Herói
2 II - Controle
Notas iniciais
É interessante pensar que o controle é uma coisa que muitos de nós temos de sobra e do nada ele se esvanece rapidamente, se transforma em pó, cinzas. Se transforma em nada num simples piscar de olhos, como se ele nunca estivesse estado em nossas mãos em primeiro lugar.
Ele simplesmente desaparece.
Não é a coisa mais certa da nossa vida, nem a mais garantida, mas o controle é uma dessas coisas que quanto mais a gente acha que tem, mais fácil é de perder, e quando perdemos, os resultados são muito mais catastróficos nessa perspectiva — nós perdemos tudo quando o controle se vai.
No meio de tudo isso nos perdemos a nós mesmos.
O controle é o que nos faz dar um passo para trás ou para frente — sabendo a hora certa para dar esse passo e a força necessária para ele ser completo. Quando a vida coloca a gente no meio de situações que não sabemos lidar, ele nos guia por entre essas vias escuras, nos oferecendo um caminho. Ele nos abraça e nos consola, nos segura e nos ensina a pular por cima de obstáculos.
Se a realidade não é favorável, o controle nos dá uma falsa realidade onde tudo vai dar certo, ele manipula as variáveis a seu próprio favor, a nosso próprio favor e traça a melhor alternativa para tudo. Tendo a força em nossas mãos, tudo parece possível e mais simples.
Tendo o controle, tudo é nosso.
Sem ele não temos nem certeza do próprio passo.
Porém nem sempre se tem o controle.
E muitas vezes se perde ele, também...
Na maior parte do tempo em que eu busco ter as coisas à minha mão, ter tudo ao meu alcance, eu sinto que tudo fica mais longe, mais fora da minha zona de toque, mais difícil. Quanto mais eu vejo a vida passando pela frente dos meus olhos, mostrando suas garras e uivos, mostrando o sangue e os ossos no chão e os gritos de socorro, menos controle eu tenho sobre ela.
E isso me assusta.
Me assusta porque perder o controle no meio da minha vida, aqui em Beacon Hills, pode significar não ter mais vida para perder já que em um segundo de descuido existe uma infinidade de criaturas sobrenaturais que podem vir e rasgar minha garganta.
O risco é maior ainda quando eu perco o controle na frente de outra pessoa sem eu achar um lugar para me proteger, quando minhas mãos se descontrolam, meu corpo se desprende de si mesmo e eu não consigo me esconder antes dos outros perceberem o quanto eu estou perdido.
Perdido dentro de mim mesmo.
A melhor sensação — ou a pior — que pode descrever a perda do controle é uma que me afeta.
Desmaiar ao ver alguma coisa que lhe enfraquece.
E eu sou uma pessoa que sofre disso, com facilidade.
Você está vivendo a sua vida simples, como qualquer outro dia e do nada aparece alguma coisa que você não pode ver, um reflexo, alguma coisa que instiga um sentimento reacionário e momentâneo que te afeta sem nem você saber o que se passa dentro de você e então você desmaia.
Eu acabei de fazer isso.
Eu e Scott fomos juntos para o tatuador que ele havia escolhido durante o verão todo — ele iria fazer uma tatuagem que manteve ele preocupado por muito tempo, já que desde o momento que ele se separou de Allison e ela foi para a França ele jurou que não iria pensar nela, ou pelo menos tentar esquecer que ela estava na mente dele, tentar tirar a cabeça dele desse jogo de amor.
A tatuagem iria representar essa força de vontade que ele teve em deixar ela viver a vida dela e se recuperar das perdas do passado, enquanto ele recuperava a sua vida.
Sinceramente? As razões para ele celebrar uma tatuagem pareceram um pouco estúpidas a meu ver, afinal, só porque você conseguiu se controlar em não ligar para uma garota não quer dizer que você superou uma grande barreira — só significa que você é homem o bastante para entender o que um tempo significa.
Não sei se faz sentido ele marcar a pele dele com tinta só para ele saber que ele tentou esquecer alguém.
Mas o que eu posso dizer sobre o que faz sentido na cabeça das pessoas ou não, certo? Muitas coisas que eu penso podem não fazer sentido para outras pessoas, podem ser coisas que só significam o bastante para mim.
E tem sim uma coisa que vem à minha mente.
Uma pessoa.
