Herói

3 III - Comando


Notas iniciais
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Existe uma diferença básica entre poder, controle e comando, diferença essa que regula boa parte das nossas vidas, pelo menos ao meu ponto de vista.

Não sei se essa diferença realmente importa, quando é da vida que nós estamos falando, uma vida onde nós quase nunca temos o que queremos, onde dificilmente realizamos tudo que sonhamos ou prometemos e uma vida onde as coisas não são tão simples como a nossa imaginação permite pensar — mas pra mim essas coisas importam. De verdade.

O poder é o que nós temos, ou melhor, o que é dado a nós. Por alguém que confia em nossas decisões e nossa índole, por quem acha que nós podemos fazer melhor, por quem acredita na gente. O poder nos dá alicerces para fundar qualquer coisa e nos dá alternativas para fazê-lo.

O controle é a força que nos permite fazer tudo isso, o controle é o que faz o poder se transformar em trabalho, se realizar em alguma coisa. Se nós tivéssemos apenas o poder, mas não tivéssemos controle, talvez ele pudesse se esgotar antes de podermos fazer as coisas que queremos. E se só tivéssemos o controle, talvez nunca saíssemos do lugar.

A união dos dois é que nos dá uma terceira força: o comando.

Quando nós temos o poder em nossas mãos, o poder que foi confiado a nós, temos o controle para saber usar esse poder da melhor maneira possível, nós conseguimos o comando. Nós conseguimos nos diferenciar de todos os outros ao nosso redor porque a nossa capacidade de juntar essas duas coisas e produzir a terceira, permite que nossas decisões sejam as mais sensatas e bem pensadas.

O comando é uma força que chega a nós quando o tempo pede — se nós tivermos o controle e o poder.

De alguma forma ou de outra, eu sempre tive essas duas comigo, nunca ao mesmo tempo, no entanto.

Quando eu tive o poder de fazer alguma coisa, como prender todos dentro do Jungle quando eles queriam capturar o Jackson, quando eu pude matar o Peter, jogando o Molotov nele, quando eu salvei o Derek, segurando ele por horas acima da água da piscina, eu não tive o controle comigo, pois no fim eu tive que desmontar todo meu trabalho por nada quando eu fiz o círculo de cinza da montanha, eu acabei não conseguindo fazer muito estrago no Peter e também quase deixei o Derek morrer.

Eu não tive o controle para estabilizar o poder.

E quando eu tive o controle das coisas, quando eu tive as alternativas, como a vez em que eu achei Erica e Boyd no porão dos Argent, quando eu descobri tudo sobre Scott e seus poderes e quando eu ajudei a descobrir que os Alfas em Beacon Hills estavam com Boyd e Erica, eu não tinha poder para ajudar, eu não tinha força ou habilidades especiais e nem uma chance de morrer menor que a dos outros.

Eu não tive poder para realizar o que eu tinha chance de fazer.

Então eu nunca tive o comando, nunca pude dizer, com certeza, que eu faria alguma coisa e faria da melhor maneira possível.

Eu ainda estou na busca dessa força, já que cada vez mais é importante se ter isso para sobreviver por aqui.

Depois de meses de procura, nós finalmente encontramos pistas sobre Boyd e Erica, os betas que Derek tinha perdido para sabe se lá o que. O que começou como uma fuga, com os dois tentando viver uma vida longe do caos, acabou em um sequestro. Não foi possível encontrar rastro deles depois que eles deixaram a cidade e Derek tinha quase certeza que a vida deles estava em perigo.

Mesmo assim, ele não fazia ideia de onde eles estavam.

Até agora.

Derek sabia da existência do grupo de Alfas rondando a cidade desde o início do verão, logo depois da partida de Jackson e do sumiço de Gerard. Ele sabia que alguém viria para a cidade em busca de vingança, ele só não sabia o porquê.

