Herói
5 V - Traição
Notas iniciais
Existem muitas coisas ruins que podem acontecer em nossa vida. Podemos nos tornar superficiais, perder nossa memória, não ser mais tão bonitos quanto éramos, não conseguir sair da uma fantasia ruim dentro de nossa cabeça, esquecer de alguém importante ou ser esquecido por alguém...
Sofrer por alguma coisa que não fizemos.
Sentir dor.
Coisas ruins.
No entanto, eu acho que a pior coisa que pode acontecer para alguém, fora a morte e a dor, é a traição.
Pelo menos é o que eu acho.
Se bem que, pensando mais a fundo, talvez a traição seja pior ainda.
Se for possível você conseguir imaginar que a morte e a dor não sejam tão ruins quanto elas são de verdade.
A morte é ruim, é o fim de alguma coisa que nós amamos, de alguma coisa que precisamos, de alguém que faz a diferença em nossa vida — ou também de alguém que nós precisávamos ter por perto. A morte é o ponto final na longa linhagem de uma pessoa, é a última parada, a última coisa que vai definir tudo, que vai mudar tudo.
A morte termina o que nós começamos, põe bloqueios no meio de nosso caminho, nos impede de seguir — ou impede alguém que nós conhecemos de seguir ao nosso lado. A morte é o fim.
A dor?
A dor é o sofrimento. Cada segundo que passamos sentindo dor até parece que estamos morrendo — mas nunca chegamos ao fim de verdade, esse sofrimento fica se arrastando e se arrastando até nós não conseguirmos mais respirar direito.
A dor no separa de algumas coisas, muda nossos caminhos, não nos impede totalmente de fazer algumas coisas, mas nos faz mudar de ideia, mudar de estratégia, desistir em algum ponto do nosso caminho. Mudar quando não queremos.
Então vem a traição, que se formos pensar é uma mistura de um pouco de morte e um pouco de dor.
Quando alguém trai nossa confiança, trai nossas expectativas, nossa fidelidade, isso nos machuca, não de uma forma superficial e capaz de curar em alguns dias, essa dor nos acompanha pelo tempo. Anos às vezes.
Alguém nos trai e parece que queremos morrer, alguém nos troca, brinca com nossos sentimentos, brinca com nossos desejos.
Como se fossemos um nada.
A traição é o fim de alguma coisa, assim como a morte, e deixa rastros em nós, como a dor.
Eu não posso dizer que sou um especialista em entender as pessoas traídas, mas posso afirmar que sei como elas se sentem — eu me sinto traído.
Eu me sinto deixado de lado, parece a mim que as coisas que aconteceram nos últimos dias foram um sonho ruim no meio das coisas boas — no entanto é exatamente o contrário, eu só estava em um sonho bom que passou e as coisas ruins tomaram conta da minha vida, de onde nunca parecem querer sair.
Eu sinto que muitas das coisas que fiz, que falei, a forma como me abri para ele, tudo foi em vão.
Minha relação com Derek não é exatamente a coisa mais normal que pode existir entre duas pessoas, é uma relação diferente, uma coisa experimental que ambos tentamos fazer funcionar e perseverar, apenas na expectativa de ver acontecer algo bom, algo que fosse nos tirar do meio do buraco negro, que fosse nos dar uma razão para seguir em frente.
Ou pelo menos era o que a minha cabeça pensava.
Agora tudo parece ser apenas um sonho que eu tive.
Era uma tarde como qualquer outra em que eu estava vivendo a minha vida — desconsiderando a aura de perigo nos rondando a todo momento, esperando apenas por um descuido nosso antes de alguma coisa ruim acontecer, antes de algum corpo aparecer outra vez em algum lugar da cidade e alguma pessoa que não fizesse ideia do que estava acontecendo visse e começasse a gritar.
Era uma coisa quase fadada a acontecer.
Eu estava tentando ter um pouco de normalidade, andando pela cidade e comprando alguns doces e coisas normais que qualquer jovem faz — a não ser que eles vivam em uma cidade onde tudo é sobrenatural e sempre tem alguma coisa que acaba com a sua diversão, do nada. Eu estava tentando ser como um deles, tentando ser normal. Nem sempre funcionava.
Tentar ainda era válido, no entanto.