Eu não consigo tirar as imagens de Derek acorrentado pelas minhas mãos, o homem preso ao poste no meio do apartamento dele.
E isso mexeu comigo de uma forma inesperada, fez eu me sentir diferente.
Por aqueles segundos em que eu estive com as correntes em minhas mãos, que eu estive amarrando Derek, que eu estive com ele à minha frente apenas esperando por minhas ações, eu tive o poder.
Eu tive o controle.
Um controle que foi difícil de conseguir, que demandou riscos, que sofreu alterações no meio do caminho, que me fez rever a minha mentalidade, me fez pensar de outras formas, iluminar a minha cabeça por uns instantes antes de mandar ela pra escuridão de novo.
Mas o controle estava ali, nas minhas mãos.
O controle estava ali na forma do metal fundido das argolas entrelaçadas escapando pelos meus dedos. O controle pesava na minha mão, arrastava o frio pela minha pele e grudava o cheiro de ferrugem em volta do meu próprio.
Mas o controle estava ali.
E assim tão importante naquele momento, me fazendo forte e poderoso, o controle me deixou pelo chão no momento em que eu vi a agulha tocando a pele de Scott e perfurando o tecido enquanto fazia a tinta se pregar à pele.
Eu vi o sangue e desmaiei.
***
Stiles dirigia seu jipe para a casa antiga dos Hale, no meio da Reserva. Scott havia ligado para ele um pouco depois do ataque dos pássaros na escola e os dois decidiram por se encontrar lá com Derek, que iria ajudar Scott com a tatuagem dele.
Na noite anterior, Stiles se lembrava de ter ido ao tatuador com o amigo e ter visto o começo do trabalho, já que depois ele acabou desmaiando. Assim que o desenho estava pronto, no entanto, ele desapareceu da pele de Scott, sendo curado pelo poder de cura do lobisomem.
Eles não sabiam o que fazer para uma tatuagem ficar na pele de alguém com aqueles poderes, por isso Scott perguntou para Derek, que tinha tatuagens na pele dele.
Stiles não fazia ideia de qual solução seria, mas mesmo que ele não estivesse muito animado com o prospecto do que iria acontecer, ele foi ao encontro dos dois, afinal Scott era o melhor amigo dele.
No entanto, ele não estava indo apenas por causa do amigo.
Não, ele estava indo por causa do homem.
Depois da noite que eles tiveram, a noite em que Stiles acorrentou Derek ao poste que havia no meio do loft e ficou por horas ao lado do lobisomem que passou por uma variação enorme de estados de humor, até cair ao chão, eles não haviam mais se visto nem conversado.
Isso fazia dias.
Derek havia chorado por alguns momentos, resmungando pra si mesmo sobre o que ele havia feito de errado na vida, sentindo as lágrimas escorrendo pelo rosto e tentando engolir elas com a boca. Ele gritou ao morder os dentes, tentando controlar o animal dentro de si, o animal que tentava romper todas as barreiras e quebrar o metal que o mantinha de pé ali.
O garoto tinha quase certeza que houve momentos em que Derek teria matado ele. Momentos em que o homem, se não estivesse acorrentado, iria apenas apertar no pescoço dele, estrangular Stiles, cortar as veias e fazer o sangue jorrar.
Ele faria Stiles morrer olhando nos olhos dele, vendo a fera indomável.
Mas ele também viu o olhar de gratidão do homem vez ou outra, a forma como o rosto dele adquiria essa espécie de paz por alguns minutos, esse olhar sereno que parecia quase feliz — coisa que Stiles nunca esperou de Derek.
Assim que a noite terminou, Derek pediu para Stiles só abrir os cadeados e ir embora, e o garoto fez exatamente aquilo. Ele nem acreditava que ele teve toda a audácia de ficar por lá a noite toda, de ficar ao lado do homem.
Ele não fazia ideia de como ele havia feito aquilo e assim que ele chegou de volta em casa ele acabou se trancando no closet por alguns minutos, sentindo medo da própria sombra que a lua projetava do corpo dele. Ele chegou em casa com medo do que havia acontecido, com medo da força que aqueles sentimentos que tomaram conta do corpo dele tinham.
Stiles se recusou a lembrar daqueles momentos por mais de uma semana — ou ao menos ele tentou.
Voltando à presença de Derek iria fazer aquelas memórias voltarem à tona.
E ele não sabia exatamente o que esperar de tudo.
