Herói ou Vilão?

4 Herói - Capítulo 3


Notas iniciais
Voltei!!! Espero que gostem desse cap.

— Vamos lá, você consegue Alec. Só mais uma vez.

Meus olhos estão fechados, mas consigo sentir toda a movimentação a minha volta, o calor dos corpos humanos é quase audível. Suspiro uma última vez e me transformo numa sombra. A transformação é meio bruta dessa vez, meu corpo está exausto.

Olho ao meu redor, tentando ignorar as dezenas de olhos humanos me encarando enquanto me mexo no segundo plano. Algumas pessoas dão leves pulos quando sem querer passo por seus pés – obviamente eles não sentem nada, mas o psicológico é sempre mais forte.

Dou voltas velozes pelo laboratório tentando captar alguma mudança, mas é a solidão de sempre. Absolutamente nada parece ter mudado.

Permaneço como sombra pelo o que deve ser um minuto, mas que pareceu uma eternidade para mim. Depois de concluir que tudo está igual, volto à forma humana. Fraco e cansado, caio sob meus joelhos.

Cora e outros dois sombranos vêm me aparar, ajudando-me a me erguer do chão e me levando até o sofá, uma barrinha de nutrientes especiais é colocada em minha mão. Faço menção de abrir a boca para falar, mas Cora ergue um dedo, me impedido. Ela se senta no sofá ao meu lado e coloca um estetoscópio no meio peito.

— Pessoal, deixem o garoto respirar. Circulando, circulando. – O Grã-mestre faz sinal para que os sombranos que se amontoam em nossa voltem para seus postos de pesquisa.

— Seus batimentos estão normalizando. – Ela suspira e tira o aparelho do meu coração. É estranhamente decepcionante ver suas mãos se afastarem.

— Nada mudou. Tudo parecia igual. Se ele estava aqui, deu o fora bem rápido. – Digo numa voz fraca.

— E o meteorito? – O Grã-mestre pergunta.

Retiro novamente a luva de minha mão e lhes mostro o meteorito. A poeira brilhante que saia antes desaparecera completamente.

— Então ele esteve mesmo aqui, claramente aquilo era a pedra reconhecendo a proximidade de um fragmento irmão. O que me preocupa é que esse portador ficou cinco anos sem o suporte da Academia, o que essa pedra pode ter feito com ele?

Tenho vontade de tranquilizar lhe dizendo que o portador pode ter acabado de descobrir a Academia. Entretanto, nem mesmo eu acredito nessa teoria.

As primeiras semanas são tão assustadoras.

Quando os meus pais me encontraram largado na sala, com uma pedra preta cravada na mão como se tivesse acabado de passar por um julgamento na idade média, eles ficaram desesperados.

Não havia hospitais por perto. As opções ali eram morrer e... perder a vida. Felizmente, tio John conhecia um casal de aposentados do exército. Um piloto de helicóptero e uma enfermeira.

Acho que eles devem ser o tipo de casal mais preparado para um apocalipse.

Tio John nos encontrou no meio da estrada e nos guiou com sua caminhonete laranja desgastada até a casa do casal. Eu estava no banco de trás com minha mãe, a cabeça em seu colo e quase um zumbi.

Apesar de terem a casa cheia de armas e fardas, os dois eram extremamente simpáticos. Assim que chegamos, a senhora Odette correu até nós – aparentemente já avisada da situação com um telefonema. Meu pai me ajudou a chegar até a casa e Odette preparou um sofá com almofadas confortáveis e um chá quente. Ela se abaixou perto de mim, no chão, e começou a me examinar.

— Essa pedra parece ser o problema, afinal. – Disse minha mãe, enquanto passava a mão no meu cabelo. Lembro-me de observar suas expressões preocupadas com um pouco de culpa.

— Talvez ela tenha algum tipo de veneno ou parasita. Não sou uma cirurgiã, mas acho que tenho os apetrechos básicos para retirar. Acho que sem ela, o corpo do Alec vai aquentar melhor até encontrarmos especialistas. – Odette pegou uma maleta de primeiros socorros enorme, parecia ser a mesma que ela usara no exercito, mas a maioria dos aparelhos tinha sido substituído por novos.

Odette começou a limpar minha mão e naquele momento minha cabeça já estava longe, em um lugar onde tudo girava e tremia. Ela começou a mexer na minha mão, limpando com algum pano e um líquido gelado, e senti fortes fisgadas na minha cabeça. Quando ela encostou a pinça a dor aumentou e então, quando puxou a pedra, senti como se estivesse arrancando, em vez disso, o meu coração.

Minha nossa, ok, isso ficou muito “louco apaixonado”.

Mas acredite, nesse momento eu não falo de amor.

