Notas iniciais
Eu saí da competição, mas eu voltei com a história!! O que vocês vão ler é a versão reescrita do primeiro capítulo! =D

Quantas vezes é possível se destruir alguém, quebrar uma pessoa em partes e tentar reconstruir ela de novo, antes que essas partes não se encaixem mais e essa pessoa fique aos pedaços, jogada ao nada?

É possível se consertar alguma coisa que foi quebrada uma vez, outra vez e mais outra?

Essas perguntas são constantes na minha vida. Símbolos que viajam meus pensamentos, indo e voltando, marcando seu espaço e se fazendo mais importantes do que eu gostaria, pra ser bem sincero — vez ou outra eu me vejo retornando a essas perguntas, me vejo de volta a esses dilemas.

É possível alguém se despedaçar e reconstruir todas as partes? É possível se acabar e voltar, constantemente? Repetidamente?

Infinitamente?

Como é possível?

É possível?

É possível amarrar todos os pedaços com cordas e correntes e fazer um só, de novo? É possível juntar um por um deles pelo chão, selecionar e montar as partes de volta, fazer funcionar, fingir que tudo está bem e nada aconteceu?

Eu nem sei porque eu me pergunto se é possível.

Eu sei a resposta.

Ela estava estampada no meu rosto no momento em que eu estava naquele porão olhando para o desespero de Boyd e Erica, os olhos vermelhos e molhados por lágrimas de dor. Eu tinha a resposta em mim, no movimento que meu corpo fez ao sofrer o abuso, no choque do meu cérebro contra as paredes do crânio, meus dentes se lascando e a minha mandíbula a se torcer em uma maneira longe do natural.

Eu senti dor. Eu senti tudo se quebrar.

E eu senti medo de não poder juntar meus pedaços.

Eu vi eles se espalharem pelo chão. Duas, dez, cem partes. Mesmo que eu mal tenha sangrado pelos poros do meu rosto, eu senti as partes se quebrando em estilhaços.

Eu achei que não iria achar uma forma de seguir em frente, mas eu consegui catar cada um daqueles pedaços, olhei por todos os lados e me ajoelhei ao chão para procurar por todas as partes até que me remontei.

Me reconstruí, mas provei da dor a cada segundo.

Só a ideia de ter que passar por tudo isso outra vez me assusta. Não sei se conseguiria fazer tudo aquilo de novo.

De novo?

Eu não quero ter que fazer aquilo de novo.

Eu não quero ter que fazer aquilo nunca mais.

Eu nem sei se eu tenho em mim todas as partes que eu perdi, não tenho certeza se eu consegui achar todas elas. Sempre existe esse medo que toma conta de mim, dizendo que algum dia eu vou sentir a peça que falta no momento que eu mais precisar dela. E eu não vou saber onde procurar só porque eu já a quebrei uma vez.

Não sei se haveria forças em mim para passar por tudo aquilo de novo.

Eu ainda sinto que a qualquer momento que minha guarda estiver baixa, meus pedaços vão começar a cair.

Um a um, até não sobrar mais nada.

E nada vai ter valido à pena.

–--

A grande vidraça que cobria uma das paredes do loft era o foco do olhar de Stiles, de onde ele conseguia ver a área industrial da cidade se esgueirando até o céu com seus prédios altos e escuros.

Ele poderia dizer que Derek tinha bom gosto na escolha do lugar — combinava com ele, escuro, frio e impessoal. O apartamento tinha uma aura limpa mas nada leve, não haviam vestígios de muita humanidade pelas arestas do imóvel e a única interferência na forma sólida dos tijolos era o enorme buraco em uma das paredes.

Melhor um buraco na parede do que uma casa mal-assombrada.

Qualquer coisa naquele momento seria muito melhor que uma casa meio destruída e coberta por cinzas. Uma casa onde a maior parte da família dele tinha morrido e onde provavelmente era ainda possível sentir o cheiro dos corpos queimados de todos aqueles que ele um dia disse que amava.

“É, definitivamente, aqui é melhor.” Stiles sussurrou para si mesmo, sacudindo a cabeça.

Um relâmpago cortou com feixes de luz a penumbra em que Stiles se encontrava, seguido de um trovão que abalou as estruturas do prédio, logo antes de silenciar tudo, causando o efeito contrário do que era esperado — o som era tão penetrante que não era possível ouvir nada mais. Os ouvidos de Stiles se contraíram no momento em que o estrondo veio, e ele logo colocou as mãos para tentar aliviar o zumbido que soava por trás da surdez momentânea.

“Relâmpago idiota.” Ele bufou, se acostumando aos poucos ao jeito que os sons rolavam nos ouvidos dele, sacudindo a cabeça. “Espero que o Derek volte pingando feito um cachorro, também.”

E ele bufou de novo.

Stiles estava esperando por Derek, de novo. Ele odiava ficar apenas esperando, odiava ser colocado em segundo plano e deixado para trás por causa de ser apenas humano. Odiava ter que aguentar a pressão de não poder fazer nada e assistir aos outros se machucarem enquanto ele não existia.

Stiles odiava muitas coisas.

Mas mais do que esperar, Stiles odiava era não saber o que fazer, não saber como fazer.

Depois que Boyd e Erica fugiram correndo, ele passou os últimos meses buscando por eles junto com Derek. Mas Stiles sequer sabia se eles estavam vivos ainda, se toda essa busca valia à pena. Se essa espera por eles fazia sentido.

