Herói

7 VII - Distância


Notas iniciais
Penúltimo capítulo!! E esse foi um dois mais complicados pra escrever - mas o último foi pior, eu asseguro. =D

Às vezes, a parte mais complicada da nossa vida é a própria vida. O ato de respirar e deixar o coração bater, de viver, é simplesmente a coisa mais difícil que nós podemos imaginar fazer. É um ato de coragem escolher continuar vivendo cada dia, querer fazer parte do mundo por mais tempo, não desistir dessa existência que nos faz cair ao chão, nos faz se arrastar para conseguir chegar a mais um dia.

Ver o sol nascendo mais uma vez é um mantra que ninguém canta, mas todos secretamente o desejam com tudo que tem dentro de si, com todas as forças.

Nem que seja inconscientemente.

Mas mesmo que viver a vida seja assim tão complexo, existe uma maneira de transformar essas dificuldades em algo superável, algo possível de se sobreviver.

Existe uma solução para isso.

Pessoas que nós amamos.

Essa é a solução.

Tudo fica mais fácil quando temos uma força ao nosso lado, alguém que possa segurar a nossa mão e nos ajudar a caminhar em meio à tempestade. Ter alguma coisa que nos permita seguir em frente na fé, ter alguma coisa que nos dê motivos para continuar — e que continue nos dando motivos por um longo tempo.

Ter uma pessoa ao nosso lado faz tudo ficar mais fácil de suportar. Ter alguém pra fazer você sentir seu coração bater mais forte, pra ter grudado na gente, ao alcance da mão. Perto o bastante para você poder beijar essa pessoa na hora que quiser, poder colocar seus braços em volta dela, poder sentir o cheiro e ouvir a voz.

Ter alguém que, mesmo distante, possa nos fazer sorrir, nos fazer completos.

Nos fazer feliz.

É estranho a gente se sentir assim tão dependente de alguém, precisar de uma pessoa que nos ancore ao mundo e permita que nossa vida seja possível de se viver. Eu acho estranho porque nós deveríamos ser capazes de viver sozinhos — mas no fim das contas a gente sempre acaba por depender de alguém, mesmo que involuntariamente.

E é bom.

Pelo menos eu acho que é bom — pra mim é a diferença entre viver e sobreviver. O primeiro é aproveitar plenamente tudo que temos direito, ser felizes com o que nos faz feliz. O segundo é se arrastar pelos dias apenas na esperança de não desaparecer num piscar de olhos.

E viver com alguém, mesmo que seja na distância que nos separa, a gente acaba por sentir a diferença, sentir falta quando essa pessoa não está do nosso lado para nos ajudar, para nos guiar para algum lugar, conectadas a nós.

Para fazer nossa vida alguma coisa melhor.

No entanto existem distâncias entre nós e essas pessoas, que nem sempre podem ser percorridas assim tão facilmente. Existem lugares tão longe de nós em que não conseguimos mais alcançar elas e elas não conseguem mais nos ver e ouvir, lugares onde não importa o quanto você grite e o quanto implore — a distância põe muros no meio do caminho e não há nada a fazer.

E essa é a parte mais complicada de se superar quando nós dependemos de alguém, isso se é possível fazê-lo. A distância entre nós e esse alguém funciona como uma realidade alternativa que nos tira o fôlego nos cansa, nos deixa sem chão, nos arrasta para trás e para baixo. Nos deixa sem rumo.

Não ter essa pessoa por perto é difícil. Mas o pior é ter ela por perto, ter ela ao alcance da mão, mas ela estar longe de nós, do outro lado de um mundo. Tem vezes que nós temos essa pessoa importante do nosso lado, mas ela parece estar a quilômetros de distância, você pode ver e tocar ela pode sentir ela ao seu redor — mas ela não pode.

E ela não quer.

Às vezes eu me sinto assim — às vezes eu sinto que sou essa pessoa que não pode sentir nada.