Ele desligou o jipe assim que ele entrou no pátio selvagem da casa. Stiles saiu do carro e foi caminhando devagar até as portas e janelas queimadas e os restos de um alpendre. Os pés dele já faziam ruídos ao pisarem nas folhas secas do chão e fizeram mais ainda quando eles entraram com contato com a madeira antiga.
Stiles abriu a porta e entrou, sem precisar pedir para ninguém. Ele sabia que poderia entrar da forma que quisesse, afinal ele e Derek construíram uma relação próxima durante o verão — ele só não sabia o que Scott iria pensar dessa relação deles, já que o amigo havia se afastado de Stiles durante os últimos meses.
Mas agora não era hora de pensar em Stiles e Derek ou qualquer implicação dessa tentativa relação que eles tinham — Stiles estava ali por Scott.
Assim que ele entrou, os dois homens dentro da sala se viraram para Stiles, que apenas acenou para eles, estranhamente.
Ver Derek vestido em cores escuras e mostrando a sua cara com naturalidade, exalando o ar de poder que rondava ele, era uma experiência interessante depois dos momentos que eles passaram juntos dias atrás. Ele não sabia qual era o verdadeiro Derek, se o que estava na frente dele, forte e viril, ou se era aquele que havia se rendido para as correntes.
Talvez os dois fossem de verdade e só Stiles não sabia como reagir à presença de um homem multifacetado.
“Oi?” Scott perguntou sem se levantar da cadeira que ele estava sentado, cumprimentando Stiles com um movimento de cabeça.
“Hey.” Stiles disse, sorrindo meio torto e indeciso para o amigo que sorriu de volta. “O que a gente vai fazer aqui?” Ele perguntou para os dois, esperando que eles explicassem o que iria acontecer.
Scott suspirou, agarrando o próprio braço onde a tatuagem foi feita, mas foi Derek quem falou.
“Nós precisamos usar fogo. É o que vai fazer a tatuagem reaparecer na pele dele.” O homem falou calmamente. Tão calmamente que chegou quase a assustar Stiles, ao mesmo tempo em que fazia os nervos dele aflorarem.
Os olhos dos dois se cruzaram por um instante, antes do homem se agachar perto de Scott. Stiles se achegou neles com calma, rondando os detritos que se espalhavam em volta do cômodo, sentindo a energia que borbulhava do Alfa, uma coisa quase que palpável em alguns momentos e ao mesmo tempo distante no segundo seguinte.
Derek se concentrou em analisar o braço de Scott por alguns instantes, fazendo seus olhos de Alfa brilhar em vermelho sangue.
Na mão dele, um maçarico.
“É. Eu vejo.” Ele fez uma pausa, apontando para o lugar perto do ombro do jovem lobisomem. “Duas linhas, certo?” Derek perguntou.
“Uhum.” Scott respondeu, assentindo vagamente com a cabeça. Stiles apenas observava a troca de palavras entre os dois lobos.
“E o que significa?” O homem perguntou para Scott.
“Não sei?” O garoto bufou, indeciso. “É só alguma coisa que eu tracei com meus dedos…” Ele falou, logo antes de colocar a mão por sobre o chão empoeirado, traçando um círculo menor com um dedo e depois juntando dois e traçando outro círculo maior em volta daquele, demonstrando o que apareceu na mente dele para a criação da tatuagem.
“Por que isso é tão importante pra você?” Derek pediu após analisar o desenho.
Scott respirou antes de falar.
“Você sabe o que a palavra tattoosignifica?”
Stiles, que finalmente sentiu que poderia contribuir para a conversa, resolveu falar.
“É pra marcar alguma coisa.” Assim que ele falou pela primeira vez diretamente para Derek, que estava de costas para ele, o homem se virou e os olhos dos dois se cruzaram intensamente. O garoto não queria ficar no meio dessa tensão perto de Scott, por isso ele piscou o olho para Derek, uma reação quase que instintiva e inesperada.
Ele nem sabia o porquê, mas ele simplesmente piscou o olho para Derek.
O homem sentiu que a reação foi involuntária e inesperada, mas os olhos dele, ao ver a piscadela de Stiles, se acenderam por um segundo, quase se enchendo de vermelho de novo.
Ainda bem que Scott chamou a atenção para si de volta.
