Herói
4 IV - Dor
Notas iniciais
Às vezes nós não sabemos exatamente o porquê de algumas coisas acontecerem em nossa vida.
Muitas vezes nós não fazemos idéia dessa razão imperceptível e desconhecida por trás das nossas aflições, dos nossos problemas, por trás de toda a dor que nós sentimos nessa existência- que normalmente tem sua parcela de dor, mas às vezes as coisas vão longe demais e nós não sabemos como sobreviver direito aos murros que o mundo nos dá.
Dor é uma parte da vida de todos — essa é a afirmação mais óbvia que existe. Provavelmente, é a única sensação que participa no primeiro ato ao nos trazer ao mundo, que nos acompanha por toda uma vida e ainda existe depois do nosso último suspiro, sem esvair da mesma forma que o nosso corpo perece.
Viemos ao mundo causando dor em alguém, na nossa mãe. Viemos ao mundo pela força de alguém que quer ter a nossa companhia, quer o melhor de nós e pra nós. Quer a nossa presença, nosso calor ao lado dele. No entanto, às vezes viemos ao mundo nas mãos das pessoas erradas, nas mãos de quem não nos ama e só quer se livrar de nós. Quem nunca pensou na pessoa que somos e que vai esquecer-se de tudo que representamos no momento em que não estiver mais ao nosso lado.
Durante a vida somos atacados e abraçados pela dor constantemente. Não existe um dia que ela não se apresente de uma forma para nós, mesmo que seja a mais simples, pequena e imperceptível aos nossos sentidos. A dor está ali, junto dos batimentos do coração e do dilatar dos pulmões. Ela está quase que intrínseca à nossa existência, quase como uma mancha invisível em nossa pele.
E ao morrer a dor também se mostra. Quando nossa caminhada nesse mundo termina, deixamos para trás um mar de pessoas que sentirão a nossa falta — ou pelo menos uma ou duas pra quem somos importantes. Deixamos dor como uma última lembrança para todos eles, que com o tempo dará lugar para as coisas boas que fizemos em nossa vida.
Mas a primeira coisa que aparece é a dor.
Todos sabem o que ela é, todos passaram por isso. Se ainda não passaram, irão.
Eu sei o que é dor.
Sei das minhas dores e de como elas afetaram a minha vida até agora. Sei como foi difícil perder a minha mãe muito cedo e me sentir culpado pela morte dela — coisa que sinto até os dias de hoje. Sei como foi complicado crescer boa parte da minha vida sem ela enquanto eu tentava cuidar do meu pai, virando adulto antes de eu realmente ser um. Sei como foi ter poucos amigos desde que eu era uma criança e ainda ser motivo de piada na escola simplesmente por ser do jeito que sou.
Sei como foi gostar de alguém, obsessivamente, por anos, gostar tanto ao ponto de se tornar algo ruim, viciante, só pra descobrir que eu nunca teria nada daquilo que eu sempre desejei.
Sei como é não ter poder. Sei como é não ter nada.
E tudo faz parte de mim.
Parte de quem eu sou.
Parte de cada osso do meu corpo, de cada célula que forma o meu ser.
A dor é o passado, o presente e o futuro.
É possível esquecer uma dor física que nós tivemos, uma que se sarou, que passou. Ela é esquecida. Assim como as dores que nós sabemos que virão, mas ainda não nos machucam. Elas são parte do futuro, mas são impossíveis de se sentir até que o tempo chegue.
No entanto, e as dores da alma?
Essas nunca se vão, elas sempre estão ali. Sempre à espreita, nos deixando sem ar, sem voz, sem chão. Deixando-nos perdidos dentro de nossas próprias vidas. Elas nunca nos abandonam.
Não nos deixam seguir — parece que estão sempre grudadas aos nossos corpos.
Como se você estivesse caminhando por um cemitério onde todas as suas dores estão esparramadas pelo chão.
E você nem sabe aonde colocar seu pé e tentar seguir — como se os seus mortos voltassem só pra zombar da sua cara. Olhar para você como se tudo fosse sua culpa.
O que acontece na minha cabeça mais vezes do que eu gostaria.