Tem vezes que eu penso no meu pai, vivendo sua vida corrida de Xerife, rezando para que consiga chegar vivo em casa e também pedindo proteção pra única família que ainda tem nessa vida, pensando nas pessoas que ainda fazem parte da vida dele, querendo que elas estejam ao alcance da mão dele.

Eu penso no Scott, sem conseguir controlar as próprias capacidades e sentindo medo de machucar alguém, de deixar mais alguém sedento por carinho. Eu penso nele tentando viver uma vida onde ele mais parece um equilibrista tentando achar a medida certa entre o bem e o mal, entre a dor e o alivio.

E eu penso no Derek.

E quando eu penso nele… Bom, eu não consigo nem respirar direito. Eu não consigo fazer a minha dor valer tanto quanto a dele — mesmo que isso pareça estupidez. Ele não tem mais família perto de si — tirando o tio que pouco se importa com os laços de parentesco e uma irmã que ele nem sabe se pode chamar de sua. Quando eu penso nele eu vejo tudo que ele perdeu na vida e tudo que foi tomado dele da pior maneira possível.

E eu penso como ele ainda consegue sobreviver sem ter essa pessoa do seu lado — como ele vive sem se segurar em alguém, sem se algemar a alguma coisa além das correntes de metal e os pilares do loft, coisas sem vida.

Mas infelizmente, ou felizmente, a diferença é que essas coisas não podem deixar ele não mão. Elas nunca vão trair ou desistir dele.

Nenhuma dessas coisas que vivem ao redor dele vai acabar por morrer, fugir ou desaparecer como todas as pessoas que fizeram parte da vida dele.

A não ser eu.

E eu deveria ter medo de tudo isso, eu deveria ter medo de ainda tentar ser essa última pessoa, que ainda tenta fazer um pouco de diferença na vida dele — mesmo que sem muito sucesso.

Eu penso em todas essas pessoas e como elas são importantes pra mim, como elas ancoram a minha vida, como elas conseguem fazer minha respiração ficar normal de novo, como põe uma força extra para meu coração continuar batendo. Como se elas fossem a minha linha da vida.

Mesmo assim tem vezes que eu sinto elas longe de mim, longe da minha mão e da minha voz.

E tudo isso por minha causa. Eu que as afasto.

Eu que faço elas se virarem de costas para mim, me ignorarem, verem meus erros pelo que eles realmente são, deixo elas se decepcionarem comigo, mesmo que esteja tentando protegê-las. Faço minhas escolhas sobre a segurança deles serem mais importantes do que a minha. E eles não me perdoam por eu esquecer de mim.

Até eu me esqueço de me perdoar — mesmo que eu não me importe muito com isso.

Então eu me fecho, me escondo.

Me esqueço que existem pessoas que precisam de mim assim como eu preciso delas. Faço a preocupação delas se tornar alguma coisa menos importante para mim e deixo-as de lado — na maior parte do tempo apenas porque eu não quero ver nenhuma delas morrer na minha frente, eu não quero os ver morrer como eu já vi a minha o mesmo acontecer com minha mãe.

A vida, às vezes é curta demais pra se importar com tudo — mas eu não consigo deixar de pensar nas pessoas que eu amo, ainda que eu tenha que escolher entre elas e eu.

E eu sempre escolho elas.

Talvez eu seja um herói.

O mais fraco de todos…

Infelizmente eu sou um daqueles que ainda não descobriu como trazer os mortos de volta.

E como eu gostaria de poder fazer isso.

Por mim, por meu pai.

Por Derek.

Poder trazer pelo menos alguém de volta — tentar fazer esses buracos ficarem menores no peito dele.

Mas eu não posso. E cada morte vai mudando a forma da nossa visão de mundo — vai mudando tudo.

Vai mudando a nós.

Depois que Boyd morreu as coisas ficaram estranhas, diferentes. Houve uma troca na balança, uma mudança de eixo, coisas que ficaram diferentes de uma hora para outra, coisas que eu nem conseguia ver na minha frente e que apareceram na direção dos meus olhos em um instante.

