Herói
8 VIII - Promessa
Notas iniciais
Eu não prometi para ninguém que iria acordar hoje.
Eu acordei, no entanto. Abri meus olhos e vi o sol da tarde entrando com calma por entre as janelas do meu quarto, atravessando as cortinas e invadindo tudo que precisava de luz. Senti um pouco de ar correndo pela minha pele, causando alguns arrepios, e a fui invadido pela sensação de estar vivo mais uma vez, ouvir meu coração batendo no peito e respirar o ar puro e frio — me sentir vivo.
Acordei de um pesadelo que não parecia ter fim. Não que ele realmente tenha acabado, que tudo de ruim tenha acabado, que não vou termais pesadelos — mas esse teve seu fim. Chegou o momento em que ele não faz mais parte da minha vida e eu posso seguir em frente, feliz.
O instinto de sobrevivência me trouxe pra mais esse dia, me fez acordar e abrir os olhos. Me fez pular os obstáculos, não sentir mais dúvidas, não pensar que eu não teria a força necessária, que eu iria falhar.
E aqui estou eu, vivo.
Aqui estou respirando o ar de mais um dia.
Como eu sempre falo, parece que nesses momentos eu começo a regurgitar poesia para descrever a minha vida, mas tudo isso é verdade. Todo esse sentimento de conseguir descrever cada milésimo de segundo do que se passa, de conseguir perceber cada uma das coisas que me cerca, que faz parte da minha vida, que faz parte desse novo dia e que faz parte do motivo de eu estar vivo.
Hoje eu vivo.
Ontem eu não sabia se teria essa chance.
Ontem eu arrisquei minha vida pelo meu pai, por mim, pelos meus amigos, pelas pessoas que confiam em mim, por aqueles que me amam ou que apenas acreditam em mim. Eu arrisquei minhas escolhas e meu futuro para dar uma chance de eles terem um futuro. Minhas escolhas possibilitaram a eles um dia a mais aqui nessa terra — ou um ano a mais, uma vida inteira.
Pode parecer que eu estou me dando mais importância do que mereço, mas eu sei que isso não é verdade. Eu me arrisquei por todos eles eu me aproprio desse ato, eu admito que seja meu e que eu causei e que deu certo. Admito que meu sacrifício para essa árvore mágica — Nemeton — que esse sacrifício que fiz pela vida do meu pai e por tudo que ele representa para mim, é parte de mim e vai caminhar comigo pelo resto da vida.
E que é a prova viva de que tudo deu certo.
E de que eu sobrevivi.
Eu sobrevivi para ver ele outra vez, para salvar meu pai e ter essa única pessoa que carrega o mesmo sangue que eu do meu lado pelo tempo que eu ainda puder. Ter esse homem que me deu o exemplo que eu sigo desde que era uma criança e mal sabia o que era a vida de verdade. Poder abraçar o pai que me ensinou a caminhar por entre os passos erráticos e momentos de dúvida, que me ensinou a amar a quem me importa e sempre se lembrar de deixar esse amor transcender, transbordar, ser claro como água nos olhos de quem vê. Me ensinou a ser criança, ser um menino e agora um homem.
E o salvei — mesmo que tenha arriscado a minha vida.
Mas o salvei.
Tenho ele comigo mais um dia — minha vida que se dane. Não prometi a ninguém que iria sobreviver.
Não prometi nada.
Não acredito em promessas.
Apenas fiz tudo por ele.
Sem promessas.
Não prometi sequer a mim mesmo que eu iria arriscar tudo que tenho por ele — pois eu não posso nem acreditar nas minhas promessas. Não posso confiar nas promessas de ninguém. Simplesmente não posso. Eu sempre pedi que não me prometessem mais nada. Exigi que não dissessem promessas para mim, pois um dia elas seriam descumpridas.
Acho que é a única coisa que não posso confiar.
Promessas são coisas que não deveriam existir. Elas surgem como uma forma de nós criarmos uma expectativa sobre alguma coisa, sobre algum momento importante da nossa vida — que não depende de nós ou das nossas escolhas, mas sim de alguma força que não está ao nosso alcance. Promessas são presentes de outras pessoas, coisas que elas fazem apenas porque nós somos nós, ou seja lá que outro motivo as importe.