Derek disse que eles queriam, uma vez, tentar viver como Ômegas, lobos solitários, mandando em si mesmos, longe dali, tentando buscar um futuro mais promissor pra dois jovens que não tinham nada nem ninguém pra voltar. Mas depois que eles saíram, eles nunca mais foram interceptados, não mandaram notícias, não disseram se ainda estavam respirando.

Derek disse que conseguia sentir o perigo em volta dos dois, disse que o instinto do animal dentro dele queria proteger os que eram próximos, mas que não sabia como.

Stiles também não sabia como. Ele não sabia nem como sentir. Não sabia se eles estavam em perigo, mas confiou em Derek mesmo assim.

Ele não sabia se valeria à pena esse exercício de confiança.

A única prova de que talvez Derek estivesse certo era o símbolo da vingança que alguém marcou na antiga casa dos Hale. Aquela marca, segundo Derek, era a prova de que alguém estava vindo, alguma coisa poderosa o bastante para superar tudo o que já havia acontecido em Beacon Hills.

Como se tudo que já havia acontecido fosse pouco, depois que os lobisomens apareceram na vida deles.

Por isso mesmo Stiles tinha receio em confiar neles.

A ligação existente entre ele e Derek era prova disso, ela não era cimentada em uma comunicação aberta nem igualitária, não era baseada em uma completa confiança, ou sequer um tipo de confiança com alguma importância — o que acabava por gerar momentos de dúvidas.

Tudo entre eles tinha um fundo de incerteza.

Stiles queria apenas cuidar de si mesmo e confiar em si mesmo, garantir a própria segurança, prometer a si mesmo que ele iria conseguir salvar os que eram importantes e tentar ao máximo continuar respirando. Ele não iria ficar tomando tudo que Derek falava como garantia da verdade ou de segurança.

Na maior parte do tempo os dois não conseguiam sequer conversar muito civilizadamente como humanos, que dirá partir para relações mais profundas.

Bom, Derek não é um simples humano.

Eu sou um simples humano.

Nem todo mundo concordava com Stiles, no entanto.

O pai dele dizia que ele era um herói. Em alguns momentos, Stiles até queria acreditar que ele era, queria sentir o poder que é concedido a alguém que salva as pessoas como modo de vida e mesmo sendo um mero humano, ele sempre achou um jeito de se insinuar na frente do perigo e achar uma maneira de fazer a coisa certa, de fazer aquilo que o coração dele estava mandando.

Muitas vezes o instinto dele gritava a resposta certa, mostrava o caminho a seguir, e ele apenas o seguia, sem medo do perigo.

Mesmo assim ele não acreditava que isso fizesse dele um herói.

Heróis tem poderes, eles tem força além da humana, tem talentos especiais e eles são importantes para a balança social de um povo. Eles são imprescindíveis e insubstituíveis em todas as maneiras que Stiles não era.

Ou não acreditava ser, pois, no fim das contas, heróis tentam manter as pessoas vivas.

Stiles sempre tentou manter as pessoas vivas.

Pelo menos as que não tinham um porquê para morrer.

Ele suspirou.

Lá fora a chuva descia torrencialmente, água batendo nas janelas sujas. Stiles tinha cansado de refazer contas e planejar o próximo movimento da busca que ele e Derek estavam fazendo. Ele estava cansado de pistas sem nada para descobrir, de dar voltas e mais voltas sem sair do lugar. Ele estava cansado de riscar os mapas para tracejar rotas e mais rotas que não iriam levar eles a lugar algum.

E provavelmente Derek estava cansado também. Mas ele tinha uma responsabilidade maior sobre o seu grupo, ele era o líder deles, ele tinha que descobrir um jeito de salvá-los. Stiles só embarcou na viagem no meio do caminho.

Mas se Stiles não queria nada com Derek, se ele dizia que a responsabilidade nos ombros dele não era importante, se ele vivia criando motivos dentro da cabeça dele para não agir como um salvador, para não ser um herói, por que ele continuava ali?

Qual era a verdade por trás das palavras de Stiles, por trás das verdades que ele jurava para si mesmo? Qual era a força que dirigia Stiles a ficar junto com Derek enquanto ele buscava pelos seus lobos? O que fazia ele ajudar o Alfa a encontrar àqueles que ele procurava? Por que Stiles estava ali, dando do seu tempo pra pessoas que nunca tentaram salvar ele, que nunca deram nada por ele?

A mente de Stiles tinha essas respostas.

Derek me salvou uma vez.

Ele deu a vez dele por mim, ele pediu que eu fosse salvo primeiro.

Ele queria me dar uma chance. Ele queria que eu vivesse.

Eu sei que não posso garantir a vida dele, mas posso tentar não deixar que ele morra aos poucos.

Talvez seja por isso.

Eu não quero ver mais uma pessoa se despedaçar ao ver os que ama se indo. Eu não quero estar ao lado de alguém que perde pedaços de si sem eu poder fazer nada.

E, no fundo, eu sinto que ele talvez queira o mesmo de mim.

E é por isso que eu não sou um herói.

Heróis não precisam ser salvos, não precisam ser protegidos do perigo.

Eu preciso.

Ainda preciso.

Stiles saiu de seus pensamentos quando a enorme porta de correr se abriu e uma figura animalesca entrou cambaleando pelo apartamento.

Derek.