E nos últimos dias, pouco a pouco, as informações foram se juntando, foram se ligando, até o momento em que nós descobrimos que eles já estavam na cidade, que eles já haviam se instalado em algum lugar, feito o quartel deles. Que eles tinham encontrado alguma coisa que queriam.

E que eles tinham alguma coisa que nós queríamos.

Todos se reuniram para buscar eles de volta, tentar descobrir onde eles estavam e ainda ter o máximo de informações à disposição.

Durante o tempo do planejamento para o resgate dos lobisomens, eu quase senti que estava comandando tudo no apartamento de Derek. Eu quase senti a emoção de ser ouvido, de ser importante para alguém. Quase me senti como o Alfa de todos ao meu redor, pois eu tinha a informação, eu tinha as possibilidades delineadas no meu cérebro e eu tinha tudo que era necessário para o conhecimento deles.

Eu tinha mapas e informações internas sobre o cofre do banco onde os Alfas estavam, eu tinha os dados importantes e necessários para o sucesso da missão. Eu tinha basicamente tudo.

Só não tinha a força, a habilidade de não morrer facilmente. Não tinha chances a mais para poder desperdiçar enquanto tentava lutar pra sobreviver e salvar as pessoas.

Eu não era — e não sou ainda — um lobisomem.

Nunca iria ser.

E sempre terminaria por ficar pra trás.

***

A noite de Stiles foi bastante movimentada. Tão rápida que ele já havia perdido toda a noção do tempo, pois o sol já se mostrava no horizonte azulado, justo a tempo de ele colocar os pés pra dentro de casa, sinalizando que a noite terminava e outro dia estava começando. Stiles estava tentando respirar fundo e deixar tudo o que havia acontecido naquelas últimas horas para trás.

Ele nem sabia por onde começar a colocar as ideias dele no lugar.

Tudo começou quando ele foi para o loft de Derek, se juntar aos outros para planejar a invasão do banco e o resgate de Boyd e Erica. Eles tinham quase certeza que os Alfas haviam criado um campo de concentração para as atividades dentro do banco. Tudo foi planejado no máximo da meticulosidade e eles ainda conseguiram resolver contratempos que acabaram acontecendo na hora da ação — mas Stiles ficou na retaguarda, longe do movimento, sem poder ajudar muito.

Sem notícias do que acontecia, ele foi atrás de Lydia, que havia seguido o rastro de um dos novos corpos que havia aparecido na cidade, adicionando mais um à lista dos mortos, que nunca parava de crescer. Eles, depois, partiram para uma conversa sobre o que a motivava a encontrar os corpos e o que estava acontecendo na cidade — nenhum dos dois tinha plena certeza e cada corpo a mais fazia um alarme disparar na cabeça deles.

Por fim ele foi ao hospital, última parada antes de ele ir pra casa. A visita de Stiles foi relacionada a essa onda de sequestros e mortes que estava acontecendo em Beacon Hills, e ele queria saber mais dos motivos dos possíveis criminosos.

Foi difícil pra ele, pois dessa vez, no entanto, já que uma das vítimas havia sido uma amiga de infância de Stiles — Heather. Ele não pode conter as lágrimas ao ver o corpo dela estirado sobre a mesa de metal, frio e sem vida, garganta cortada e pele branca.

As imagens na cabeça dele se montaram e algumas informações foram se completando aos poucos — até ele e Scott terem certeza de que alguma coisa estava fazendo sacrifícios humanos em Beacon Hills.

Mas tudo isso era a vida fora da casa dele.

Quando ele colocou os pés nos degraus da escada que levava ao quarto dele, Stiles viu como tudo parecia impossível de se resolver, como a vida dele parecia quase como uma desventura em série, onde as dificuldades nunca acabavam, mas continuavam a crescer. Onde tudo parecia que se resumia a dor e perda e problemas atrás de problemas, todos causados por coisas que nada tinham a ver com o tamanho das responsabilidades deles.

E o pior de tudo é que dentro daquela casa ele tinha que resolver tudo sozinho, já que ele mantinha essa vida dele em segredo.

