Herói Anônimo

8 Jornada de busca parte 3 - Terra dos Mortos


Notas iniciais
Desculpem a demora! Tá tudo super corrido e vou ficar devendo quanto aos prazos de postagem que pensei, mas em algum momento vai sair, isso é garantido hahaha

Capítulo 8

*Narrativa*

A chuva caía serena sobre Nova York, mas o tempo quase parecia parar no Central Park, Ernest jurava que as gotas de chuva pareciam estar suspensas no ar, mas claro, era só impressão. Com os olhos fechados por alguns segundos, o filho de Atena relaxou o corpo que, embora apoiado na árvore, já estava em pé, pronto para agir e, ao abrir os olhos, mais uma vez tudo parecia estar em alta definição, detalhes que os olhos humanos não conseguiriam ver normalmente estavam expostos, até óbvios para o rapaz: Um morcego voando alguns metros mais a frente, as gotas de chuva que caíam e se desfaziam em um show de formas e tamanhos, as evidências dos espíritos da natureza em cada flor e árvore, mas não era nada disso que ele buscava, portanto, em pouco tempo o garoto já rodava, encharcado, por entre as árvores do parque.

— Tem alguma ideia de onde está a entrada? – Falou em voz alta, quase que para si mesmo, mas foi outra voz que respondeu, fria como pedra:

— Vai andando, se eu perceber algo te indico.

E foi isso que Ernest fez, até que, após uns 10 minutos de caminhada incessante, avistou um vapor negro subindo do chão, próximo à uma rocha. Ao aproximar-se, reparou que não era exatamente do chão que o vapor saía, mas sim de riscos muito finos, impossíveis de serem vistos à olho nu, como se fossem fendas gravadas no chão.

— Certo – O rapaz tirou a gaita do bolso – Vamos lá.

Lentamente, o rapaz soprou as notas, produzindo uma melodia quase que melancólica, lenta, mas ainda assim, bela. Seguiu tocando por um tempo que poderiam ter sido segundos, horas, dias, o garoto não sabia dizer, sempre que se envolvia com música o tempo parecia perder o fluxo, ficar indefinido, isso o impulsionava a continuar tocando e foi o que fez, prosseguiu com a música até ouvir um ruído que mais parecia a voz de Cronos: Pedra raspando em pedra, o chão tremia e uma escadaria com entrada apertada havia surgido em sua frente, exatamente onde havia visto o vapor sair das fendas.

Ernest respirou fundo, desembainhou a faca de bronze e começou a descer pelas escadas, a lâmina iluminando suavemente o caminho, embora tudo ainda estivesse bem nítido para os olhos espelhados do rapaz. Depois de percorrer um caminho que pareceu durar éons, finalmente o garoto se viu próximo à um rio que parecia borbulhar, como se feito de ácido: A lembrança de seu braço ardendo veio à mente do rapaz, que simplesmente chacoalhou a cabeça para espantar tais pensamento e, após piscar, sua visão tinha voltado ao normal. Estranhamente, ao dar o próximo passo em direção ao reino de Hades, uma grande dor de cabeça surpreendeu o rapaz, forte o suficiente para provocar uma leve vertigem, como se estivesse mexendo com um ferro atrás de seus olhos. Foi o suficiente para o rapaz se sentar e, em seguida deitar de barriga para cima, as pernas flexionadas e as mãos sobre os olhos.

— Grandes poderes, grandes preços – O rei dos titãs falou – Não é comum mortais terem olhos assim, como eu já lhe disse, mas ver as coisas desse modo... Um poder assim não vem sem custos.

— Eu não pedi para ter isso, nem sei o que é exatamente – O rapaz se levantava lentamente, a dor diminuiu, mas parecia que um carro havia passado sobre ele, estacionado por meio dia e depois partido cantando os pneus, seu corpo estava pesado e cansado como nunca havia ficado antes, mas continuou o caminho aos tropeços, parando só quando de fato tropeçou e caiu em cima de alguns espíritos que esperavam na eterna fila para o julgamento.

— Beleza, desculpem – O rapaz dizia aos espíritos que se recompunham na fila, murmurando – Para onde agora?

— Bom, se você for rápido, dá para passar correndo pelo Cérbero.

— Oi? – O rapaz parecia incrédulo.

— Não achou que ia entrar assim, tão facilmente e que não precisaria passar pelo guardião, não é? – O titã parecia estar se divertindo.

— Na verdade... – O rapaz olhava para o enorme cão de três cabeças, esperando que não tivesse três estômagos – Nada não.

As opções pareciam não estarem muito boas, Ernest estava cansado, com dores nos olhos e sem energia nenhuma para lutar de imediato, mas não seria sensato ficar esperando dentro do mundo dos mortos, por isso seguiu de fininho para mais perto dos portões, esperando não ser farejado de imediato.

