Herói Anônimo

9 Jornada de busca parte 4 (final) - Juramentos


Notas iniciais
Desculpem a demora, alguns imprevistos surgiram e mesmo com o capítulo pronto não consegui postar... Mas agora vai! Aproveitem!

Capítulo 9

*Narrativa*

O filho de Atena avançou lentamente em direção aos dois irmãos, dessa vez não estando preocupado em evitar campo aberto ou evitar ser visto, apenas avançou com cuidado para que não fugissem. Ao se aproximar suficientemente, pode ver a face luminosa de Bianca, enquanto o irmão estava de costas, a garota olhou por cima do ombro do irmão e franziu a testa, gesto seguido por um sorriso doce, como se o encorajasse a chegar mais perto.

— Ahn, desculpem interromper – Ernest se pronunciou, um pouco sem jeito – Mas acho que faria isso de qualquer jeito.

Nico se virou em um pulo, olhos arregalados ao ver um desconhecido simplesmente invadindo o território dos Elíseos, as mãos se fecharam e os braços se levantaram, como se fosse entrar em uma briga desengonçada:

— Quem é você? O que está fazendo aqui? – Esganiçou o garoto, parecia ainda estar tomado pela surpresa de ver o rapaz parado em sua frente, sem reação.

— Sou Ernest, vim te procurar Nico.

— É do acampamento, não é? Não vou voltar para lá, vocês deixaram minha irmã morrer!

O olhar do semideus mais velho se desviou para encontrar o de Bianca, em seguida o rapaz baixou os ombros e respirou fundo.

— Não tive tempo de te conhecer Bianca, nos falamos só naquela noite... Mas sinto muito, não pude acompanhar vocês antes de acontecer tudo o que aconteceu – O pesar caiu sobre o garoto de Atena, as palavras foram sinceras, ele realmente não queria que a menina estivesse lá, daquele jeito,

— Eu escolhi morrer como uma heroína, como uma caçadora, não se culpe – A garota sorria suavemente, como se nada importasse, parecia feliz, em paz – Não é culpa de ninguém.

Ernest assentiu, retornando seu olhar ao filho de Hades:

— O negócio é o seguinte, eu não vim te levar para o acampamento, mas também não posso te deixar solto como bem entender.

— Então veio me matar?

— Não, vim ver se estava bem, garantir que não vai entrar para o lado inimigo, é perigoso demais.

— Não quero saber de ninguém, vou ficar aqui.

— Isso me conforta, mas não me convence – O garoto se apoiou no pé esquerdo, sentindo um desconforto onde a camiseta estava amarrada, graças ao corte – Que podemos fazer?

— Não é problema meu! – Nico agora já parecia irritado – Vá embora!

— É exatamente problema seu, suas ações, consequências para todos, acostume-se!

— Não posso fazer nada, só posso te dizer que não tenho interesse nos titãs, é sobre isso que está falando, certo? O outro lado.

Um choque pareceu percorrer o corpo de Ernest, aquilo era tão simples, tão genial que até havia se esquecido. Um sorriso de canto surgiu em seu rosto.

— Jure pelo Estige.

— O que? – O garoto pareceu paralisar, como se as palavras tivessem o mesmo efeito de olhar nos olhos da Medusa.

“Isso foi inteligente” – O titã elogiou, sua voz áspera ecoando incomodamente na cabeça do semideus – “Também garante que será cumprido”.

— Você me ouviu Nico – O filho de Atena sentiu que estava com a vantagem – Não precisa fazer nada, apenas o juramento, aí vou embora.

O garoto olhou para sua irmã e hesitou, parecia algo sensato, mas ainda era um juramento perigoso. Com um suspiro e a voz trêmula, o filho de Hades soltou um fiapo de voz dizendo:

— Certo... E... Eu juro... Eu juro pelo Estige.

— Jura o que?

— Não passar para o lado dos titãs.

Um tremor, como se fosse um trovão ecoou, balançando todo o mundo dos mortos, Ernest sorriu e, acenando brevemente se virou para ir embora.

*Comentários do registro*

— Infelizmente eu estava feliz demais com o juramento, devia ter prestado mais atenção ao ambiente.