Molhado da cabeça aos pés, ainda meio transformado, ele entrou, fechou a porta e se encostou nela, deslizando alguns centímetros enquanto recuperava o fôlego. Mesmo que ele fosse um lobisomem — e Stiles tivesse quase certeza que eles não se cansavam assim tão facilmente — Derek parecia esgotado.

Era possível ver isso no rosto desanimado por trás dos cabelos molhados. Na forma como os ombros dele estavam abaixados, desilusão escrita no rosto dele.

Stiles tentou controlar seu coração, que começou a bater loucamente assim que ele se assustou com a invasão, afinal ele não tinha visão especial e nem sentiria o cheiro de Derek chegando ou receberia algum aviso sobrenatural de alguém que era parte do grupo deles.

Ele tentou amenizar a respiração e as emoções dele — Derek ficava desconfortável quando Stiles perdia o controle de si mesmo, por isso ele tomou uma boa golfada de ar para dentro dos pulmões antes de falar com o outro.

“Alguma coisa?” Stiles perguntou, sem nem se mover de perto das janelas. Derek respirou fundo antes de sacudir a cabeça lentamente, em negação. Stiles aceitou a resposta com um simples movimento de cabeça antes de se virar para a janela de volta. “Vai trocar de roupa que eu faço um café.” Ele anunciou de costas para Derek.

Stiles esperou uns segundos antes de virar, e assim como ele previu, Derek já tinha cambaleado para o banheiro em silêncio. Ele, então, caminhou até a pequena cozinha para preparar um bule de café para os dois, tirando dois copos sortidos do balcão.

Ele respirou fundo ao ver que a mão dele tremia enquanto ele levava a colher com o pó até o filtro.

Assim era o relacionamento deles, poucas palavras, duras palavras, café, companhia. Nada além disso se passava entre os dois, não havia troca de emoções, não havia grandes revelações entre eles, não havia momentos de contato próximo, não havia nada. A única coisa era esse acordo tácito de que um iria ajudar ao outro e só — sem condições, sem desistir e sem escolhas.

A água borbulhava no pequeno bule de metal antigo, que Stiles acreditava ter vindo de alguma loja que só vendia coisas velhas ou qualquer lixão que Derek descobriu para montar a sua mobília. Quando estava quente o bastante, Stiles pegou o coador com o pó e procurou uma jarra, pois não havia outra coisa pra terminar a bebida, despejou a água e deixou o café escorrer aos poucos.

–--

Do banheiro, Derek conseguia sentir o odor forte se espalhando por toda a casa, enquanto a água escorria pelo corpo dele. Não que Derek fosse um amante de café, pois ele não era, mas o cheiro do grão vaporizado era muito melhor do que qualquer outro que poderia assaltar o olfato dele. E era forte o bastante pra ele nem precisar pensar em selecionar o que ele iria cheirar.

Era uma coisa boa, não ter que se importar com alguma coisa, pelo menos uma vez na vida.

O fato de Stiles estar fazendo era o que acabava por tirar um pouco da satisfação do momento, no entanto. Não que Derek tivesse uma grande aversão ao garoto, mas ele não mantinha um diário explicando detalhadamente os sentimentos que ele tinha por Stiles. Principalmente porque ele não tinha muitos e nem esses que tinha eram exatamente carinhosos.

Na primeira vez que ele apareceu no loft, querendo ajudar Derek a encontrar Boyd e Erica, ele desperdiçou menos de trinta segundos olhando para o garoto, nervoso e indeciso ao mesmo tempo, pé batendo no chão perto da porta, antes de deixar ele entrar e começar a falar sobre as maneiras de eles começarem as buscas.

Derek nunca disse pra Stiles que ele já havia começado as buscas e até agora não havia nada que desse o mínimo de esperanças para ele. Derek sequer disse se aceitaria ou não a ajuda, Stiles simplesmente entrou, ligou o computador, abriu livros e começou a riscar em cima de mapas.

No começo ele ainda tentava arrancar explicações de Derek o tempo todo, mas ele acabou percebendo que o homem não iria falar muito — o que fez com que, depois de um tempo, ele apenas falasse consigo mesmo, e se Derek ouvisse alguma coisa que lhe interessasse e fosse importante, ele iria intervir.

Derek não intervinha muito, no entanto. Não porque Stiles não falasse coisas interessantes, pois na maior parte do tempo ele falava as coisas certas, ele criava os planos corretos e pensava no que realmente precisava ser feito.

E quando tudo que ele projetava ainda não dava certo, ele ainda faria café para Derek.

Não que ele gostasse muito de café.

Mas o gesto importava mais do que qualquer outra coisa.

Não haviam muitas pessoas sobrando por aí que quisessem fazer alguma coisa boa por Derek — mesmo que fosse fazer uma simples xícara de café.

Parecia uma espécie de acordo não tão justo para Stiles, mas Derek nunca discutiu termos de concordância entre eles. E muito menos pediu por nada.

Quando o banho terminou, Derek colocou uma calça leve e uma camiseta para ir para a sala de volta. Ele não tomou todo o tempo que poderia com o banho, nem usou da calma que poderia ter levado para se vestir, mas ele poderia se importar menos consigo quando partes da família dele estavam por aí correndo perigo.

Partes da família dele que ainda estavam vivas.

As partes que tinham sobrado e ninguém tinha matado na frente dele.

Ainda.

Ele respirou fundo antes de entrar na cozinha.

O copo de Derek já estava na mesa. Stiles já estava com o seu agarrado ao corpo, encostado na bancada da pia. Ele nem olhou para o garoto antes de pegar a bebida e descer ela completamente pela garganta.