Hoje eu fui visitar o local onde Derek enterrou a Erica. Nunca achei que eu fosse chorar tanto na minha vida ao ver a cova fresca cercada por pequenas ervas selvagens. A garota nem era assim tão próxima de mim, pra falar bem à verdade, e ela ainda me acertou na cabeça com uma peça do meu próprio carro, ela desdenhou da minha existência, me fez sentir um nada.
Mesmo assim eu ainda fui salvar ela, eu ainda fui tentar mudar a vida de uma pessoa.
Ou fui acrescentar mais uma para esse cemitério.
Eu não me arrependo, no entanto. Pelo menos não me arrependo de ter dado uma chance pra ela.
Me arrependo de ter deixado ela morrer.
Eu fui ver onde ela estava enterrada, então. O lugar é lindo, bem no meio das árvores, num recanto difícil de achar pra quem não sabe o que está procurando, num pequeno vale dentro da Reserva. Derek plantou algumas mudas de acônito em volta da cova e um raio de sol sempre está em cima delas, iluminando o lugar.
Eu confesso que é um lugar muito bonito para se descansar eternamente.
Mas o que me dói é o fato de que ela era da minha idade e já não tem mais a chance de ver a luz do sol, de ver o mundo e viajar por ele, aproveitar todas as coisas boas da vida. Eu não sei como ela pode morrer assim tão cedo, perdendo tudo que o mundo teria a dar pra ela. Especialmente porque ela era uma lobisomem, poderia se aventurar por muitos lugares e conhecer as coisas mais diferentes.
Sem falar que ela deixou uma pessoa que gostava muito dela e ele agora nem sabe por onde começar a viver — o Boyd parece que nem sabe mais o que fazer da própria vida. Ela era muito importante pra ele.
E o que fazer nessas horas em que uma das únicas razões pra você viver não existe mais?
Pois é, é aí aparece também o meu medo em gostar de alguém, depender das pessoas.
A dor que essa perda causa é infindável.
Eu sei como isso é, infelizmente.
Não pra provar que eu sinto todos os tipos de dores, mas eu sei.
Sinto isso toda vez que existe algum perigo contra meu pai, que existe alguma coisa que pode fazer mal pra ele. Mas também para Scott, Melissa, Lydia, Allison…
Eu nem sei o que faria se alguma coisa de ruim acontecesse com ele.
Essa coisa que liga nós dois é tão maluca, tão fora do comum, tão inesperado. Num instante nós estamos brigando e no próximo ele sussurra meu nome, acaricia minha cabeça e diz que só de eu estar do lado dele tudo fica melhor.
E eu não faço idéia de que tipo de amizade nós temos.
Ele briga comigo e depois olha pra mim e diz esse tipo de coisa.
Nem eu sei direito o que é isso.
Mas só de saber que o que existe entre nós é tão frágil que pode se esvair assim tão rápido, eu sinto o medo penetrar pela minha pele, pouco a pouco, me deixando mais fraco e vulnerável.
Aprender a gostar de alguma coisa, ver ela se construir como parte da sua vida e saber que você é importante pra essa pessoa, assim como ela é pra você, faz a perda disso ser muito mais dolorosa, pois esse amor você conquistou com unhas e dentes ao longo do tempo.
É como perder alguma cosia que você queria mais do que tudo.
E eu não sabia que eu o queria assim desse jeito.
Não sabia.
Não fazia idéia.
Agora...
Agora eu sei.
E dói, mesmo sabendo que ele ainda está do meu lado.
Ainda...
***
Stiles não sabia o que pensar depois do dia que ele teve — ele só queria que mais aquele dia terminasse de uma vez, o que era um sentimento bem mais comum do que ele gostaria. Ultimamente Stiles estava vivendo uma vida onde ele sempre estava cansado e querendo que tudo passasse logo, claro que ele não sabia o que o futuro reservaria pra ele, mas qualquer coisa seria melhor daquilo que estava vivendo.
Primeiro ele viu Boyd de volta na escola, no entanto o garoto mal deu atenção para Stiles, dizendo que ele só tinha uma amiga — e ela já estava morta. Ele viu também os altares que tinham feito para outras vítimas dos sacrifícios e muitos alunos traziam flores para a escola.
Mais tarde naquele dia eles descobriram que o possível autor dos sacrifícios era uma pessoa se fazendo passar por um espírito druida, chamado de Darach — e essa era a pessoa comandando boa parte das mortes em beacon Hills, não os Alfas que haviam sequestrado Boyd e Erica — e a Cora, irmã de Derek.