Não que as promessas sejam assim, irremediavelmente ruins, para se falar a verdade, mas elas são falsas esperanças, aquele tipo de esperança que vai te machucar de uma forma ou de outra. Promessas são quebradas da forma mais simples possível e quase nunca são levadas a sério como deveriam ser — muitas pessoas apostam a própria vida em uma promessa e no fim das contas não conseguem nada.
Claro, o problema não é das promessas, mas sim de nós, os humanos que não conseguem cumprir elas.
Nós dizemos que vamos fazer algo, algo que vai mudar a vida de alguém ou a nossa, que vai fazer a diferença na existência de alguém, tornar as coisas melhores. Prometemos que nós iremos causar uma mudança, que nossa força vai ser a transformadora e então nós não fazemos nada, quebramos a promessa. Ignoramos o pedido de alguém por causa da nossa inveja, do egoísmo, ou da preguiça. Quebramos promessas porque nossas escolhas importam mais do que as escolhas dos outros, porque nossa vida tem mais valor que a vida do próximo.
Quebramos promessas porque não sabemos a importância delas em primeiro lugar, porque não temos consciência real de como elas podem significar a diferença em viver e morrer, entre poder respirar e se afogar.
E infelizmente, mesmo que de uma forma involuntária, a nossa vida é cheia delas. Nosso universo é baseado em promessas — de um mundo melhor, de paz, de comida para todos, de igualdade entre raças, igualdade entre povos.
Entre os próprios homens.
Promessas que não são cumpridas.
Promessas que não importam.
E eu sei que esse discurso parece mais poético ou político do que qualquer outra coisa, mas eu só estou montando todo esse momento para dizer que eu não confio em promessas, que elas me machucaram, que elas mudaram a minha vida em uma direção que eu não esperava, que eu não queria e não estava pronto.
Promessas mexerem com minha existência por completo.
E não importa o quão forte elas são — não importa se sua mãe lhe promete que vai te colocar na cama para dormir e te contar uma história se ela morrer.
Não importa.
Nada importa.
E minha mãe não me contou a história, nem me colocou na cama.
Ela morreu.
Ela…
Ela apenas prometeu que iria me contar uma história pra dormir, entende? Ela só disse que iria me falar sobre cigarras e formigas e acariciar meu cabelo e beijar meu rosto e me mostrar como os anjos queriam que eu pedisse minhas pequenas coisas para eles e como os pássaros iriam me proteger por mais uma noite de sono — mas ela morreu.
Ela se foi e nada mais importou.
Por isso que eu digo que as promessas são coisas ruins. Elas vão encontrar um jeito de te machucar, de cortar a tua pele e fincar uma faca bem no meio da ferida, fazer sangrar e doer, fazer você gritar. E essas cicatrizes ficam presentes no seu corpo e na sua mente, te assombrando pelo resto da vida.
Essas cicatrizes podem nem aparecer na sua pele — sua alma e as memórias são os lugares favoritos delas.
Então…
Então eu não acredito em promessas, proíbo que prometam qualquer coisa pra mim. Assim como eu não prometo nada a ninguém — pois no final das contas eu deixo uma margem para que as possibilidades boas possam surpreender as pessoas ao invés das coisas ruins.
E é isso que me faz feliz hoje, nesse momento.
É isso, essa possibilidade de ser surpreendido por uma coisa boa quando não se espera nada. Pois se você não tem expectativas, não está sendo movido pelas promessas, por essas falsas esperanças, você tem a possibilidade de ser abraçado por uma coisa boa vindo de um lugar inesperado.
E ao invés de essas promessas fazerem a sua vida ficar pior, as surpresas inesperadas lhe trazem uma luz de algum lugar que você esperava a escuridão.
E elas fazem a diferença.
Elas podem trazer uma coisa feliz.
E trouxeram pra mim.
Elas me trouxeram mais um dia.
Talvez um dos momentos mais felizes da minha vida — esse momento em que eu entendi que eu viveria o dia de amanhã. Que eu conseguiria acordar e olhar para as minhas mãos serem refletidas pelo sol, que eu sentiria o vento bater no meu rosto, que minha respiração continuaria fazendo barulho e meu coração continuaria batendo.
Eu sempre tive medo do amanhã. Ele me assustava.
Bom, ainda assusta.
