Notas iniciais
Estou de férias, por tanto acredito que consiguirei escrever mais vezes. Espero que gostem!!

Percorro a cidade em alta velocidade. O sol ainda não nasceu, já que são três da manhã, então as ruas estão iluminadas apenas pelas luzes amarelas dos postes.

Tudo parece meio melancólico a essa hora.

Quando tinha 17 anos eu costumava dirigir de madrugada com bastante frequência. Andar pelas ruas escuras era assustador quando eu estava a pé, sempre parecia que a qualquer momento um assassino louco viria e me esfaquearia pelas costas, ou talvez uma assombração decidisse que era o melhor momento de puxar meu pé. Por isso andar de carro a essa hora era tão incrível. O trás uma segurança enganadora confortável demais, eu sentia como se ninguém fosse capaz de me alcançar ali dentro.

Era como se eu estivesse invisível para todos os males. Era como ser um super-herói em uma época que eu era só um garoto qualquer.

Então, por várias madrugadas eu pegava o carro dos meus pais emprestado e dirigia pelas ruas quase vazias da cidade. Passando pela iluminação amarelada/alaranjada com a música alta no carro. As vezes só com o velho e bom amigo silêncio.

Faz tempo que não dirijo. Não sei por que. Acho que com tudo isso simplesmente não parece muito prático e, talvez, eu não tenha momentos suficientes de lazer para gastá-los sozinho.

Bem, acho que isso não importa muito agora.

Forço-me a me concentrar novamente no caminho até o pedido de ajuda.

Concentração definitivamente não é o meu forte. Sabe quando você está num dia daqueles e deseja com todas as forças que ele tenha 48h para que você consiga resolver toda a sua vida?

Pois bem, isso também significa mais tempo para o seu cérebro se afundar num poço de pensamentos.

— Não! Eu juro, não liguei para polícia! Não fui eu! Por favor, me deixe viver. Eu imploro!

Chego no endereço e observo a garota ajoelhada no asfalto, bem no meio da rua. Seus cabelos pretos estão bagunçados, os olhos marcados por olheiras profundas, os braços e pernas com manchas vermelhas, também consigo enxergar sangue seco na lateral da cabeça, como se tivesse sido arremessada de rosto no chão.

Além das lágrimas grossas que lhe escorrem o rosto, ela começa a soluçar e implorar por sua vida ao ver a arma que é perfeitamente mirada em sua direção.

Há um grupo grande envolta da garota, oito ou dez pessoas. Claramente uma gangue. As garotas do grupo apoiam os saltos nas costas da morena no asfalto, puxam seu cabelo e até cospem nela, gritando ofensas.

— Eu não fiz nada. Eu juro!

— Que isso, galera? Onde estão os modos? – Materializo-me de forma a parecer que só me aproximei como uma pessoal qualquer. Eles se viram e me encaram. Um cara com uma tatuagem horrível na bochecha, aparentemente o líder, dá uma risada e aponta a arma para mim.

— Quem é você, idiota?

— O Batman, ta passada? – Debocho. – Vamos lá, cara, deixa a garota em paz, ela já disse que não fez nada.

Eles gargalham.

— Ouviram isso? O garoto veio pedir doce, onde vocês acham que eu dou a bala, na mão ou no pé? – O líder sorri maniacamente, sendo acompanhando por um monte de opiniões. Encaro a garota no chão, ela está encolhida como se isso a fizesse ser invisível.

— Ah, pelo amor, todo mundo sabe que você não vai atirar de verdade. – Reviro os olhos e estendo a mão para ele, fazendo um sinal para que me dê logo sua arma. Ser desafiado na frente da gangue o deixa furioso e ele atira na minha mão.

Observo a bala deslizar no ar, posso muito bem só ir para o lado, mas meu reflexos sempre vão para o lado da sombra e minha mão logo some.

— Minha mão?! – Agarro o braço sem mão e o balanço desesperadamente no ar. – Ah, aqui está ela. – Ela volta ao normal e eu me viro para observar a bala cravada numa cerca atrás de mim. – É, parece que você vai precisar de melhorar a mira. Pena que na cadeia o tiro ao alvo está momentaneamente suspenso. Quem sabe o delegado não libera um tênis de mesa?

Todos estão em silêncio, olhando boquiabertos para minha mão.

— Que porra é essa? – Um deles murmura para o nada.

