Herói

6 VI - Morte


Notas iniciais
Esse capítulo é meio que o início do fim da história - tem mais dois ainda pra vir. =D

A morte é provavelmente uma das coisas mais complicadas de se falar, escrever, descrever. A situação mais difícil de se retratar na forma de palavras, de se conseguir transformar em realidade, em algo palpável — mesmo que usualmente não se queira reviver tal coisa.

Ao mesmo tempo, a morte é uma das únicas situações da nossa vida que é a epítome da surpresa, do indesejado. Toda a aura da morte ronda nossa existência daqui e dali e chega sem avisar, sem sequer apontar no horizonte perante nossos olhos.

Mesmo assim, ela ainda é a nossa única certeza nesse mundo.

Podem dizer o que quiserem sobre o que cada um quer ser e fazer durante seus anos aqui na terra, sobre os planos e projetos que se tem, sobre como a pessoa quer ser alguém importante, quer ser parte de um movimento, de uma nova ideia, de um novo paradigma. Quer ser alguma coisa.

Podem pensar que a maior parte das coisas em nossa vida está decidida e fundada nas estrelas, que tudo que iremos viver já está escrito e pronto para passar pelo nosso presente, ou podem dizer que nós fazemos o nosso futuro e cada segundo é uma nova aventura, uma nova descoberta. Uma nova sensação.

Podem dizer maravilhas sobre tudo que nos cerca e tudo que nos pertence, podem dizer que seremos grandes ou que seremos perenes. Podem dizer que seremos o máximo ou que seremos apenas mais alguém, que nossa existência não importa ou que faremos a diferença em alguma vida.

Podem dizer o que quiserem, só não podem me dizer que nunca vamos morrer.

É a nossa única certeza.

E é a única coisa que faz a nossa vida ser do jeito que é, um mistério. E ser também o fator comum entre todos. Ser aquele detalhe que não se escapa pelas frestas e arestas, que não se exclui de um tipo de gente, de um tipo de grupo, de um tipo de pessoa.

É o fator comum.

Vamos todos morrer.

Não somos deuses imortais, não somos criaturas de criação divina, não temos características vindas de deuses, criadas com magia, feitas com poções ou maldições. Não somos diferentes dos outros corpos que vivem com sangue correndo nas veias.

E até em nosso mundo onde existem seres sobrenaturais, eles também são como nós.

Morrem como insetos sendo pisados, morrem como animais submetidos à condições extremas, vidas que são jogadas fora num piscar de olhos.

Todos morrem.

É aquilo que somos, aquilo que vem de dentro, do fundo do que nós temos. É o que nos impossibilita de diferenciar humanos de humanos, pois nesse patamar somos todos feitos da mesma coisa, vindos do mesmo lugar.

E vamos para o mesmo.

Não há como não esperar pelo que vai acontecer. Pelo nosso fim.

Claro que a morte não é exatamente aquilo que mais desejamos — e se fosse a vida seria uma coisa muito estranha já que nós iríamos passar a maior parte dela apenas querendo que ela terminasse, afinal, depois da morte não há mais nada e apenas se desejar o fim de tudo que somos é impensável.

Tudo se termina, no entanto.

E é complicado pensar que nada do que fizemos importa, porque nada vai mudar o nosso destino. Podemos adiar o inevitável, nos preparar para o que vai vir — pelo menos fazer o possível. Podemos tentar fazer estancar o sangramento, fazer o coração bater de novo, podemos chupar o veneno correndo na veia, dar um pedaço de nós para alguém, tentar fazer o pulmão continuar absorvendo oxigênio.

Mas não podemos enganar a morte. Não podemos escapar dela eternamente e nem pedir clemência, pedir outras chances. Não podemos fugir do que está escrito ou da nossa última forma de chegar ao fim.

E por mais que tudo pareça tão bonito nas descrições sobre como o nosso fim é a nossa única verdade, nossa única escolha, a realidade é bem menos romantizada que a filosofia da morte.

A realidade é abrasiva, suja, doentia. A realidade dói e derrama sangue por cima de você. A morte, quando aparece à nossa frente, nos marca, cicatriza feridas em vergas profundas, deixando elas gravadas em nossa memória. Deixa rastros em nossa pele, em nossa consciência. Nos deixa diferentes, mais curtidos, mais frios.