O grito que soltei veio lá do fundo, quase rompendo minhas cordas vocais. Tão alto que o marido de Odette, que estava na esquina, voltando para casa, ouviu e foi correndo pensando que a esposa estava em perigo.

— Alec, Alec, se acalme! – Minha mãe me abraçava e eu vi Odete correr para pegar um pouco de água para mim.

— O que está acontecendo? – Alejandro entrou na casa como uma bomba, apesar de sua idade já mais avançada. Meu pai e tio conseguiram acalmá-lo, explicando a situação.

— Estou tentando tirar essa coisa da mão do pobrezinho, no entanto, parece ter criado uma raiz, talvez seja necessário amputar.

Até hoje não encontrei um contexto onde a palavra amputar seja algo bom de ouvir, por tanto o meu desespero foi grande. Senti a pedra aumentar sua temperatura como se fumegasse, mas não tive forças para abrir os olhos.

— Odette, não mecha nessa pedra! – O homem alertou. – Nos tempos do exército conheci um homem que falava sobre essas coisas, dizia ser um sombreado e acreditava na magia das sombras. Tenho quase certeza que ele falou alguma coisa sobre uma pedra preta que nem essa ai.

— O que devemos fazer então? – A voz da minha mãe era aflita.

— O homem contou sobre uma tal Academia das Sombras, pelo jeito é o único lugar que sabe o que fazer com isso.

Antes que Alejandro pudesse continuar, meu pai soltou uma exclamação apontando freneticamente para mim. Criei forças para virar a cabeça e por um momento pensei estar alucinando – o que seria bem possível se não fosse pela dor intensa. Minha mão estava desaparecendo lentamente. Literalmente desaparecendo.

Afobado tentei mexer o braço e estranhamente o movimento da minha mão desaparecida parecia o mesmo. Foi nesse momento que todos perceberam a minha sombra. Completa. Sem mão faltando. Respondendo perfeitamente aos meus comandos.

E eu desmaiei.

Depois disso só sei o que me contaram... Alejandro correu para o seu helicóptero e eu – ou a parte de mim que restava, já que eu continuava desaparecendo – fui levado para academia.

Só acordei quando já tinha virado completamente uma sombra. Fiquei três dias inteiros como uma sombra, era assustador e eu me sentia sozinho como nunca na vida. Lembro-me de ficar vagando pela academia, deixando todos desesperados. Minha mãe chorava sem parar, abraçada ao meu pai, e eu era obrigado a observar de longe, no outro plano, de jeito confuso e distorcido.

Droga, naquele momento tudo o que eu mais queria era correr para o colo da minha mãe e não sair nunca mais.

Se não fosse pela ajuda, eu definitivamente teria ficado completamente traumatizado pelo resto da minha vida, quando, aos poucos, voltei à forma humana. Por tanto, não acredito que o cara tenha conseguido passar cinco anos sem procurar por ajuda.

— Vou deixar você três para resolver algumas coisas. – O Grã-mestre me arranca de minhas memórias. – Alec, sei que está morando sozinho, mas vou pedir aos seus pais que venham te buscar. Você está acabado.

— Minha autoestima adora um elogio. – Faço piada, mas agradeço-o logo em seguida. O velhos nos deixa para encontrar um grupo de sombranos, também mais velhos. Ficamos os três observando ele se afastar, mas uma movimentação drástica da parte de Cora me faz encará-la.

Seus olhos brilham para a minha parte do cometa Corvus.

— É tão linda. – Murmura, se aproximando. – Eu já tinha visto em fotos, mas elas não fazem jus a essa perfeição.

Eu nunca tiro a luva para as pessoas não estranharem, já que tampando a mão, o meu braço parece apenas um braço tatuado como qualquer outro. Faço muita força para ignorar a mão dela sobre o meu braço, tentando admirar a pedra melhor. Felizmente, Oliver me pergunta como eu estou e eu posso me concentrar em alguma coisa.

— Não me sinto mais uma esponja do mar, se é isso que você quer saber. – Sorrio, mas continuo largado no sofá. – Essas máquinas de vocês são bem potentes, nem quando passo o dia inteira como uma sombra fico exausto como eu estou agora.

— Faz parte do nosso plano de dominação mundial. – Ele brinca. – Fui eu que fiz a atualização daquela. – Aponta orgulhosamente para uma máquina que eu não faço ideia do nome. – Usei aquela nova ferramenta que todo mundo está falando. A Academia fez uma parceria com a empresa e conseguimos antes de todo mundo.

Engato numa conversa com ele sobre os novos programas que estão lançando por aí. Não sei metade do que ele sabe, mas é fácil acompanhar o raciocínio dele quando se ouve mais devagar que o normal. Cora solta um comentário de vez em quando, mas na maior parte do tempo fica observando a pedra, quase hipnótica.