Stiles também teve que lidar com as constantes trocas de emoções de Lydia, que estava ouvindo o chamado dos mortos, descobrindo quem iria morrer e sendo atraída para eles — e ninguém sabia o que ela era ainda. Ela estava estressada e acabava estressando Stiles junto.
E ele ainda foi visitar Deaton depois da aula, recebendo a notícia de que o Emissário já sabia da existência desse Darach, não tendo dito nada para os jovens até o momento — o que não era nenhum novidade, sendo que o veterinário escondia as coisas deles — exceto de Scott, mas não é também que o amigo de Stiles estivesse tão ligado nele ainda.
Os dois eram irmãos, okay? Eram super próximos e dependiam um do outro, mas as férias de verão fizeram com que o círculo de cada um expandisse para lados diferentes.
Stiles se aproximou de Derek enquanto eles tentavam achar Boyd e Erica, se conectando ao homem de uma maneira que nem ele tinha percebido — especialmente se ele se lembrar do que aconteceu na última vez que ele viu o lobisomem, deitado na cama dele, tentando se recuperar de tudo que havia acontecido na noite em que eles acharam os Betas dele, ao mesmo tempo em que a mão de Derek acariciava os cabelos de Stiles, que estava sentado no chão ao lado da cama.
Mudanças bastante perceptíveis no relacionamento dos dois.
E Scott, do outro lado, havia se aproximado de Isaac e de si mesmo. Ele passou as férias inteiras estudando, buscando melhorar como pessoa e tentar esquecer Allison. E ele conseguiu, mas junto com isso acabou se distanciando de Stiles e de Derek, tentando descobrir um caminho para si próprio.
Às vezes era mais fácil para Stiles conversar com Derek e discutir as coisas do que com Scott — e o garoto sentia falta das conversas com Scott.
Não havia muito pra ele fazer sobre isso, a não ser esperar que tudo se resolvesse.
Bom, a única coisa que ele queria é que tudo simplesmente se resolvesse.
Mas então ele recebeu uma mensagem de texto de Scott, e tudo voltou a despencar em volta dele.
–Derek acabou de expulsar Isaac do loft.-
–E onde ele vai ficar, Scott?-
–Ele vai ficar comigo por enquanto.-
–Alguma ideia do motivo disso tudo?-
–Não sei direito o que está acontecendo. Não faço ideia, Stiles.-
–Okay, okay, conversamos mais amanhã? Tudo vai ficar okay por hoje?-
–Sim, Stiles. Eu tenho tudo sob controle por agora. Té mais.-
–Até!-
Stiles suspirou, depositando o telefone de volta no criado-mudo e se jogando de frente na cama, grunhindo quando ele se enterrou nos cobertores. Ele não sabia o que fazer, ou se sequer havia alguma coisa pra fazer. Mas tudo isso era bastante inesperado, ainda mais depois de tudo que aconteceu com os outros Betas de Derek — Isaac era o único dos lobisomens que morava com o homem e agora ele havia sido expulso de lá, sem motivo aparente. Estranho, pra dizer o mínimo, já que Stiles sabia o quanto Derek era dependente deles, o quanto o homem queria o bem desses jovens que ele havia os adotado pra alcateia dele.
Por isso mesmo o garoto não conseguia compreender o que estava acontecendo.
Stiles suspirou, olhando para a chuva lá fora.
Eu não faço a mínima ideia do que eu deveria fazer agora. Por um lado, eu conheço o Derek, um pouco pelo menos, e eu poderia tentar ir falar com ele, tentar ver o que ta acontecendo agora. Por outro eu não sei se eu posso me intrometer nisso agora, não sei se essa nossa relação permite que eu faça isso.
Stiles suspirou de novo, não sabendo como proceder com tudo aquilo.
A resposta veio mais rápido do que ele imaginava.
E essa resposta veio na forma de batidas na janela dele.
Através de um relâmpago que iluminou tudo lá fora, Stiles conseguiu ver a criatura na janela dele: Derek, todo molhado e meio transformado em Alfa. O garoto levantou a cabeça para olhar o homem, se surpreendendo de ver ele ali, e logo depois se despertou e saiu da cama rapidamente para ir para a janela.