Ele parece essa promessa que nunca vai se cumprir, parece algo que sempre nos assombra e nos faz sentir mais fracos — a esperança nos move, sim, mas esperar pelo amanhã, sempre ficar esperando pelo que vai vir de melhor pra nós cansa. Algum dia a gente percebe que nada de bom vai vir.
E eu achei que seria sempre assim.
Até eu finalmente sobreviver para ver mais um dia. Até eu finalmente abrir meus olhos para o gesto mais simples que é o de acordar para o mundo e ver que ele ainda existe ao seu redor, que as coisas continuam como sempre foram e como sempre vão ser. Acordar e ver que existe uma margem para a felicidade entrar pela minha porta.
Simplesmente porque eu não queria promessas e não fiz nenhum — eu deixei minha vida em aberto e fui surpreendido.
Por isso mesmo pedi que Derek não prometesse nada para mim. Pedi a ele que não prometesse nada, que não jurasse em nome de ninguém, pois eu não queria perder ele, não queria que fosse prometido um futuro ao lado de alguém que não poderia cumprir essa promessa.
E ele não a prometeu pra mim.
E talvez por isso mesmo que nesse momento, nesse momento em que eu acordo e vejo que eu ganhei mais um dia, eu também o ganhei de volta. Ele não prometeu que iria voltar pra mim, mas eu o ganhei.
Promessas não valem nada quando são quebradas.
Por isso eu nunca faço promessas — nada vai ser quebrado.
E se por acaso for, eu vou estar esperando por isso. Eu vou estar abraçando o que vier — não que vou estar pronto.
Nunca vou estar pronto.
Mas vou estar esperando.
***
Stiles olhava para o teto do seu quarto assim que abriu os olhos. O sol da tarde ia entrando com calma por entre os vidros da janela, uma luz quase avermelhada do final de um dia, banhando o quarto dele em tons quentes.
O garoto havia dormido apenas algumas horas, mas elas foram umas das melhores horas de sono que ele teve.
Principalmente porque tudo tinha se acabado.
Em uma noite só eles derrotaram Jennifer — o Darach — e impedir seus sacrifícios, derrotaram os Alfas e seus planos de vingança e terminaram com tudo que tinha que ser terminado para nada voltar e incomodar eles no futuro. Stiles conseguiu salvar o seu pai e Scott e Allison salvaram os seus também. Todos conseguiram voltar com todos os seus pedaços de volta para casa, são e salvos.
A descrição de tudo nem importa tanto, mas todos lutaram e se machucaram, todos fizeram sua parte, dando o melhor de si para que as coisas acontecessem, todos deixaram um pedaço deles mesmo na última batalha, ou seja lá do que queiram chamar ela.
Stiles machucou um pouco a cabeça, fez um pequeno corte, mas nada demais. Ele conseguiu voltar para sua casa ao lado do pai e sorrindo. Feliz que tudo tinha acabado como tinha que acabar, ele junto dos que ele ama.
Tudo estava bem.
Se espreguiçar foi uma experiência diferente, podendo esquecer-se de todas as coisas que ele teria que fazer, tendo a possibilidade de apenas pensar naquele simples ato de esticar seus braços e as pernas, sentir eles se relaxando aos poucos.
Outra experiência diferente foi poder olhar de volta para seu quarto, poder olhar para o ninho dele e ver que tudo estava como deveria estar, tudo estava em seu lugar de volta. Cada coisa no seu rumo, na sua própria normalidade — Stiles nunca havia pedido para tudo ser normal antes, mas agora era o que mais queria.
A normalidade significava paz.
E era uma coisa boa.
Ouvir a própria respiração era alguma coisa que fazia ele se acalmar, fazia ele apenas pensar em si mesmo por alguns segundos. Controlar o ar que entrava nos pulmões, poder fazer experiências bobas com o oxigênio, que se infiltrava gelado pelas narinas e depois era expelido como vapor de ar quente. Ouvir o próprio coração se acelerar e depois se acalmar, bater lentamente, escutar ele bombeando o sangue de um lugar para o outro do corpo, fazendo o que ele fazia de melhor, escutar o seu corpo se movimentando aos comandos dele.
Era tudo parte de um ato simples, mas que significava muito.
Significava que tudo estava bem.
Stiles sorriu.
Ele sentia que as coisas estavam se encaminhando para algo bom.
