Notas iniciais
Finalmente consegui fazer o outro capítulo com essas folgas do carnaval! Espero que gostem, boa leitura.

Vinte e nove

Para não sair da rotina, fui para a cafeteria perto do hospital, tomar café. Era cedo, mas não tão cedo quanto os dias em que eu encontrava Miguel. Ia tomar café, ou nem sabia o que, ao certo.

Eu estava escolhendo o que comer no menu quando Miguel entrou na cafeteria. Não me encontrou de primeira, e eu não estava muito aí se ele iria me encontrar ou não. Não estava afim de ouvir meu ex-namorado perfeito falando sobre a Paola ou sabe lá do que. Aí que está, achei que não tínhamos mais assunto.

Então, ele virou o corredor perto do balcão, me viu e levantou as sobrancelhas como se estivesse surpreso:

_Oi, Magda.

_Oi...

O garçom já trazia minha Coca-Cola e um canudinho quando Miguel sentou-se à minha frente.

_Não pergunta se pode sentar, não?

Ele me olhou, calmo e achando graça.

_Eu não preciso disso.

Abri a latinha, com minhas unhas enormes vermelhas, enquanto ele pedia algo para o garçom, que já parecia conhece-lo muito bem.

_E então, senhorita... já se recuperou daquela Magda de ontem?

Eu sabia muito bem do que ele estava falando, dos palavrões e das risadas minhas quando ainda estava bêbada, de quando ainda tive uma “recaída”. Mas eu não iria deixar isso tão fácil para ele, não deixaria ele fazer a graça do jogo. Olhei-o, seriamente_ porém com algum tipo de sorriso subentendido.

_Defina Magda.

Ele sorriu.

_Bem... aquela menina legal. Você normalmente está emburrada comigo ou com alguma coisa e...

_Tão legal que você quis ir embora.

Uma pausa. Ambos estávamos errados, mas ninguém estava aí de verdade pra isso.

_Eu não quis ir “embora”. Só não quis parar na sua cama.

_Por falar nisso, como está a Paola?

Ele olhou pra mim como se rejeitasse a minha pergunta, como se ela fosse o motivo de não estarmos mais juntos_ mas na verdade era. Ele já sabia que eu não engoliria caso me dissesse para parar com aquilo, para ser “menos criança”.

_Ela está bem. Não apresenta nenhuma melhora..._ ele olha pro lado_ mas pelo menos não está pior.

E de repente o nosso “joguinho” infantil se transformou numa dor imensa pro Miguel. E lá vou eu de novo sentir pena dele...

_Ah, desculpa. Mas você sabe que eu não vou engolir isso, nunca.

Ele me olhou, tentando ouvir aquilo que eu dizia, ainda perdido nos seus pensamentos.

_E por quê não, Magda? Por que tudo tem que ser do seu jeito? Você não pode aceitar que nos separamos e pronto?

_Separamos, mas por quê, você sabe, Miguel? Claro que sabe. Por causa da Paola, e você sabe quem é ela? Ah, é a sua namoradinha, a sua alma gêmea que voltou pra me infernizar, pra acabar com o que eu achava que era amor.

_Magda, como você pode ser tão criança?! Ela não está bem, ela está quase morrendo! E nem eu nem ela escolhemos isso, mas ela escolheu não me fazer sofrer e...

Eu fiquei com raiva. Não era possível que o Miguel fosse tão idiota, tão burro, logo ele, que sempre foi tão perfeito...

_Escolheu não te fazer sofrer fugindo, assim, do nada?_ olhei bem fundo nos olhos dele_ Sofrer mais do que você sofreu por ela, Miguel? Me explica isso.

Ele ficou quieto. Era difícil, sim, a situação, mas eu estava tentando explicar pra ele. O café e o sanduíche que ele pediu chegaram, e ele sequer olhou para o garçom. Nem mesmo um “obrigado”, próprio da educação dele. Eu continuei:

_Não era mais fácil ela ter te contado que estava com câncer? E, mesmo que tivesse que sair da cidade, pelo menos você saberia onde ela estava. Mas agora, por que eu tenho que sofrer as consequências dela? Por que eu não posso viver com você, Miguel?_ ele finalmente olhou pra mim, lembrando da gente_ Por que nós não podemos namorar? Agora, eu estou aqui, separada de você, sem ter motivo, digamos assim, precisando de você, sem poder. E aí? Eu mereço isso? Nós merecemos isso?!