Nos muda.

E não importa o quando de proteção se tenha — nada nos prepara de verdade para a morte. Nem a de ninguém, muito menos a nossa.

Eu já tive meus encontros com ela, já perdi alguém importante, já vi essa pessoa desaparecer na frente dos meus olhos sem ter muito o que fazer. Percebi o mundo se esvair de cor e perder todo o brilho que tinha uma vez. A morte levou pedaços de mim, partes do que eu era, me deixando apenas com o que sobrou de pouco valor e com o que eu tive que me remontar a partir daí.

Foi difícil e eu não desejaria isso para ninguém, infelizmente o que eu desejo ou deixo de desejar não importa para a morte. Não importa.

Ela pega o que quiser, leva quem quiser, deixa o que deixar.

É a criatura do óbvio. A morte é óbvia, pois é a única coisa que nós podemos dizer que vai chegar e mesmo assim nós continuamos a tentar ignorar ela, continuamos a falar sobre ela, continuamos a reviver ela, continuamos a recontar o que ela faz, continuamos a contar os passos do que acontece e acontece e acontece.

De novo e de novo.

E se perder uma pessoa foi difícil, eu não consigo imaginar o que é perder uma família inteira, assistir eles queimarem até o último fio de cabelo, escutar os gritos de desespero de cada um, sentir o cheiro da carne em chamas. E depois ainda perder mais partes dessa família, ver elas se repartindo, se dilacerando, como se você estivesse perdendo membros do próprio corpo, como se estivessem arrancando tudo que você tinha, estripando cada pedaço de esperança no seu corpo.

E pensar que isso é verdade me machuca.

Eu não sei como Derek sobrevive.

Não sei como ele acorda pela manhã e não tem a vontade de terminar com o sofrimento dele na primeira respiração consciente que ele toma. Não sei como o coração dele continua batendo no peito, como ele continuar bombeando sangue pelo corpo, fazendo o homem viver todo dia e lembrar-se do que perdeu.

De novo e de novo.

É dor demais para uma pessoa.

E ninguém merece esse tanto de perda. Ninguém merece coisas assim serem tiradas das mãos como se fossem folhas de papel, perder as coisas mais importantes da vida como se elas fossem feitas de pó — e se existe alguém que não merece, esse alguém é ele.

O homem que continua a respirar mesmo depois de perder todos os motivos para sequer abrir os olhos.

Porém as coisas continuam acontecendo.

Tudo começou quando os Alfas ameaçaram Derek, disseram que iriam terminar com ele e com os lobos dele, que iriam matar os Betas que eram a família dele. Derek ainda tentou proteger os seus, tentou fazer com que eles fossem embora, se salvassem. Tentou fazer com que eles tivessem uma chance de correr enquanto ele arriscava a própria vida, enquanto ele dava a vida dele pela dos outros.

Não deu certo.

Aliás, deu mais que muito errado.

Primeiro com Erica, que foi morta antes mesmo de conseguir dizer um adeus para Derek.

E agora Boyd.

Boyd que foi morto pelas garras de Derek entrando no peito dele, tirando o ar dos pulmões dele e fazendo com que as últimas palavras do garoto fossem cuspidas em sangue para o rosto de Derek.

“Valeu à pena.” Ele disse.

Essas foram as últimas palavras do lobisomem. Últimas palavras do garoto que só queria um amigo só queria ter alguém. Ele só não queria ser sozinho de novo, continuar vivendo a sua vida como um ninguém.

Se para mim aquelas palavras quase fizeram meu coração sair pela boca e eu me perder no meio do vórtex dos meus pensamentos, enquanto eu via Derek não poder fazer nada, eu imagino o que aconteceu com o próprio Derek. Imagino como foi difícil matar seu próprio irmão, seu próprio aliado, o garoto que escolheu ser algo mais na vida, que queria ter amigos, que queria ter poderes.

Imagino como foi difícil terminar a vida de alguém que salvou você.

Matar alguém que você ajudou a criar.

Derek deu essa oportunidade para ele, deu uma nova família para Boyd. Deu novos ideias, novos poderes, uma forma nova de se sentir vivo. Deu um motivo para o garoto ser alguém — e ele aproveitou de tudo ao máximo.