Não havia mais forças do mal em Beacon Hills. Os três jovens, ele e mais Scott e Allison, agora cuidavam da cidade. Eram os protetores de tudo e com a energia deles a árvore mágica — Nemeton — iria trabalhar de alguma forma para proteger todos.
Os lobisomens que vieram de outros lugares, os Alfas, foram embora, foram mortos ou se aliaram a Scott. Todos eles revelaram suas cores verdadeiras, suas intenções em ir para aquele lugar. Cada um teve sua chance de se adaptar a nova vida — e quem não quisesse, não receberia essa chance de novo.
Os humanos ganharam uma nova chance de viver as vidas normais de cada um. Melissa pode voltar ao hospital e sua vida de enfermeira, Chris continuou como caçador de lobisomens, mas agora mais perto dos lobisomens de Beacon Hills. O Xerife agora havia descoberto sobre os lobos e estaria mais perto de Stiles, mais perto do próprio filho.
Tudo estava bem.
Stiles suspirou.
Tudo está bem.
Ele sorriu quando escutou o barulho de alguma coisa subindo pelo telhado para janela do quarto dele. Ele conseguia ouvir como a criatura não estava disfarçando o som de seus passos, como se estivesse avisando Stiles de sua presença, como se não quisesse que o garoto se assustasse quando o homem chegasse à janela.
Stiles levantou da cama ao ouvir o último passo do lobisomem para a janela e parou bem na frente dela ao ver ele do outro lado.
Ele sorriu e Stiles sorriu de volta.
Derek estava limpo, sem nenhuma marca do que havia acontecido na última noite, com roupas sem sujeira ou manchas de sangue, jeans escuro e camiseta branca. Ele estava com uma cara de cansaço, mas os olhos não demonstravam mais do que ele queria. O cabelo estava bagunçado, mas o sorriso de Derek não estava — estava feliz.
O que era uma coisa difícil de ver no homem.
Stiles abriu a janela sem tirar seus olhos dos olhos do homem, os dois trocando palavras silenciosas pela conexão entre eles. Uma conversa sem fala, mas que talvez significasse mais do que qualquer outra.
Naquele momento cada um estava fazendo uma pergunta interna sobre a sanidade do outro, pedindo para si mesmo se eles estavam bem e tirando as próprias conclusões ao olhar para as feições do outro.
“Oi.” Stiles disse assim que abriu a janela.
“Eu te amo.” Derek disse, sorrindo. “Eu...” O homem respirou fundo. “Eu te amo, Stiles.”
A distância que havia entre os dois foi percorrida em segundos. Stiles se esticou para fora da janela com o intuito de captar os lábios de Derek em um beijo e assim que ele conseguiu, os dois suspiraram. O toque dos lábios foi simples, mas foi o suficiente para que eles pudessem sentir, mais do que ver, que o outro estava vivo e do lado.
Que o outro estava ao alcance da mão.
Stiles se lembrou do que Derek havia dito a ele antes de tudo acontecer, o garoto lembrou-se de como Derek disse que iria se declarar para Stiles, iria dizer que amava ele. E o homem sequer havia dito outra palavra para ele antes do clássico ‘te amo’.
Stiles se sentiu nas nuvens.
“Eu te amo, também.” Stiles disse, se soltando da boca de Derek e beijando o rosto dele. “Eu te amo.” O garoto suspirou, sentindo a emoção se juntando nos olhos dele com força e uma pequena lágrima escorrendo do olho dele, uma pequena fugitiva de todos os sentimentos que estavam se juntando dentro dele.
Derek sentiu o cheiro da lágrima com seus sentidos e usou a própria língua para capturar ela.
Stiles tremeu.
Quando os dois se separaram, podendo colocar seus olhos no olhar do outro, Stiles pegou na mão de Derek e guiou ele para dentro do quarto, o homem colocando uma das pernas para dentro e depois a outra, fechando a janela atrás de si.
“Tudo bem, Stiles?” O homem perguntou. O significado da pergunta ia mais longe do que apenas uma questão corriqueira que não importava muito na vida real — dessa vez Derek perguntava sobre tudo, sobre toda a vida dele e tudo que havia acontecido. Ele queria saber sobre cada aspecto da vida de Stiles.