Stiles levantou uma sobrancelha para ele.

“Não que exista uma maneira certa de tomar café, mas apreciar um pouco do gosto seria interessante.” Stiles comentou, levemente, mais para o próprio copo do que para Derek.

Derek olhou para ele.

“Eu não gosto de café.” A cara dele era desprovida de qualquer emoção quando ele falou.

“E…” Stiles começou a falar ao mesmo tempo em que, descuidadamente, ia tomar um gole, o que fez com que ele acabasse por se atrapalhar. “Droga.” Ele respirou. “E por que você nunca disse?” O menino perguntou, indignado.

“Eu nunca achei necessário.” Derek falou, calmamente. “E eu só disse que não gosto de café, não disse que não ia tomar.”

Stiles levantou a sobrancelha de novo.

“E como isso faz algum sentido?” Stiles perguntou.

“Eu não me importo se alguma coisa faz sentido ou não, Stiles.” Derek disse, dando um passo na direção do garoto, logo depois de pousar seu copo na mesa. “Lobisomem.” Derek completou, apontando um dedo para seu peito.

Ele mesmo vive fazendo brincadeiras sobre como nós somos mais parecidos com lobos do que com humanos.

Stiles bufou e rolou os olhos.

“E eu nem sei se existe algum motivo para eu tentar alguma coisa contigo.”

“Eu gostaria de saber se existe mesmo, pois eu não me lembro de pedir.” Derek disse, veneno quase que pingando das presas.

Ele sabia que não precisava provocar o garoto, principalmente porque ele estava ali por vontade própria e sem pedir nada em troca. Às vezes, porém, ele não tinha controle suficiente pra se impedir de fazê-lo.

“Eu não me lembro de você reclamar de mim nas outras noites que eu estive ajudando por aqui. Mas me desculpe se eu não sou de muita serventia, afinal eu não posso sair por aí todas as noites correndo como um cachorro. Pelo menos eu também não voltei todas as vezes com o rabo entre as pernas sem achar nada. De novo. De novo. E de novo.” Stiles pontuou aquelas três frases duramente, não se importando em nada com a presença do lobisomem na frente dele.

“Nós podemos mudar isso agora, então.” Derek deu mais um passo na direção de Stiles e ele tentou dar um passo para trás, mas já estava de costas para a pia. Derek sorriu ao ver o garoto sem saída e estendeu o braço para abrir a mão e mostrar as garras, ameaçando ele. “Eu posso te morder e então eu vou ter mais um cachorrinho pra correr por aí. Um que eu possa culpar quando eu não achar outro alguém pra fazer o mesmo. Um que eu possa jogar numa parede quando desobedecer e tratar como a porra do animal que ele é e que você acha que eu sou também.” Nas últimas palavras, Derek estava frente a frente com Stiles, presas aparecendo na boca dele e os olhos brilhando na cor do sangue.

O predador que ele, mais do que ninguém, sabia que era.

“Eu..” O coração de Stiles disparou e um tremor percorreu o corpo dele. Derek sentiu que ele estava perturbado e sorriu desdenhosamente para o garoto. “Okay, okay.” Stiles disse, levantando uma das mãos, defensivamente, e desviando o rosto dele para evitar o olhar do lobo, uma gota de suor caindo lentamente pela lateral do rosto e tremores fortes o bastante que faziam o cabelo dele se mexer.

Assim que o pescoço de Stiles estava completamente exposto, Derek conseguiu ver na veia sob a pele branca do garoto o quão rápido o sangue corria e imediatamente o som do coração percutindo no peito dele foi ouvido por Derek.

O som era apavorante. Era o som de alguém temendo pela vida.

Derek se assustou consigo mesmo.

Não.

Eu não sou assim.

Eu não posso ser assim.

Eu não vou fazer isso mais uma vez com ninguém.

Derek respirou fundo, fechando os olhos. A força da decepção de mais um dia sem nada tinha feito ele perder o controle com uma simples provocação — que provavelmente era fruto da decepção que o garoto sentia também, ao retorno de mais um dia sem esperanças de sucesso na busca deles.

Ele queria se isolar do mundo por aqueles segundos. Ele queria parar o tempo e contar a respiração dele. Ele queria apagar da mente dele a imagem do que tinha acontecido e de como ele se comportou como um lobo selvagem que esteve a um movimento simples de vitimar alguém que nada tinha a ver com os demônios dentro dele.

Mais uma vez.

Derek sentiu seu corpo quase se soltar de si mesmo. Num momento ele estava encurralando Stiles, ameaçando ele, no próximo, ele estava indo para trás calmamente, sentindo os tremores percorrendo a extensão dos nervos dele. Acuado, nervoso, instável.

Os olhos dele caíram ao chão, ele não conseguia mais olhar para a cara de Stiles.

Ele sentia vergonha de si mesmo, dos sentimentos que ele tinha. Da falta de humanidade que assolava ele mais vezes do que ele queria.

“O que foi, Derek?” Stiles perguntou, indeciso, voz fraca e nervosa, olhando para a figura do homem à frente dele.

Derek respirou fundo, cortando o ritmo agitado dos seus batimentos cardíacos e da respiração ofegante. Ele tentou controlar o corpo outra vez.

Mas o controle durou poucos segundos, e o num instante o sangue dele começou a correr rapidamente, coração batendo forte e as imagens na cabeça dele se colidindo.

–--

Stiles sentiu que alguma coisa estava errada.