E provou isso nas últimas palavras dele para Derek. Ele agradeceu ao homem por ter dado ao menos um pouco de vida para ele. Ele disse que tudo que Derek tinha feito por ele valeu à pena. Ele garantiu para ele que tudo estava perfeito agora, que as coisas estavam se encaminhando para algo melhor, mesmo que ele não pudesse mais desfrutar delas.

E nunca ninguém agradeceu Derek por ter feito alguma coisa.

Jamais alguém disse para o homem que ele fez algo de bom, que ele transformou alguma coisa em algo perfeito — e ele deu tudo aquilo para Boyd, ele transformou o garoto em mais do que um lobisomem, transformou ele em um homem, em família. Em um ser forte, quase invencível.

A primeira vez que alguém diz a Derek que ele finalmente fez uma coisa certa, que ele finalmente conseguiu completar algo, que ele realizou algo com sucesso, essa pessoa morre nos braços dele e prova que mesmo os monstros têm sentimentos, que mesmo os monstros morrem chorando.

Mesmo os monstros são capazes de amar.

Boyd amava não estar mais sozinho — agora ele poderia fazer companhia para Erica.

***

Stiles sentia o sangue nas mãos dele. Ele sentia aquele líquido vermelho escorrendo com calma por entre os dedos e pingando em gotas grandes no chão. Ele sentia o cheiro de ferrugem e quase conseguia provar do gosto do que pintava as mãos dele em vermelho.

Assim que o corpo de Boyd caiu no chão e Derek também, Stiles foi a única pessoa que correu para o homem, deixando todos os outros para trás, sem nem pensar se ele deveria ou não ir lá, sem nem colocar na cabeça qualquer ideia sobre perigo, sobre animais selvagens quando atacados, sobre nada.

Nada mais importava para ele senão o lobisomem que estava lá ajoelhado, perdido. Olhando para o nada. Nem mesmo Boyd importava daquele jeito para Stiles — ele já estava morto e não havia nada para se fazer por ele.

Derek?

Derek já tinha perdido tudo, e todo dia ele perdia um pouco mais da vida dele. Todo dia algo era arrancado dos braços do homem, estripado de seu corpo e jogado ao léu. E ele não tinha ninguém para segurar ele, não tinha. Não havia uma pessoa que pudesse chegar perto dele e dizer que ele estava seguro, que ele estava a salvo.

Bom, existe alguém…

Existe a mim.

Derek não tinha noção de nada do que estava acontecendo. Depois que os Alfas tomaram conta dele e fizeram-no matar Boyd, Derek se desconectou de si, perdeu a noção do que fazer, perdeu a noção do seu corpo e da sua força.

Foi a mão de Stiles no ombro dele que o trouxe de volta. A mão do garoto que o puxou de volta ao mundo, que o devolveu o pouco de controle que ele ainda tinha. O toque de conforto que ele proporcionou, a pequena faísca de esperança que parecia ter força de acender aquele fogo outra vez.

Ou pelo menos conseguir colocar um pouco de calor no coração gélido do lobisomem.

“Boyd.” Foram as primeiras palavras do homem, sussurradas, quase inaudíveis. A respiração de Derek era errática e o corpo todo tremia. Os olhos estavam vidrados no corpo estirado do que um dia foi apenas um menino.

A realidade se abateu sobre ele. Derek havia matado Boyd.

“Boyd…” A voz dele apareceu dessa vez, aguda, quase no ponto de explodir em um choro, de se fazer ouvir por entre paredes, impossível de se segurar. “Eu… Eu matei…” As lágrimas molhavam o rosto dele, caíam rolando pela pele, se misturavam à saliva que saía dos lábios. O lobisomem estava sem forças para dizer o que sentia.

Stiles apertou o ombro dele.

Derek respirou fundo antes de soltar seu pranto.

O corpo dele caiu para frente e ele colocou as mãos no chão para não se deitar no sangue. O choro era alto, permeado por gritos e uivos. O corpo se movimentava em impulsos que eram quase como choques se alastrando por ele. Era como se cada lágrima eletrocutasse Derek e fizesse-o tremer constantemente.

Os gritos dele eram o canto de um lobisomem que havia perdido alguém. O lamento de um lobo que perdia um pedaço de si, de uma alcatéia que via um irmão seu se esvair ao vento, se perder no meio da selva da morte. Todos sentiam o golpe — o Alfa era o que sentia mais, no entanto.