*Narrativa*

O semideus simplesmente desabou no chão ao virar e bater em algo sólido e gigantesco, Ernest levantou os olhos, dando de cara com Hades mais uma vez, que sorria cruel.

— Você é insolente rapaz, deixei você andar em meu território livremente, te coloquei em frente ao meu filho para uma conversa e ainda assim, você o obrigou a fazer um juramento mortal como esse – Os olhos do deus brilhavam mortais, sua túnica negra parecia gritar, como se rostos brotassem nela apenas para estampar o desespero que sentiam.

— Com todo o respeito senhor Hades, não obriguei nada, apenas pedi – O rapaz já não parecia ligar para o que estava falando – De qualquer modo, é um juramento benéfico para você, vai garantir que o menino não se vire contra os deuses.

Uma sombra de dúvida pareceu surgir no rosto do deus, que franziu o cenho.

— Interessante – O brilho cruel em seus olhos voltou a aparecer – Tive uma ideia.

O deus acenou, o ar ondulou e seu elmo das trevas apareceu em torno de sua cabeça, sendo seguido por uma espada negra nas mãos de Hades.

— Uma pequena disputa, me acerte antes de morrer e te deixarei ir embora – O deus agitou a mão esquerda, que não segurava a espada, fazendo uma chave aparecer – Te deixarei ir diretamente para seu precioso acampamento.

O garoto avaliou a situação: Os filhos do deus haviam sumido sem que ele percebesse, estava com a perna ferida e em processo de recuperação, sua única arma era uma faca de bronze. Por outro lado, o adversário era um deus com um elmo que permitia com que o usuário desaparecesse e causasse terror, somado à uma espada negra de uma mão, longa o suficiente para mata-lo a distância. Parecia uma luta justa.

— Tenho opção? – Arriscou perguntar para o deus, que apenas sorriu antes de desaparecer nas trevas do elmo.

“Ótimo” – O garoto puxou a faca, mantendo-a na altura no estômago, segura com as duas mãos, os joelhos flexionados e prontos para se movimentar – “Alguma ideia? “.

“Boa sorte” – O titã parecia animado.

Ernest fechou os olhos, mesmo com aquela sensação de terror e calafrios subindo por sua espinha, obrigou-se a procurar por sinais do deus, não podia vê-lo, mas tinha que ter alguma falha na magia daquele elmo. Minutos passaram-se em silêncio, parecia que o senhor dos mortos apenas queria vê-lo enlouquecer e, se esse era o plano, teria que ser revisto, afinal o rapaz já convivia com um titã psicopata e pirado 24h por dia.

“Isso está um tédio” – Cronos falou, exalando tédio – “Quero ver uma boa luta”.

O garoto também pareceu se cansar de esperar a boa vontade do deus em mata-lo, tendo uma ideia, pulou em direção aos Elíseos, saindo da estrada de pedra cinza e caindo em cima da grama verde, rolando e sentido a perna doer mais e mais com o esforço de levantar rapidamente.

— Venha, se quer me enlouquecer com esse latão das trevas vai precisar fazer mais que isso!

A atmosfera pareceu se alterar, as cores dos Elíseos pareceram diminuir, a grama pareceu ondular mais em um ponto específico à direita do filho de Atena, o que o fez decidir por se atirar para a esquerda, vendo apenas um grande talho de abrir no chão onde momentos antes estava o rapaz. O plano parecia estar funcionando bem, a grama se alterava quando o deus pisava sem tanto cuidado, o único problema era que talvez esse erro não fosse cometido mais uma vez.

Quase que como uma previsão, o rapaz sentiu uma dor aguda na altura das costelas, no lado esquerdo do corpo, fazendo sua visão turvar e o rapaz se encolher, quase que ajoelhando ao agarrar a região: Um corte profundo jorrava sangue. Ernest golpeou o ar aleatoriamente, tentando manter o deus afastado enquanto pensava em um plano, mas o raciocínio lógico tinha dado lugar ao desespero e ao instinto de sobrevivência, nada vinha à mente do rapaz, apenas a dor do corte que sangrava, sendo seguida por uma nova dor, na região no bíceps direito: O novo corte ia do cotovelo até perto do meio do antebraço. O garoto que havia aguentado calado até o momento, finalmente soltou um berro, estava agarrando os cortes abertos como podia, a jaqueta de couro destruída.