E eu quase não consigo sequer colocar em ordem todos os fatos que aconteceram nesse meio tempo pra eu chegar a essa questão da distância que se abate sobre minha mente.

Eu me lembro de estar colocando a mão no ombro de Derek, tentando confortar ele, achar uma maneira de aliviar a dor que ele sentiu quando viu mais um dos seus se indo — mas se nada daquilo era fácil pra eu entender e aceitar, que dirá pra ele. A morte do Beta de Derek fez abrir mais um buraco no peito do homem, deixando cair pra fora parte das entranhas dele para se espalharem pelo chão. Tudo foi cru e rápido, sem tempo para se respirar e pensar.

Ou salvar ele.

Derek havia perdido mais alguém, mais uma das pessoas que ele tentou usar como âncora na vida, aquelas pessoas que ele tentou fazer virarem importantes, pra andarem de mãos dadas com ele e fazerem uma diferença na vida desastrosa que ele levava.

E mais uma vez todo o trabalho que ele teve virou em nada.

Se não bastasse tudo aquilo, Beacon Hills virou um inferno com esse espírito druída que fazia sacrifícios voltando a aparecer ao mesmo tempo em que os Alfas começavam a desenrolar sabe-se lá que plano. Era como se a guerra estivesse se travando entre os grandes e nós todos estivéssemos no fogo cruzado.

E sempre acabávamos por nos ferir, também.

O Darach tentou fazer seu sacrifício final na sua busca insaciável por poder, a criatura tentou matar mais pessoas, tentou matar…

Tentou matar meu pai.

Bom, ela sequestrou meu pai com esse objetivo e eu não sei ainda se tudo que está nos meus planos pra salvar ele vai dar certo. E… Eu não sei nem como dizer tudo isso, mas a pessoa por trás do espírito, a pessoa por trás de boa parte das coisas ruins que aconteceram nos últimos tempos, responsável pelas mortes de muitos dos nossos é alguém que estava mais perto de nós do que imaginávamos.

Mais perto de Derek.

Jennifer é o Darach.

A mulher que seduziu Derek, levou ele pra cama se fazendo de santa, a mulher que ele depositou sua confiança, que ele achou que seria alguma coisa boa para ele — mesmo que de uma forma estranha — não só traiu ele como também estava a ponto de matar mais pessoas. Ela o usou como um elemento que não importava de nada, ela usou a magia para fazê-lo acreditar que ela seria uma coisa boa para ele, quando no fim ele só era um meio para os fins sórdidos dela.

Beacon Hills parece infestada de pessoas querendo terminar com a nossa vida — mas principalmente com a vida do Derek. Os Alfas querendo que Derek matasse seus lobos para se juntar aos ideais malévolos do bando. Depois, um druida secular que queria apenas objetificar Derek para seus ideais malignos.

E ninguém estava ali para segurar a mão dele.

Bom, eu estava e não estava.

Eu era aquela pessoa que estava perto, mas parecia estar longe. Nós estávamos a minutos um do outro, estávamos ligados por muitas coisas, ligados por nossos desejos e vontades, pela maneira como tudo entre nós parecia simplesmente fazer sentido. Ligados pelo sentimento que corria pelo nosso corpo, ligados como correntes de metal, fortes e inseparáveis, capazes de segurar tudo.

Mas ao mesmo tempo eu estava longe dele, havia uma distância entre nós, algo que nenhum de nós dois sabia como superar. Eu estava esticando essa meada ente nós ao extremo, fazendo tudo ficar à deriva.

E eu não sabia chegar mais perto.

Talvez eu só tivesse medo.

***

Stiles estava sentado na sua cama, olhando para o telefone que ele segurava na mão. A tela escurecida não oferecia nada a ele, mas Stiles não conseguia parar de ficar de olho nela — era como se a única coisa que mantivesse ele calmo por aqueles instantes fosse a espera, como se contar os milésimos e regular eles com as batidas do coração fosse deixar ele vivo. Ele estava deixando aqueles minutos que ele contava controlarem a vida dele enquanto ele esperava.