Tudo parecia normal, naquele momento. Nada havia acontecido em duas semanas, as coisas caminhavam no seu ritmo e tudo ia seguindo como deveria seguir. As coisas iriam acontecendo como o universo havia escrito — ou seja, lá quem estivesse no comando das coisas.
Por isso mesmo que eu esperava pelo que se passou na frente dos meus olhos. Eu já sabia que algum dia isso iria acontecer, afinal, nada na minha vida é maravilhoso assim e no fim das contas todos conseguem as coisas, menos eu — mas doeu demais ver o Derek sorrindo para outra pessoa. Sorrindo os mesmos sorrisos que ele sorriu pra mim.
Sorrisos que eu achei que fossem só meus.
Doeu o ver andando de mãos dadas com alguém, olhando para ela como se o mundo girasse em torno dos lábios dela, como se tudo fosse perfeito quando ele se fixasse naqueles olhos, naquelas mãos, naquela pele.
Em Jennifer.
Minha professora de Inglês.
Eu fiquei estarrecido vendo os dois brincando de namorados no mercado. Parecia a coisa mais normal do mundo, certo? Dois adultos, solteiros, vivendo a vida que lhes é permitida viver. Não havia problema nisso, certo? Não havia motivos para o que eles estavam fazendo ser uma coisa errada. Não havia nada que impedisse essa felicidade que parecia estar exalando de cada poro da pele dos dois.
Pra ninguém, provavelmente. Não haveria uma alma viva que consideraria aquilo uma coisa ruim, uma coisa errada.
Exceto eu.
Eu achava que era uma coisa errada. Uma coisa ruim. Eu achava.
E eu nem sabia direito o que estava acontecendo.
Nós havíamos brigado com os Alfas, semanas atrás. Ou melhor, os lobisomens os enfrentaram. Depois disso nos tivemos uma fatídica viagem para um jogo de lacrosse que nunca aconteceu, nos deixando em um hotel assombrado por algum tipo de espírito que queria nos matar. Foram dias malucos em que nada mais fazia sentido.
Então tudo parou.
Do nada, tudo voltou ao normal.
Nada mais de encontros com os Alfas, nada mais de hotéis assombrados, pessoas querendo matar as outras. Nada de perigo. A vida tinha voltado à sua normalidade, como se nada ruim tivesse acontecido.
E tudo parecia estar em seu lugar.
Até o momento em que eu vi os dois andando junto, um ao lado do outro.
E meu coração parou no peito.
Era uma coisa meio estúpida de se dizer, certo? Eu não era nada do Derek, as noites que cuidei dele, que eu o deixeiele ficar na minha cama, encostando-se a mim, procurando conforto. As roupas que emprestei a ele, o jeito que deixei tocar em mim e como eu sentia a pele dele na minha.
O modo como os lábios dele se encaixaram aos meus…
Nada daquilo importava.
Pois ele fazia um casal perfeito com ela e eles estavam ali, deixando todas as pessoas verem eles juntos. Eles estavam telegrafando a felicidade deles com pequenos toques, sorrisos perdidos, olhares e beijos.
E eu podia ver eles também, eu conseguia ver essa felicidade no olhar deles.
Eu quase fugi do mercado quando eu vi os dois rindo na fila do caixa.
Ela não viu que eu estava ali, e não havia motivos para ela me ver, também.
Derek me viu.
Os olhos dele se arregalaram e ele sussurrou meu nome para seus próprios lábios.
Eu só sacudi minha cabeça, dizendo um não para ele e para mim, antes de sair dali.
Eu não conseguiria ficar ali.
Eu só saí e nem olhei para trás.
***
Stiles. Loft. Agora.
O garoto olhava para o telefone dele, não querendo acreditar no que ele estava vendo. As letras se iluminavam na tela mostrando a mensagem que Derek havia mandado pra ele cinco segundos atrás. Ele não estava impressionado com a mensagem, na verdade, mal comovido ele estava. Depois de ver ele e Jennifer juntos naquela tarde, Stiles não conseguia nem enxergar a cara do homem nos próprios pensamentos.
Parecia um comportamento de criança — mas Stiles não poderia se importar menos com o que qualquer um fosse achar sobre o comportamento dele. Naquele momento, ele não queria ver o Derek e só.
O garoto sabia que eles não tinham nada decidido entre os dois, que não havia um relacionamento de verdade, que não existia nada de outro mundo entre os dois homens — mesmo assim era complicado pra ele imaginar qualquer coisa sobre Derek após ele ter visto a forma carinhosa com que ele segurava a mão dela, a forma como ele olhava apaixonado para a mulher.