Queria saber se ele havia conseguido fazer tudo que queria ter feito, se o pai dele estava a salvo, se Scott e Allison estavam bem também, se as coisas iriam ter um bom fim para os adolescentes. Derek queria saber se Stiles se sentia melhor depois que tudo tinha terminado, se o garoto se achava pronto para viver uma vida melhor agora que esses perigos não estavam perto deles.
Derek queria saber se Stiles se sentia protegido, se sentia pronto para seguir com a vida.
Todas essas preocupações passaram pela cabeça dele na hora da pergunta e mesmo que elas não estivessem demonstradas em palavras, tudo que Derek sentia estava ali, naqueles segundos de tensão entre a pergunta e a resposta.
“Sim…” O garoto respondeu, assentindo, mexendo a cabeça com calma. Dessa vez também o significado da simples palavra ia além apenas da afirmação. Era como se Stiles estivesse dizendo que sim, ele sobreviveu. Ou sim, ele está bem, está vivo. Está feliz. Pelo menos por agora.
Ele respondeu a todas as perguntas e divagações de Derek com aquela simples palavra, como se ele estivesse fazendo o homem ter certeza de que as coisas iriam tomar seu rumo dali pra frente, que ele estava bem, que acharia um jeito de seguir.
Que tudo ia dar certo.
Os dois se olharam por mais alguns segundos, como se apenas pelo fato de poder ver o rosto do outro, de poder ver e tocar na outra pessoa, de sentir o outro perto, tudo estava bem. E essa proximidade entre os dois fazia bem, fazia os dois se sentirem vivos, se sentirem felizes.
O homem suspirou, fechando os olhos por um segundo.
Naquele suspiro Stiles percebeu que qualquer dúvida que ele tinha antes fora confirmada.
Ele sabia que chegaria esse tempo, algum dia.
Eu vou estar abraçando o que vier — não que vou estar pronto, pois não vou estar.
Nunca vou estar pronto.
Mas vou estar esperando, venha o que vier.
Vou sempre estar te esperando.
“Sabe…” Derek começou, tencionando um pouco o rosto dele, como se ele estivesse a ponto de quebrar a magia do momento. “Eu preciso dizer uma coisa importante, antes de qualquer outra coisa que a gente possa conversar, okay?” O homem segurava nas mãos de Stiles, os dois um a frente do outro, em pé.
Stiles apenas assentiu em resposta, apertando de leve as mãos de Derek.
“Eu preciso me aproximar de Cora.” Derek disse, simplesmente. “Eu preciso achar uma maneira de encontrar um caminho de volta pra ela. Eu só não sei quanto tempo isso vai demorar.” Ele disse. Parecia que Derek estava fazendo o mesmo questionamento para Stiles, ao invés de apenas pensando em si.
Era como se ele quisesse uma resposta do garoto. A única reposta que ele ganhou, no entanto, foi um sorriu de afirmação as ideias dele.
“Eu sei, Derek. É uma coisa boa que você faz. Eu não pediria que você desistisse dela, pra falar a verdade. Se existe uma chance de vocês se aproximarem, de encontrarem uma maneira de voltar pelo menos a algo perto do que vocês tinham antes…” Stiles parou, olhando para o homem. Ele suspirou. “O que vocês tinham antes de tudo.”
Derek assentiu.
“É uma coisa boa.” Stiles completou.
“Só que… Eu não vou poder fazer isso aqui. Eu vou voltar com ela para a antiga casa e a antiga família dela. Ela tinha lobos que corriam com ela, que ensinaram ela a ser um e sucederam naquilo. Eu não posso pedir que ela se separe deles para sempre, mas para me aproximar dela eu vou ter que passar um tempo com ela. Longe daqui.” Derek falou, desviando os olhos de Stiles assim que ele completou a frase.
A cara do garoto, no entanto, não se moveu da postura plácida que tinha antes da frase. Stiles não mudou nem seu humor durante a fala de Derek. Ele sabia, ele sentia dentro de si que havia coisas que o homem deveria fazer — que havia coisas que o próprio Stiles teria que fazer.
Era como se Stiles soubesse que esse encontro deles era como se fosse uma daquelas promessas que ele tanto temia — mas dessa vez ninguém iria prometer nada, ninguém iria tratar o momento como o início de uma falsa esperança.
Se houvesse distância a ser criada, que se criasse. Eles iriam sobreviver a ela e nada impediria de eles se aproximarem com calma, com cuidado, acharem um caminho para perto um do outro nesse meio tempo, encontrarem uma maneira de contornar os obstáculos.