“Aquilo é em tahitiano.” Ele começou. “Em samoano isso significa ferida aberta. Eu sabia que queria ter uma dessas quando completasse dezoito. Eu sempre quis uma.” Scott suspirou. “Eu só decidi fazer uma agora pra me dar uma tipo de prêmio…”
“Pra que?” Derek perguntou, intrigado.
“Por não ligar ou mandar mensagens pra Allison durante o verão.” A confissão de Scott parecia extremamente adolescente e imatura sob o ponto de vista de Stiles, mas ele sabia o quanto ela era importante para ele mesmo assim. “Sabe que… eu realmente queria … e era difícil resistir às vezes. Eu só tentei dar o espaço que ela queria.” Scott completou.
No momento em que ele terminou seu pequeno monólogo sobre as dificuldades de se amar, a cabeça de Derek quase se virou para Stiles outra vez, como se esse movimento fosse involuntário como a outra reação do garoto, mas dessa vez partindo do homem.
Parecia que os dois ficavam meio que sem controle um perto do outro, como se ele não soubesse quem iria ser o vencedor e ficasse se jogando entre um e outro.
E nenhum sabia se iria sair o ganhador desse jogo.
Scott continuou a falar.
“Quatro meses depois e ainda dói. Ainda parece como uma…” Scott começou e parou, deixando espaço para Stiles completar.
“Como uma ferida aberta.”
“Uhum.” Scott concordou.
Derek respirou antes de falar, olhando brevemente para o maçarico na mão dele.
“Isso vai ser a pior coisa que você já sentiu.” Ele avisou, olhando nos olhos de Scott.
“Pode fazer.” Disse o garoto, sem titubear.
Derek acendeu o maçarico com um movimento rápido, colocando seus olhos em Scott outra vez. Stiles tremeu ao ver o fogo e imaginar o que iria acontecer.
“Oh, wow…” Ele falou, bastante desconfortável. “Isso é... um pouco demais pra mim… eu vou aceitar isso como minha chance pra esperar lá fora e…” Ele começou a caminhar para sair o quanto antes da sala, antes de começar a ver o que iria acontecer. Antes de surgir a possibilidade de ele perder o controle de novo.
Perder o controle de si.
Ele conseguiu dar alguns passos, passando pelas costas de Derek, antes do homem se virar a parar o caminho de Stiles com uma das mãos, atingindo o peito dele. O toque causou tremores também, mesmo sendo rápido.
“Não.” O homem falou, sem nem olhar para ele. “Você vai me ajudar a segurar ele.” As palavras de Derek pareciam meio apertadas, como se ele não estivesse confortável em falar com Stiles assim, pedir para ele fazer alguma coisa. Mas elas também não expressavam repulsa — era como se os dois não soubessem como agir um ao redor do outro.
Stiles respirou fundo ao voltar para o lado de Scott. Ele se encaminhou para atrás da cadeira do garoto, colocando as mãos nos ombros dele e olhando para Derek, pedindo a confirmação da ação dele. O olhar que o homem deu para ele de volta fez ele congelar pois era Derek assentindo para ele ao mesmo tempo em que ele parecia que queria comer Stiles com os olhos.
Parecia um momento em que a fera não sabe se é selvagem ou domesticada.
“Oh meu Deus.” Stiles falou, tentando virar o rosto no momento em que Derek colocou a chama do maçarico no braço de Scott.
O lobisomem começou a gritar, mordendo os dentes. Derek segurava o braço dele e continuava pressionando as chamas na pele de Scott, queimando ele. Stiles tentava ao máximo segurar o amigo.
“Segura ele!” Derek exclamou, vendo que Scott se movimentava cada vez mais. Stiles usou o máximo de força para segurar o outro garoto, nem prestando atenção ao som ou o cheiro de carne sendo queimada ou sequer ouvindo os gritos de Scott que não sabia se queira seguir com aquilo.
A mente de Stiles se perdeu no meio do processo, tentando se controlar ao máximo, tentando contar a respiração e fazer a força que ele era suposto a fazer. Ele encarou aquilo como uma missão, como uma parte do desenvolvimento dele. Stiles não queria desmaiar outra vez, ele queria tentar superar aquilo.
Os sons quase que se escaparam do ouvido dele, o nariz parou de captar os odores e os outros sentidos de Stiles meio que entraram em um estado nebuloso.
Como se ele estivesse em modo de espera.