Uma mulher da idade dele, uma mulher pronta pra ele. Mais bonita, carinhosa, que não era desastrada e inexperiente como o Stiles. Se bobeasse ela era ainda mais forte que ele, já que Stiles… Bem, Stiles não era a epítome da força.
Ele balançou a cabeça, respirando fundo antes de olhar para a mensagem de novo, tentando se concentrar apenas nas letras e no pedido de socorro do homem, tentando esquecer qualquer outra coisa que pudesse influenciar as decisões dele.
Stiles viu Derek olhando para a mulher com um olhar apaixonado. Mas ele viu também o jeito que o homem virou os olhos para o garoto, o desespero escrito na cara dele quando Derek percebeu que Stiles tinha visto toda aquela troca de gentilezas.
Era como se Derek estivesse em dúvidas se ele continuava com Jennifer ou se ele a deixava no meio da fila e corria para o garoto.
Mas é claro, eles não tinham nada de mais entre eles dois, não havia um acordo sobre o que eles eram — e eles nunca haviam falado sobre isso, então não havia um motivo para Stiles querer cobrar alguma coisa de Derek.
Mesmo assim, não era fácil ele ver os dois juntos brincando de casal feliz enquanto o Stiles tinha que pensar sobre os Alfas em Beacon Hills, sobre Darach fazendo seus sacrifícios, sobre o fato de que a qualquer momento alguém poderia morrer e esse alguém poderia ser ele mesmo.
Stiles não sabia se deveria ir para o loft e ver o que Derek queria ou se ele deveria ficar em casa e ignorar o homem por uma noite, pensar apenas em si mesmo e deixar que ele ficasse sozinho — e por mais que essa ideia parecesse muito boa para o cérebro dele que queimava em frustração, ele não conseguia para de pensar em Derek e no jeito que a mensagem parecia urgente, no jeito que ela parecia um pedido importante, quase implorando por alguma coisa.
Droga, droga, droga.
Eu não acredito que eu vou fazer isso, mas eu vou.
Ele balançou a cabeça, respirou fundo e olhou para as chaves do Jipe, ali sentadas na mesa dele.
Eu não quero ir.
Eu preciso ir.
Eu não devia. Eu não…
Ele precisa de mim. Ele quer que eu…
Ele precisa de mim.
Stiles ainda bufou mais uma vez antes de pegar as chaves e sair sem olhar para trás. O quanto antes ele fosse, menores eram as chances de ele se arrepender pelo meio do caminho — ou menores eram essas chances de ele ter tempo de se arrepender de qualquer coisa.
A viagem foi rápida.
Mais rápida do que o costume — e mais rápido do que até uma emergência pedia, mas Stiles precisava chegar lá antes de parar pelo meio do caminho.
Por mais que ele estivesse se sentindo traído, estivesse doendo por dentro, a ligação que ele sentia com o homem era mais forte, maior, mais poderosa. Ele não conseguia ignorar ela, não conseguia colocar ela de lado e analisar as coisas de outra forma.
Ele só precisava chegar lá e ver o homem.
O carro ia loucamente pelas ruas e Stiles nem se ligava se ele atropelasse uma lata de lixo ou espantasse qualquer pessoa que estivesse na rua àquela hora da noite.
Assim que ele parou em frente ao prédio de Derek e desligou o carro, o som do coração dele inundava tudo ao seu redor, se misturando com a respiração ofegante — parecia que ele havia corrido a distância entre a casa e o loft.
Ele não queria nem dar o primeiro passo para fora do veículo.
Eu não deveria ter vindo aqui. Eu tinha que ter ignorado a mensagem, tinha que ter ignorado ele.
Tinha que ter ignorado tudo.
Agora…
É tarde demais.
Stiles sacudiu a cabeça no momento que ele começou a correr para o prédio. Ele nem viu as escadas nem o elevador, ele só fez o mais rápido que pode para subir, e subir e subir. Ele queria chegar logo.
E ele chegou.
De cara com a porta de correr, Stiles ainda duvidava de tudo que estava acontecendo, duvidava das próprias escolhas e ações.
Ele queria e não queria.
Era parte dele se perguntar sobre tudo, duvidar das coisas que faziam parte de quem ele era, do que formava ele, do que havia no fundo do coração do garoto.