“Droga de missão, estou literalmente no inferno, sem energia e, sem esquecer, claro, de novo, no inferno” – O rapaz parou abruptamente quando uma das cabeças do guardião virou em sua direção, grunhindo para um punhado de espíritos que se aglomeravam e travam a fila perto da porta – “Mau dia, mau dia, mau dia! ”.

Em uma bocada só, o cão dissipou várias almas, deixando uma das portas à direita com a proteção falha, foi o suficiente para um pensamento rápido de Ernest vir à tona: O rapaz se jogou na direção da porta e tentou se arrastar através dela, infelizmente não foi tão rápido, o cão percebeu a movimentação estranha e tentou abocanhar o invasor, arranhando a perna esquerda do garoto, de forma a fazê-lo urrar de dor e arrastar-se ainda mais rápido para tentar cruzar o portal, só parando quando constatou que o cão não o alcançaria mais.

— Merda, que raio de cachorro – Ernest falava, ofegando – Alguma recomendação, senhor sabe tudo?

— Ei, você que tinha que se virar, eu sou só uma voz na sua cabeça.

— Babaca – O rapaz analisava o tornozelo: A barra da calça parecia destruída e um corte profundo, com vários cortes menores e esfolados em volta estava na parte de fora da perna esquerda, subindo até a altura da panturrilha. Após comer um quadradinho de ambrosia, retirou a jaqueta e em seguida a camiseta, molhou a última com néctar e amarrou de forma a cobrir o corte, enquanto o néctar ajudava a curar os ferimentos um pouco mais rápido – Vou precisar esperar isso melhorar um pouco, senão vou morrer só por perda de sangue.

Ernest se arrastou até próximo de uma rocha para não ficar em campo aberto, encostando as costas na mesma e observando o caminho que teria que percorrer: Os três campos se projetavam à sua frente, sendo eles os de Asfodelos, de Punição e Elíseos. Entre os Elíseos que ficavam ao longe e os Campos de Punição, estava um grande castelo negro, parecia irradiar o próprio medo, terror, exalava a sensação de morte. Por mais que tivesse a curiosidade de tentar ver mais a fundo, o garoto não se atrevia e tentar enxergar além da própria visão nesse momento.

— Pronto? Temos que ir logo, ou as fúrias vão te farejar – A voz do titã ecoou na cabeça do semideus – E isso não vai ser agradável.

O filho de Atena deu uma olhada no corte sob a camiseta que estava enrolada em sua perna, aparentemente o sangramento havia cessado e alguns cortes menores já estavam cicatrizados, embora o néctar continuasse trabalhando sobre a ferida, não devia curar um corte tão profundo em uma velocidade muito maior.

— Acho que está bom o suficiente, vou seguir em frente, para os Asfodelos.

O rapaz fechou a jaqueta sobre a pele nua, afinal a camiseta agora estava cumprindo o papel de curativo, sentiu as partes metálicas do zíper e do couro gelarem ao tocarem a superfície úmida de suor, era um contraste estranho com o ambiente quente. Seguiu andando lentamente em meio aos espíritos que rodavam pelos campos, tentando não esbarrar em nenhum, ouvindo somente os lamentos e murmúrios que pareciam se estender por todo o Mundo Inferior, a ferida na perna queimava a cada passo, mas a dor lancinante parecia diminuir levemente conforme o tempo passava, porém, o corte latejava de forma a atrapalhar a concentração normal do semideus.

Após uns bons minutos de caminhada, o garoto chegou aos limites dos Campos de Asfodelos, tendo à sua frente agora os Campos de Punição, apoiou-se em um muro de pedras brancas polidas, para tirar o peso do corpo de cima da pena machucada.

— Se eu sair vivo daqui – Refletiu o rapaz – Vou fazer um kit médico para a próxima missão – Terminou a frase já pronto para pular o muro, que se erguia apenas até a altura de seu abdômen, mas segurou o impulso por um segundo ao ouvir barulho de asas: Uma fúria descia sobre os um dos espíritos condenados ao sofrimento eterno.

— Vamos nos divertir mais um dia Sísifo? – Gargalhou o monstro ao puxar o pé do condenado, fazendo-o cair e deixando a pedra que carregava rolar sobre seu corpo – Parece que faço isso há uma eternidade, mas nunca deixa de ser divertido.

— Me deixe em paz – O espírito resmungava, quase em um choro – Eu já aprendi minha lição, mas mesmo assim estou aqui... E você vem piorar ainda mais meu castigo, pobre de mim!

