Herói ou Vilão?

3 Herói - Capítulo 2


Notas iniciais
Hey gente, como vocês estão?? Estive de mudança e em semana de provas, ent tava tudo o puro caos, mas já voltei a minha rotina de escrita e postarei com bastante frequencia. Espero que gostem!!

O tempo parece passar ainda mais lentamente que o de costume.

Pisco meus olhos inúmeras vezes, tentando me acostumar com a mudança de cores, mas, na verdade, não é isso que está me deixando atordoado... É ela.

Encaro a desconhecida atordoado, seus grandes olhos castanhos me hipnotizam, roubam todo o meu ar. Os cabelos cacheados descem como uma cachoeira de uma cor entre o chocolate e o mel. Sinto vontade de passar a mão por todos os fios e descobrir se são tão macios quanto aparentam.

— Eu... hum... – Murmuro. A garota faz uma careta de interrogação. Arranho a garganta tentando recomeçar. – Relógios me deixam louco.

Não é uma mentira. Olhar o relógio, para mim, é o mesmo se que ser psicologicamente torturado pela minha ansiedade.

Mas por que, então, olhando para ela, o relógio parece tão inofensivo?

Estou ficando louco?

— Interessante. – Diz sem tirar os olhos analisadores de mim. Ela não é tão mais baixa, então mal precisa levantar a cabeça para me encarar. – Você continua atrasado. – Aponta para a porta ao seu lado. – Eles estão te esperando.

Então, sem dizer mais nada, abre e entra pela grande porta metálica. Vou atrás. Adentro o antigo ginásio que fora adaptado para se transformar em uma enorme área de testes. Hoje as grandes luminárias iluminam o local com uma luz branca, mas a cor é frequentemente trocada para alguns experimentos, por tanto também é comum encontrar todos banhados por um violeta ou azul turquesa.

A primeira vez que estive aqui fiquei muito assustado. Existem máquinas e pessoas com jalecos roxos e pranchetas nas mãos para todos os lados. Eu me senti um verdadeiro rato de laboratório.

Agora o lugar não me parece tão assustador. Os sombranos são extremamente calorosos entre si e fazem eu me sentir em casa.

— A Cora o encontrou! – Alguém anuncia e pelo menos uns quinze pares de olhos se viram pra mim, mas não estou prestando muita atenção.

Então o nome dela é Cora? Interessante.

— Como é bom te ver, garoto. – O Grã-mestre se aproxima de mim vagarosamente. O homem já tem quase noventa anos e anda com dificuldade, mas sua lucidez é impressionante.

Os Sombras são bem rigorosos sobre quem está dentro. Existem duas áreas, a dos sombranos e a dos sombreados.

Os sombreados são aqueles que acreditam na influencia e no poder das sombras, além da existência de um ser superior e inexplicável, não importa quem ele seja. Qualquer um pode ser um sombreado. Inclusive, depois de tudo, acabei me tornando um também.

Já os sombranos são um grupo mais seleto, eles são os cientistas – sim, a ciência também está envolvida – os pesquisadores e diretores. Precisam passar anos em uma escola especial para estarem aptos a frequentar a academia das sombras. Aqui, os sombreados só podem entrar com permissão e supervisão.

— É sempre bom estar aqui, Grã-mestre. – Sorrio para ele, devolvendo a amabilidade. Ele me trata como se eu fosse seu neto.

— Pelo jeito já conheceu minha bisneta. – Ele segura no braço de Cora com um carinho especial, um grande orgulho. – A Cora vai estar te acompanhando nos testes hoje, ela foi escalada recentemente na área de pesquisa, após ter concluído com louvor um projeto para Academia das Sombras. Tenho certeza que vocês vão se dar bem. Boa sorte com os testes.

O Grã- mestre me dá dois tapinhas nas costa e um beijo na bochecha da bisneta, nos deixando para encontrar outros diretores. Fico observando ele se afastar até receber uma leve batida de prancheta na cabeça. Encaro a garota ao meu lado com interrogação.

— Vamos, você é muito lerdo. – Ela reclama e sai andando praticamente abraçada com sua prancheta.

— Acho que é a primeira vez que ouço isso em cinco anos. – Mas na verdade sei que estou muito devagar desde que cheguei. A culpa é completamente dela. Parece que minha mente está ocupada demais prestando atenção à Cora para se tocar do resto do mundo.

Estou acostumado com novas sensações.

Mas de todas elas essa é, de longe, a mais assustadora.

Sigo Cora pelo local, cumprimentando vários sombranos pelo caminho. Gosto que — apesar de se referirem a mim em grande parte das vezes como: o escolhido – eles me tratam como qualquer outro sombreado.