Stiles apertou a mão do homem para chamar a atenção dele de volta.
“Eu entendo, Derek.” Ele sorriu, um pequeno sorriso apenas com o canto da boca. “Eu sei o que é precisar da sua família. Acredite em mim, eu entendo.” Stiles falou.
O homem respirou fundo.
“Eu sei, Stiles. Eu sei sim. Só que…” Derek parou de falar, mordeu o lábio por um instante. “Só que eu não queria te deixar pra trás. Não queria te deixar longe de mim. Mas eu também não posso te pedir que você deixe essas pessoas, esse lugar pra trás. Não posso pedir que você desista das suas memórias e da sua vida só por mim.” Derek falou, abaixando a cabeça e olhando para as mãos interligadas deles.
Stiles soltou uma das mãos levando ela ao rosto de Derek. Ele direcionou o olhar do homem para o seu.
“Você não pediria isso para mim, pois você também sabe o valor da família. Da mesma forma que eu não pediria para você desistir da sua irmã.” Stiles acariciou a barba de Derek. “Eles são a única coisa que a gente ainda tem. São aquele pedacinho que ainda nos liga a nós mesmos, não são?” A pergunta era retórica, uma pergunta que ele não precisava nem fazer para saber a resposta.
Derek assentiu ao concordar com Stiles.
“Mas você deve saber que você não significa assim pouco para mim, Derek.” Stiles disse. “Você importa. E muito. Você importa de verdade para mim. E isso me dá medo. Isso me faz ter medo por você, isso me faz querer te proteger. Isso me faz querer coisas que eu nunca quis. E que eu só quero com você.”
Derek colocou sua mão por cima da de Stiles no rosto dele, direcionando ela para a direção da boca dele até ele poder beijar a palma da mão do garoto.
“Eu sei, Stiles.” Derek suspirou. “É que quando parece que as coisas vão mudar, encontrar um rumo diferente, um rumo bom, alguma cosia passa na frente da gente e muda tudo de novo.” O homem fechou os olhos, beijando a mão de Stiles outra vez.
“Mas não tem nada impedindo a gente, Derek.” Stiles falou. Derek olhou para ele com uma cara incerta. “Eu sei que parece isso, sei que parece que tem alguma força agindo contra a gente, querendo que cada um siga seu caminho e parece isso um pouco, parece que essa força quer a gente separado. Mas eu sinto aqui dentro de mim, sinto que isso significa alguma coisa. É como se eu soubesse que não importa o que aconteça, não importa o que passe pela minha vida e pela sua, sempre existe um caminho que vai trazer a gente um de volta pro outro. E de alguma forma eu acredito nesse sentimento.” Stiles disse, olhando para os olhos de Derek.
“Mas a distância é complicada, a distância é difícil para humanos — mais ainda para lobisomens.” Derek disse, seu rosto preocupado. “É complicado esta longe de alguém que importa tanto para nós, que a gente precisa estar perto.”
“Eu sei, Derek.” Stiles falou. “Mas eu uso você como uma âncora pra mim, sabe? Eu nem sabia disso há um tempo atrás e humanos muitas vezes não precisam usar elas, mas só de pensar na força que você teve que fazer para montar uma vida, para sobreviver ao próprio passado. Só de saber que você continua vivendo, não desiste, eu me sinto forte. Eu sei que consigo. Eu penso em você e me encontro, Derek.”
“Eu…” Derek falou, olhando um tanto estupefato para o garoto. “Eu também sinto minha âncora mudando de lugar e… até agora eu nem sabia para que lugar ela estava mudando. Você, Stiles, você é o lugar que a minha âncora está se encontrando.” Derek suspirou, surpreso consigo mesmo ao descobrir aquilo. “Eu usei a raiva e o ódio por muito tempo, usei eles para me prender ao meu corpo de humano, aos meus instintos que me diferenciavam do animal. Eu só nunca percebi que eles estavam mudando aos poucos, como se uma outra imagem se formasse no meu cérebro toda a vez que eu quisesse voltar a ser humano.”
“E essa nova imagem sou eu…” Stiles completou.
“Sim…” Derek disse, respirando fundo, sentindo que mais coisas estavam mudando dentro dele. Era como se o fato de ele admitir que havia essa mudança dentro dele, que as coisas estavam trocando de lugar, trocando de direção, que havia algo diferente nele.