A fúria gargalhou mais ainda, levantando voo e indo para o próximo prisioneiro, um pouco mais distante de onde estava Ernest. Essa foi a deixa para o garoto, com um pequeno e doloroso impulso pulou o muro e desceu furtivamente até onde estava Sísifo, passando reto pelo espírito enquanto este empurrava sua pedra morro acima mais uma vez, seguindo da mesma maneira até chegar aos limites dos Campos de Punição.

*Comentários do Registro*

— Não vou comentar sobre as torturas que vi lá, eram horríveis demais. Gostaria só de dizer que não sei exatamente como andei tanto com a perna machucada, parece um milagre até hoje, ainda tenho a cicatriz que vai do tornozelo até a panturrilha.

*Narrativa*

Finalmente o filho de Atena chegou aos portões do castelo de Hades, entalhado com diversas cenas de guerra, morte, fome e miséria, uma beleza, é claro. Vagarosamente o semideus adentrou o terreno, passando pelo jardim de Perséfone e entrando pelas enormes portas entreabertas, tudo isso para dar de cara com guardas esqueleto armados com rifles.

— Caralho, eu tenho uma sorte do caralho mesmo – Foi tudo o que conseguiu pensar para dizer ao ter dois rifles em sua cabeça.

— Muito bem, vamos ver o que temos aqui – Uma voz profunda ressoou em todo o salão de entrada, os esqueletos quase que bateram continência – Achou que poderia entrar e sair sem ser percebido, heróizinho?

Logo o Senhor dos Mortos estava em frente ao rapaz, o suor agora escorria em litros pelo corpo todo do semideus, como se fosse queimar espontaneamente dentro de poucos instantes, mas mesmo assim, para não perder a pose, o garoto respondeu:

— Bom, precisava tentar para descobrir, não é?

Hades apenas lhe dirigiu um sorriso cruel, mas Ernest não quebrou o contato visual.

— Eu sei quem você é, semideus, mais do que você mesmo sabe. Venha comigo.

O deus caminhou ao longo do castelo, seguido pelo garoto sob a mira de dois fuzis, como se fosse a forma mais natural do mundo de se receber visitas inesperadas, parando somente ao entrar em uma sala menor e sentar-se um poltrona.

— Melhor assim – O Senhor dos Mortos acenou com uma das mãos – Deixe ele comigo, saiam.

Os guardas abaixaram os fuzis, deram meia volta e se retiraram do recinto, a porta se fechou quando eles passaram, de forma a deixar Ernest a sós com o deus, que fez um gesto para que ele se sentasse em uma poltrona próxima. Para não parecer mal-educado, o garoto sentou-se e resolveu ver o que se seguiria, afinal não fora desarmado, amarrado nem nada do tipo.

— Certo garoto, comece a falar, por que está aqui? – Um brilho nos olhos do deus pareceu esfriar a sala – Eu quero ouvir de sua própria boca, para ver se é um mentiroso.

— Senhor Hades – O semideus tentou ser o mais cuidadoso possível ao escolher suas palavras – Vim procurar por seu filho Nico, não pretendo leva-lo de volta ao acampamento se ele ou se o senhor não quiser, mas gostaria de conversar um pouco com ele e garantir que ficará em segurança, sem passar para o lado dos titãs, afinal ele pode ser a criança da profecia, certo?

— Gosto de como fala, criança, suas palavras parecem sinceras e... – Mais uma vez os olhos do deus brilharam – Você tem trevas tão grandes quanto as dos meus filhos dentro de você. Isso me agrada também – O deus se reclinou para frente – Pena que você morrerá.

— Oi? – O sangue do rapaz gelou, ao mesmo tempo, a fisionomia do deus também, não parecia confortável ou presunçoso, mas sim assustado – Morrerei?

O deus esticou a mão e tocou no braço direito de Ernest, que parecia ter sido mergulhado em ácido mais uma vez – A marca de Aquiles, um selamento feito com sangue – Todas as palavras e desenhos pintados há anos atrás apareceram no braço do filho de Atena, negras como tatuagens novas, parecia emanar um poder diferente do que o rapaz sentia normalmente.

— Entendi, você está convivendo com ele... Você o controla, não é mesmo?

— É mais como se eu o aturasse.

— Não o matarei, pode ser que seja útil para mim, criança, mais que meu jovem e amargurado filho – O deus estalou os dedos e o castelo, assim como ele próprio sumiram, deixando o rapaz sozinho, no meio do caminho para os Elíseos, onde ele podia avistar uma pequena figura vestida de preto junto à uma aura brilhante, duas formas contrastantes. De alguma forma, o garoto sabia que tinha chegado à seu destino, que as duas formas eram os dois irmãos, um vivo, mas morto por dentro, a outra morta, mas com a alma mais viva que a do irmão: Nico e Bianca di Ângelo.

Notas finais
Só mais um! A jornada de busca está chegando ao fim!