Enquanto ele esperava por alguém vir puxar ele do limbo.

Ele esperava por respostas às perguntas que ninguém tinha coragem de fazer.

Ele esperava por um pouco de paz. Só um pouco.

No entanto, parecia que o que ele mais fazia era esperar por nada acontecer, esperar que o tempo parasse. Esperar que finalmente as coisas navegassem por um rio calmo e tudo tomasse um rumo diferente.

E o sofrimento também — que ele tomasse qualquer rumo e nunca mais voltasse.

Naquela tarde Stiles teve um ataque de pânico no meio da escola, ele quase se perdeu de si mesmo em meio a um mundo de pessoas que ele sequer conhecia direito. O motivo de tudo foi a ligação de Jennifer que avisou Stiles que o pai dele havia sido sequestrado e estava pronto para ser sacrificado nas raízes da Nemeton, para finalmente completar o plano dela, qualquer que fosse ele.

Poder, glória, vida eterna, nada disso importava para ele — só o pai. Ao saber que o homem corria perigo, que mais uma pessoa da família dele, a única que ainda estava viva, tinha chances de desaparecer e nunca mais fazer parte da vida de Stiles, nunca mais estar do lado e dizer “bom dia” pra ele, sorrir para alguma piada boba, simplesmente viver, Stiles não conseguiu se controlar.

Os tremores começaram devagar, mas em um instante tomaram conta dele e correram pelo corpo como se estivessem na velocidade da luz. O ar parou de ir até os pulmões e ele não conseguia respirar, não conseguia falar direito com a garganta se fechando. A visão foi escurecendo com pontos pretos aparecendo na frente dele.

E uma mão o guiou — Lydia o ajudou a se concentrar e voltar a respirar direito, voltar a sentir as coisas como deveriam ser, voltar a enxergar. E ela usou a boca dela para isso — mas Stiles não conseguiu sentir nada pelos lábios dela, coisa que ele não teria imaginado acontecer, afinal ele sempre sonhou com aquele momento.

Ele apenas sentiu que estava bem.

No meio do caos todo, uma revelação surgiu. A revelação de que ele não sentia mais nada por ela, de que tudo tinha sido coisa da cabeça dele, que toda essa vida de fazer planos para conseguir a garota dos sonhos não fazia sentido e que eles eram melhores como amigos — afinal ela ajudou ele a abrir os olhos e conseguir respirar.

Mas não havia nada mais.

Pelo menos por ela não, mas havia outra pessoa.

Quando ele chegou em casa, se jogando na cama de cabeça, querendo esquecer do mundo e de tudo, Stiles se lembrou que havia alguém que também precisava dele — e que ele precisava.

Ele mandou uma mensagem para Derek, pedindo para encontrar com ele. Ele precisava falar com o homem, ele precisava segurar a mão dele, ele precisava de alguém ali com ele, só por um segundo, só pra dizer que tudo ficaria bem, que tudo acabaria bem.

Ou pelo menos pra mentir essas coisas pra ele.

Mas ele queria Derek ali com ele.

Eu não quero mais essa distância entre nós.

Eu tô quase perdendo meu pai. Não posso perder mais ninguém.

Stiles suspirou ao ver o telefone continuar inerte na mão dele. No entanto o esperar não era algo que ele conseguia manejar. A espera era algo bom, era uma coisa que fazia ele se concentrar e achar outra coisa para ocupar a mente, sabendo que não haveria nada que ele pudesse fazer, a não ser esperar.

O telefone tremeu na mão dele, finalmente.

Eu vou chegar aí em uns instantes.

Assim que ele viu a tela se acender com uma mensagem de Derek, Stiles sentiu um nó se desfazer na garganta dele e um peso, que ele nem sabia que estava ali, ser tirado das costas dele. Era como se as coisas tivessem se engrenado em um ritmo novo, como se as coisas estivessem acontecendo, enfim.