Stiles apenas queria proteger o pai.

E não contando a verdade era a única forma que ele encontrou de fazer aquilo acontecer.

Stiles suspirou ao subir o último degrau e se dirigir para o quarto. Ele não tinha vontade de tomar um banho, muito menos tirar a roupa, por isso ele só desatou os tênis e deitou de cara na cama ainda feita, rosto virado para o travesseiro.

Não havia forças dentro dele para completar o processo inteiro de preparação para uma noite de sono — que nesse caso já não seria uma noite. Mas o pai dele estava trabalhando também, então nem iria ver o que estava acontecendo com Stiles.

As coisas pareciam bem fora de controle, e ele nem fazia ideia de como a noite dos outros havia se passado, já que Scott não revelou muitos detalhes sobre o que estava acontecendo — o que não era novidade, pois, desde todo o negócio com Jackson sendo o kanima, Scott havia começado a guardar seus segredos, até mesmo do melhor amigo.

Todas as imagens daquela noite corriam soltas pela cabeça de Stiles. Ele não sabia o que fazer. O sono não parecia que iria chegar assim logo, mesmo que o corpo dele estivesse completamente pronto para entrar em letargia.

O mínimo movimento, até os que eram involuntários, era difícil. Sentir as batidas do coração dele e o ar entrando e saindo dos pulmões parecia ser o máximo de coisas que ele poderia manejar naquela hora.

Ou pelo menos era o que ele achava.

Stiles, no entanto, estava pronto para ser provado do contrário, quando uma pedra acertou a janela do quarto dele, chamando sua atenção.

A pedra bateu com a força necessária para fazer o máximo de barulho antes de quebrar o vidro. Stiles ouviu, mas não queria se mexer para saber quem estava querendo atenção. Ele respirou fundo e fechou os olhos. Quem sabe se ele fechasse com força as coisas iriam ser normais de volta, não?

Outra pedra acertou o vidro, com ainda mais força.

Ele grunhiu antes de levantar, irritado com os acontecimentos que ficavam se empilhando um atrás dos outros.

Os passos foram lentos ao cobrirem a distância entre a cama e janela, fazendo com que ele se espreguiçasse no meio do caminho. O sono não havia chegado, mas Stiles já estava quase na metade do caminho à inconsciência.

A visão da pessoa que estava lá embaixo procurando pela atenção dele, no entanto, fez Stiles se despertar.

Ele abriu a janela e colocou a cabeça para fora.

“Derek?” Stiles perguntou ao ver o homem olhando para ele, coberto de sangue na pele e nas roupas, que estavam estraçalhadas. O rosto dele estava cansado do mesmo jeito que o de Stiles, como se Derek estivesse voltando de uma guerra. E os traços em volta da aura dele mostravam o mesmo.

O coração de Stiles disparou um pouco ao ver o homem daquele jeito — o homem que ele havia cuidado em uma das noites que eles não tiveram sucesso na busca pelos Betas, o mesmo que havia declarado algumas coisas para Stiles, que havia aberto um pouco do seu coração, talvez até sem perceber. O homem estava ali, procurando abrigo após uma briga feia.

O garoto apenas se afastou da janela, deixando espaço para Derek subir. O homem levou apenas alguns segundos para entrar tropeçando no quarto. Assim que ele ficou de pé, os olhos de Derek foram se fechando e o rosto foi caindo com vagar, como se a ação toda estivesse em câmera lenta.

“Stiles, eu…” Ele sussurrou as palavras antes de cair pra frente. Stiles teve rápidos reflexos e segurou o homem, antes de ele chegar ao chão. Derek era bem mais pesado que Stiles — mesmo que eles tivessem a mesma altura, Derek tinha mais músculos — porém o garoto conseguiu segurar ele com seus braços em volta do tronco do homem.

