em casa para deixar a minha mochila ou qualquer coisa do tipo. Não demorou muito para eu chegar ao meu destino, dando de cara com Phill, o guarda que fica do lado de fora da delegacia caso qualquer coisa ocorra, mesmo nunca acontecendo nada, ou quase nada, naquela cidade praticamente esquecida. Ele é um cara muito gentil e robusto, com o cabelo cacheado longo preso num rabo-de-cavalo mal feito e olhos castanhos.
–Bom dia, Phill! – cumprimentei-o.
–Bom dia, Trina! – e, como sempre, ele respondeu animado.
Eu conhecia aquele lugar tão bem de tanto que eu ia perguntar se havia qualquer novidade no caso de desaparecimento que não demorou muito para chegar à sala do Delegado Max, um cara bem legal, mas muito sério. Ele tinha mais ou menos 1,80 de altura, cabelos claros praticamente raspados e olhos pretos.
–Delegado Max, Trina Kale se apresentando. – toda a vez que nos encontramos, sempre há esse mini ritual. No começo era por que eu tinha medo, mas depois se transformou em uma brincadeira nossa.
–Trina Pirralha Kale, pode entrar! – ele respondeu sorrindo, me fazendo mostrar a língua para ele. O Delegado Max não era ele mesmo sem dar esses apelidos idiotas. –Se prepare, pois dessa vez, acho que encontramos uma pista do Damian Sumido.
–Sério?! – o que? Depois de três anos, finalmente apareceu alguma pista? – Fale logo! – eu não conseguia conter a minha animação.
–Ok, ok! Foi achado esse panfleto numa cidade vizinha e eu achei que o garoto se parece muito com o Sumido. Aqui fala sobre um concurso para todas as garotas dessa a região, na praça principal de uma cidade vizinha. – ele disse, me entregando o tal panfleto.
Sem me prender em detalhes, olhei direto para a foto que tinha de alguns garotos e homens sorrindo, como se convidassem as garotas e mulheres para participarem, apenas com o olhar. Foi quando eu me deparei com aquilo que tanto procurava. Era ele, com o estilo de roupa e cabelo totalmente diferente, mas eu tinha a certeza absoluta que era ele. É claro que o Delegado percebeu minha reação e logo mandou alguns guardas irem ao local do evento, mas eu os impedi depois de guardar o panfleto na bolsa da escola.
–Não! – gritei, esticando os meus braços como se fossem muralhas na porta da delegacia. -Ele é o meu amigo, então eu vou atrás dele!
–Mas você não sabe o que aconteceu com ele. – ele respondeu impaciente. –Isso seria muita irresponsabilidade da minha parte.
–Eu estou pedindo com todo o meu coração! – eu implorei, usando minha melhor cara de coitada.
–Mas e sua família? O que eles vão achar disso? – eu sabia que ele ia falar isso, como todo o adulto responsável.
–Minha família não se importa, nem ao menos mora aqui. Eu moro sozinha. – e com isso ele ficou chocado.
–Mas você é uma criança! – havia revolta na voz dele. Eu tinha dezessete anos, então eu já sou praticamente adulta. –Desde quando você mora sozinha?
–Eu comecei a morar sozinha oficialmente aos quinze, mas antes quem cuidava de mim era uma mulher que aparecia uma vez por semana desde que eu tinha doze anos. – respondi, deixando-o ainda mais chocado.
–E seus pais? – agora ele estava bravo, provavelmente revoltado pela ideia de uma criança morar sozinha.
Eu estava tão acostumada que nem mais ligava para esse fato.
–Vejo uma vez a cada dois anos no natal. – falei indiferente.
–Mas isso é contra lei! Uma criança morando sozinha e... – antes que ele terminasse, eu acabei falando por cima.
–Mas isso não importa agora! Eu não tenho qualquer motivo que não me faça ir atrás do meu amigo sozinha.
–Mas é óbvio que tem! Você acha mesmo que vai atrás dele sozinha e eu vou permitir? Jamais!– ele gritou sério, me fazendo ficar brava. Quem era ele para me impedir?
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Decidi ir para essa tal cidade logo depois de sair da delegacia. A minha sorte era que esse evento aconteceria em uma cidade muito próxima da minha e eu poderia facilmente ir até lá a pé. Se foi uma atitude completamente irresponsabilidade minha? É claro que foi! Mas todo mundo tem o direito de errar pelo menos uma vez, não? Demorou, e como demorou, até eu chegar à cidade vizinha, tanto que já era noite quando cheguei.
O estranho disso tudo é que o panfleto fala sobre como se tornar uma modelo profissional e Damian sempre odiou moda e essas coisas. Lembro-me que achávamos estúpido alguém ligar para ser igual ao outro. Será que ele mudou tanto assim? E agora, pelo o que estou lendo, ele é um fotógrafo profissional. Isso está ainda mais estranho do que imaginei. Mas não importa ficar pensando nisso até eu encontra-lo. O que eu tenho que fazer é somente encontrá-lo, para depois tirar todas as minhas dúvidas.