E eu fico observando-a. Não descaradamente, mas mesmo a conversa interessante de Oliver não me impede de visualizá-la de canto de olho.

É nessas olhadelas que a pego se aproximando da pedra, planejando tocá-la. No mesmo instante transformo minha mão em uma sombra, para impedir que ela cometa tal erro. A transformação súbita a faz levar a mão à boca e impedir um grito de susto.

— Você me assustou, seu idiota. – Ela bate no meu braço com a prancheta. Oliver e eu não aguentamos e damos gargalhada, o que a deixa emburrada. – Vocês são insuportáveis.

— Desculpe, o susto não foi intencional. – Apesar disso, não tiro sorriso do rosto. – Você não pode tocar, ela está quente como fogo. – Jogo um pouco de água sobre a mão que já voltou ao normal. A água evapora quase que instantaneamente. – Viu? Você ia ficar sem seus dedinhos. – Ela revira os olhos para forma como eu falo.

O relógio de Oliver apita e ele jogo a cabeça pra trás, numa reclamação.

— Lionel está me procurando. – Ele resmunga. – Aquele cara não me dá um minuto de paz. Faça isso pra mim, Oliver. Resolva aquilo para mim, Oliver. Busca aquilo para mim, Oliver. — Diz a última parte numa imitação barata do homem, arranco algumas risadas de nossa parte. – Adeus para vocês. Ah e não deixe essa sua cabeça de merda se esquecer de sexta, Alec. Você está me devendo uma pizza depois de ter perdido a última, cara.

Ele desliza sua cadeira de rodas pelo laboratório e podemos ouvir alguém ralhar com ele por causa de um pequeno atropelamento de pés.

— A gente aprendeu na marra que pessoas com poderes não deveriam se misturar com álcool. – Sorrio amarelo para ela.

— O que você fez?

— Nós dois ganhamos algumas bebidas grátis, dessas que você vai bebendo e não percebe o quão forte o álcool está batendo. Em algum momento eu decidi que seria muito divertido transformar algumas coisas em sombras. E aí eu as perdi. Oliver e eu passamos o dia seguinte olhando pela minha casa em busca de sombras sem donos. Descobri depois, ainda, que acabei transformando todas as flores da vizinha também.

— Ela sabe sobre o se poder?

— Não, mas veio bater na minha porta bem brava querendo saber se eu roubei suas flores. Depois que ela saiu, fui correndo lá trazer as flores de volta. Ela deveria me agradecer, na verdade, as plantas voltaram muito mais saudáveis. Não tivemos muita sorte com as pizzas, até hoje não encontrei. – Nós dois rimos e eu fico observando seu sorriso com muito gosto.

Ela é tão linda.

— Você disse que as plantas ficaram mais saudáveis? – Pergunta de repente, me fazendo encara-la. – Não me lembro de ter estudado isso.

— Ah, isso todos descobriram depois. É meio que uma falha, mas que pode ser usada a nosso favor. A sombra só é capaz de identificar a essência das coisas, tanto que elas não têm detalhes nenhum. Lembra um pouco uma máquina. Se você pegar uma máquina que lê apenas “X” e colocar um papel com “XY”, ela só vai compreender o X e deixar o Y passar como se nem existisse. As doenças ou erros são como o Y, as sombras não conseguem ler, então quando voltamos para a forma natural, voltamos sem o Y.

— Então se você se transformar em uma sombra com uma infecção intestinal, quando voltar vai estar curado?

— É isso. Apelidaram de poder de cura, apesar de ser uma falha.

— Mas você estava quase desmaiando agorinha.

— Isso é a culpa da pedra, às vezes ela precisa puxar a minha energia vital para se recuperar, então é um efeito colateral.

— Entendi. – Vejo seu olhar abaixar para sua prancheta e eu acho que ela vai começar a anotar tudo, mas seu olhar desvia de direção. Quer dizer, eu ainda apostaria cinquenta pratas que ela estava esperando eu sumir de vista para sair anotando um milhão de informações, como uma espiã dos serviços especiais. – Por que não... – Seus olhos param em Oliver e sua cadeira de rodas.

— Não, não posso. Não sou poderoso assim, nem se eu usasse toda a força do meteorito. Só consigo com seres inanimados. – Murmuro.

— Ah. – Vejo a decepção em seus olhos e isso aumenta a minha dor.

Uma vez tentei transformar um passarinho que caiu da árvore e estava quase morrendo, tentando salvá-lo. No final, só o fiz morrer de forma ainda mais dolorosa.

A cara de dor do passarinho vai ficar gravada para sempre na minha mente. Por isso, acredite em mim, estou fazendo um favor ao meu amigo ao não tentar nada.

Notas finais
Estão gstando?? Me contem aqui! Beijinhos S2