Nesse momento o tudo pareceu congelar para Ernest, o tempo tornou-se denso e teve uma visão estranha: Estava em pé em algum lugar inteiramente negro, não havia chão, paredes nem nada, apenas escuridão e, na sua frente, uma imagem de si mesmo, porém estava com as tatuagens de sangue à mostra, elas subiam por seu braço até o pescoço e parte do rosto, o olho direito estava dourado e o esquerdo espelhado. A versão tatuada do menino abriu a boca e falou:

— Posso te ajudar.

A voz saiu como se raspassem uma faca em pedra, a voz de Cronos.

— Como? Estou acabado, você mesmo pode ver – O rapaz falou calmamente.

— Posso te ceder minha energia, um pouco do meu poder, afinal, estamos no mesmo corpo.

— E vai me ajudar assim, de graça?

— Ah não, é claro que não, cobrarei quando achar conveniente.

— Sem chance.

— O enterro é seu... – O titã sorriu – Talvez um acordo melhor então: Eu te empresto minha energia quando você quiser, mas você terá que ir falar com Luke depois, apresentar-se e deixar eu falar também.

O rapaz pensou um pouco, se o acordo for apenas uma conversa, poderia ser arranjado, ele poderia controlar uma conversa.

— Certo, acho que posso lidar com isso.

— Jure pelo Estige.

— Eu juro – Um trovão pareceu sacudir a visão.

O olho dourado de Cronos versão Ernest brilhou intensamente, ao mesmo tempo o garoto sentiu o braço queimar, a sensação se espalhou até o lado direito da sua face, na altura da bochecha, ao mesmo tempo, a dor nas costelas e no corte que estava no mesmo braço das tatuagens pareceu diminuir: O rapaz só teve tempo de abrir os olhos e ver uma coluna de fumaça negra à sua frente, fazendo com que, por reflexo, o garoto rolasse para a direita, vendo uma nova fenda se abrir no chão onde eles estava.

Não houve tempo para pensar muito, a coluna se dirigiu até onde ele estava, parecia não estar preocupado com possíveis ataques, mas foi aí que o filho de Atena percebeu sua vantagem, golpeando a coluna de fumaça na altura que equivaleria ao estômago de uma pessoa normal: O resultado foi que a coluna parou e sumiu, dando lugar à um Hades irritado que apertava a barriga, empapada por ícor dourado.

— Isso não é possível.

O rapaz olhou nos olhos do deus e, nesse momento, o senhor dos mortos pareceu compreender o que havia acontecido – Ajuda, não é? Obrigado papai!

— Deixe-me ir, devo voltar para o acampamento.

O deus acenou com a chave e, com uma careta, fez um portal surgir, mostrando a colina meio-sangue. O deus desapareceu logo após esse ato, deixando o garoto sozinho, só lhe restou atravessar o portal.

*Comentários do registro*

— Cara, isso foi insano, inclusive foi um dos motivos de me apagarem dos registros, mas é assunto para mais pra frente, claro.

*Narrativa*

Ernest caminhou até o pinheiro de Thalia, cruzando a barreira mágica e, logo em seguida, sentindo as tatuagens queimarem mais uma vez e desaparecerem, sentiu-se tonto e simplesmente caiu na grama, sentiu os cortes voltando a doer e o sangue voltar a escorrer deles, na verdade nem havia percebido que haviam parado de sangrar. Com um último esforço, o garoto virou o corpo para olhar para o céu: Era início da manhã, as nuvens refletiam as luzes róseas do sol que nascia, era um bom modo de morrer. Em poucos segundos a visão do garoto se tornou turva e escureceu, o rapa tinha quase certeza que ouviu um grito de uma garota, mas não parecia fazer parte de sua realidade, muito menos os passos abafados que pareceram parar junto aos seus ouvidos, momentos antes que perdesse a consciência.

Notas finais
A busca por Nico acabou, mas ainda tem história por vir antes de chegarmos em "A Batalha do Labirinto", aguardem! Em breve conseguirei postar com a frequência pretendida.