Herdeiros da Noite
3 A Sombra Silenciosa
POV Quíron
Depois da chegada dos gêmeos, o acampamento inteiro mergulhou em um estado de paranoia social.
Metade dos campistas estava tentando descobrir se Richie realmente possuía autorização olímpica.
A outra metade evitava Pamela por medo de ouvir verdades inconvenientes sobre si mesmos.
E, honestamente?
Ambos os grupos tinham motivos válidos.
Por isso, durante o jantar, permiti a mim mesmo um raro momento de esperança. As tochas estavam acesas. O cheiro de churrasco pairava no ar. Os campistas começavam, lentamente, a agir como adolescentes normais outra vez.
Então o fogo mudou de cor.
As chamas da fogueira central ficaram azuis.
Não azul brilhante como magia de Hécate.
Azul pálido.
Frio.
Silencioso.
O vento morreu instantaneamente.
As conversas cessaram uma a uma até que apenas o crepitar da lenha permaneceu.
Senti os pelos dos braços arrepiarem.
Não medo.
Reconhecimento.
Uma garota estava parada ao lado da fogueira.
Ninguém a viu chegar.
Nem Argos.
Nem os sátiros.
Nem mesmo os filhos de Hermes, que costumavam perceber qualquer movimento estranho no vale.
Ela simplesmente… estava ali.
Cabelos escuros caindo sobre os ombros, roupas cobertas de poeira de estrada e um anel de obsidiana refletindo a luz azul das chamas. Nas costas, uma foice dobrável presa por tiras de couro parecia antiga demais para existir no mundo moderno.
Os filhos de Hades ficaram imediatamente tensos.
Nico di Angelo semicerrrou os olhos.
Porque aquela presença…
Não era morte violenta.
Era pior.
Era aceitação.
A menina observava o vazio acima da fogueira com uma calma tão absoluta que chegava a ser perturbadora.
Como alguém olhando para o oceano.
Ou para o próprio fim.
Dionísio franziu a testa.
— Ela entrou pela fronteira?
Argos fez um gesto negativo com todas as mãos visíveis.
Isso chamou minha atenção.
Argos sempre percebia.
A garota falou finalmente, voz baixa e tranquila:
— Desculpem interromper.
Ela parecia sinceramente educada.
O que, de alguma forma, tornava tudo mais inquietante.
— Tinha uma Empousa me seguindo.
Alguns campistas puxaram armas imediatamente.
Ela inclinou a cabeça, confusa.
— Acho que perdi ela numa sombra perto da estrada.
Silêncio.
Então vi o anel.
Obsidiana negra com marcas prateadas quase invisíveis.
E senti o toque inconfundível do pai dela.
Thanatos.
Não Hades.
Não Érebo.
Thanatos.
A morte tranquila.
O último suspiro.
A inevitabilidade silenciosa que alcança reis e mendigos da mesma forma.
Acenei calmamente para ela.
— Seja bem-vinda ao Acampamento Meio-Sangue, criança.
Os filhos de Hades me encararam como se eu tivesse enlouquecido.
Porque até eles estavam desconfortáveis.
Nico foi o primeiro a falar:
— Você… caminhou pelas sombras?
Ela assentiu.
— Sem querer. Eu só queria sumir.
Pamela, sentada alguns bancos atrás, analisou Ellen por alguns segundos.
— Você fala como alguém que já aceitou a própria mortalidade.
Ellen deu de ombros.
— Todo mundo morre.
Richie largou o garfo lentamente.
— Certo. Isso foi a coisa mais assustadora dita hoje. E eu literalmente sou filho da deusa da mentira.
Amy observava Ellen com os olhos arregalados.
Talvez porque sua aura emocional não afetasse a garota nem um pouco.
Ellen parecia imune ao desespero.
À paixão.
Ao medo.
Como uma sombra observando emoções humanas de longe.
As chamas azuis iluminaram seu rosto por um instante.
E pela primeira vez em séculos…
Eu compreendi por que até os deuses evitavam pronunciar o nome de Thanatos com leviandade.
Não era porque ele trazia morte.
Era porque ele trazia paz para ela.
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