Alívio.

Só isso que ele sentia.

Stiles respirou fundo, tentando ouvir o próprio coração repicando a respiração dele, tentando se sentir vivo por aqueles instantes, sentir que o corpo dele ainda funcionava, que ele ainda era capaz de andar, de falar, de sobreviver — naquela altura das coisas, viver era a segunda opção, uma segunda opção quase inalcançável.

O garoto olhou para a janela do quarto e numa tentativa de fazer o tempo passar, se levantou para abrir ela. O tranco era simples e se rendeu facilmente na mão dele, fazendo Stiles se sentir bem sucedido em pelo menos alguma coisa — mesmo que fosse só par abrir a janela e facilitar a entrada de Derek no quarto dele, ainda que ele não soubesse se Derek viria pela janela, pela porta ou por qualquer outro lugar possível.

Contudo, as coisas não tinham muito importância para ele no momento. Sentir o vento brisando lentamente pelo ar, ver o céu escuro fazer as estrelas aparecem, brilhantes no céu, era o máximo que ele iria fazer.

Não sei nem se eu vou viver pra ver um novo amanhã.

Não sei se vou sobreviver ao futuro, se ainda houver um amanhã.

Não sei se conseguiria me ver vivo aqui na terra sem meu pai…

Ele suspirou, fechando os olhos e tentando ignorar as lágrimas que queriam cair dos olhos dele. Stiles não poderia nem pensar na possibilidade de não ter mais o pai dele ao seu lado. Não conseguia imaginar um mundo no qual ele conseguisse sobreviver essa perda.

Não haveria um mundo que ele sobreviveria a aquela perda.

Mas um dia aquilo iria acontecer, não é? Um dia ele não teria mais o pai dele do lado, pois ele iria se juntar com a sua mãe, em qualquer lugar que exista para as pessoas depois que elas se vão. Os dois iriam cuidar de Stiles deste esse outro lugar, dessa outra dimensão.

Eu não…

Eu não consigo imaginar isso…

Stiles apertou os olhos ainda mais e sacudiu a cabeça, suspirando, tentando não imaginar nenhuma das pessoas que ele amava indo embora dessa vida. Ele se virou de costas para a janela e foi de novo para a cama se sentar.

As lágrimas caíam com calma dos olhos dele. Ele respirou fundo tentando se concentrar no som do ar entrando e saindo pelo nariz dele para se acalmar, pensar no som do coração dele batendo ou nos grilos lá fora.

Ou no barulho de alguma coisa subindo pela janela dele.

O garoto se virou para enxergar o homem já quase entrando pela janela, olhar cansado, barba comprida, mas um pequeno sorriso pintado nos lábios dele, como se ele estivesse feliz em ver Stiles.

Como se ele fosse uma das últimas coisas que ainda importassem.

Quando Jennifer atacou o hospital após ter ido à escola, como se não bastasse toda a confusão que ela já tinha feito, Derek teve que ficar do lado dela, teve que seguir ela para que menos pessoas se machucassem. Stiles e Scott ficaram junto dele o tempo todo. Ele não poderia deixar Derek sozinho com ela.

Eu cometi esse erro só uma vez.

Ao mesmo tempo em que eles estavam lá, os Alfas estavam também. E o pai de Stiles a mãe de Scott, a irmã de Derek, Cora, com Peter. Isaac. Todo mundo estava lá, como se fosse uma convenção de criaturas sobrenaturais lutando por sabe se lá o que.

No fim das contas, pessoas morreram e Jennifer fugiu com o pai de Stiles, deixando Derek machucado pelo caminho. Stiles ajuntou ele do chão, levou o homem consigo, em seus braços, até o carro velho dele e dirigiu até o loft para entregar o homem nos braços de Peter, que cuidava de Cora, também machucada por Jennifer.

Tudo era confuso.