Assim que ele a abriu o vento entrou com força.
“Derek?” Stiles gritou, perguntando.
“Stiles, eu posso?” O homem pediu, apontando para o quarto dele.
“Claro, claro.” Stiles falou, quase batendo na própria cabeça por querer iniciar uma conversa enquanto o outro homem ainda estava na chuva.
O garoto deu espaço para Derek entrar no quarto, pingando e tremendo um pouco. O homem estava usando apenas uma camiseta e uma calça, cabelo todo molhado e feições lupinas na cara dele — os olhos estavam começando a voltar ao normal após Stiles ter visto os orbes vermelhos refletindo no vidro da janela.
Derek parou no meio do quarto, respirando ofegante. Stiles olhou preocupado para ele.
“O que aconteceu?” Ele perguntou.
“Eu…” Derek começou a falar, mas parou. Ele respirou fundo. Parecia um exercício de força tirar algumas palavras de dentro de si, como via Stiles, pois o homem tinha medo de abrir a boca naquele instante.
Stiles deu alguns passos até chegar perto de Derek.
Ele colocou a mão no ombro molhado do homem, massageando a região, acariciando ele. A reação do homem foi imediata e involuntária, se virando para Stiles e relaxando aos poucos.
“Eu acho que você precisa tomar um banho, okay? E depois a gente pode conversar.” Stiles disse para Derek, continuando a acariciar o ombro dele. O homem não respondeu nada por alguns instantes, só se deixando sentir o toque de Stiles massageando ele. “Pode ser, Derek?” Stiles pediu outra vez, agora chegando mais perto do homem.
Derek assentiu.
“Se não for um incômodo…” Ele disse, sussurrando dessa vez.
“Não vai ser, não se preocupe.” Stiles foi rápido em dizer. Ele pegou a mão de Derek, com cuidado, e foi guiando ele até o banheiro da casa dele — graças a Deus que o pai dele não estava em casa naquela noite. Mas Stiles nem sabia se teria se importado muito com o pai, ele estando em casa ou não, o instinto de cuidar de Derek era mais forte.
Era inesperadamente mais forte do que qualquer coisa que ele havia imaginado.
Assim que eles chegaram ao banheiro, Stiles já ligou a água do chuveiro, para que ela já começasse a esquentar enquanto Derek se arrumava para a ducha. Ele olhou o homem parado no meio do banheiro, sem saber muito que fazer, ainda pingando de chuva.
E ainda transformado em lobo.
Stiles suspirou ao chegar perto dele.
“Derek?” Stiles chamou o homem, chegando bem próximo do rosto do lobisomem e esperando os olhos de Derek se focarem no garoto outra vez. O homem demorou para conseguir se concentrar apenas em Stiles, mas ele o fez alguns momento depois.
“Sim?” Derek sussurrou em resposta.
“Você toma um banho, eu lhe dou algumas roupas e depois a gente conversa, certo?” Stiles propôs, olhando para o rosto sem emoções de Derek. O homem não respondeu. Stiles falou de novo. “Mas se você não quiser falar nada, eu ainda te dou um pedaço da minha cama de qualquer jeito, certo? Eu não vou ficar pedindo nada de você.”
O garoto olhou para os olhos confusos de Derek, esperando pela resposta, que não veio outra vez.
Stiles deu mais um passo na direção de Derek, chegando muito próximo do homem. Ele colocou as duas mãos no rosto de Derek, sentindo os pelos caninos da forma transformada do homem. Ele acariciou a face dele, com calma.
“Derek?” Stiles pediu, outra vez. Os olhos do homem se conectaram com os de Stiles. “Eu só quero que você fique bem, okay? Eu não sei o que eu to fazendo na metade do tempo, mas quanto eu to contigo, de alguma forma, eu sei. De alguma forma eu sei do que você precisa e eu quero dar o que você precisa. Eu só quero o teu bem, Derek.” Stiles falou, calmamente, massageando as têmporas de Derek com os dedos.
O homem suspirou, assentindo com a cabeça, logo antes de uma lágrima sair do olho dele e cair direto no chão.