— Então você é nova aqui? – Pergunto à garota que balança seus cabelos cacheados à minha frente, dou alguns passos mais rápidos para estar ao seu lado, sabendo que se permanecer atrás serei completamente ignorado.

— Como pesquisadora sim, de resto, não. Frequento esse lugar desde que nasci. – Responde, mas sem me olhar. Para em uma esteira grande e apoia a prancheta em uma mesa, se inclinando para ler alguma coisa. – Sobe e afasta os braços. – Manda e eu obedeço.

Bato os pés ansiosamente no piso da esteira, enquanto ela continua lendo o papel. Após dois minutos – quem está contando? – se aproxima de mim novamente e carrega consigo um monte de fios. Cora analisa a minha blusa por um momento e balança a cabeça.

— Preciso que você tire a blusa. – Diz, mais profissional do que qualquer médico. Fico sem graça, mas faço. Ela desvia o olhar para sua prancheta enquanto o faço. Entrego-lhe minha camisa e volto a abrir os braços. – Isso pode ser gelado. – Diz, colando os fios no meu peito. Se os fios são realmente gelados, o meu corpo nem percebe, focado demais em outra coisa.

— Preciso fazer testes clínicos comuns para ter certeza que seu corpo pode aguentar os outros testes. – Balanço a cabeça, confirmando. De meses em meses eu faço esses testes.

Ao terminar de encaixar todos os fios devidamente, percebo ela hesitar no meu braço, observando os galhos pretos feitos pelo meteorito, seu olhar desce em admiração até a minha mão – coberta pela luva que sempre uso.

— Quer ver? – Quando vejo, as palavras simplesmente saíram pela minha boca. Cora hesita, tentando manter o profissionalismo intacto. – Ah, vamos lá, você não pode ser um robô o tempo todo. – Provoco, tentando ficar o mais parado que minha ansiedade permite.

— Estou apenas fazendo o meu trabalho.

Ela se vira e vai em direção a máquina, apertando botões que eu não consigo nem imaginar como funcionam, a bugiganga treme e liga.

— E você está fazendo de forma precisa como nenhum outro sombrano fez em todos esses anos. – Elogio, começando a andar de acordo com a velocidade que a esteira se movimenta. Cora olha para a tela do computador, mas a capturo mordendo a bochecha para não sorrir. – Vai mesmo me tratar como um rato de laboratório?

— A roda você já tem, não é? – Ela aponta para a esteira, sem aguentar um sorriso malvado. – Mas para ser justa, os ratinhos não são tão chatos quanto você.

Faço uma cara de falsa indignação e levo a mão ao peito num gesto dramático, percebendo em último segundo que é uma péssima ideia, já que estou coberto por cabos. Em uma tentativa de punição por isso, a velocidade aumenta quatro vezes mais rápido, para depois diminuir quase que drasticamente.

— Tudo certo, vamos para os testes de verdade. – Diz ela, satisfeita por me fazer desestabilizar, mesmo que levemente.

Mudamos de aparelho. Dessa vez para um que necessita de mais de uma pessoa operando, então não consigo conversar com ela. Cora é como um robozinho, mas acho que a vejo sorrir quando faço uma piada com Erick – o outro sombrano operando a máquina.

Pelo menos quatro horas de testes devem ter se passado. Sou colocado em máquinas de alta velocidade, plataformas de peso, câmaras escuras e outras claras demais. Apesar de aparentarem bizarros, eu até gosto bastante, eles me distraem e fazem a passagem de tempo ser menos assustadora.

— Preciso de uma pausa. – Praticamente desabo em uma poltrona. Toda vez que eu faço a transformação de sombra para humano, a pedra suga um pouco da minha energia corporal e depois de tantas transformações, me sinto como se pudesse desmaiar a qualquer momento.

Cora para na minha frente com a insistente prancheta em mãos. Estou completamente esparramado na poltrona, acabado demais para me mexer. A garota estende uma lanterninha acesa sobre os meus olhos. Conheço o procedimento dos filmes, quando pessoas sofrem acidentes e os médicos checam os reflexos fotomotores do paciente.

— Você sabe que isso não funciona comigo, né? – Murmuro numa voz arrastada.

— Sim, mas eu queria ter certeza que você está lúcido o suficiente para me dizer isso. – Retruca, anotando algo. – Vou pegar um café para você. Não durma!