Que um pedaço de Stiles estava se fazendo no coração do homem.
“Essa descoberta é diferente para se fazer, não?” Stiles perguntou, sorrindo.
Derek apenas assentiu.
“Sabe, cada um de nós vai continuar vivendo, okay? Você vai com Cora para o lugar onde ela cresceu, você vai se aproximar dela. Vocês tem essa chance de virar uma família, ou algo próximo de uma.” A cada palavra que Stiles falava, Derek ia assentindo lentamente, como se ele estivesse criando uma lista das coisas que ele precisava fazer da sua vida dali pra frente. “Você vai se encontrar, também, vai achar o que falta ai dentro e então, quando tudo estiver bem, quando as coisas voltarem para onde precisam voltar, você também volta pra onde precisa voltar.”
“Sim.” Derek conseguiu dizer, percebendo que Stiles havia parado de falar. “Eu volto pra onde eu preciso voltar. Pra você.” Ele falou.
Stiles sorriu.
“Eu também preciso me encontrar, Derek. Eu preciso de um tempo pra entender o que vai ser da nossa vida daqui pra frente, o que eu vou ter que fazer, como eu vou encontrar essa nova forma de me relacionar com meu pai e achar um meio caminho pra toda essa vida de lobisomens e tudo mais.”
Derek assentiu de novo. Stiles olhou para ele.
“Calado?” Ele perguntou.
Derek sacudiu a cabeça, mas não disse nada.
Stiles levantou uma sobrancelha e olhou para ele.
Derek suspirou, sorriu com o canto dos lábios e disse.
“Você cresceu.” Ele falou. Stiles sorriu. “Parece meio bobo. Eu me lembro de você quando eu voltei pra cá, quando voltei pra Beacon Hills e lembro de ver você quase como uma criança — como eu lembrava de você quando eu saí daqui. Eu lembrava do filho do Xerife como um pequeno garotinho. E agora você parece um homem.” Derek disse, quase maravilhado com as próprias palavras.
“Todos nós crescemos, Derek. Olhe pra você, quase perdido quando voltou pra cá. Aos poucos você foi encontrando o seu caminho, o seu lugar. Seu espaço foi aparecendo e você foi entendendo o que deveria ser feito, o que precisava acontecer. Você foi se entendendo.”
Derek assentiu.
“Cada um de nós segue caminhos diferentes. Alguns chegam ao destino antes, outros depois.” O homem disse.
Stiles concordou com um pequeno movimento de cabeça.
“E de alguma forma, eu sinto que isso aqui, nós dois,” Stiles falou, apontando um dedo entre eles “Eu sinto que isso é o meu destino. O nosso destino.”
Derek olhou bem nos olhos de Stiles e mesmo sem dizer nada, a afirmação de tudo estava no olhar dele.
“Não importa por que caminhos a gente ande se o final da linha vai ser o mesmo.” Derek falou, se aproximando de Stiles.
“Não importa mesmo, Derek.” Stiles falou, colocando uma das mãos no ombro do homem e a outra no rosto dele, enquanto as mãos de Derek se encaixaram na cintura de Stiles. “E eu sei que o meu destino é…”
Derek não deixou ele terminar a frase antes dos lábios dos dois se encostarem. Stiles fechou os olhos para sentir o gosto do homem se espalhar pela boca dele, ele conseguir encaixar seus lábios com os do homem e penetrar a boca dele com a língua. O contato entre os dois era como se fosse um choque elétrico — as não descarregado de uma vez só, as partículas de energia iam se liberando aos poucos em pequenas faíscas que iam os eletrizando.
O beijo começou a dissolver os dois, aos poucos. Sem descolar a boca um do outro, as roupas deles foram ao chão, trazendo a tona o corpo nu de cada um. Derek puxou a camiseta de Stiles para cima, sentindo as costas dele. Stiles ajudou Derek a tirar a sua camiseta, roçando as mãos pelo peito do homem, sentindo os músculos na pele dele. O homem desabotoou as calças de Stiles e ajudou ele a sair delas, coisa que Stiles também fez por ele.
Os dois estavam interligados pelo toque dos lábios e pelo toque da pele, pelo corpo deles se encaixando um no outro. Era como se eles fossem feitos um para o outro.