“Shh…” Stiles limpou o olho do homem com um dos dedos, antes de se inclinar para o lobisomem e encostar seus lábios no rosto dele, onde a lágrima havia escorrido. Depois de descolar a boca da pele de Derek, Stiles encostou a testa na do homem e respirou fundo. “Vai tomar banho e não se preocupa mais com nada. Ninguém vai fazer mal algum aqui dentro — eu não vou deixar.” Stiles completou, antes de apertar a face do homem contra a dele, apenas respirando.
Ele soltou-se do homem e se virou de costas, sem olhar para trás, e saiu.
Assim que fechou a porta, Stiles encostou-se a ela, relembrando das coisas que haviam acontecido há alguns dias. Ele respirou fundo, tentando limpar a mente de tudo que estava ocorrendo no momento — por mais que ele tivesse uma vida que demandasse coisas dele, por mais que houvesse outras pessoas importantes chamando por Stiles, ele ainda achava um tempo para lidar com Derek. E ele gostava daquilo.
Ele não sabia o porquê.
Ou ele sabia e só estava se enganando.
Há muito tempo gostar de Lydia não era mais assim tão importante quanto passar um tempo conversando com Derek. Passar dias planejando uma vida de fantasia com a garota já não trazia tanta felicidade quanto Stiles achava que seria, e cada vez tudo era menos colorido do ele havia pintado para ser uma felicidade com ela.
Há muito tempo ele não sentia que as coisas aconteciam de uma forma assim natural com alguém, ele não percebia como a relação entre ele e o homem tinha tomado um rumo diferente do que era pra ser — mesmo que ele não fizesse a mínima ideia de que rumo era aquele.
Stiles não sabia.
Ele sempre alegava que sabia ou não das coisas — nunca mentia sobre isso. E ele realmente não sabia o que era. Ele sentia alguma coisa por Derek, sim. Ele queria passar tempo com o homem, queria descobrir mais sobre ele, queria saber o que estava acontecendo, o que motivava ele a continuar vivendo, o que ele fazia da vida dele, quem eram as pessoas importantes para o homem. Ele queria saber.
Stiles queria fazer parte da vida dele, queria fazer parte de tudo aquilo.
E tudo fazia sentido na cabeça dele.
Ali na porta, escutando o chuveiro dentro do banheiro e os sons de Derek embaixo da água — e ainda bem que o homem conseguiu se colocar lá dentro sozinho, pois Stiles não estava pronto para fazer isso por ele — o garoto percebeu o quanto sua vida havia mudado.
Uma vez, receber uma pessoa na casa dele, uma pessoa importante, pareceria impossível. Uma coisa que nunca iria acontecer. Nunca. Ele só tinha Scott que ia lá, que era amigo dele. E antes mesmo de ele se tocar do que estava acontecendo, Derek havia achado uma maneira de invadir a vida dele, Derek tinha achado uma forma de invadir não só o quarto de Stiles, mas muitos momentos do dia dele.
Tinha achado uma maneira de entrar na cabeça do garoto.
E Stiles não sabia se ele queria tirar o homem de lá ou nunca mais o deixar sair.
O som do registro do chuveiro sendo fechado o trouxe de volta.
“Stiles?” Derek perguntou lá de dentro.
“Sim?” O garoto respondeu, se levantando de onde ele havia sentado.
“Que toalha eu posso pegar?”
“Qualquer uma que tiver limpa por aí, nenhuma tem dono.” O garoto respondeu, já se distanciando do banheiro para ir buscar uma roupa para Derek.
Dessa vez, Stiles nem pensou, ele só pegou a mesma peça que Derek havia usado da outra vez que ele dormiu na casa do garoto — e Stiles adicionou um suéter pro caso do lobisomem sentir frio.
E porque ele não conseguiria ver Derek sofrendo por qualquer coisa, mesmo que fosse a menor possível.
Eu não conseguiria ver o Derek sofrendo.
Eu…
Talvez fosse exatamente aquilo. Mesmo que Stiles não soubesse a extensão dos sentimentos dele, ele não conseguiria ver Derek sofrendo, ele não conseguiria ver o homem passando por dor, passando por dificuldades sem poder ajudar. Estender a mão era uma das únicas coisas que Stiles poderia fazer.
E ele não iria exitar em fazê-lo.
O que acontece quando a gente não pode ver alguém sofrendo?
Eu sei que é normal a gente não querer ver sofrimento, mas o que significa quando isso está atrelado a uma pessoa só? Quando eu não me importo com quase mais nada, mas com ele eu não posso me esquecer, não posso o deixar passar.