A noite de Stiles não foi a melhor e o início de dia também não estava esperançoso. Não que ele não quisesse cuidar do homem. Não era aquilo. Mas ele não sabia de tudo que tinha que fazer, não sabia de todas as informações necessárias para cuidar de um lobisomem e o fazer ficar bem. Stiles não sabia. Ele sempre tentou dar o melhor, mas às vezes até a pessoa que sabia todas as informações sobre tudo ficava na retaguarda.

Os passos do quarto até o banheiro foram difíceis, assim que Stiles decidiu que ele precisava limpar o Alfa. Derek não estava completamente desacordado, então ele ainda tinha forças para dar alguns passos, tentativos, mesmo assim o homem ainda estava muito machucado, ainda no período de cura após uma luta.

Quando Stiles conseguiu colocar ele sentado à beira da banheira ele suspirou, limpando o pouco de suor que acumulou na testa dele. O garoto começou a correr seu olhar pelo rosto de Derek, que estava todo ensanguentado, ainda. Uma das mãos de Stiles foi lentamente desenhando os contornos da face do homem, tentando cobrir os milímetros de pele e descobrir se havia algum corte ainda por ser curado, alguma coisa que precisava de cuidado.

Ele nem prestou atenção nos arrepios que cobriam o corpo dele, os espasmos de emoção se manifestando — toda a ação dele naquele momento era quase involuntária, como se ele estivesse fazendo tudo aquilo sem nem perceber direito.

A outra mão alcançou o chuveiro.

Ele precisava limpar Derek.

Stiles suspirou assim que ele percebeu o que teria que fazer.

Enquanto ele despia o homem de sua camiseta, Stiles não teve nem tempo de apreciar a beleza que era o peito e o abdômen de Derek. As mãos dele corriam normalmente pelo corpo meio sem vida que se prostrava na frente dele, corpo esse que estava na margem de contato próximo a Stiles. Os desenhos que ele fazia na pele quente do homem eram completamente involuntários. As mãos dele percorrendo todas as distâncias entre cada parte de Derek, descobrindo os vales e montanhas que eram feitos pelos músculos pulsantes do homem.

Sem a camiseta, Stiles conseguiu fazer com que o lobisomem se arrumasse sentado no fundo da banheira, embaixo do jato de água — e ele foi sem reclamar.

A água escorria pelo rosto de Derek.

***

Sem nem saber onde estava direito, Derek apenas percebia as gotas de água quente percorrendo as linhas do seu nariz e entrando pela boca dele. A água tinha gosto de sangue e terra. Tinha gosto de sujeira. Tinha gosto de tristeza.

Se houvesse uma forma de encontrar todos os gostos ruins no mundo, a maior parte deles poderia ser encontrada ali, na pele dele, no íntimo de Derek. Tudo que era ruim já havia feito seu número no homem, já havia estado com ele, nas decisões e ações, nos problemas. No passado.

A água correndo pelas orelhas dele causava uma surdez momentânea, que era melhor do que qualquer outra coisa que ele havia provado no mundo. Um sentimento de paz conseguia invadir ele, mesmo que por alguns segundos apenas, antes de a realidade vir quebrando todas as barreiras e ir se atirando na frente dele.

Derek conseguiu lembrar aos poucos tudo que havia acontecido naquela noite.

Primeiro os planejamentos no apartamento dele, as coisas que eles combinaram fazer para salvar Boyd e Erica, plano que foi logo colocado em ação e fez ele encontrar os dois. Os lobisomens conseguiram invadir o banco e encontrar o que foram procurar.

Pena que nem tudo foi tão feliz assim. Erica não estava mais viva — Derek apenas encontrou o corpo dela, já semidecomposto, cheirando a morte e carniça. Ao sentir a água escorrendo pelo corpo dele em direção ao ralo, Derek ainda conseguia sentir o peso do corpo dela nos braços, momentos antes de ele enterrar ela na floresta em uma cova cavada com as mãos dele, como se ela fosse uma indigente.