Assim como era parte dele se deixar levar por alguma coisa que cavasse um buraco no coração dele, se deixar sentir as coisas de uma forma profunda no coração dele. Se deixar levar por alguém que gostasse dele. Deixar que alguém achasse um jeito de quebrar as barreiras e se transformar em uma parte dele.
Da mesma forma que Derek tinha feito.
Ele respirou fundo e abriu a porta, tentando empurrar ela do jeito mais forte.
A visão que ele teve do apartamento fez o ar ficar engasgado na garganta dele.
Derek, ajoelhado no chão, de costas para um dos pilares da sala em que ele estava. Em volta do homem, correntes no chão, espalhadas. O olhar do lobisomem era perdido, apenas fixado no garoto que estava na porta.
Lágrimas pintavam o rosto de Derek.
E uma voz baixinha, sussurrante, foi ouvida por Stiles.
“Por favor…” Disse o homem. “Por favor…”
As palavras chegaram aos ouvidos do garoto como um soco na boca do estômago — por mais que elas fossem quase inaudíveis, os choros de misericórdia vindos de Derek o fizeram perder o chão, perder as forças. Fizeram ele se esquecer de si mesmo. Os olhos perdidos do homem continuavam presos a ele.
Stiles não sabia o que fazer.
Derek suspirou.
“Stiles, por favor.” O homem falou, correndo o olhar por sobre as correntes.
O garoto sacudiu a cabeça, tentando negar a si mesmo o que ele não deveria fazer. Ele sabia que não deveria ir ajudar Derek, sabia que não deveria colocar as correntes em volta dele, outra vez. Sabia que se ele quisesse esquecer o homem, fazer o coração dele parar de doer, Stiles teria que dar de costas e ir embora, ir pra longe.
Tentar esquecer o homem através da distância.
Ele sabia que teria que fazer tudo aquilo se ele quisesse curar o coração dele.
Ele sabia.
Mas isso não significa que eu consigo.
Eu não consigo.
O garoto correu da porta até o homem e se jogou de joelhos no chão. Em segundos ele conseguiu se movimentar do lugar onde ele parecia estar colado ao chão para jogar seus braços ao redor de Derek e apertar ele contra o próprio corpo, abraçar ele com todas as forças que tinha.
“Eu sei que eu não deveria estar aqui.” Stiles falou. “Eu deveria deixar você sofrer, Derek. Eu deveria, sim.” Ele falou, apertando ainda mais forte o corpo do homem contra o dele. “Mas eu não posso. Eu não posso te deixar.” Stiles deixou algumas lágrimas caírem. “Eu não posso te deixar, seu idiota.”
A raiva estava à flor da pele dele, mas a sensação quente do corpo de Derek colado ao dele fazia grande parte dela se transformar em outra coisa. Uma coisa que Stiles nem sabia o nome ainda.
A cabeça do homem se encaixava direitinho entre o ombro do garoto e a cabeça dele. As mãos dos dois conectavam os corpos e os corações deles batiam forte em seus peitos.
“Por favor, Stiles. Por favor…”
Derek só repetia as mesmas palavras. Ele parecia desesperado por aquilo, parecia que o único jeito de conseguir sobreviver seria se ele deixasse Stiles acorrentar ele, como eles fizeram da outra vez, meses atrás.
Parecia que o único jeito de conseguir se perdoar era se prender era fazer com que a exaustão tirasse a culpa do peito de Derek.
Stiles respirou fundo.
“Eu não devia, Derek. Não…” Stiles falou. “Mas por você… por você eu faço… Eu não sei por que, mas eu faço.” Ele apertou o homem mais uma vez antes de soltar do corpo dele e se sentar nos calcanhares, olhando para o lobisomem à frente dele.
“Por favor, Stiles…” Derek sussurrou mais uma vez.
O garoto olhou mais uma vez para o corpo extenuado do homem à frente dele antes de se levantar.
Stiles se endireitou e olhou para o teto, como se ele estivesse pedindo forças de algum lugar do além. O garoto suspirou, sacudindo os ombros e tentando relaxar, antes de olhar para o chão de novo e inspecionar tudo que estava à mão dele.
Correntes aos pés.
E muitas.
O suficiente para prender Derek.
Ele olhou para o homem, respirando fundo antes de falar.