Ele só percebeu que tudo tinha se acabado quando a voz de Derek soou no ouvido dele.
“Stiles?” Um sussurro quase inaudível fez Stiles abrir os olhos. Não havia mais sons na sala, Scott havia desmaiado de dor, mas tudo tinha acabado. Ele sentia o suor escorrendo pelas costas e conseguia provar do gosto de sangue que vinhas dos lábios dele, que Stiles tinha mordido.
Ele respirou fundo.
“Stiles?” Derek perguntou de novo, ao lado de Stiles. O rosto do homem parecia preocupado e a voz dele mais parecia uma brisa leve.
“Acabou?” A voz do garoto soou estranha aos ouvidos dele, mas ele ficou feliz de ter conseguido falar.
“Sim.” Derek falou mais alto dessa vez. Ele acompanhou a voz dele com uma mão no ombro de Stiles, que fez o garoto tremer um pouco e virar o rosto para o homem.
Os dois estavam bem próximos, até mais do que eles tinham ficado no outro dia. Dessa vez quem estava quase sem controle era Stiles, no entanto, ao contrário do encontro passado. Dessa vez era o garoto que quase tinha se perdido dentro de si e Derek era a âncora que tinha puxado ele de volta.
Âncora.
Será que os humanos também precisam de uma? Será que faz sentido para nós termos alguma coisa que nos puxe de volta para nosso estado normal, que nos ajude a controlar os nossos ânimos, nos dê uma forma de sobreviver e continuar respirando.
Um motivo para estarmos vivos?
Mas não pode ser que Derek seja isso para mim em tão pouco tempo.
Não faz nem sentido.
“Stiles?” Derek puxou ele para fora de sua cabeça (como uma âncora, outra vez) chamando a atenção de Stiles. “Tudo bem?”
O garoto fixou o olhar nos orbes verdes de Derek e respirou fundo antes de assentir.
Derek suspirou também.
O homem tirou seu braço do ombro de Stiles e caminhou lentamente para o outro lado da sala, onde ele deixou o maçarico, antes de se encostar em uma parede e suspirar novamente.
“Scott vai ficar um bom tempo inconsciente.” Ele falou. Stiles analisou as palavras antes de responder.
“E funcionou?”
“Pode olhar por você mesmo.” Derek disse, se virando para Stiles e apontando para o amigo dele, desacordado na cadeira.
Stiles olhou para o braço de Scott e viu as linhas negras na pele do garoto.
“Legal.” Ele sussurrou em excitação. Mesmo que ele tivesse um problema com o modo que a tatuagem havia se fixado à pele de Scott, primeiro com agulhas e depois com fogo, e também não concordasse com a justificativa por trás do acontecido, Stiles gostava de tatuagens.
“Ele vai gostar.” Derek falou.
“Ah, sim.” Stiles concordou, olhando para a tatuagem de novo e depois cruzando seu olhar com Derek.
Os dois ficaram se olhando por segundos. Mas pra eles mais pareciam horas, pois Stiles conseguia ver as milhares de cores diferentes nos olhos de Derek, conseguia contar os pelos que escureciam o rosto do homem e achava possível memorizar cada linha do rosto dele.
Os olhos de Derek também se perdiam nas feições de Stiles.
Mesmo assim, o silêncio parecia estranho e não parecia.
Nenhum dos dois sabia o que dizer.
Stiles decidiu se arriscar.
“Foi assim que aconteceu com você?” Ele perguntou.
“Aconteceu o que?” Derek perguntou de volta, não sabendo sobre o que Stiles falava.
“Ah, a sua tatuagem. Eu me lembro de ter visto ela no dia em que você foi se esconder no meu quarto enquanto você era fugitivo da polícia e o Danny estava lá também e…” Stiles parou de falar para controlar a voz que havia se acelerado e respirou. “Só queria saber como que foi com a sua tatuagem.” Ele disse, mais calmo.
Derek assentiu calmamente, como se ele estivesse processando a pergunta, o que era uma evolução, já que Stiles achava que o homem provavelmente iria negar qualquer coisa a ele.
Mas você ainda não conhece ele de verdade, Stiles.
Antes de você achar que já sabe quais são as cores verdadeiras do homem, deixe ele lhe mostrar o caminho.
“Laura me ajudou.” Derek disse. Stiles arregalou os olhos, surpreso, antes de entender o que Derek tinha falado.