“Derek?” Ele perguntou, voz ainda baixa. Ele sentia medo, mas ao mesmo tempo ele via que Derek estava passando por alguma coisa, estava tentando fazer se encontrar, tentando respirar fundo mais uma vez e abrir os olhos que haviam se fechado antes.

Os olhos abertos dele mostraram quem ele era de verdade.

“Derek?” Stiles disse, quase implorando, ao mesmo tempo em que o medo brotava aos poucos e ia escorrendo pelas veias dele. O olhar avermelhado de Derek significava que ele estava perdendo o controle, o que não era nada bom.

Ao contrário dos outros lobos, Derek tinha esse contato com o animal desde o momento do nascimento, o controle foi ensinado desde criança e ele teve tempo para aprender tudo que o corpo dele queria ensinar. A perda total do controle, então, era muito mais inesperada, difícil de controlar, lancinante, muito mais feroz.

Quem tinha o controle sobre as coisas sempre, quando o perdia, o perdia completamente.

Ele olhou para o rosto de Derek se contorcendo, ar saindo rápido pelo nariz.

“Stiles…” Derek começou a falar por entre os dentes apertados. “Vai e-embora.” Ele terminou a frase e respirou pesada e rapidamente. “Eu não... c-controle.”

Stiles viu que Derek agarrava a mesa com força, as garras dele tinham se aberto e dentado a madeira. As presas apareciam por entre os lábios, atrapalhando as palavras que queriam sair. Ele conseguia ver que não era só ele que tinha medo também, Derek tinha as feições do medo estampadas na face, o horror da perda de si mesmo era evidente.

“Derek.” Stiles lutou contra os sentimentos, que queriam levar ele para trás, para dizer as palavras e arriscou da própria coragem, que já não tinha, para dar um passo e mais um e mais outro até chegar na frente de Derek, que ignorava a presença de Stiles, escolhendo por cerrar os olhos com força.

“Derek.” Ele falou lentamente, sussurrando, de novo, fechando os olhos e estendendo a mão para pegar na que Derek agarrava a mesa a ponto de torcer ela aos poucos, quase quebrar — e pela força que ele fazia com todo o corpo dele, era um milagre que ela não tivesse se estilhaçado ainda.

Ele só queria colocar alguma coisa diferente no radar de Derek, tirar a atenção do homem, tentar fazer ele achar uma âncora pra trazer ele de volta.

Stiles respirou fundo ao mesmo tempo em que podia sentir que ele estava quase encostando em Derek. Ele conseguia sentir o calor exalado pelo homem, e todos os outros sentimentos de incerteza que vinham dele também.

Eu espero que ele não me mate.

Com uma última inalada de ar, Stiles encostou na mão de Derek.

Ele sentiu o calor da mão que se agarrava na mesa. A outra que estava solta no ar teve um pequeno espasmo no mesmo instante do contato. Stiles abriu os olhos para olhar para a mão, percorrendo lentamente os dedos e veias de Derek, deixando os dedos dele relaxarem por cima dos do outro homem.

Ele respirou fundo de novo, e antes de pensar, com a outra mão ele pegou a mão de Derek que estava no ar, fazendo o mesmo que fez com a outra, sentir o corpo, a pele, os dedos e as veias. Sentir os traços do humano que estava naquele corpo, pois animais não sentiam daquele jeito.

Ele agarrou as mãos de Derek. Apertou elas.

“Derek.” Stiles falou, segurando nas duas mãos dele. Ele contava as respirações, torcendo para que elas acalmassem ele. Pelo menos acalmassem o bastante. “Derek, abre os olhos.” Ele falou decidido.

Dessa vez foi o homem que respirou fundo, deixando o próprio corpo decidir por agarrar as mãos de Stiles de volta, ao mesmo tempo em que o garoto percebia a força que Derek fazia para se segurar. No entanto ele não abriu os olhos.

E a resposta dele foi sacudir a cabeça em negação.

“Derek, eu quero ver os teus olhos.” Stiles disse, tentando colocar mais força na voz, mais autoridade, mas sem agredir a ele. Ele tentava colocar o tom de ordem que o pai dele usava ao mesmo tempo em que tentava imaginar o que a mãe dele diria para alguém que precisava de ajuda.

Não faço a mínima ideia se alguma coisa que eu estou fazendo faz sentido.

Mas eu vou continuar.

“Abre os olhos e olha pra mim. Nada de mal vai acontecer.” Stiles comandou e apertou as mãos dele de novo.

O homem parou por um instante, pensando na resposta, mas sacudiu a cabeça de novo.

Stiles fechou os olhos bem apertados e os abriu, ao mesmo tempo em que tentou relaxar os ombros.

Ele respirou fundo, outra vez.

“Derek. Eu falei pra olhar pra mim.” Dessa vez, ele falou mais duramente, quase com raiva, sentindo a sua voz se elevar quase que sem a permissão dele, ao mesmo tempo em que largou rapidamente das mãos de Derek para agarrar o rosto dele.

Assim que a pele de Stiles entrou em contato com o rosto do homem, os olhos vermelhos se abriram num ímpeto.

Stiles prendeu a respiração para não pular assustado, e continuou segurando o rosto de Derek com seus dedos suados e assustados. Ele olhou bem dentro dos olhos vermelhos, olhou com todas as forças que um olhar poderia transmitir e esperou que as pupilas de Derek achassem uma conexão com as de Stiles, antes dele abaixar a cabeça devagar.