“Derek, eu quero que você coloque suas costas contra o poste. Agora.” Stiles falou, tentando colocar o máximo de controle na voz, tentando não se submeter à própria agonia e conseguir comandar o lobisomem à frente ele.
O homem obedeceu, se arrastando um pouco para trás, sentando nos calcanhares e encostando as costas onde Stiles havia o mandadoele encostar.
O garoto se abaixou e pegou na primeira corrente, sentindo o contato do metal frio com os dedos quentes dele. Sentindo como a substância dura e gélida se comportava contra a superfície da pele dele.
Era como se tudo estivesse voltando ao começo. Como se tudo estivesse de volta à estaca zero.
Muitas semanas atrás, quando Stiles acorrentou Derek pela primeira vez ao poste, quando ele descobriu a força prazerosa que o poder causava no corpo dele e como era bom ser capaz de comandar alguém, de ter o controle sobre alguma coisa, ele descobriu como aquilo fazia ele se sentir importante.
Ele conseguia lembrar cada aspecto daquela noite. Via na sua cabeça a raiva de Derek em não conseguir se controlar e quase ter machucado Stiles, a força que o homem teve que exercer sobre si mesmo para não o fazer de novo, como os dois se comportavam um ao redor do outro e a mudança na dinâmica deles quando as forças trocaram de eixo, quando as coisas começaram a ser sentidas de maneiras diferentes.
Stiles via um mundo novo se abrindo para ele — um mundo onde ele teria poder, onde o conquistaria aos pouco, iria conseguir ser o dono de si mesmo, ser alguma coisa importante.
Ser alguém de verdade.
Agora, no entanto, ele apenas se sentia traído.
A adrenalina correndo pelas veias dele enquanto ele ia correndo as correntes em volta do homem, prendendo ele numa prisão onde as circunstâncias formavam as barras ao redor dele, Stiles não sentia mais o controle fluir pelas veias dele. Ele não sentia mais o poder que o fez importante, não se sentia como uma pessoa digna.
Ele se sentia um nada.
Quando ele acorrentou Derek pela primeira vez, ele o fez para proteger o homem de si mesmo, não para se proteger. Ele fez para ajudar Derek a se entender consigo mesmo, a fazer o homem usar a própria cabeça, fazer o homem se aceitar do jeito que ele é e nunca vai mudar.
As correntes foram um metal condutor de energia entre os dois, fez com que eles se estabilizassem.
Agora, as correntes eram punição.
Era uma punição para Derek, querendo se machucar por ter se esquecido de Stiles, querendo se proibir de fazer o que ele estava fazendo. Era um jeito de Derek pedir desculpas para si mesmo por cair por uma pessoa que nada tinha feito por ele e deixar o garoto de lado.
Eram punição para Stiles, pois ele tinha que prender o homem contra a vontade dos dois. Eles queriam fazer aquilo, mas no fundo nenhum queria também. Stiles sentia dor quando via o jeito como o lobisomem estava, sentia dor quando ele fechava mais um dos cadeados que seguravam as correntes.
Ele não conseguia ver tudo aquilo como uma forma de melhorar alguma coisa.
Era apenas punição.
E doía nele saber que ele estava punindo Derek, que era ele quem estava fazendo aquilo. Que por mais que o homem tivesse pedido, era Stiles o motivo de tudo. Ele era o motivo de Derek se sentir culpado, pois ele tinha sentimentos que não conseguia aceitar pelo garoto, era culpa dele que o homem agora estava em agonia por ser acorrentado.
Era culpa dele que ele era humano e não poderia lutar contra Derek. Disputar com ele. Tendo que recorrer às correntes como forma de punição.
E ainda dizem que eu sou um herói.
O último cadeado fechado fez o barulho mais forte. Ele sinalizou o fim do trabalho de Stiles e o início da espera. Quando tempo Derek teria que ficar daquele jeito para se perdoar? Quando tempo Stiles teria que ver o homem daquele jeito para perdoar ele?
Stiles não sabia.
Ele nem sabia o que fazer naquele momento, na verdade.
Ele nem sabia como seguir ou de que maneira proceder a partir dali.
Ele não sabia.
O lobisomem suspirou.
“Stiles me desculpa.” Derek disse voz saindo raspada da garganta dele, como se ele tivesse sufocado ela ali. “Me desculpa.” Os olhos dele estavam colados ao chão.