“Hum, legal.” Ele disse. “Ela usou um maçarico também, então.” Stiles falou, tentando prover uma continuação para a conversa.
“Sim.” Derek falou, devagar. “Nós combinamos de fazer tatuagens iguais e no mesmo dia. Eu a ajudei e ela me ajudou. Nós sabíamos como isso iria funcionar e só nos preparamos antes.” O homem completou.
Stiles assentiu, tentando controlar a surpresa. Ele nunca tinha ouvido Derek falar tanto sobre a família dele e o passado que vivia assustando ele. Stiles sabia o quanto falar sobre a família era complicado, principalmente quando um deles se vai.
Imagine só como deve ser quando todos eles se vão.
“Ela também fez um triskele?” Stiles perguntou.
“Sim.” Derek respondeu e um pequeno sorriso apareceu nos lábios dele. “Laura vivia dizendo que a tatuagem parecia meio idiota, mas ela fez mesmo assim. E eu sempre soube que ela adorava.” A cara de Derek era serena.
Stiles se surpreendeu com a facilidade que o homem tinha em falar naquele momento.
“E eu posso pedir o que a sua significa?”
Derek olhou para Stiles, com o rosto de volta à forma natural.
Ele apenas assentiu.
“A minha significa passado, presente e futuro. Como as suas relações no passado definem quem você é no presente e afetam seu futuro. Cada um desses tempos está ligado de alguma forma e mostra como, mesmo que a vida seja nossa, todas as coisas que acontecem estão se moldando conforme nós vivemos.” Ele disse, respirando fundo antes de completar. “Muitas vezes sem a gente nem perceber.”
Quando ele terminou de falar, outro sorriso, bem pequeno, apareceu no rosto dele e Stiles só conseguiu ver ele por um segundo antes de Derek virar seu rosto para o outro lado.
O homem parecia estar querendo esconder o sorriso.
Stiles não sabia por que, mas ele poderia imaginar.
“Derek, eu…” Stiles começou a falar, mas parou. O homem virou a cara para ele.
“O que foi?” Ele pediu.
Stiles respirou fundo.
“Nada demais.” Ele parou por mais um segundo. “Eu só… eu só iria te dizer que não precisa esconder as coisas de mim. Da gente. De todos nós que eu acho que estamos do teu lado.” Stiles disse, tentando controlar o coração dele, que começava a bater mais forte.
“Eu…” Derek começou a falar, indeciso.
“Não, eu, me desculpa.” Stiles disse, andando na direção do homem. “Eu só falei isso porque eu acho que nesse ponto que a gente tá — não só eu e você, mas Scott também. Eu acho que não tem mais porque você esconder tudo. Acho que uma linha direta e livre entre todos é bom. E isso quer dizer um sim para os sentimentos também.”
Derek respirou fundo e assentiu.
Stiles assentiu também.
“Eu sei.” Derek falou. “Só acho que não é tão comum pra eu falar sobre sentimentos. Cada um tem sua forma de lidar com eles. Eu lido do meu jeito.”
Stiles quase falou eu sei, mas ele se controlou. Ele sabia perfeitamente qual era a maneira que Derek lidava com a dor e a perda. Como ele lidava com o descontrole e as dificuldades da vida. Ele viu o que Derek precisava, ele ajudou o homem a se acorrentar e percebeu como aquilo fez bem pra ele — principalmente pela forma calma que ele se portava agora.
O garoto assentiu outra vez para Derek.
“Eu…” O homem começou. “Eu nunca disse obrigado.”
Stiles respirou rapidamente.
“Obrigado?” Ele perguntou, sentindo seu coração bater mais forte, outra vez.
“Por você ter me ajudado no outro dia. Obrigado por ter me ajudado e desculpa por eu ter te ameaçado.” Derek falou, calmamente, olhando nos olhos de Stiles.
“Certo. Tudo bem, Derek.” O garoto disse, desviando o olhar. Os olhos do homem tinham um olhar bastante profundo e intenso — demais para o garoto naquele momento. “Eu ajudei no que precisava. Todos nós já nos salvamos do perigo.” Stiles desconversou.
“Eu sei, Stiles.” Derek suspirou. “O que você fez por mim foi mais do que isso. Eu não sei exatamente em quem eu poderia confiar para fazer o que você fez.”
Stiles respirou fundo e olhou de novo para Derek.
