Herdeiros da Noite
2 Os Gêmeos da Dualidade
POV Quíron
Se alguém tivesse me dito, naquela manhã, que eu terminaria o dia mediando uma discussão entre policiais apaixonados, filhos de Ares emocionalmente vulneráveis e um adolescente tentando aplicar um golpe diplomático no Acampamento Meio-Sangue…
Eu teria pedido férias.
O som do motor ecoou pela colina pouco antes do pôr do sol.
Um carro esportivo preto surgiu na estrada em velocidade absurda, derrapando perto do pinheiro de Thalia antes de parar com elegância irritante.
A porta abriu primeiro para o rapaz.
Alto, impecavelmente vestido, sorriso tão perfeito que parecia ensaiado diante de espelhos desde o berço.
Ele colocou os óculos escuros devagar e caminhou até Argos como se fosse dono do lugar.
— Finalmente — disse ele, suspirando. — Inspeção olímpica extraordinária. Segurança dimensional, categoria três. Honestamente, vocês precisam melhorar o protocolo de entrada.
Argos encarou o garoto sem expressão.
O rapaz estendeu a mão.
— Richard Spartan. Mas pode me chamar de Richie.
Então, inacreditavelmente, Argos hesitou.
Eu senti a magia imediatamente.
Não era hipnose.
Não era charme.
Era algo mais refinado.
A mentira dele queria ser acreditada.
A Névoa ao redor do garoto se dobrava naturalmente para acomodar qualquer absurdo que saísse de sua boca.
Antes que eu pudesse intervir, a outra porta do carro se abriu com força.
— Meu pai do céu… um centauro.
A garota saiu do veículo mastigando chiclete, olhando ao redor com expressão crítica.
— Isso é muito clichê de design mitológico. Sério. Vocês nunca ouviram falar em sutileza?
Ela tinha os mesmos olhos de Richie, mas onde ele era polido, ela era afiada.
Cada palavra parecia carregada de análise cruel.
Não cruel por maldade.
Cruel porque era verdadeira demais.
Ela me apontou de cima a baixo.
— Você claramente é o responsável daqui. Postura rígida, expressão cansada e trauma acumulado no olhar. Figura clássica de mentor.
Richie sorriu.
— Viu? É por isso que ela não consegue manter amigos por mais de três semanas.
— E é por isso que você provavelmente vai morrer enganando alguém mais forte que você — respondeu ela instantaneamente.
Então aconteceu.
O céu escureceu por um breve instante.
Sobre a garota surgiu uma máscara negra rachada por um sorriso debochado.
Momos.
O Escárnio.
A Verdade Incômoda.
Ao mesmo tempo, acima de Richie apareceu um espelho partido refletindo dezenas de versões diferentes dele mesmo.
Apáte.
Engano.
Fraude.
Mentira refinada ao nível divino.
O acampamento inteiro ficou em silêncio.
Mesmo Dionísio abaixou a lata de refrigerante lentamente.
— Ah, maravilha — murmurou ele. — Um detector de inseguranças e um golpista sobrenatural. Exatamente o que adolescentes precisam por perto.
Pamela olhou para os símbolos desaparecendo no ar.
— Hm. Estética interessante. Meio dramática, mas aceitável.
Richie abriu os braços para mim.
— Então, Quíron, imagino que tenha quartos separados. Porque ela ronca emocionalmente.
— Isso nem faz sentido — respondeu Pam.
— Faz sim. É um conceito avançado.
Dois campistas próximos começaram imediatamente a discutir porque Richie havia convencido um deles de que “capturar bandeira” provavelmente pagava salário.
Enquanto isso, Pamela passava pelos chalés distribuindo avaliações psicológicas não solicitadas.
— Filho de Hermes. Problemas de autoridade.
— Filha de Afrodite. Finge confiança.
— Filho de Apolo. Carência absurda de validação.
Ela parou diante de Clarisse La Rue.
Silêncio.
— Você ameaça os outros porque tem medo de parecer fraca.
Clarisse congelou.
Os filhos de Ares ficaram tensos.
Pam inclinou a cabeça.
— Acertei, né?
Por outro lado, Richie já havia convencido três campistas de que era primo distante de Zeus e quase conseguiu a chave do arsenal.
Observei os dois em silêncio.
Amy atraía pessoas.
Pamela desmontava máscaras.
Richie criava máscaras novas.
E, pela primeira vez em muitos anos…
Eu comecei a me preocupar não com monstros entrando no acampamento.
Mas com o que aconteceria quando esses filhos da Noite começassem a influenciar uns aos outros.
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