Ele ficou encarando o café, quente e forte, provavelmente lembrando de nós dois. Mesmo sem muito “tempo de vida”, o nosso namoro foi intenso. Nós rimos, nós nos encontramos, de fato. Não havia por quê nos separarmos senão a Paola. E outra, será que ela queria voltar com ele?

_Você tem razão, Magda... mas as coisas não são tão simples assim. Não quando se é o problema, entende? Eu sou o problema. Eu não sei o que pensar, nem de você, nem dela. Nem de mim.

_Mas enquanto você pensa, as coisas podem mudar.

Ele me olhou como “o que você quer dizer?”.

_Digo, a Paola pode melhorar... ou piorar._ comecei a brincar com o canudinho que estava na latinha de Coca-Cola_ Você já parou pra pensar que ela talvez não tenha tempo pra você?

_É um risco que eu tenho que correr, não é?

Tomamos café_ na verdade, eu tomo Coca-Cola_ e vamos andando em direção às nossas casas_ que ficam no mesmo sentido, então podemos ir até uma distância juntos.

Então, enquanto ainda estamos com os pensamentos voltados à Paola, fossem eles bons ou ruins, eis que aparece, tão distraído quanto eu e Miguel: Afonso. Eu o olho surpresa, e Miguel não percebe a situação, até que Afonso, tão surpreso quanto eu, nos para:

_Oi! É Magda, não é?

Eu o olhei, sem poder evitar, de uma forma pessoal, como se fôssemos muito amigos.

_Oi! É... o seu nome, é qual mesmo?

Ele riu. De fato, eu não me lembrava.

_Afonso. Não te culpo por não lembrar... se é que você me entende._ ele sorri.

Miguel, apenas olhando a nossa “intimidade”, com cara de “muito bem, senhorita Magda”.

_Não vai me apresentar o seu colega?

Eu olhei para Miguel, rapidamente, e notei tantas diferenças entre eles. Um era loiro de olhos verdes, outro, moreno de olhos escuros. Ambos fortes e bonitos.

_Ah, então, esse é o Miguel,_ Afonso estende a mão para cumprimenta-lo_ um amigo meu.

“Miguel” e “amigo”? Pra mim, essas duas palavras nunca estariam na mesma frase. E nem mesmo ele havia se acostumado com a ideia, porque fez uma cara estranhamente engraçada pra mim quando disse aquilo. Eu apenas fazendo cara de paisagem, enquanto Afonso lidava perfeitamente com a situação.

Miguel o cumprimentou, os dois tão lindos e sabe lá os outras qualidades que eu poderia dar a eles. Eu estava morrendo de medo de o Afonso falar algo demais que fizesse o Miguel me perguntar uma séria de perguntas sem cabimentos.

_Bem, então, “Magda”... vou indo nessa._ ele me deu um beijo na bochecha e deu um tchau discreto pro Miguel.

_Quem é?

_Você não ouviu? Afonso.

Ele já tinha entendido que eu não queria nem um pouco que os dois se conhecessem mais. Digo, não daria mais detalhes para ele. E também não tinha motivo para que ele ficasse com ciúme, não éramos mais nada.

_Vem cá, Miguel, nem você acredita que estamos separados, né?

_Como assim?

_Ah, você sabe muito bem. Você fica com ciúme do Afonso, ontem mesmo a gente quase ficou de novo e...

_Nada disso, Magda, nada disso.

Eu o olhei seriamente, certa de que o que eu falava tinha fundamento.

_Eu vi o jeito que você me olhou, Miguel. Não banque o idiota. Você quer voltar comigo o tanto quanto eu.

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Chego em casa e confiro meus e-mails. Nicolas havia me mandado outra mensagem, bem pequena, falando apenas que estava “bem”. Já havia conhecido umas pessoas e até gente daqui do Brasil, e nesse e-mail eu também pude ver que ele não estava mais tão preso aqui, digo, por mim. Estava com seus pensamentos todos lá.

O resto do dia não foi lá muito útil, tive tempo apenas de dar uma passada na casa da Roberta para vermos filme de terror e voltar para casa tarde da noite. Ainda esperando que o que tinha entre mim e o Miguel não houvesse morrido definitivamente.

Notas finais
REVIEWS?