Derek chorava abertamente.

Stiles se ajoelhou do lado dele e colocou seu corpo por cima do de Derek.

Não haviam palavras para se dizer, não havia nada que pudesse sequer significar o que alguém precisava dizer naquela hora — não havia uma língua que pudesse convir tudo que precisava ser verbalizado naquele momento.

Então Stiles ficou em silêncio, ao contrário de todos os momentos que ele já havia passado.

Ele ficou em silêncio.

Ele ficou em silêncio porque não havia nada que ele pudesse dizer para Derek que iria fazer as cosias ficarem bem — e Stiles até se sentia mal por não conseguir algo do gênero, ele que sempre tinha as palavras como escravas dele e dessa vez não conseguia sequer abrir a boca.

Ele tentou, no entanto, usar o corpo dele para proteger o homem. Tentou fazer com que cada centímetro de pele se encostando os conectasse, tentou exprimir seu carinho por ele através do toque, através do contato.

Os dois ficaram ali por horas.

Pelo menos foi o que Stiles sentiu.

Ele se lembra de Scott e Isaac vindo pegar o corpo de Boyd, o rosto dos dois marcados por lágrimas já secas, marcas da perda. Os dois iriam levar Boyd para o mesmo lugar que Erica foi enterrada, junto das flores de acônito, no meio da floresta, num lugar onde todos os lobisomens poderiam se sentir como lobos pela eternidade, poderiam correr nos sonhos como animais e gritar para o mundo o que eles sentiam.

Eles iriam estar mais próximos da lua, como pequenas estrelas no céu.

Ele lembra do pranto de Cora, a garota que se sentia mais ligada a Boyd do que Derek, que passou meses num cofre de banco com ele. Stiles ouviu as palavras incoerentes dela. Lembra de ver Lydia tentando acalmar a garota, atirar seus braços em volta dos ombros que tremiam em meio ao choro de desespero.

Stiles tinha na sua mente as palavras repetidas por ela, as palavras que diziam o quanto ele era importante, o quando ele era especial.

Ele lembra de Jennifer rondando em volta dele, tentando chegar perto de Derek, mas se sentindo fora do lugar, se sentindo imprópria para o momento, como se ela não fizesse parte daquilo — e na mente de Stiles ela não fazia. Para Stiles ela não era ninguém, só estava ali por estar.

Ela também não importava, na verdade.

Derek estava nos braços dele e ele sentia que precisava segurar o homem o mais perto de si possível.

Quando não havia mais ninguém no apartamento de Derek, muito tempo depois, quando as luzes estavam apagadas e os únicos sons a se ouvir eram a respiração dos dois e os batimentos do coração no peito de cada um, Stiles decidiu que ele não poderia deixar o homem ali, não poderia deixar Derek sozinho no meio daquele caos.

Ele sequer conseguia se separar dele — Stiles sentia que se ele se distanciasse do homem ele não conseguia respirar, não conseguiria sobreviver.

A dependência era quase palpável com as mãos e Stiles tinha certeza que aquilo não era saudável.

Mas no momento em que ele viu o homem ser dominado e matar alguém que lhe era importante com as próprias mãos, Stiles não se importava mais com o que era saudável ou não para ele — Derek era prioridade.

E muito mais do que aquilo.

O homem era parte de Stiles, queria ele ou não.

Com passos calmos e cansados o garoto levou o homem até seu carro, usando o resto da força que tinha, tentando não deixar a cabeça vagar para os acontecimentos da noite com medo de que ele fosse se perder também.

A viagem para a casa de Stiles foi como um sonho, parecia longa e interminável, mas assim que ela chegou a um fim ele nem lembrava mais dela, parecia mais uma lembrança antiga. Alguma coisa que passou e não teve importância.

Ele adentrou a casa e levou Derek até seu quarto, colocando ele sentado na cama, tentando pensar na primeira coisa que ele deveria fazer. Stiles conseguia sentir que havia uma energia querendo que ele entrasse em choque e ele estava lutando com unhas e dentes para continuar funcionando direito.

Stiles não poderia se dar esse luxo.

O homem não tinha dito nada, ainda. O homem não tinha reagido — Stiles precisava reagir por ele.