Bom, eles foram feitos um para o outro.
Derek levou o garoto para a cama empurrando ele aos poucos, um passo por vez e assim que os joelhos de Stiles chegaram ao colchão os dois caíram na cama, Derek tentando se segurar para não machucar o garoto. O beijo seguiu enquanto os dois se acariciavam entre os lençóis, Stiles passando suas mãos pelas costas de Derek, sentindo o homem contrair e relaxar os músculos, e o homem tentando chegar com calma até o membro de Stiles.
As mãos dos dois iam descobrindo todos os espaços dos corpos deles, os lábios iam descobrindo o gosto deles e tudo combinava de forma perfeita.
Derek alcançou a entrada de Stiles por entre as pernas e massageou ela. Com a ajuda do lubrificante ele conseguiu fazer seus dedos abrirem o garoto e preparem-no. O membro de Derek encontrou seu caminho para dentro de Stiles, pouco tempo depois. A primeira penetração trouxe alguma dor para Stiles, mas depois tudo foi se acomodando em seu lugar.
Assim como as vidas de Stiles e de Derek tinham aberto um espaço para os dois se acomodarem, os corpos dos dois se completavam.
Stiles sentia cada movimento de Derek dentro de si e o homem sentia o interior do garoto pronto para ser parte de Derek. Os dois falavam pequenas palavras de conforto, pequenas frases perdidas no meio do ato. Eles estavam perdidos um dentro do outro.
Quando o garoto chegou ao seu máximo do prazer, Stiles disse que amava Derek, jorrando em seu próprio peito. Derek declarou seu amor para Stiles quando se enterrou fundo nele, tendo seu orgasmo também.
Os dois faziam parte um do outro, naquele momento.
Quando eles tinham terminado, se arrumando na cama, deitados um ao lado do outro, Derek abraçava Stiles pelas suas costas e o garoto se sentia protegido. O garoto se sentia completo, da mesma maneira que o homem se sentia.
“Eu consigo ver um futuro bom, sabe…” Derek sussurrou no ouvido de Stiles.
“Algum motivo especial?” O garoto pediu.
“Bom, eu achei que não encontraria um motivo para eu ser feliz de verdade. Ou para pelo menos tentar a minha felicidade. Você apareceu e me obrigou a tentar. Eu não sabia que poderia conseguir. Mas eu consegui.” O homem disse, beijando os cabelos de Stiles. “É como se você tivesse me salvado. Como se você fosse meu herói.”
Stiles tremeu ao ouvir a palavra.
Era como se ele estivesse ouvindo todas as pessoas que tinham dito para ele que ele era um herói antes, como se todas elas tivessem encontrado uma razão nas palavras do Derek. Como se, embora ele nunca tivesse acreditado, aquela palavra fazia sentido saindo da boca do homem.
“O que foi?” Derek perguntou, sentindo a diferença no humor de Stiles.
“É que…” O garoto começou a falar, mas parou, suspirando. “Eu sempre fui chamado de herói, por um monte de pessoas. E você é a primeira delas que me faz sentir isso de verdade, como se eu fosse um… Como se eu fosse assim importante.” Stiles disse.
Derek o abraçou forte.
“Stiles, você é assim importante pra mim.” O homem sussurrou. “Não importa aonde eu vá, quanto tempo demore, eu vou voltar por você. Você faz a diferença na minha vida. Você é meu herói.”
Stiles tentou assentir e segurar as lágrimas.
“Stiles, eu vou voltar pra você porque eu não posso viver sem isso. Não posso viver sem seu toque, sem seu carinho, seu cheiro. Não posso.” Derek beijou o pescoço dele. “Por isso que eu vou voltar, okay?”
Stiles assentiu de novo, respirando fundo antes de falar.
“Eu vou esperar por isso, Derek.” O garoto falou, sussurrando também. “Eu vou estar abraçando o que vier — não que irei estar pronto, pois nunca vou estar. Vou sentir sua falta. Muito. Mas vou estar aqui esperando por você.” Stiles disse. “Se nossa vida tem um destino decidido, não importa quantas voltas a gente dê se no final das contas tudo for para seu lugar certo.”
“Você é meu lugar certo.” Derek disse, beijando o pescoço de Stiles mais uma vez.
E você é o meu.
*fim*
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