Depois de chegar à cidade, foi fácil encontrar a praça, já que tinha um monte de garotas indo para lá. A praça estava lotada, com no mínimo trinta juízes parados e alguns em movimento, sendo todos adolescentes lindos ou adultos bonitões, com filas de garotas esperando para falar com eles. Entrei em uma delas, enquanto procurava qualquer sinal dele. Ele tinha que estar aqui! Nem percebi quando saí da fila de modo quase automático, procurando qualquer um que ao menos se parecesse com ele.
–Procurando alguém? – eu escutei uma voz grossa, atrás de mim, perguntar. Quando virei, encontrei um cara de uns vinte anos alto e não muito musculoso de olhos verdes e cabelo loiro curto despojado.
–N-não... – eu pensei em perguntar sobre o “Sumido”, mas não sei por que achei melhor não falar. Vai que ele conhece o Delegado Max ou sei lá.
–Ah, ok. Sou Jake e você? – ele me deu um sorriso lindo e encantador, falando numa voz grossa e doce ao mesmo tempo. Isso era humanamente impossível!
–Sou a Amy. – ele era muito gentil e bonito, passando do normal. E uma das leis que eu criei assistindo filmes de suspense e lendo livros de romance policial foi que se a pessoa é boa demais, desconfie.
–Olá, Amy. Como você acabou descobrindo o concurso? – ele perguntou, pegando uma prancheta.
–Eu encontrei um panfleto na minha escola. – respondi, tentando não demonstrar qualquer nervosismo.
–Ah, entendido! Você poderia responder essas perguntas com o máximo de sinceridade possível? – ele perguntou sorrindo de maneira hipnótica.
–Claro! – eu sorri de maneira boba. Era quase como se ele estivesse tentando me controlar. Que medonho!
O questionário não era muito longo, com perguntas como “Você está em algum relacionamento sério?” e “Como está a sua relação com seus pais?”. Eu nem sabia que era esse o tipo de pergunta num concurso! Eu acabei e, quando fui começar a procurar por Jake, ele apareceu do nada do meu lado, me dando um baita susto.
–Desculpe-me. – falou rindo um pouco. –Já terminou?
–Sim. Aqui está. – respondi, entregando o questionário.
–Ótimo! Aqui está o endereço para a próxima etapa! – disse ele, me entregando um papel.
–Mas como vai ser essa segunda etapa? – perguntei curiosa, antes que ele saísse.
–Bem, será um banquete para todos os presentes, juntamente da escolha de quem venceu.– ele falou sorrindo de forma um pouquinho medonha.
–Obrigada. Que horas esse banquete acontece? – perguntei por que não havia nenhuma informação sobre isso no papel.
–Nossa, quase me esqueci disso! – ele pegou o meu papel e uma caneta de seu bolso e escreveu. –Amanhã, começando às dezenove horas e sem hora de acabar. – ele me informou, devolvendo o papel.
–Ah, entendido. Até amanhã! – me despedi simpática.
–Até amanhã! – ele respondeu, sorrindo.
Tudo o que eu tenho que me preocupar de agora em diante é encontrar uma pousada ou algo do tipo para dormir, um restaurante e preparar o que eu vou dizer para o meu melhor amigo depois de tanto tempo.
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Eu acabei encontrando uma pousada que também era um restaurante e pertencia a uma família muito gentil que me acolheu e cobrou apenas uma refeição, pois se emocionaram com o meu objetivo. Fiquei por lá até chegar perto do horário da segunda etapa, saindo e agradecendo muito a família que me recebeu, aproveitando para perguntar como chegar ao local que fui resignada.
Felizmente cheguei sem muita demora, decidida a achar Damian, já que a tentativa do dia anterior foi falha. Acho que eu estou ficando um pouco obsessiva demais com esse desaparecimento. O endereço na verdade era uma mansão belíssima e gigante, toda enfeitada com toques brancos e dourados, com um jardim lindo e uma fonte de água enorme. Quando fui dar um passo para entrar, ouvi uma voz me chamando. Era uma velhinha com uma expressão triste, de cabelos brancos delicados presos num coque e olhos de um tom claro de caramelo.
–O que houve? – eu perguntei realmente preocupada. Sim, eu sei que não devo falar com pessoas aleatórias na rua, mas a senhora parecia precisar da minha ajuda.
–Essa mansão é amaldiçoada, criança! – ela me falou, quase chorando. –Nenhum morador pode falar nada para as garotas sobre o que há aí dentro, ou a pena será de morte. – o seu tom dramático e sério me fez travar. -Já estou tão velha que a morte não me assusta. Tentei avisar as outras garotas, mas elas não me escutaram e até me chamaram de louca. Eu estou falando a verdade! Todas as garotas que entraram aí, nunca mais saíram! – havia tanto pânico na sua voz que me fez realmente repensar a ideia de entrar.
Ela não parecia louca, muito menos brincando. Será que isso é verdade? Parece mentira ou algum tipo de pegadinha, mas é a minha primeira vez nessa cidade e essa senhora é moradora daqui. Melhor tomar cuidado lá dentro, pelo menos.