Resolvo parar de brincar, afinal, a garota pode estar precisando de ajuda médica urgente, porque o machucado em sua cabeça não parece nada bonito.

Transformo-me em sombra, o que os deixa ainda mais assustados, eles apontam as armas para mim novamente, mas todo mundo sabe que sombras não podem ser atingidas por balas. Vou para trás de dois dos problemáticos e, em minha forma normal, dou uma pancada na parte de trás de seus braços, o que os fazem deixar a arma cair. Imediatamente transformo as armas dele em sombras.

Vê-los tentar pegar as sombras é divertido, mas antes que eu me distraia vou até os outros. Um magrelo, de barba pintada e a blusa pendurada na lateral da calça, vem correndo até mim, pensando que por estar de costas eu não conseguiria vê-lo. Ele tenta me acertar com um bastão de beisebol, mas sou muito mais rápido e seguro o bastão, inclinando o braço do cara até ele cair no chão.

— Essa garota deve ter um pacto com o diabo, matem logo ela! – O líder da gangue grita e vejo uma das garotas apontar a arma. Largo o magrelo sem camisa no chão e disparo para pegar um dos latões de lixo enormes na calçada.

— Morre, vadia.

Felizmente, sou mais forte que o convencional e não tenho dificuldade de arrastar o caixão até a frente da morena quase desacordada. A bala atinge o metal com força, vejo-a ultrapassar a primeira barreira, mas nenhum buraco aparece no outro lado da lixeira.

Sempre carrego comigo um punhado de abraçadeiras – um tipo de lacre bastante resistente. Por tanto, depois de transformar todas as armas em sombras, vou prendendo cada um da gangue com as abraçadeiras, as mãos nas costas, de forma semelhante ao que os policiais fazem com algemas. No final, ainda encontro em uma rua próxima, uma corrente de metal bem forte e prendo todas as mãos na corrente, se um tentar levantar, os outros farão com que ele caia.

Quando tudo parece resolvido, vou até a morena no chão. Ela se encolhe com a aproximação e percebo que está fazendo uma oração.

— Agradeça mesmo ao seu Deus, porque eu sequer planejava sair esta noite. – Comento, me abaixando ao seu lado. Levanto o rosto dela e analiso o machucado, de perto ele não parece tão ruim. – Você está bem?

Ela ergue o olhar e me encara, mas estou de óculos de sol, logo ela não pode ver meus olhos. Não uso nenhum desses uniformes de quadrinho, mas coloco roupas pretas e compridas e uso óculos escuros – que não fazem diferença na hora de eu exergar. Isso ajuda a confundir a lembrança das pessoas, de forma que elas só lembrem de um borrão preto em forma humana.

— Ficarei. – Ela diz por fim, numa voz fraca. – Obrigada.

— Não sei o que você fez ou deixou de fazer, mas tente ficar longe dessas pessoas, a vida é curta demais para você desperdiçar dessa forma. — Luzes vermelhas e azuis se aproximam, com um barulho alto de sirene. – A policia está chegando, eles vão te ajudar a partir de agora.

Levanto novamente, vou até as sombras de armas e transformo-as novamente em objetos reais, tiro todas as munições e faço uma pilha das armas, bem longe do grupo atordoado e acorrentando em circulo.

Quando a policia desponta na rua, eu desapareço. Não quero me envolver nas questões judiciais.

☺☹

Um novo super-herói nas ruas?

Droga, droga, droga.

— O que isso significa? – Todos me encaram com um olhar que mistura cansaço e irritação.

Continuo encarando a chamada do jornal em silêncio por um longo tempo, até que finalmente suspiro e mudo meu olhar para as pessoas que me rodeiam.

— Não vou pedir desculpas por isso, aquela garota ia morrer. Eu vi aqueles idiotas apontarem a arma para ela e, acredite em mim, ele não estava blefando sobre atirar. A polícia ia encontrar apenas uma cena de assassinato.

— Não estamos em uma história em quadrinhos, Alec. – O Grã-mestre suspira, ele tira os óculos e o limpa na camisa.

— Exato, senhor, e aquela garota tem uma vida de verdade.

“Era bizarro, moça, aquilo só podia ser um demônio.” Um áudio surge de repente e todos nós encaramos a grande tela, lá um dos idiotas da madrugada murmurava aterrorizado em frente a um microfone.

— Opa, opa, desculpa, esbarrei sem querer. – Oliver tira seu teclado personalizado da cadeira de rodas e o coloca sobre a mesa como se estivesse envenenado.