Eu não posso o ver sofrer.
Eu só quero o melhor pro Derek.
Stiles parou no meio do corredor a caminho do banheiro, sentindo a cabeça dele se movimentando loucamente com pensamentos sobre o que estava acontecendo entre os dois — e a pequena descoberta que havia feito instantes atrás.
“Stiles?” A voz do homem chamou a atenção dele.
“Sim, sim, eu já lhe dou as roupas.” Stiles falou, já caminhando para o banheiro.
***
Derek se trocou, assim que o garoto lhe ofereceu as roupas, e foi para o quarto, onde Stiles já estava sentado na cama, esperando pelo homem.
Ao parar na porta ele respirou fundo, para se concentrar e chamar a atenção de Stiles ao mesmo tempo. O garoto olhou para ele e fez um meneio de cabeça apontando para a cama e o lugar onde Derek deveria sentar.
Ele sentou ao lado de Stiles, os dois de costas para a cabeceira, pernas coladas e olhando para frente. As mãos de Derek estavam inquietas e ele não sabia exatamente o que fazer com elas, por isso ele ficava mexendo nos dedos, ou mexendo em alguma coisa.
Stiles tomou três segundos para ver aquilo antes de pegar as mãos de Derek e enrolar elas com as dele.
“Tudo bem?” Stiles perguntou e Derek queria rir da situação toda.
Ele sacudiu a cabeça.
O garoto não disse anda, só apertou as mãos de Derek.
“Não.” Derek respondeu. “Eu acho que não… Os Alfas vieram me ver hoje.” O homem começou a falar e percebeu a tensão de Stiles ao nomear os lobisomens. “Ele vieram me ameaçar, vieram… Vieram com o desejo de destruir as coisas que eu construí, Stiles. As coisas que eu fiz pro melhor dos meus lobisomens, minha família…” Derek respirou fundo. “Eles vieram querendo que eu desista de todos eles, que eu mate eles, que eu vire um Alfa assassino como eles são e me junte ao grupo.” Derek soltou uma risada sarcástica. “Eles querem que eu termine com uma das únicas coisas boas que eu fiz, que foi dar aos três uma nova chance de viver… Mesmo que Erica não..” Derek engoliu as palavras.
Stiles apertou a mãos dele mais forte, antes de trazer elas pro colo dele.
“Eu não tive outra escolha a não ser expulsar o Isaac do loft. Ele vai estar mais seguro se ficar com Scott — e eu sabia que ele iria pra lá. Eu só não posso deixar ele ficar comigo quando existe a possibilidade de alguém fazer mau pra ele. Pra qualquer um deles…” Derek suspirou.
“Scott já havia me contado…” Stiles falou à título de informação.
“Eu imaginei…” Derek falou, voz soando à derrota.
“Eu não acho que a forma que você agiu foi a mais correta, Derek. Mas acho que o seu sentimento diz muito sobre o que você acredita ser certo e errado e o que você acredita ser bom pra ele. Eu sei que você quer o melhor pra eles, ou você não teria passado um verão inteiro atrás deles…” Stiles se virou um pouco de lado, tentando olhar nos olhos de Derek.
Derek se virou para olhar nos olhos de Stiles, também.
“Mas eu não sei fazer nada dessas coisas direito…” Derek falou baixinho.
“Ninguém sabe fazer nada dessas coisas direito, Derek.”
“Eu sei, eu sei… Mas se os Alfas não tivessem ido pro loft, me ameaçado e perfurado meu peito com uma barra de ferro, nada teria acontecido e…” Derek parou de falar ao sentir as mãos de Stiles soltarem-se das dele e viajarem frenéticas para o peito do homem, como se ele precisasse sentir que Derek estava inteiro.
“E ta tudo bem?” Stiles perguntou, preocupado.
Derek apenas assentiu, tremendo ao contato com as mãos de Stiles que percorriam toda a extensão do peito dele. O garoto continuou tocando o corpo de Derek com as mãos, tomando seu tempo em cada pedaço do peito do homem — como se ele estivesse genuinamente preocupado e imaginando como havia acontecido.
Um momento de silêncio se fez antes de Stiles o quebrar.