Respondo alguma coisa que nem eu mesmo sou capaz de entender e fico observando-a ir em direção a uma sala que foi transformada em cozinha. Não desvio o olho dela um segundo sequer. Não consigo. Meu cérebro parece absolutamente fascinado por ela

O que ela tem de diferente? Não tenho ideia, mas uma vontade de descobrir se assola em meu peito.

Quantos ela tem?

O que será que gosta de fazer, além das pesquisas?

Quem é a pessoa por trás da máscara séria e profissional?

Essas são apenas algumas das perguntas que neblinaram a minha mente por todo o tempo desde que a vi. Existem muito mais perguntas de onde essas vêm. Entretanto, duvido que seja fácil responde-las.

Sinto uma fisgada na mão e isso me faz desviar momentaneamente para o pedaço de pele enluvado onde o meteorito permanece encrustado. Ela está bem quente e uma poeira preta e brilhante sai pelos lados abertos da luva – no estilo skatista, para não me fazer perder o tato dos dedos ao, por exemplo, usar o celular com touch.

O meteorito ficar quente é normal, ele está sobrecarregado depois de tantos testes e o calor vem da minha energia corporal. Porém, a poeira é algo novo. É quase como a fumaça que vi no fatídico dia em que a pedra caiu no quintal de um sítio no meio do nada, enquanto eu estava sozinho com um violão e uma coleção de gibis.

Levanto cuidadosamente a luva e analiso a pedra preta. Nada parece diferente, com exceção à poeira, claro. Mesmo assim descido chamar alguém para dar uma checada melhor.

Entretanto, o Grã-Mestre aparece antes que eu faça qualquer coisa. Sua face traz uma mistura de afobação, terror e animação. Tudo junto.

— Encontramos um sinal. – Ele diz e faz um movimento de cabeça indicando que eu o siga.

Cambaleio para fora do sofá e me estico. Pareço capaz de andar, então apenas ou atrás dele.

Uma Cora muito esbaforida com uma caneca de café em mãos aparece do nosso lado. Claramente veio correndo ao ver a movimentação estranha de seu bisavô.

— O que está acontecendo? – Ela me empurra a caneca, mas sua atenção está toda no Grã-Mestre. Este, por sua vez, apenas aponta para o mega computador que temos em uma das áreas de pesquisa.

Viro o café todo de uma vez e isso me faz o meu cérebro funcionar um pouco mais acordado. Um pequeno tumulto parece começar a formar atrás do grande computador. Vamos abrindo caminho entre os de jaleco roxo até conseguir chegar perto das enormes telas do computador.

— Os sinais pararam, devem ter durado pouco mais que um minuto, felizmente consegui iniciar a gravação de tela a tempo. – Oliver desliza sua cadeira de rodas até nós. Nos cumprimentamos com soquinhos. Ele é um dos meus melhores amigos, fora e dentro da academia.

Oliver tira um cacho de cabelo roxo da frente do rosto e puxa a plataforma moldável onde fica seu teclado e mouse. O Grã-mestre apoia-se na cadeira de rodas de Oliver e o observa abrir os arquivos. Ao meu lado, Cora está imóvel. Tenho de me segurar para não cutuca-la e conferir se não foi substituída por uma estátua de cera.

Oliver abre um arquivo na tela e da play no vídeo que mostra a captura de tela de um aplicativo da Academia para captar a presença de uma sombra diferente. As ondas se movem num ritmo uniforme durante um período de tempo e depois se tornam retas.

— Essa é a atividade do Alec durante um dos testes. Prestem atenção no horário. – Ele muda de vídeo e parece a mesma variação. – Todos esses vídeos estão em momentos que o Alec estava em teste, eles são quase idênticos. Agora, vejam este. – Ele da play em mais um. Dessa vez as ondas têm picos muito altos, quase tornando as bordas pontiagudas.

— Parece intenso. – Murmuro e vejo a garota ao meu lado balançar a cabeça em concordância.

— Essa é a atividade que o computador captou pouco tempo atrás, quando o Alec estava praticamente desmaiado no sofá e em forma completamente humana.

— A pedra na minha mão estava soltando uma poeira diferente nessa hora. Será que era o meteorito causando interferência? – Pergunto, erguendo a mão enluvada para eles.

— Essa atividade é intensa demais para ser apenas uma interferência do meteorito. – Cora diz, ainda encarando as ondas agudas. – Vocês acham que...

Ela não termina a frase. Não precisa. Todos nós sabemos o que significa. Um silêncio cobre toda a área até o Grã-mestre finalmente quebra-lo:

— O outro escolhido está vivo.

Notas finais
O que estão achando da história, guys? Comentem!! Até o próximo cap, beijinhos S2