Stiles nem sabia como ele teve força de fazer tudo aquilo, como ele conseguiu carregar o Derek outra vez, como ele conseguiu segurar o homem. Ele sabia que não tinha a força suficiente para aquilo, mas era como se ele criasse algo a mais dentro dele, uma energia extra na hora que ele precisava cuidar de Derek.

Quem sabe é uma daquelas coisas que meu pai me diz, sobre ser um herói.

Quem sabe...

Stiles sacudiu a cabeça, tentando limpar aquelas palavras de sua mente. Palavras que pareciam mentira nos próprios pensamentos — que dirá nos ouvidos.

“O que foi?” Derek perguntou, olhando para o garoto, os dois de pé no meio do quarto de Stiles.

“O que?” Stiles perguntou de volta, sem saber o que Derek estava realmente perguntando.

“Por que você sacudiu a cabeça…” Derek disse, não completando a pergunta, mas deixando claro o que queria dizer.

“Ah…” Stiles falou, suspirando e sacudindo a cabeça de novo, dessa vez com menos convicção. “Eu só estava pensando. Nada demais.” O garoto completou.

Um silêncio se fez por alguns segundos antes do homem responder.

“Okay.” Derek assentiu, lentamente.

Os dois ficaram se olhando por alguns momentos, percebendo as mudanças que os dias de separação haviam feito neles, percebendo como eles eram diferentes sob a luz das estrelas — como as falhas de cada um pareciam estar borradas pela escuridão, escondidas atrás do preto da noite.

Mesmo assim as divagações sobre quem eles eram ou pareciam ser, não eram importantes naquela hora.

Stiles evidenciou isso.

“Ela pegou meu pai, Derek.” O garoto falou, não controlando a própria voz.

O homem olhou para ele, surpreso por um instante, abrindo a boca para dizer alguma coisa, antes de abaixar a cabeça e não falar nada, sentindo vergonha de si mesmo. Sentindo como se ele fosse o culpado de alguma coisa — e tudo aquilo estava escrito no rosto dele.

“Hey, não é culpa sua.” Stiles protestou em um sussurro, caminhando em poucos passos a distância que separava eles, colocando uma das mãos na bochecha de Derek e levantando o rosto dele para poder olhar nos olhos do homem. “Não é, Derek.” Stiles retificou.

Os olhos do homem pareciam secos de emoção, mas se ligavam aos de Stiles mesmo assim.

“Eu…” O homem começou a falar, mas parou. Ele suspirou e balançou a cabeça, respirando fundo antes de continuar. “Eu sei. Mas eu também não posso pensar que isso não tenha nada a ver comigo. Eu confiei nela. Eu…” Derek fechou os olhos.

Eu fiz a mesma coisa que eu fiz com Kate. Cometi os mesmos erros e pessoas morreram por minha culpa.

Essas provavelmente foram as palavras que o homem não disse, mas Stiles conseguia ouvir elas na cabeça dele, conseguia ver elas se formando no ar, praticamente. O garoto sabia o quanto a vida de Derek mudou quando ele confiou na caçadora de lobisomens, mesmo que ele não tivesse nem idade para ser o dono das próprias ideias e ações, podendo ser influencia por qualquer pessoa.

Ele sabia o quanto Derek sofreu.

E o homem tinha feito tudo de novo — mesmo que ele tivesse sido influenciado de novo.

Era como se, mesmo anos depois, mesmo depois de uma vida de sofrimento durante muito tempo vivida por Derek, ele não houvesse aprendido nada — era como se ele fosse cometer os mesmo erros sempre, não importando o que iria acontecer.

“Derek, não é culpa sua. Qualquer um de nós poderia estar na mira dela. Ela só foi para o que é…” Stiles quase iria dizer que ela só iria para o mais fraco, mas ele não disse. Ele segurou suas palavras dentro de si

Derek entendeu, no entanto. A cara dele se fechou de novo, como se ele soubesse que o que Stiles disse fazia sentido, mas mesmo assim machucasse-o.