Mas Boyd não estava sozinho quando eles encontraram o lobisomem, junto dele estava uma pessoa que Derek não via há anos — Cora, a irmã mais nova dele. Ele achava que essa irmã dele morrido no incêndio, havia se perdido no passado amargo que ele tinha. Uma irmã que ele nunca mais havia visto, que ele nem sabia que estava viva.

Praticamente uma estranha.

Boyd e Cora estiveram aprisionados por meses sem contato com a lua, então assim que eles foram libertados, os dois saíram pelas ruas da cidade. Sem controle dos sentidos. Como feras.

Derek, Scott, Isaac e Chris saíram à procura deles. Allison também.

Depois de uma noite toda de buscas por toda a cidade, tentando ao máximo proteger pessoas, eles conseguiram encurralar os dois, e Derek serviu de isca para conseguir capturar eles — ele deixou os dois lobisomens descarregarem toda a raiva violenta que eles tinham guardada neles no próprio corpo, servindo como uma isca para as duas criaturas esfolarem em todas as formas possíveis...

E Derek, mesmo sendo um dos piores Alfas da história, anda conseguiu salvar uma vida, logo depois de deixar os lobisomens inconscientes — uma das professoras da escola, o lugar que os lobisomens haviam se escondido, estava lá ainda e Derek conseguiu salva-la do ataque de Cora e Boyd.

Derek havia salvado alguém, coisa que ele não havia conseguido fazer a vida toda.

Mas nada disso parecia importar agora. Naquele momento em que tudo estava em silêncio, que os lobisomens não estavam mais uivando e nenhuma criatura parecia estar procurando o mal pela cidade, não existia mais nada para Derek fazer senão deixar os pensamentos rolarem soltos na cabeça dele, deixando ele maluco.

A decisão de encontrar Stiles foi instintiva — num momento ele deixava Cora e Boyd, inconscientes no apartamento dele, e no seguinte ele estava correndo descontrolado pelos tetos dos prédios até a casa de Stiles, antes de começar a atirar pedras na janela do garoto.

Encontrar Stiles parecia ser uma coisa como as batidas do coração — estão ali, mesmo que você não saiba. Elas tomam conta de você, mesmo que você não perceba.

Elas têm o poder e o controle sobre seu corpo — elas têm o comando.

***

O sangue havia saído do rosto de Derek, mesmo que houvesse escorrido para as calças do homem, que Stiles não se atreveu a tirar. Uma coisa era tirar a camisa, tentar limpar ele, aquilo já era demais, era um tipo de invasão de privacidade que Stiles não queria fazer — especialmente porque ele sabia muito mais sobre Derek do que ele achava saudável e ele não queria destruir o que os dois estavam construindo, lentamente.

O garoto desligou o chuveiro.

“Derek?” Ele perguntou para o homem, que apenas levantou a cabeça, ouvindo o chamado de Stiles, mesmo que os olhos dele estivessem quase mortos. “Eu vou te tirar daí de dentro, okay?”

O homem não disse nada, mas Stiles interpretou aquilo como uma resposta suficiente.

O trabalho de tirar o corpo molhado de Derek foi complicado, mas Stiles conseguiu, utilizando o máximo de força que ele podia naquele momento — sono e cansaço esquecidos em virtude do estado que o homem se encontrava. Segurando ele com um dos braços, deixando o corpo de Derek se escorar nele, o garoto pegou uma toalha e começou a secar Derek, antes de pensar no que fazer em seguida.

A toalha começou o seu trabalho no rosto do homem, se esfregando na pele bronzeada dele. Stiles conseguia sentir Derek tremendo. Da face ele passou pelo pescoço e pelo peito, as mãos dele cada vez mais perceptivas das curvas sensuais do corpo do homem — mas Stiles sabia que aquele momento era apenas para cuidar de Derek e nada mais, qualquer fantasia que a cabeça dele havia criado, ficaria para outro momento.