“Desculpar do que, Derek?” O garoto disse rápido, cuspindo as palavras. Até ele se surpreendeu com a rapidez que ele respondeu a pergunta e a raiva que havia aparecido nele — realmente ela estava quase saindo pela pele dele.
“Me desculpa…” Derek falou de novo, sem completar a frase.
Stiles suspirou.
“Eu não sei do que supostamente eu tenho que te desculpar Derek.” O garoto começou a falar se virando de costas para o homem e saindo a caminhar devagar pela sala. “Eu não sei se eu devo te desculpar por encontrar uma pessoa que você gosta, quando na verdade você é livre para encontrar uma pessoa que te faça feliz. Eu não sei se te desculpo por me trocar, mas na verdade você nunca foi meu, eu nunca fui seu, você nunca me deixou de lado e nunca me trocou — pois nós nunca fomos nada!” Ele jogou as mãos para o alto e gritou a última frase, tentando fazer ela se gravar pelo ar, tentando fazer ele próprio entender aquilo.
Derek protestou.
“Stiles, não, eu...” Bom, ele tentou, mas também não sabia pelo que protestar. Os dois estavam presos as palavras não ditas entre eles, presos às verdades que eram verdade apenas dentro da cabeça de cada um, mas que nunca chegaram a ser verdade para o ar, para o mundo, para eles como uma coisa só.
Cada um tinha a sua versão dos fatos em suas cabeças e por mais que elas fossem muito parecidas, ou até as mesmas, ainda eram duas versões diferentes. Eram duas.
Stiles falou exatamente aquilo.
“Derek, nós temos duas versões de nós dois. Duas versões dessa história — e as duas são diferentes. Nunca houve nada que juntasse elas.” O garoto suspirou, parando de caminhar e se virando para Derek. “Nós achamos que tudo estivesse perfeito.”
E nada estava.
“Mas eu ainda… Não sei por que, eu…” Derek tentou falar, mas a voz não saía dele. Era como se ele nem soubesse direito os motivos que fizeram ele sair com outra pessoa, como se tudo fosse um mistério para a própria cabeça dele. Como se ter as duas pessoas, de maneiras diferentes, fizesse sentido para o homem.
Mas não fazia sentido para Stiles.
“Derek, a gente nunca disse que teria que haver fidelidade, ou seja lá o que for entre nós. A gente nunca planejou isso. Eu não posso te pedir nada sobre nós, porque não existe um nós!” Ele levantou a voz ao chegar no fim da frase. “Não existe nada de tudo isso que a gente viveu nos últimos meses, não existe nada no beijo que você me deu ou no modo como as nossas mãos se tocaram. Não existe nada nos gestos que fizeram a gente se aproximar, assim como não existe nada em cada palavra que eu falei pra você e você falou pra mim. Não existe nada no modo como meu coração pula no meu peito cada vez que eu te vejo ou o jeito como eu senti a tua respiração se misturar com a minha.” Stiles parou e respirou fundo. “Não existe nada no jeito como o teu corpo se encaixa perfeitamente no meu quando a gente dorme junto. Não existe nada. Nada. É tudo uma invenção da minha cabeça e da sua cabeça. É só uma invenção. É só…” Stiles parou de falar no meio da frase, olhando para o rosto do homem.
Lágrimas corriam pela pele dos dois.
“Derek, por que nada disso existe, então?” Stiles perguntou, tentando entender a si próprio. Ele não queria saber se tudo era verdade ou mentira — mesmo que ele soubesse que tudo que eles viveram era verdade, e Derek soubesse do mesmo.
Era como se ele estivesse listando tudo que fazia os dois fazerem sentido, mas cada coisa parecia mais mostrar como eles estavam longe. Tudo que ele disse só mostrava como um fazia sentido para o outro, como eles ficavam perfeitos juntos, mas na mente de Stiles mais parecia que aquilo era uma maldição.
Se tudo isso aconteceu, se tudo isso é verdade e ta gravado na minha memória, por que nada disso existe?
“Simplesmente porque existe, Stiles.” Derek falou, sussurrando. “Tudo isso… existe.” Ele falou, voz ficando cada vez mais inaudível. O homem suspirou antes de cair nas correntes, deixando o corpo dele sem forças para se segurar ao poste.
Stiles se apressou em chegar a Derek e segurar o homem outra vez.
“Stiles…” Derek suspirou.
“O que foi?” Stiles perguntou, preocupado.