Observo a tela que agora mostra o rosto da garota que salvei, ela esta enfaixada e com olheiras profundas, mas parece bem melhor que a noite anterior. O fundo atrás dela é um hospital.

— Espera, pode dar play, por favor Oli? – Ele me encara, dá de ombros e se estica para alcançar o teclado na mesa.

“Como ele era? Consegue lembrar?” a repórter pergunta à garota. Essa, por sua vez, hesita e depois balança a cabeça negativamente.

“Parecia uma pessoa normal, mas ele estava todo de preto e óculos escuro. Não consegui ver nenhuma característica específica. E... ele de repente desaparecia e reaparecia como se fosse uma sombra na escuridão. Não tenho ideia do que, ou quem, ele era, mas sei que se não tivesse aparecido, provavelmente eu não estaria aqui falando com você.”

“Encontramos inúmeros outros relatos de salvamentos similares, mas nenhum dos entrevistados conseguiu nos fornecer uma imagem clara de como é o nosso super-herói misterioso.”

— Viram? Posso andar na rua como o zé-ninguém de sempre. Não adianta me pedir para parar, senhor, porque eu não vou. Sei que os sombranos acreditam fielmente que a pedra já tem um objetivo e respeito muito, até estou começando a entender melhor tudo isso. Entretanto, enquanto eu tiver com a posse da pedra, farei o possível para salvar aqueles que eu conseguir. É o mínimo.

Todos ficam em silêncio. Encaro o meu amigo e ele faz um gesto de incentivo. Não falo nada sobre o aplicativo que ele criou, não queremos correr o risco dos outros sombranos nos obrigar a apaga-lo.

— Tudo bem, Alec, faça como quiser, mas tenha cuidado. – Suspiro aliviado com a fala do Grã-mestre. – Vamos te ajudar, desde que prometa não se expor e tomar o máximo de cuidado possível. Não podemos correr o risco que saibam quem é você.

Minha garganta se fecha, quero dizer a ele que a única pessoa que não deveria realmente saber, já sabe.

Na verdade, não só sabe, como me persegue e vigia aqueles que amo.

— Prometo. – Sorrio. – Obrigado.

— Talvez essa pedra tenha feito uma escolha muito melhor que possamos imaginar. – Ele murmura, colocando a mão no meu ombro e balançando a cabeça. Então, o Grã-mestre nos deixa, junto de outros diretores, para a outra sala.

Olho para Oliver e ele faz um sinal dizendo que vai para o outro lado da área de treinamento fazer atualizações no aplicativo.

Com a saída de todos, ficamos apenas Cora e eu. Ela passou todo o tempo em silêncio e eu, evitando seu olhar para não deixar muito na cara os meus sentimentos por ela.

Sem opção, a olho.

Há algo de diferente em seu olhar, parece mais brilhante, quase como se demonstrasse muito orgulho. Surpreendentemente, ela me mostra um sorriso encantador que faz meu coração parar.

Droga, como ela pode ter tanto efeito sobre mim?

— Eu hum... – Tento falar alguma coisa, mas ela faz algo ainda mais chocante: coloca sua prancheta de lado e me abraça com força. Cora não fala nada, mas continua me abraçando com afinco. Depois do choque inicial, também retribuo o aperto e aproveito para sentir seu perfume inebriante.

Sinto-me como se fosse transportado para um enorme campo florido e ensolarado, cheio de borboletas para todos os lados. O abraço faz minha mente deitar na grama verde no meio das flores e ser embalada pelo calor do sol numa manhã fresca.

Não quero me separar, mas ela retira os braços de mim e se afasta um pouco envergonhada. Pega sua tão inseparável prancheta e ajeita seu jaleco. Vira-se para o outro lado como se quisesse evitar contado visual.

— Desculpa, é só que... na minha cabeça você seria um babaca que só usaria o dom que recebeu para as trivialidades do dia a dia. Pela primeira vez, estou muito feliz por estar muito errada.

— Eu hum... – É incrível como eu perco a capacidade de dizer qualquer coisa inteligente quando estou com ela.

— Eu sei do aplicativo do Oli, mas não falei nada. Quero ajudar vocês. – Ela sussurra como se fosse uma criança contando de uma travessura.

Notas finais
Comentem, isso me ajuda um montão! Até o próximo cap, beijinhos S2