Fazer o homem ficar bem era mais importante.

Mesmo que Stiles ainda não entendesse o porquê.

“Hey, eu vou buscar uma calça de moletom e uma camiseta pra você, certo? Eu só preciso que você fique sentado aqui no vaso.” Stiles falou, manuseando o homem para colocar ele sentado. Derek foi conforme as ordens do garoto, mesmo que fosse complicado mexer ele e Stiles ainda tivesse medo que ele caísse morto pelo chão.

Quando Derek estava sentado, se segurando com uma das mãos na pia, Stiles correu para o quarto. A primeira calça e camiseta que apareceram na frente dele — uma velha calça de moletom escuro e uma camiseta da polícia da cidade — foram as que ele pegou antes de voltar para o banheiro, achando o homem na mesma posição.

Ele respirou fundo para se acalmar antes de falar.

“Eu…” Stiles começou a dizer alguma coisa, mas parou ao ver a cara de Derek. Ele suspirou. “Você acha que vai conseguir se trocar?” O garoto pediu.

Derek só levantou os ombros em um gesto lento, não sabendo se ele conseguiria ou não.

Stiles respirou fundo.

“Eu vou deixar as roupas aqui e vou esperar logo ali do outro lado da porta, okay? Se tiver alguma dificuldade pra conseguir fazer as coisas, só me avisa. Eu não tenho certeza que você em sã consciência ia querer me ver mexendo nas suas coisas…” A última parte da frase Stiles falou apenas para si mesmo, ao mesmo tempo em que ia se movimentando para a saída.

Ele ainda desviou seus olhos pelo corpo do homem, antes de sair do banheiro e fechar a maçaneta atrás de si.

Stiles ficou ali ouvindo os sons que vinham do banheiro, encostado com a cabeça na porta. Ele não conseguia ouvir muita coisa nos primeiros momentos, como se Derek estivesse parado, mas a respiração do homem era alta o suficiente para chegar aos ouvidos do garoto, depois de ir ecoando pelas paredes. Alguns segundos a mais se passaram antes dele ouvir um grunhido e o barulho de um fecho se abrindo — Derek estava fazendo força para se trocar.

Pelos próximos minutos tudo que Stiles ouviu foram gemidos de dor, enquanto o homem colocava as roupas que o garoto havia dado a ele. Foi difícil ficar do outro lado da porta, ouvindo Derek sofrendo sem poder fazer nada, mas Stiles sentia que iria se insinuar demais na vida do homem se ele ajudasse Derek a se trocar.

O tempo parecia que passava mais devagar com cada grunhido de Derek, mas Stiles estava ali, pronto para qualquer problema.

Num instante, tudo ficou em silêncio de novo.

“Stiles?” Do outro lado da porta, Derek chamou ele. O garoto entrou no banheiro rapidamente para ver como o homem estava.

“Derek?” Ele perguntou. “Tudo okay?”

O homem fez um meneio de cabeça. “Poderia ser pior.” As palavras vieram calmas e sussurradas, mas Stiles conseguiu sentir a dor em cada uma delas. Ele respirou fundo.

“Vamos que eu te levo pra cama.” Stiles disse e pegou Derek pelo braço, colocando ele em cima do ombro de Stiles para suportar os passos do homem de volta ao quarto dele.

Lentamente os dois se moveram pelo corredor para o quarto do garoto e Stiles colocou Derek na cama, com cuidado. O homem nem se mexeu demais, apenas deitou com as costas para o colchão e fechou os olhos. Ele estava limpo do sangue e já curado da maior parte dos cortes, mas o rosto dele ainda estava enrugado pela dor.

Stiles sentou-se no chão, com as costas para a cama, cabeça virada para o rosto de Derek.