Não que o homem fosse exatamente o mais fraco de todos, afinal ele era um Alfa, ele tinha poderes sobrenaturais, tinha a força de um homem e de um lobo em um corpo só. Ele tinha o poder, mas também tinha uma mente cansada e machucada. Ele nunca parecia fazer as coisas certas — mesmo que tentasse ao máximo.

“Eu… eu vou tentar entender.” Derek disse, levantando a cabeça para olhar nos olhos de Stiles.

O garoto assentiu, quase sorrindo. Stiles sabia que Derek precisava entender por si mesmo que as coisas iriam, algum dia, melhorar.

Mesmo que o garoto não acreditasse muito naquilo.

“O que nós vamos fazer Stiles?” Derek pediu, sussurrando. A noite havia ficado silenciosa naquele momento, como se a pergunta fosse alguma coisa que deixasse todos na expectativa. Ou com medo.

Stiles suspirou.

“Bem… eu, Scott e Allison vamos tomar conta da Nemeton e dos planos do Darach. É uma coisa que só nós podemos fazer — eu não quero arriscar mais ninguém, Derek. E eu tenho a impressão de que ela, no entanto, vai querer usar você pra alguma coisa ainda, não acho que ela vá te ignorar depois de tudo que ela fez pra conseguir… você. Ela ainda quer algum tipo de confusão com os Alfas. Eu não sei…” Stiles olhou para o teto do quarto, como se ele estivesse buscando alguma força do além. Talvez do céu. Talvez da mãe dele, em qualquer lugar que ela estivesse. “Eu tento entender todos os motivos dessa confusão, mas não consigo. Nada faz sentido.”

O garoto soltou um soluço e uma lágrima escorreu pelo olho esquerdo dele.

Derek deu um passo a frente, querendo colocar seus braços em volta de Stiles e apertar ele contra o peito, mas ele parou centímetros antes de se chocar com ele, esperando por alguma sinal do garoto de que estava tudo bem e que ele poderia fazer aquilo.

Stiles olhou confuso para Derek por um instante, mas no seguinte ele se jogou nos braços do homem e se escondeu neles, encostando sua cabeça no ombro dele.

“Eu sinto muito.” Derek disse, acariciando os cabelos de Stiles, antes de enterrar seu nariz neles para sentir o cheiro do garoto.

“Eu também.” Stiles respondeu, voz embargada pelo choro. “Eu queria poder fazer as coisas de outra maneira, poder recomeçar tudo de novo. Queria poder só ter vocês pra mim e não precisa me preocupar com mais nada.”

Derek abraçou ele mais forte.

“Pelo menos você tem alguém, ainda.” Derek sussurrou para si mesmo, sem nem perceber o que tinha dito.

Stiles se separou de Derek e olhou nos olhos dele.

“Derek, você não perdeu tudo ainda. Você tem coisas nesse mundo — existem pessoas que ainda dependem de você e que acreditam que você faça parte da vida delas assim como você deseja fazer parte de alguma coisa.” Stiles disse, enxugando as lágrimas com uma mão e segurando na mão de Derek com a outra, apertando os dedos do homem com os seus. “Existem pessoas que querem você Derek, que querem sua presença, que precisam da sua voz, do seu jeito de ver o mundo. Que precisam de você.”

Derek olhou para o chão, não acreditando muito nas palavras de Stiles.

O garoto bufou e soltou a mão que segurava Derek para segurar o rosto do homem com as duas mãos. Ele teve que lutar um pouco com Derek até o fazer olhar para ele de novo.

“Derek, tem pessoas que…” Stiles mordeu os lábios, tentando escolher as palavras certas para falar. Ele respirou fundo e olhou para o lado antes de voltar seus olhos para o olhar de Derek. “Tem pessoas que amam você, Derek. Tem pessoas que amam você. Nunca ache que elas não existem, porque elas existem sim.” Stiles disse.

Derek olhou para ele, virando a cabeça um pouco para o lado. Uma lágrima furtiva saiu do olho do homem e ele esperou ela escorrer pela bochecha dele até chegar à boca. Ele a provou, tentando acreditar que ele ainda poderia sentir coisas daquele jeito.