“Derek?” Stiles perguntou, olhando para os olhos vazios de Derek.

Ele nada respondeu.

Stiles suspirou, balançando a cabeça.

“Eu vou… eu vou dar um banho em você.” Stiles pensou e falou, informando ele, ao menos.

Ele sabia que o homem nem iria se lembrar de muita coisa do que estava acontecendo, mas ele se sentia mais seguro em saber, para si mesmo, que ele tinha avisado Derek, que ele tinha dito que iria dar um banho nele, que teria que despir o homem.

Stiles não poderia deixar ele nas roupas rasgadas e com o sangue de Boyd respingado nelas.

O caminho até o banheiro foi rápido também, e Stiles abriu a fonte de água quente antes de despir Derek, sem nem pensar muito, tirando a camiseta e a calça e deixando ele só de cueca, nu e vulnerável. Bem no fundo, no entanto, o homem já estava vulnerável antes, com roupas ou sem.

Nada fazia muita diferença quando não haviam coisas para ele se preocupar — quando quase tudo havia sido tirado dele.

Quando a banheira já havia se enchido com um pouco de água, Stiles fez Derek sentar-se dentro dela, tornando rósea a água que era incolor, fazendo o sangue se raiar nela e espalhar-se em tons de vermelho fraco na louça branca do banheiro.

Stiles respirou fundo antes de se sentar na beira da banheira. Ele começou a passar suas mãos, com calma, por cada parte do corpo do homem, lavando os traços da noite que os dois tinham passado. Tentando fazer a água tirar qualquer coisa ruim e levar embora, tentando pedir que ela fizesse o homem se esquecer, lavar a alma dele.

Os ombros estavam tensos e Stiles os massageava com calma. Os braços tinham pequenas linhas desenhadas com sangue já seco, e ele as esfregava com as próprias unhas. Os dedos e unhas estavam avermelhados também e Stiles os esfregava em suas mãos. O rosto de Derek recebeu o mesmo cuidado pelo garoto, tentando limpar as marcas das lágrimas e do sangue.

O menino escutava apenas os sons da água respigando e a respiração calma de Derek enquanto trabalhava. Ele ainda tentava com o máximo das forças não entrar em choque e se perder ali.

Infelizmente o silêncio fazia qualquer outro som dentro da cabeça dele virar um grito. O silêncio trazia de volta tudo para ele.

Sem querer, naquele momento ele se permitiu chorar.

Deixando suas mãos em contato com a pele de Derek, tentando se ligar ao homem, tentando ter algum contato com o mundo dos vivo, Stiles fechou os olhos e deixou as lágrimas rolarem. Os soluções faziam ele tremer e dar pequenos saltos e tornavam o corpo dele em um amontoado de nada.

As lágrimas dele iam caindo na água avermelhada.

“Desculpa, Derek.” Stiles disse, voz embargada. “Desculpa por não poder fazer nada, por não poder te salvar. Me desculpa por deixar que mais alguém morresse — mais alguém morresse nas suas mãos sem eu poder fazer nada. Parece até que foi nas minhas mãos, parece que fui eu quem…” Stiles suspirou, tentando parar as lágrimas.

Ele não conseguiu.

“Eu nem sei o que pensar de tudo isso. Mais uma vez você não tem culpa de nada, mais uma vez as circunstâncias fazem com que você seja o culpado das coisas que você não fez. Mais uma vez tudo cai em cima de você, o mundo despenca nos teus ombros e ninguém está lá pra segurar a tua mão.” Stiles soluçou, apoiando sua mão no ombro de Derek. “Às vezes eu gostaria de poder voltar tudo no passado, antes do incêndio, antes de tudo de ruim acontecer na tua vida — eu gostaria de poder voltar pra trás e fazer tudo que aconteceu de errado não acontecer, queria poder impedir essas coisas.” Stiles suspirou. “Eu não consigo entender porque isso acontece com você. Não consigo.”

Stiles fechou os olhos e sentiu a cabeça de Derek se encostar-se aos joelhos dele ao mesmo tempo em que os braços do homem abraçaram as pernas dele.

“Eu também não sei…” O homem sussurrou.

E aquilo quebrou Stiles mais ainda. Era como se o Alfa, o lobisomem com toda a força do universo, aquele que pode salvar a todos fosse uma pequena criança indefesa, fosse uma pobre criatura que não tinha para onde ir, não tinha onde se esconder.