Em submissão.

Como um lobo da alcateia.

As dinâmicas dentro de um grupo de animais como os caninos, os lobos, era interessante e vinha influenciando o mundo dos licantropos desde sempre, como apontavam os estudos de Stiles. O Alfa sempre teria que ter o comando do grupo, mesmo que houvessem outros membros com algum tipo de poder sobre ele, com algum tipo de influência.

Stiles pensou rápido ao utilizar o conhecimento dele para controlar Derek. Ele nem sabia se era parte de qualquer grupo do qual Derek era o Alfa, mas ele se fez entender, se fez perceber e ao tentar controlar Derek, ele se mostrou submisso. Mesmo tentando influenciar o mais importante de todos, Stiles mostrou que quem mandava ainda era Derek.

Ele respirou fundo, tentado se acalmar ao esperar pelo que viria a seguir.

As mãos de Stiles estavam no rosto de Derek, por isso ele conseguiu sentir que aos poucos as feições do homem começaram a se normalizar. Em seguida a respiração foi cessando de seu ritmo maluco. Stiles sentiu as veias se acalmarem a bombear o sangue do homem e ele quase conseguiu sentir os olhos de Derek voltando ao normal.

Derek soltou um tufo de ar, relaxando instintivamente.

Stiles quase sentiu um choque ao ver o homem voltando ao normal e levantou a cabeça para olhar para Derek, tirando as mãos do rosto dele.

O movimento foi mais estranho do que Stiles tinha imaginado. Apenas depois de soltar Derek foi que ele percebeu o quanto tenso ele estava, pois assim que o contato foi quebrado ele cambaleou para trás até se encostar-se a pia de novo, se sentindo perdido, ofegando por ar.

O homem olhou para ele por um segundo com olhos nublados, antes de se virar e caminhar para algum lugar do apartamento, sem nem olhar para trás.

Stiles ficou estupefato por alguns segundos, antes de seguir Derek.

“Derek?” Ele perguntou, logo atrás dele, mas o homem não respondeu. Ele respirou fundo tentando voltar ao normal. “Derek?” Stiles perguntou de novo e Derek ignorou ele de novo, ao passo de que se movia por entre o espaço até chegar a escada espiralada do loft, e de lá tirou um saco de estopa, antigo.

Assim que ele jogou o saco no chão de novo, Stiles ouviu o barulho de correntes vindo de dentro dele.

“Derek?!” Stiles pediu mais uma vez.

“Vai embora.” Derek comandou, sem olhar para o garoto.

“Mas…” Stiles começou a falar, para ser interrompido outra vez.

“Vai embora, Stiles.” Ele falou de novo, em um tom mais severo.

“Não, Derek, quer saber?” Stiles tentou outra vez.

“Vai embora, Stiles!” Dessa vez ele gritou na cara de Stiles, raiva aparecendo no rosto quase como se fosse explodir de uma das veias. “Vai embora daqui. Eu não quero te machucar.”

Stiles engoliu as palavras que ia dizer, enquanto Derek virou para olhar as correntes que estavam no chão. Uns segundos de paralisia se instalaram no ambiente. Derek não se mexia, Stiles não se mexia. Nenhum dizia nada.

“Derek…” Stiles começou, mas não conseguiu continuar. As palavras não o acharam. Pelo menos não antes de ele respirar fundo, tentando relaxar os ombros. Stiles tentou repetir a pergunta. “Derek, o que você vai fazer?” Stiles perguntou com a calma que conseguiu colocar na voz.

“Stiles, vai embora.” A voz que saiu de Derek era quase chorosa, quase suplicante, como se ele não quisesse que ninguém o visse daquele jeito, mas implorando pra que alguém, inconscientemente não o deixasse.

Mas Stiles não tinha certeza das intenções dele, mesmo assim.

“Derek, o que que eu preciso fazer aqui?” Ele perguntou, depois de respirar fundo.

“Stiles, não.” Derek sacudiu a cabeça, mordendo o lábio. Os olhos dele passaram rapidamente pelos de Stiles, apenas num flash. Eles estavam cheios de um brilho triste.

“Derek, eu tô aqui. Eu vou continuar aqui. Eu vou te ajudar com o que você quiser. Qualquer coisa.” A voz de Stiles não era cheia de certeza, mas ele precisava forçar ela a sair de todo o jeito.

O homem analisou a pergunta por um instante até responder, sem olhar para o garoto.

“Eu não sei se você vai estar disposto a me acorrentar a um poste, Stiles.” Derek falou, desdenhando de si mesmo. Stiles conseguia ouvir a risada por trás das palavras de Derek, ele mesmo se tratando como uma piada de mau gosto, uma piada qualquer, uma coisa que não merecia nada.

Um qualquer.

“Derek, eu vou te ajudar.” Stiles disse, tentando colocar certeza na voz dele.

Derek riu.

Stiles apenas ficou em silêncio, esperando pelo homem falar alguma coisa.

“Eu já tentei te matar vezes demais pra confiar em mim mesmo nessa hora e deixar você me ajudar, mesmo que você tenha sido a única pessoa a fazer isso comigo.” Derek respirou fundo. “Ninguém nunca me ajudou, e eu sobrevivi. Eu sobrevivi sendo um órfão, vendo todos que eu amo morrer. Eu sobrevivi e consegui seguir meu caminho.” Derek parou por um instante e finalmente olhou para Stiles. “Eu não quero ajuda Stiles, eu não quero nada de você. Eu não quero te matar quando eu me perder em mim mesmo. Eu não quero repetir os mesmo erros que aparecem na minha cabeça todas as noites em que eu tenho pesadelos com o passado. Eu não quero o peso de mais um corpo nas minhas costas. E se eu te deixar me ajudar de novo, é isso que vai acontecer. Você vai ser apenas mais um.”