“Derek, eu…” Stiles respirou fundo, soltando do rosto do homem e colocando a cabeça no peito dele, apenas encostando-se a ele. “Eu não quero dizer aquilo que eu gostaria de dizer. E você sabe o que eu quero dizer.”

Stiles suspirou.

Derek colocou os braços em volta do garoto.

“Eu não quero dizer nada essa noite, pois eu sei que cada um precisa seguir seus caminhos e fazer coisas importantes. E eu não quero dizer aquilo pra você e correr o risco de nunca mais te ver. Ou de você nunca mais me ver. Por isso eu não vou dizer nada.” Stiles tirou a cabeça do peito do homem e olhou ele nos olhos. “Mas escute aqui, Derek, eu quero que você venha me encontrar, depois que tudo acabar. Eu quero que você venha me ver e então…” O garoto suspirou. “Então eu vou dizer tudo aquilo que eu preciso dizer, certo?”

Stiles esperou até que Derek assentisse, antes de beijar ele.

O beijo foi rápido, um leve encostar de lábios.

“Okay.” Derek sussurrou quando os dois se separam. “Eu prometo que…”

“Shh…” Stiles disse, colocando o dedo nos lábios de Derek, prevenindo ele de falar. O garoto olhou nos olhos do homem. “Não prometa nada pra mim, okay? Não prometa nada que você não tem certeza que possa cumprir.” Stiles falou.

“Mas eu…” Derek tentou falar de novo, mas Stiles colocou a mão inteira na boca de Derek.

“Eu não quero saber o motivo, Derek. Você pode dizer que faria isso por mim, que vai dar de tudo para me encontrar ou prometer qualquer coisa incrivelmente romântica e depois não conseguir realizar, não faria acontecer. Não quero saber.” Stiles disse, decido. Ele tirou a mão da boca de Derek, encostando só um dedo nos lábios do homem. “Hoje a gente se separa e cada um vai fazer o que precisa fazer. Amanhã ou depois vai ser outro dia. Amanhã ou depois a gente pode prometer alguma outra coisa. Agora não. Eu tenho que salvar meu pai, você tem que salva a sua irmã. Se você quer prometer alguma coisa, agora, prometa que vai salvar Cora, prometa que vai tentar entender ela, se aproximar dela, aproveitar a família que você tem. Pois é o que eu vou fazer com a minha.” Stiles falou, finalmente tirando o dedo da boca de Derek.

O homem suspirou.

“Okay.” Ele assentiu com calma. “Tudo bem.”

“Derek, a gente não sabe o futuro, okay? Eu não sei, você não sabe. Ninguém sabe.” Stiles disse, pegando na mão de Derek e entrelaçando os dedos. “Mas se existe alguém em algum lugar, se existe uma força que quer que isso...” Stiles apontou um dedo para ele e depois para Derek. “Se alguém quer que isso aconteça e existe uma chance entre um milhão de isso dar certo, nós vamos pegar aquela chance e fazer o melhor pra ela valer à pena. Mas se não tiver mais ninguém pra olhar pra nós e dizer que a gente faz sentido, se não houver alguém que possa rir da nossa cara, possa rir do nosso jeito, fazer piada com a forma como nós somos, se não existir alguém que pode completar o que nós somos, então nada disso importa.”

Derek assentiu.

“Amanhã, então.” Ele falou, olhos fixos em Stiles.

“Amanhã.” Stiles concordou.

Derek respirou fundo, colocando uma das mãos no rosto de Stiles. O garoto encostou sua bochecha na pele da mão do homem, sentindo como os dois se completavam — um duro, rústico, o outro tenro, sensível.

“Stiles, amanhã eu digo que te amo. Amanhã eu prometo tudo que eu quero prometer.” Derek sussurrou antes de beijar os lábios dele. “Amanhã.”

O garoto tremeu ao ouvir as palavras saindo da boca de Derek.

Amanhã.