“Doeu muito?” Ele perguntou com voz baixa, mãos ainda acariciando o peito do homem, rostos perto um do outro. Derek olhava para os olhos preocupados de Stiles.
“Agora não dói mais.” O homem falou, balançando um pouco a cabeça.
Stiles olhou para o peito de Derek, antes de voltar a olhar para o rosto dele. O garoto não conseguia imaginar como o homem poderia ser tão frio sobre algumas coisas e tão aberto sobre outras, como ele poderia sofrer tanto pelos outros, mas não admitir o sofrimento dele por muitas vezes.
E como ele não mostrava as cores reais dele para quase ninguém, e mesmo assim ele estava ali com Stiles, o garoto tocando ele, se aproximando pouco a pouco de Derek, sentindo o homem, sentindo quem ele era, o que faz ele ser do jeito que era. Sentindo o que exala dos poros de Derek, o que viaja pela mente do homem.
Stiles conseguia ver um mundo quase completamente diferente só de estar perto de Derek.
E tudo era tão intenso e estranho à ele.
Tão intenso quanto Derek aproximando a última distância entre eles dois, tocando seus lábios nos de Stiles, fazendo o garoto suspirar com o contato. Por alguns segundos eles ficaram apenas se tocando lentamente, sem prosseguir pra nada, apenas deixando os lábios sentirem um ao outro.
Então Stiles abriu a boca dele, deixando os lábios de Derek se abrirem junto e a língua do homem se deliciar na do garoto, sentindo o gosto dele, lambendo cada pedaço do interior de Stiles, sugando o pouco de força que havia nele já tarde da noite. As mãos dos dois acharam um jeito de se entrelaçarem no meio do beijo e os corpos estavam ansiosos para se tocaram ainda mais e…
“Para, Derek…” Stiles falou, descolando a sua boca da do homem, ofegante, colocando uma das mãos no peito de Derek, separando eles. Os olhos de Derek se arregalaram ao ouvir o aviso de Stiles e ele ficou olhando preocupado para o garoto.
“Desculpa, Stiles. Eu não…” Derek começou a falar mas foi interrompido pelo dedo de Stiles se conectando ao lábios dele, impedindo o discurso, enquanto garoto balançava a cabeça.
“Shh…” Stiles suspirou. “Não tem problema nenhum em acontecer isso, okay?” Ele falou, tentando acalmar a si próprio ao mesmo tempo em que falava com Derek. Sem falar que Stiles também queria tentar entender tudo que estava acontecendo naquele momento.
Meu Deus, eu…
O Derek acabou de me beijar...
E eu o beijei de volta…
“Mas então…” Derek falou, sem completar a frase, apenas querendo uma resposta de Stiles. Os olhos dele ainda estavam preocupados.
“Eu não quero me aproveitar de nenhuma fragilidade sua, Derek.” Stiles sussurrou, falando as palavras no rosto do homem, frente a frente, olhos grudados uns nos outros.
“Mas eu também quero, Stiles.” Derek falou, tentado protestar.
“Eu sei…” Stiles disse, sorrindo. “De alguma forma eu sei…” Ele completou, acariciando a barba do homem. Tudo parecia totalmente fora do controle, fora do campo de compreensão de Stiles. “Eu consigo sentir que a gente quer a mesma coisa. Eu só não quero fazer nada com você por causa de motivos externos, porque a gente ta sentindo falta de alguma coisa ou porque a gente ta cansado do mundo. Eu quero fazer alguma coisa com você pelo simples motivo de fazer — só porque eu quero.” O garoto completou, se aproximando dos lábios de Derek e selando a boca dos dois por alguns segundos.
Derek suspirou assim que eles se desconectaram de novo, dessa vez, Stiles se colocando deitado no peito de Derek, enquanto a mão do homem foi para os cabelos de Stiles, automaticamente.
Os toques leves dos dedos de Derek acalmavam o coração de Stiles — que não havia parado de bater forte há um bom tempo. Ele suspirou antes de respirar fundo o cheiro do homem que o segurava nos braços. Stiles fechou os olhos.
“Okay, Stiles. Tudo bem…” Derek sussurrou, antes de encostar seus lábios à cabeça de Stiles. “Tudo bem.”
Tudo bem…
Tudo bem…
Não sei por quanto tempo vai ficar tudo bem...
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