Stiles respirou uma, duas, três vezes antes de falar.

“Derek, eu não tenho medo de morrer nas mãos de mais ninguém. E se eu puder morrer no lugar de alguém que merece a minha ajuda, eu o faria.” Ele quase não acreditou em si mesmo quando as palavras saíram da boca dele.

Mas elas eram verdade.

Ele havia salvado pessoas antes, e como ele disse, se alguém merecia ajuda e poderia ser salvo, era isso que ele iria fazer. Ele iria agir como o herói que o pai dele disse que ele era.

Um herói? Eu não passo de uma falsa desculpa de um herói.

Stiles suspirou e olhou para Derek, que olhava para as correntes no chão.

“Por onde eu começo?” Stiles perguntou.

O homem não respondeu logo. E nem parecia que ia responder, mas Stiles ficou esperando por uma palavra, por algum sinal de que ele poderia ajudar, de que ele iria fazer a diferença. De que ele poderia provar para Derek que ele merecia a chance de ser ajudado.

O homem suspirou, sem olhar para Stiles, pegou as correntes do chão e esticou o braço na direção do garoto.

O metal estava na frente dele, esperando apenas para ser tocado.

Ele respirou fundo antes de estender o braço e tremer ao pegar nas correntes que Derek alcançou para ele sem dizer nada. Ele sentiu seu coração pular no peito, a respiração se perdendo pelo meio do caminho e ele quase sentiu as mãos falharem para segurar as correntes, mas o contato com o metal criou um relâmpago de sensações em Stiles. Um impulso momentâneo. Um piscar de olhos se transformando em energia. Um aperto no peito se fazendo presente.

Alguma coisa tomou conta do corpo dele por aqueles segundos, aquele primeiro momento em que ele sentiu que o poder estava nas mãos dele, em que ele sentiu o metal se transformando em força, em rigidez, em adrenalina — a mesma coisa que ele sentiu quando algemou Scott ao aquecedor de água, na primeira vez em que ele se transformou na lua cheia, a mesma coisa que ele sentiu quando tinha nas mãos o Molotov que ele atirou em Peter, a mesma coisa que ele sentiu quando ameaçou Gerard, mesmo que depois ele acabou apanhando do homem.

Stiles estudou o tamanho das correntes com as mãos dele. Elas pesavam bastante, eles cheiravam a metal enferrujado, elas coloriam as mãos dele com tinta laranja, elas eram duras, fortes, e não se dobravam, não cediam.

Olhando para Derek ele só via o olhar quase decidido do outro homem, que beirava à indecisão em momentos, o olhar de espera, quase implorando para que Stiles fizesse o que ele pediu sem palavras, o que ele rogava silenciosamente com cada batida do coração.

Essa excitação que Stiles sentia quando a força estava nas mãos dele, quando ele tinha o poder de comandar alguma coisa — era uma coisa que ele quase nunca tinha a chance de sentir.

Quando ele se virou para olhar Derek de novo, o homem já estava de costas para uma das colunas, no meio da sala.

“Você quer que eu…” Stiles parou de falar pois não sabia exatamente como dizer que ele iria acorrentar uma pessoa sem ele colocar as palavras como uma forma de ameaça.

“Se você não consegue nem dizer a palavra, eu não acho que eu deva deixar você fazer isso, Stiles.” Derek respondeu com voz calma, quase derrotada, sem nem olhar para o garoto, cabeça virada para baixo.

“Não, eu…” Stiles parou, respirou fundo e tentou usar a voz mais calma que ele conseguiria fazer no momento. “Eu vou te amarrar ao pilar, Derek.” Assim que as palavras saíram ele notou que a cabeça de Derek se levantou levemente, mesmo que os olhos não tenham alcançado Stiles. “Eu vou te acorrentar ao pilar, e não vou te soltar por um bom tempo.” Ele tomou mais ar antes de completar. “E eu vou ficar o tempo todo aqui. Assim que você estiver mais calmo, eu vou abrir os cadeados e vou soltar v-você.” Stiles gaguejou a última palavra, pois no momento em que ele finalizou a frase Derek levantou a cabeça completamente.

E aquele olhar no rosto dele era diferente. Era diferente de muitas coisas que Stiles tinha visto.

Ele não sabia exatamente o que se passava na cabeça dele, mas o olhar mostrava respeito, mostrava que Derek estava ouvindo, estava esperando, aguardando o que iria acontecer — mas não com medo — Derek estava esperando com ansiedade, excitação. Não a própria excitação sexual, mas alguma coisa que chegava perto, que riscava próximo à linha entre esses mundos.

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Assim que as palavras saíram da boca do garoto, as palavras de uma autoridade nada insana, nada invasiva, de uma espécie de ordem que ele ia descobrindo aos poucos que tinha, Derek sentia o seu corpo se soltar lentamente.

Da mesma forma que ele sentiu se soltar com Kate, da mesma forma que ela entrou na vida de Derek, a voz de Stiles entrava lentamente pela cabeça de Derek, mandando nele.