“Tudo é verdade. Tudo.” Derek disse antes de perder a consciência e o corpo dele perder a tensão que o mantinha em pé.
Stiles fez um trabalho rápido de escorar o corpo do homem e desencadear as correntes em torno dele, tentando libertar Derek. Foi difícil e Stiles suou durante todo o processo, tentando controlar o jeito como o corpo dele tremia ao ver Derek desacordado. Cada volta desfeita era como se Stiles ficasse mais leve.
Quando ele libertou Derek o homem caiu por cima dele, levando-os ao chão. Stiles o segurou e tentou arrumar o corpo do homem de uma maneira confortável ali. Ele não conseguiria levar Derek de volta para a cama.
Ele usou as mãos para percorrer a extensão dos membros de Derek e checar se tudo estava bem e nada havia se machucado com muita gravidade. Stiles também procurou o pulso de Derek para ver se ele estava vivo ainda — mesmo que o homem tivesse apenas desmaiado de exaustão e Stiles soubesse daquilo.
Ninguém iria culpar ele, no entanto. Ele não tinha forças para sair dali, não tinha forças nem para pensar direito. Ao mesmo tempo em que Derek sofria com as correntes Stiles tinha sofrido junto. Stiles tinha sentido tudo na pele dele.
Pelo menos tudo que ele sentia na pele era certeza, tudo que vinha de fora era fácil de entender.
O pior estava dentro dele.
Eu não sei o que sentir Derek.
Eu não sei.
Um momento eu odeio tudo que tem a ver com você, eu odeio a forma como você existe nesse mundo só para fazer parte de minha vida — e ainda fazer sentido pra ela.
No outro eu não consigo me separar do seu toque.
Eu nem sei o que eu estou fazendo aqui além de alimentando a mim mesmo em sua presença.
Eu não sei o que é isso.
Não sei.
Só sei que eu não sei se posso viver sem.
Se posso sobreviver longe do teu toque, da tua voz.
Longe de você.
Os olhos de Stiles ainda percorreram a face de Derek, se fixando nos olhos do homem, vendo como ele parecia calmo agora que não estava mais acordado. Ele se deitou ao lado dele e abraçou o homem, respirando fundo para sentir o cheiro dele por baixo das roupas.
Aquilo acalmou Stiles, ao poucos, e deixou-o ser abraçado também, dessa vez pelo inconsciente.
***
Derek acordou sentindo dores pelo corpo. Era como se ele tivesse passado uma noite inteira dormindo sobre pedras e todos os músculos do corpo dele estivessem reclamando para ele ao mesmo tempo, o fazendo sentir pontadas percorrendo cada pedaço dele.
Quando ele abriu os olhos ele viu aonde havia dormido.
E viu como era óbvio que ele estaria dolorido — mas não seria o único.
Nos braços de Stiles, eles haviam dormido no chão do apartamento dele.
Ele quase não conseguia acreditar no que ele via, a imagem do garoto, abraçado ao corpo de Derek, dormindo. As feições dele eram serenas e a respiração calma — no mesmo ritmo do coração. Ele parecia tão perfeito daquele jeito, a pele tenra e a face descansada.
Derek conseguia ouvir seu coração batendo no mesmo ritmo que o de Stiles.
Ele sorriu.
Eu quase não consigo acreditar nisso. É como se eu estivesse no melhor lugar que eu pudesse querer.
Ele tinha poucas memórias da noite passada. Era como se a memória dele inteira estivesse sendo sugada por alguma coisa, como se ele perdesse a noção do tempo vez ou outra, mas estando ali, deitado junto com Stiles, sentindo o cheiro dele, ouvindo a respiração e as batidas do coração, tendo ele por perto, tudo fazia sentido — era como se o próprio garoto fizesse ele se sentir ele mesmo.
As imagens de Derek acorrentado e chorando por Stiles apareciam na memória dele, mas pareciam ser mais o refluxo de alguma coisa antiga. Pareciam apenas resquícios de algo ruim que havia acontecido — mas ele não poderia acreditar nelas, vendo que os dois estavam ali, um do lado do outro.
Derek sentia o mundo parecer perfeito, ouvindo o som do coração de Stiles.
As memórias esquecidas nem faziam muita diferença — ele não acreditava que poderia ser traído por elas.
Ainda mais se ele tinha o garoto nos braços dele.
Fale com o autor