“Não tem problema. Eu faria de novo.” O garoto disse. “Você me salvou da morte, e lidar com o sobrenatural é a única coisa que eu não posso fazer. Pra mim essa é a coisa mais importante e você fez sem pedir um obrigado. Então eu acho que eu te devo um também…”
“Eu acho que a gente se equivale, Stiles.” Derek disse, dando mais um passo na direção do garoto.
“Em que sentido?”
“A gente se salva, se ajuda. Sempre tem alguma coisa que eu posso fazer para proteger você de algum monstro e alguma coisa que você pode fazer pra me proteger de mim mesmo.”
Stiles apenas assentiu calmamente para Derek.
“Eu não sei como fazer essas coisa, Stiles.” O homem falou, frustrado.
“Fazer o que?” O garoto pediu.
“Dizer que, de alguma forma, estar perto de você me faz ser melhor. Ao mesmo tempo em que me deixa maluco, ás vezes. Eu percebi que eu posso confiar em você.” Derek falou. Ele respirou fundo antes de completar. “Eu não sei confiar nas pessoas, Stiles.”
A confissão do homem foi bastante inesperada para o garoto.
Eu não sei confiar nas pessoas, Stiles.
Eu percebi que posso confiar em você.
O homem olhava para Stiles tentando decifrar o que se passava na cabeça dele.
“Eu também não sei como fazer muitas coisas, Derek.” O garoto disse. “De alguma forma, no entanto, isso que aconteceu entre mim e você meio que veio do nada e só, hum, aconteceu. Não sei explicar, mas eu me senti parte de alguma coisa durante esses últimos meses, graças a você. Eu me senti importante, me senti como uma pessoa que pode fazer a diferença. E você confiou em mim…”
Derek deu mais um passo na direção de Stiles.
“Você sempre foi parte de alguma coisa importante, Stiles. E sempre teve sua parcela de ajuda.” O homem disse, sem saber exatamente o que fazer com a falta de distância entre o corpo dele e o do garoto.
“É, eu sei…” Stiles suspirou. “Só que às vezes é complicado lembrar disso quando todo mundo à sua volta tem poderes de alguma forma ou de outra. E eu sou só o humano frágil e tudo mais…” O garoto balançou a cabeça, olhando para o chão.
Derek deu mais um passo, ficando frente a frente com Stiles. O homem colocou a mão, tentativamente no rosto dele, levantando-o para que pudesse colocar seus olhos nos de Stiles. A sensação da mão de Derek no rosto dele fez Stiles tremer e engolir o nó na garganta dele.
“Todos somos frágeis.” Derek falou, calmamente. “Muitas vezes há muito mais qualidade no homem que não tem medo de mostrar as suas fragilidades do que no que as esconde.”
Os olhos dos dois se cruzaram e a respiração deles fazia o calor entre os corpos aumentar.
Naquele momento tudo parecia ter parado, só se ouvia o coração bombeando sangue nos ouvidos. Não havia movimento nos arredores, não havia perigo ou amigos, não havia nada acontecendo a não ser a mão de Derek tocando o rosto de Stiles e o tempo parado entre eles.
Os lábios dos dois estavam a centímetros um do outro e o beijo estava quase palpável
Então Scott acordou, ofegando por ar.
Derek e Stiles nem olharam um para o outro, apenas se separaram rapidamente e se viraram para o garoto que havia voltado a si.
Scott estava sorrindo para as linhas no braço dele.
“Funcionou.” Ele disse.
Stiles sentia a presença de Derek logo do lado dele e tinha certeza que o homem sentia ele também, mas o momento havia passado e estava se esvaindo como ar, forçado a desaparecer com a presença de Scott e a iminente volta à vida real — já que na maior parte do tempo essa relação entre Derek e Stiles mais parecia uma ilusão.
Derek apenas assentiu para o jovem lobisomem, se virando para fazer alguma coisa qualquer.
Stiles sorriu para Scott, levantando as sobrancelhas como uma forma de elogio, antes do lobisomem sorrir para ele.
A única parte do rosto de Stiles que não chegava ao sorriso eram os olhos.
Mas Scott não tirou o tempo para notar aquilo.
Ele também não notou a maneira como Derek não conseguia tirar os olhos de Stiles pelo resto do tempo que os dois estiveram lá.
Mas Stiles notou.
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