Ele nunca tinha visto a voz do garoto sair assim calma — claro que ele não tinha uma grande experiência com ele — mas assim que ele sentiu que o próprio Stiles conseguia se encontrar nesse novo papel, que ele sentia que tinha essa confiança dentro dele, confiança que passava diretamente para Derek e influenciava o jeito de ele se sentir.

Por um segundo ele fechou os olhos, logo antes de sentir o frio do objeto novo se achegando nele.

Stiles enrolava as correntes aos poucos, Derek sentia o metal roçando na pele e uma espécie de excitação mixada com alívio ia se espalhando pelo corpo dele, a cada centímetro que elas cobriam de pele o relaxamento ia aumentando.

O garoto tomou seu tempo enrolando as correntes com calma ao redor de Derek, em pé e encostado ao poste. Ele enrolou com calma as pernas e depois foi subindo. A primeira corrente terminou próximo da cintura, ele então pegou o primeiro cadeado e fechou.

Derek sentiu a primeira camada de tudo que ele continha caindo do corpo dele e se quebrando em pedaços no chão. Fisicamente ele não apresentava diferença, assim que Stiles fechou o cadeado ele nem sequer piscou o olho, mas psicologicamente ele sentiu que perdia peso da própria alma.

Stiles começou a deslizar a outra corrente pelo corpo de Derek, fechando uma em torno do peito dele e a outra em volta dos braços. O trabalho foi mais rápido do que com a primeira corrente, pois Stiles aprendeu o jeito que tinha que fecha-las em torno de Derek.

Derek apreciou o esforço do menino em aprender.

Naquele momento em que ele percebeu que estava completamente acorrentado ele suspirou. Quase conseguia sentir o pequeno sorriso se abrindo involuntariamente nos lábios, olhos fechados. O corpo protestava por alguns segundos antes da mente tomar conta e relaxar por completo, sentindo as correntes puxando tudo paro o chão, fazendo ele ficar preso, fazendo tudo parecer fechado, restrito.t

Exatamente o que Derek precisava.

Muitas vezes correr pela floresta, uivar — ou berrar — em busca de um pouco de alívio, de sossego, tentando tirar toda a raiva do corpo, jogar tudo pro alto, não era a forma mais eficaz de conseguir um bom resultado. Era a forma mais simples, e que só exigia dele mesmo.

Havia muito tempo que ele não podia deixar o bem estar dele nas mãos de alguém — não que ele confiasse em Stiles, pois aquilo ficou claro desde o começo — mas se ele poderia tirar mais proveito desse relacionamento que eles tinham, se ele poderia encontrar uma forma de conseguir o melhor jeito de resolver um dos problemas dele, ele iria abusar daquilo.

Derek sempre tentou ser o melhor filho, o melhor irmão, o melhor Alfa. Em algum momento ele precisaria parar de pensar nos outros e começar a ser mais egoísta.

Aquele era o momento.

Mas ele não sabia o que tinha o feito mudar.

Pelo menos não ainda.

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Stiles viu a boca de Derek se abrir lentamente, os lábios relaxando e um pouco de ar quente sair por ela quase que formando vapor, assim que ele fechou o último cadeado. O homem não disse nada, só expeliu o ar num suspiro cansado. Por alguns segundos, Stiles achou que talvez alguma coisa estivesse errada, pois Derek não estava falando, não protestava de forma alguma.

Ele estava imóvel.

Um momento depois, porém, ele viu que um que a boca de Derek começou a se curvar lentamente e um sorriso se fez no rosto dele. Um sorriso pequeno, quase secreto, privado.

Mas aquele sorriso fez Stiles tremer. Fez ele sentir um calor subindo desde a ponta dos pés dele até o último fio de cabelo na cabeça.

Nunca houve e na não havia qualquer sentimento entre eles dois — e Stiles sabia que ele também não sentia nada por Derek além de camaradagem, afinal a cabeça dele ainda estava em Lydia, mesmo ele sabendo que o amor que ela e Jackson tinham era alguma coisa que ele nunca poderia ter com ela.

E estava na hora de ele procurar alguma pessoa nova para saciar essa obsessão.

E parece que ele achou.

O sentimento de ver aquele homem, aquele lobo, se mostrando submissamente na frente dele, deixando alguém tomar conta dele, acorrentar ele, confiar à Stiles alguma coisa tão importante como o próprio corpo, fez alguma coisa se mexer dentro de Stiles, fez algo se acender.

Como nunca antes, ele sentiu uma onda de possessividade invadindo ele, ele viu que aquele sorriso estampado no rosto cansado de Derek foi ele quem fez, aquela pequena expressão de prazer, mesmo que quase subliminar, era por causa dele — ainda que os reais motivos estivessem na cabeça de Derek e quaisquer os problemas que tinham causado o turbilhão de emoções no homem, não tinham nada a ver com Stiles — o instrumento que causou tudo aquilo, que ajudou, pelo menos, era o garoto.

E alguma coisa nova surgiu dentro dele com isso, essa necessidade de comandar alguém de proporcionar não só o prazer, mas um refúgio. Ele viu que às vezes ele teria o poder, que ele teria como fazer alguém se perder com ele, se perder nele ou por causa dele. Mas acima de tudo, que ele teria o poder.

E era uma coisa que ele nunca tinha sentido antes.

E ele percebeu que gostava mais do que tinha imaginado.

Ter poder sobre alguém não era uma coisa que os heróis se vangloriassem, realmente não.

Boa coisa que Stiles não se importava nenhum pouco em não ser um.