Era como se ele fosse um nada.

Stiles abraçou Derek.

“Eu queria poder te salvar de tudo isso.” O garoto falou. “Eu queria poder apagar todas essas coisas horríveis da tua memória e colocar só coisas boas. Queria fazer o mundo parar de girar, se isso significasse que nada de ruim iria acontecer com você. Eu queria, queria sim…” Stiles disse, tentando respirar fundo por entre os soluços.

Ele encostou a cabeça dele na de Derek.

“Eu também.” Derek respondeu, em sussurros. “Eu também…”

***

Desde o primeiro momento que eu vi ele eu sabia que alguma coisa iria mudar na minha vida.

Eu sabia.

Não que eu tivesse essa certeza de que aquele homem seria parte de mim — eu vi Derek tentando ser ameaçador, mesmo que ele mais parecesse um cão sem dono. Eu vi ele tentar parecer mau e bravo, mas ele não passava de um lobinho sem ninguém, não passava de um pobre coitado que não tinha por onde começar a consertar a vida dele.

Eu não fazia ideia de como ele entraria de fato na minha vida — e tudo que fala sobre nós dois é inesperado e acontece sem eu ter ideia, mas antes dele fazer parte de mim ele precisaria fazer parte dele mesmo.

E ele descobriu como.

Ele descobriu uma forma de conseguir uma família nova depois que ele perdeu a dele. Ele juntou três jovens que estavam perdidos no mundo, jovens que não tinham família, que não tinham amigos, que sofriam ameaças e poderiam morrer a qualquer hora. Ele escolheu os mais fracos, aqueles que foram fracos como ele, um dia, para transformar nos fortes, para dar poder, para fazer deles as criaturas que as histórias de crianças contavam para eles.

Histórias que diziam como os humanos tinham poderes de lobos, como eles ganharam dons que vieram dos deuses e da lua.

Dons que todos ganhavam, assim como ele, quando criança.

Mas mesmo sendo um lobo, ele era mais do que apenas aquele animal. Ele não era apenas uma criatura valente e que poderia correr pelas florestas e lutar contra qualquer perigo — Derek também tinha seu lado sensível, seu lado puro: ele era como uma fênix — um pássaro lindo e vistoso, mas delicado. Tinha seu lado forte e tinha seu lado frágil, e assim como o pássaro, Derek teve que pegar fogo e se transformar em cinzas para depois ressurgir.

E foi o que ele fez. Várias vezes.

Ele ressurgiu das cinzas pela primeira vez quando ele ainda era uma criança, quando ele perdeu o primeiro amor da vida dele para a vida dos lobisomens — quando Paige morreu nos braços dele, quando ele ainda era ingênuo e tinha os olhos amarelos, dourados como o ouro.

Após aquela primeira vez ele perdeu a cor da inocência e seus olhos ficaram azuis, frios. Os olhos dele se tornaram a marca da primeira vez em que ele pegou fogo. A primeira vez que ele perdeu tudo na vida dele.

Agora os olhos azuis eram só uma das cicatrizes.

Então o tempo passou e ele achou que iria conseguir continuar sua vida simples de lobisomem. Achou que iria obedecer a sua Alfa, a mãe, achou que iria ser um jogador de basquete famoso e virar um garoto promissor. Achou que tudo iria ficar bem e ele iria ser alguém normal.

Tudo mudou quando Kate apareceu, transformando a vida dele, virando tudo de cabeça para baixo.

Chegou a mulher forte e mais velha, que mostraria para Derek um novo caminho, uma nova forma de amar, um novo jeito de ele viver. Uma nova forma de carinho, um carinho que ele nunca havia sentido — ela não era pura como Paige, ela era como o fogo que poderia queimar ele, ela era forte e cheia de fibra. Uma mulher difícil, mas incrivelmente sedutora.

Derek se deixou navegar naquelas águas turbulentas.

E quase se afogou.

Kate foi a chama que queimou ele pela segunda vez — ou melhor, a chama que queimou tudo ao redor dele, menos Derek.

Ela terminou com tudo na vida dele. Deixou a casa dele em cinzas, o lugar que ele nasceu e cresceu, o ninho de todos os lobos que faziam parte da família dele. Ela queimou um por um dos parentes dele, os primos e tios que tinham seu lugar especial no coração dele, os avós, os amigos. Os humanos. Ela queimou todos. Todos.

