Hey, Ho. Let's Go!
30 Capítulo 30
Notas iniciais
Trinta
Acordei às 9h32min, com o cheiro de bacon vindo da cozinha do apartamento de baixo. Quem come bacon de café da manhã?! Pelo menos aqui, no Brasil?
Uma semana se passou desde que eu não falei com Miguel, nem com Afonso. Na verdade, eu não tinha mais muitos planos de falar com ele, afinal, nem nos conhecíamos direito. Quer dizer, nos "conhecíamos", mas eu não sabia quantos anos ele tinha.
Ou eu o conhecia melhor ou eu nem falava mais com ele. O problema é que se eu resolvesse o conhecer, provavelmente acabaríamos como eu e o Miguel_ embora as chances de ele ter uma ex-namorada que desapareceu do nada e voltar com câncer sejam quase improváveis. A questão é que Afonso me parece tão atraente quanto Miguel quando começamos a namorar, e eu não estou muito afim de me apaixonar de novo. Ou não agora.
Fiz um chocolate quente pra mim, ainda com meu pijaminha, e entrei na internet. Fiquei um tempinho conversando com o Nicolas, já que ele estava online e sem sono. O sol estava quente lá fora, embora não fosse muito comum ficar ensolarado logo cedinho.
Resolvi dar uma volta no parque de bicicleta. Pode parecer estranho e até infantil, mas é bem comum por aqui. Aliás, o que mais tem no parque são adolescentes sem nada pra fazer em casa.
Me arrumei_ um vestido, como sempre, e claro, um shortinho por baixo_ e fui pegar minha bicicleta, nos fundos do estacionamento do apartamento. Assim que eu ia saindo com ela, vi que o porteiro estava dormindo, com o chapéu do uniforme em cima do rosto. É pra isso que ele é pago?
Estava muito calor quando cheguei ao parque. Perto da lagoa, no centro dele, havia vários casaizinhos sentados, fazendo piquenique. E ao redor, assim como eu, havia um monte de pessoa andando de bicicleta e patins.
Eu sempre gostei de andar de bicicleta. Aprendi com o meu pai, quando tinha uns sete anos, já sem aquela rodinha com a qual toda criança aprende. Naquele tempo, ele não precisava viajar tanto, então a gente sempre vinha nesse parque. É claro, ele era bem menos evoluído, não tinha uma pista só pra ciclista. Havia apenas o lago, a grama e uns banquinhos. Hoje há quadra de vôlei e de futebol, pista de skate e um parquinho menor, todo colorido, só pra criança.
Enquanto eu andava pelo parque, reparei que muita gente acorda cedo só pra não fazer nada fora de casa. Em uma área mais afastada, onde ainda há um caminho para andar de bicicleta, encontro um grupo de "Hippies" sentados na grama, tocando violão e cantando. Já mais à frente, um monte de criancinhas pulando corda.
Parei na lanchonete do parque_ o único que tinha por ali_ pra pegar um picolé. E assim que eu entrei, dei de cara com Afonso. Bem, não de cara, porque ele estava do lado do balcão, bebendo água de coco. Ele veio em direção a mim, sorrindo.
_Oi!_ eu disse, sorrindo antes que ele pudesse falar qualquer coisa.
Ele sorriu.
_Olá! O que está fazendo por aqui?
_Eu moro "por aqui"._ sorri, e mostrei o meu apartamento, que ficava mais perto da praia do que do parque.
_Ah... então quer dizer que éramos praticamente vizinhos e ainda não nos conhecíamos?
_Por aí. Por falar nisso, ainda está indo naquela boate?
_Não. Diferentemente do que você pode estar pensando, eu não curto boates._ ele riu_ E você?
_Também não... eu... só estava brigada com o meu namorado. Meu ex, na verdade_ eu sorri frustradamente, numa tentativa fracassada de mostrar que já havia superado aquilo.
Ele me olhou, sem muita reação.
A balconista da lanchonete veio em minha direção.
_Um picolé de leite condensado, por favor...
Afonso tenta disfarçar, e começa a rir, enquanto a menina traz o picolé.
_Obrigada._ eu comecei a rir também_ Então, Afonso... eu vou continuar andando de bicicleta...
_Ah, você está com bicicleta? Eu também... posso andar com você?
_Claro!
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Depois de andarmos de bicicleta, resolvemos ir almoçar. Já era meio dia, quando eu ia mandar uma mensagem para a Roberta, falando que estava almoçando com Afonso, quando eu me lembro que não tinha mais celular. Fiz uma careta.
_O que aconteceu?
_Ah, nada. É que eu quebrei o meu celular e estava precisando dele agora...
_Sério? Como você quebrou?
_Então... foi quando o meu ex estava me ligando. Eu estava arrasada, chorando e..._ opa, falei demais.
_Ah, não precisa falar, se não quiser..._ passou a mão no cabelo como se estivesse pensando em que falar, agora_ quer o meu celular emprestado?
"Ah, não, muito obrigada. Deixa que eu mando uma mensagem falando que eu estou almoçando com você quando eu comprar um celular novo. Mas valeu, mesmo".
_Poxa, nem precisa, obrigada.
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De tarde, nós fomos pra beira da praia.
_Então, Afonso... quanto tempo você mora aqui?
_Há uns dois anos. E você?
_Praticamente desde quando eu nasci._ sorri, e ele sorriu de volta.
Ficamos por um tempo apenas adimirando a paisagem. O céu azul, o mar que quase lambia os nossos pés, a areia amarela e quente... estávamos bem.
_Sabe? Eu quase nunca venho à praia. Não gosto muito. Mas isso depende muito de quem está com você.
Aquilo não soou como uma "cantada". Pelo contrário, parecia que era justamente o que eu queria ouvir, como se ele fosse meu melhor amigo. E, de repente, me lembrei de Nicolas. Lá no Canadá não tinha praia, tinha?
E sempre quando eu me lembro de Nicolas, automaticamente me lembro de Miguel. Parecia que, mesmo sem muito contato um com o outro, tinham uma forte conexão pra mim. E agora, nenhum deles estava comigo, mais. E de repente surge Afonso, que me faz lembrar deles. Acho que está no meu destino amar as pessoas mesmo depois de me deixarem, e ser feita para ser deixada.
Ficamos em silêncio por um momento, novamente olhando ao redor. Um pouco mais longe de nós, estavam umas criancinhas fazendo um castelo de areia. Rindo, falando algo errado, rindo mais. Era tão bom quando não havia preocupação, quando havia soluções mesmo não tendo problemas...
Problemas. Aposto que se ainda estivesse com Miguel, eu não acharia a solidão um problema tão grave perante à mortes de pacientes e "namorada com câncer".
Mas solidão, por parecer banal, é que é fatal. Ela vem devagar. Senta-se ao seu lado, lhe conta uma historinha, lhe bota para dormir em seu colo, lhe faz carinho nos cabelos. Mas são essas doenças que parecem amigas que são as mais perigosas. Morte é uma doença rápida, não finge que gosta de você. A sedução da solidão é atraente. A morte te choca. E no final, você é curado pela morte, enquanto a solidão te mata vivo.
_Afonso... você me desculpa? Eu acho melhor eu ir pra casa...
_Está sendo difícil esquecer ele, não é? Tudo bem. Eu sou seu amigo até o dia que você quiser.
Nos levantamos e eu fui embora para casa. Sozinha, triste, fria. Bem como aprendi a ser.
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Já era de madrugada quando meu telefone tocou. Era Miguel, desesperado. Paola havia morrido.
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