Ele não conseguia dormir mesmo, ele não sabia nem se iria conseguir assim tão logo. Acordado, pelo menos, ele poderia garantir que o homem estava bem, poderia garantir que ele ficaria bem cuidado e que Stiles não iria falhar em cuidar de alguém. Que ele estava pelo menos tentando seguir as palavras do pai dele, do pai que acreditava que Stiles era um herói. Do pai que…

Do pai que não sabia metade das coisas na vida de Stiles.

Ele suspirou, balançando a cabeça.

“O que foi?” A voz baixinha de Derek soou e Stiles olhou pra ele.

“Nada demais. Eu que deveria estar fazendo essa pergunta.” Ele disse, calmamente.

Dessa vez Derek suspirou, antes de respirar fundo para falar.

“Eu não consegui salvar ela…” O homem disse, a voz ficando embargada no final da frase. “Eu deixei ela morrer, Stiles. Eu dei uma vida nova pra ela e ela morreu mesmo assim. Eu…” Ele parou de falar antes que o choro aparecesse.

Stiles virou o corpo um pouco mais para enxergar Derek, mas ele colocou a cabeça mais de lado no colchão, como se ele fosse deitar ela. Ele queria chegar perto do homem e descobrir um jeito para fazê-lo ficar melhor.

“Nem tudo é culpa sua, Derek.” Stiles falou.

“É culpa minha que ela era uma lobisomem. Culpa minha que ela fugiu.” O homem disse.

“Mas não é culpa sua que ela está morta.” O garoto respondeu, tentando não fazer a voz dele muito audível.

“E faz alguma diferença? Se eu não tivesse colocado ela no meio de tudo isso em primeiro lugar, nada teria acontecido.” Derek cuspiu as palavras, as mãos dele se apertando em punhos, garras se fincando nas palmas das mãos.

“E se ela não fosse lobisomem quem sabe ela teria tido uma convulsão a qualquer momento e caído na rua logo antes de ser atropelada por um carro. E então ela teria morrido de qualquer jeito.” Stiles falou, levantando a voz também. “Mas talvez você fosse se culpar da mesma maneira, mas dessa vez por não ter dado uma chance pra ela.” O garoto completou, sacudindo a cabeça.

“No fim das contas quase sempre é culpa minha.” Derek disse.

Stiles não sabia o que responder e os dois ficaram em silêncio por alguns instantes.

Não que a culpa das coisas sempre fosse de Derek e Stiles sabia disso, mas na maior parte do tempo elas poderiam ser conectadas a ele, poderia servir como um modo de dizer que ele cometeu mais e mais erros. Derek havia feito muitas cosias erradas no passado e ele estava tentando mudar — mas ele ainda estava na fase onde tudo que ele havia feito era jogo vivo, estava em movimento, as ações que ele tomou no passado ainda tinham consequências no presente.

E Stiles não poderia mentir pra ele sobre aquilo — Derek iria saber pelas batidas do coração do garoto.

Stiles suspirou.

“Eu encontrei minha irmã.” Derek falou, do nada.

“Como?” Stiles perguntou, se virando outra vez para o homem.

“Eu encontrei Cora. Ela estava junto com Boyd, ela foi capturada pelos Alfas e estava com ele. Minha irmã.” Derek completou, suspirando.

“Mas e ela não…” Stiles começou a falar, mas parou a tempo. Ele não precisava lembrar Derek de mais coisas ruins do passado dele.

“Não, Stiles. Ela não morreu no incêndio.” O homem disse, palavras duras saindo pela boca dele.

Alguns segundos de silêncio se arrastaram de novo, antes de Stiles falar.

“Mas isso é bom, não é?” Ele arriscou. “Família é sempre bom.” Stiles disse, sem saber muito o que dizer, na verdade.

“Uhum.” Derek apenas concordou, sem falar mais nada.

Os dois sabiam como família era importante. Os dois haviam perdido parte da deles. Claro que era impossível comparar a perda de cada um, pois a vida deles foi diferente e a perda de um membro da família é sentida de forma diferente por cada um. Alguns sentem mais, outros menos. Alguns não sentem nada. Outros têm suas vidas completamente mudadas por uma perda.