Ele perdeu os pais e a paz.

A fênix dentro dele pegou fogo também.

E depois de um tempo, a fênix ressurgiu outra vez — com mais dificuldades, com mais cicatrizes, mas de alguma forma mais forte, mais dura na queda.

Ele ganhou uma nova Alfa e um tio em coma no hospital.

Infelizmente ele não teve tempo de se refazer de novo antes de alguém matar a irmã dele, de matar outra parte dele — e ele descobrir que o próprio tio fez aquilo.

Peter foi a faísca que queimou ele dessa vez. Que ateou fogo na pequena paz que Derek tinha e fez a fênix se desfazer em línguas ardentes.

Quando Derek ressurgiu das cinzas ele não tinha mais os olhos azuis — dessa vez ele tinha os olhos vermelhos.

Ele era um Alfa.

Ele era um líder, a parte mais forte de qualquer lobisomem. Ele era tudo — mesmo que não soubesse nem por onde começar a ser o que era esperado dele.

Derek montou uma nova família, montou do nada um grupo de pessoas que não tinham nenhuma relação e fez eles se aproximarem. Derek usou seus poderes e seus olhos vermelhos para trazer três jovens para perto dele.

E tudo quase foi perfeito.

Mas veio a vida e acendeu a faísca mais uma vez.

Derek pegou fogo e voltou às cinzas.

E ele continuou voltando à elas. Continuou se perdendo no meio do nada.

De novo e de novo.

Era como se sem nem ele perceber o fogo nunca morria nas penas dele, o fogo sempre estava pronto para se alastrar repentinamente e jogar ele de volta ao chão.

O fogo faria Derek voltar ás suas raízes — ou melhor, o fogo fez ele nunca se afastar do ninho.

Derek era uma fênix, forte. Ele era um pássaro que poderia voar para o longe, poderia ser livre, mas escolheu ficar ali. Ele escolheu ficar perto da sua família — e do cemitério que crescia mais e mais a cada estação.

Ele não podia mais voar para longe dos membros que haviam sido rasgados do corpo dele, das penas arrancadas. E ele nem sabia se teria forças para ressurgir outra vez.

Ele não sabia mais se sequer tinha forças para viver.

Ele ainda não sabe.

Ele não sabe se consegue passar mais um dia sob esse sol, sobre essa terra. Não sabe se ele ainda consegue respirar esse ar e deixar seu coração bater no peito. Ele não sabe se tem a força necessária para ficar entre os vivos.

E eu acho que às vezes ele não tem essa força, por isso eu não quero deixar que ele faça essa descoberta, de verdade.

Não que ele não possa ter a força, entende? Só que ele é tão frágil por dentro, ele tem tantas partes quebradas, que muitas vezes as pessoas não entendem, as pessoas não conseguem enxergar. Não vêem quem ele é, o que ele tem por dentro, o que ele sofre. Não conseguem admitir que um lobo possa ter perdido tanto e assim mesmo continuar vivo como ele.

E eu não quero o deixar descobrir o fim da força dele, encontrar as fraquezas com por si próprio.

Ele já sofreu demais...

Ele já sofreu demais.

Eu sei que não sou herói para salvar ele, eu sei. Não tenho a força física para segurar ele em pé, para não deixar ele se machucar e o proteger contra qualquer mal que venha ao encontro do homem.

Eu sei que não posso.

Mas eu vou estar do lado dele, vou estar segurando a mão dele com a minha, vou estar andando na frente dele e guiando seus passos dele.

Se eu puder, vou estar sempre do lado dele.

E se não puder guiar ele pelo caminho seguro, vou tentar segurar ele quando cair.

E ainda se não conseguir segurar eu cairei junto, ponho ele nos meus braços e me arrasto até achar um lugar seguro.

Se existe alguém que me faz querer o heroísmo, esse alguém é ele.

Eu não posso voar, não posso lutar, não posso ganhar.

Mas não vou deixar ele perder.

Não vou.

Posso até dizer que o sarcasmo é minha única defesa — mas por trás daquilo eu tenho a mim e tudo o que eu sinto por ele.

Eu tenho a mim.

E tenho ele comigo.