–Minha senhora, eu não acho que você é louca ou algo do tipo, mas vim até aqui encontrar uma pessoa muito importante para mim. – expliquei, sendo honesta. –Eu preciso entrar, mas pode deixar que eu tomarei muito cuidado! – avisei, sorrindo, tentando tranquilizá-la.
_Você é diferente de todas aquelas garotas fúteis que entraram lá. Acho que fiz bem em sacrificar minha vida por alguém tão gentil. Adeus, criança! – agora a velhinha tinha um sorriso aliviado no rosto, enquanto saía cantando baixinho.
Depois que perdi a velhinha de vista, passei pelo jardim e entrei na mansão, me deparando com um salão ainda mais belo com um grande palco de mármore em seu centro e uma enorme mesa cheia de comida, porém completamente fechado, tirando uma porta do outro lado do cômodo que provavelmente levava ao interior do imóvel e a entrada em que eu estava. Havia tantas pessoas ali que comecei a me desesperar e procurar por Jake.
–Amy! Aqui! – eu o escutei me chamando. Ele estava no canto do cômodo com mais dez garotas, todas muito mais bonitas do que eu e bem mais arrumadas, com lindos vestidos que variavam entre curto e longo, além de penteados de cabelos perfeitos e maquiagens impecáveis, enquanto eu estava com o uniforme escolar. Eu devia ter me preocupado em achar alguma roupa especial já que me inscrevi no concurso.
–Oi, Amy! Preparada para hoje? – o loiro perguntou, enquanto me olhava de maneira meio desconfiada.
–Ainda não! – respondi com uma animação falsa. Onde eu iria achar um vestido para fingir que eu estava querendo ganhar? – Onde fica o banheiro? – perguntei envergonhada, apontando para a mochila.
Ele me explicou gentilmente, mas rápido demais para que eu pudesse gravar suas instruções. Como eu já estava envergonhada por estar despreparada, decidi que era melhor não pedir para ele repetir tudo de novo e segui o caminho que consegui lembrar.
Entrei na porta e caminhei por um longo corredor, entrando na segunda porta à direita e seguindo em frente. Cheguei ao final do corredor, mas me esqueci de qual porta deveria entrar, sem saber se era a da esquerda ou da direita. Primeiro tentei a porta da direita e, quando eu olhei o que tinha dentro, não consegui me mexer.
Atrás da porta, havia fileiras de garotas mortas e pálidas, penduradas como carne em um açougue, com ferros fincados em suas mãos e presos em uma espécie de varão de cabide, algumas sem uma gota de sangue, outras ainda pingando um pouco, todas com os pescoços destruídos. Rapidamente fechei a porta e abri a porta a minha frente, a qual eu deveria ter entrado, chegando ao meu destino primário, o banheiro feminino. Tentei acalmar meu coração respirando fundo, mas isso não adiantava. Eu não estava acreditando. Era mentira, uma espécie de alucinação. Tinha que ser mentira! Além de tudo isso, quem teve a brilhante ideia de colocar isso do lado do banheiro feminino?
Tudo se encaixava: o aviso daquela senhora e o comportamento perfeito e meio medonho de Jake. Eu ri baixinho. Estou tendo um pesadelo! Agora tudo o que eu precisava fazer era acordar. Não. Sim. Eu não estou entendendo absolutamente nada. Entrei em uma das cabines e me sentei no chão frio, colocando minha cabeça apoiadas nos joelhos. Pense, Trina! O que você vai fazer agora?
Depois de um tempo, pensei que ele já poderia estar me procurando, e, se eles realmente fossem o que eu pensava -algo entre psicopatas e monstros mitológicos-, não demoraria muito para eles desconfiarem da minha atitude ou demora. Levantei e percebi que eu estava chorando. Droga! Fiquei me acalmando e lavando o rosto até que não houvesse nenhum sinal da minha recente atividade e logo voltei ao salão sem realmente entrar e parando perto da porta, tendo em meu plano de visão apenas o palco. Não demorou muito até que um homem bem jovem baixinho e magrelo de cabelo ondulado castanho e olhos cinza subisse no ponto mais alto e anunciasse em alto e bom som.
–Agora é hora de começar o banquete para comemorar essa bela noite. Quem começará será Hank, que trouxe trinta e nove belas moças. – logo que o salão se encheu de palmas, um garoto de aparentemente vinte e dois anos com um corte estilo militar em seu cabelo loiro, musculoso e de olhos verdes brilhantes foi até um grupo de garotas, escolheu uma alta e magra, de cabelos longos loiros e cacheados e subiu ao palco.
Ela sorria como uma vencedora do concurso Miss Mundo até a boca de Hank parar em seu pescoço, fazendo sangue jorrar e ela gritar. Mais gritos foram escutados, enquanto o barulho de vários saltos altos era escutado, como se todas tentassem fugir.
–O banquete está aberto e parabéns pela ótima caçada! – o mesmo homem que anunciou o início disse com alegria.
Entrei em pânico total e entrei na primeira porta que eu encontrei, isto é, um armário pequeno, apertado e fedido em que consegui me enfiar, trancando a porta em seguida, enquanto escutava gritos e mais gritos. Eu não sabia o que fazer. Era o meu fim.
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