No caso de Stiles, a mãe dele morreu por causa de uma doença incurável no cérebro dela e a morte foi lenta, mas conturbada. Foi como rasgar um pedaço da vida dos Stilinski pela metade e deixar eles pra se virarem sozinhos, já que Cláudia era a força da família, até a morte. Pai e filho nem sabiam por onde começar a viver depois da morte dela.

Derek, bem… Derek tinha perdido a família para os caçadores de lobisomens. No caso dele, a namorada que ele tinha na época era uma deles. Ele estava namorando Kate Argent, uma mulher que vinha de uma família de caçadores. Ela disse que amava ele e os dois viveram um romance do tipo Romeu & Julieta, só que com a diferença de que no fim, ela tentou — e conseguiu — matar a família dele, deixando poucos para trás.

Stiles ficou pasmo quando Derek revelou essa história para ele, em um dos dias de verão em que a busca por Boyd e Erica tinha sido fracassada.

Mas ele não podia fazer muita coisa agora, tudo era passado.

Stiles respirou fundo.

“Eu vi uma das minhas amigas de infância mortas hoje, Derek.” Stiles falou, se virando de costas para a cama outra vez. Ele não sabia se aquilo era exatamente uma forma de retomar a conversa — e provavelmente não era — mas se os dois estavam compartilhando as suas dores, essa seria a melhor hora de falar tudo.

“Eu sinto muito, Stiles.” Derek falou, voz ainda embargada. Ele colocou a mão no ombro de Stiles. “Eu sinto muito.”

O toque foi inesperado, mas o conforto que ele provocou assim que a pele de Derek se encostou na dele foi inimaginável para aquele momento. Era como se o contato entre os dois corpos tivesse amenizados as coisas. Como se a pele de Derek grudada na de Stiles fizesse tudo ficar bem.

Pelo menos para a percepção de Stiles.

Ele sentia as coisas mudarem com aquele contato. Ele só não entendia direito como tudo acontecia daquele jeito.

“Tudo bem, Derek. Eu já não via ela há um bom tempo…” Stiles suspirou. Ele não via Heather desde que a mãe dele havia morrido e a garota trocou de escola. Mesmo assim, a perda foi sentida. “E eu sinto muito por Erica.” Ele falou, colocando a mão dele por cima da de Derek. “Eu sinto muito por Boyd, que teve que ver ela partir. Sinto muito por Cora que teve que ficar longe de você e você dela. Eu sinto muito pela professora, que teve que ver essas coisas, mesmo que você tenha salvado ela. Eu sinto muito por tudo que aconteceu, Derek.” Stiles apertou a mão do homem.

Derek respirou fundo.

“Obrigado, Stiles.” O homem sussurrou.

Stiles encostou a mão de Derek na bochecha dele e respirou fundo.

“Eu queria poder voltar no passado e consertar tudo de ruim que aconteceu pra você Derek. Pra você e pra mim.” Ele falou, suspirando. “Mas eu não posso. Eu não posso mudar mais nada.”

Derek tirou a mão dele da de Stiles para acariciar os cabelos do garoto, lentamente.

“Eu sei que você não pode mudar o passado. Mas só de estar aqui tudo já parece melhor.” O homem falou.

Stiles não sabia direito o que estava acontecendo entre ele e Derek, mas tudo parecia mais fácil quando eles estavam perto, quando os dois entravam em atrito ou contato. Como se o simples fato de se tocarem fosse o suficiente para fazer o coração bater mais forte.

E essa realidade assustava Stiles, que não estava nada acostumado a ser comandado por esse tipo de emoção. Era como se ele e Derek estivessem ancorados um ao outro, ligados por algum tipo de força, ligados por alguma coisa mais forte do que qualquer coisa que ele havia sentido.

E o que mais assustava ele era o fato de aquilo ser tão inesperado e bom ao mesmo tempo.

Quase bom demais pra ser verdade.