Herdeiro da Lua
1 Prólogo
Faltava 1 dia para o início do Grande Festival da Primavera.
As sacerdotisas do Templo de Luna ostentaram-se pelas ruas do Círculo Interno de Barcel, no centro de Ouro Negro.
Os transeuntes assistiam-nas das calçadas hipnotizados pelos rastros ondulantes de suas longas túnicas de seda branca dançando sobre o pavimento de granito flameado.
As noviças seguiram o ritmo da Matriarca sem descanso carregando nas mãos belas harpas prateadas enfeitadas com pétalas de lírios brancos e cantando em um coro de vozes suaves louvores em homenagem a deusa sem queixar-se das feridas abertas de tanto arrastar a sola de seus pés naquela superfície áspera e nem de suas gargantas roucas que queimavam a cada nota musical como se houvessem devorado pedras de magma.
O luar refletia no suor de suas faces rosadas e no brilho dos fios de pérolas que emolduravam as testas nuas e desciam até o canto dos lábios tingidos por um pigmento de uvas negras e amoras amassadas. Estavam tomadas pelo fervor da deusa, dançaram e giraram sem parar por 3 dias e 3 noites.
A Matriarca ia na frente, liderando a procissão. Um véu de seda transparente cobria-lhe a cabeça, tinha sobre os ombros um manto de pele de cervo; segurava nas mãos uma coroa feita com as primeiras flores a desabrochar nos Jardins de Pomona, que dizem ter recebido o primeiro luar após o fim do Grande Eclipse.
Certa vez, um nobre vindo de fora da capital, cuja filha estava muito doente, se agarrou às grades do portão que dava acesso do Segundo Círculo Exterior ao Círculo Interno e durante três dias e três noites, suplicou em meio aos cânticos que a deusa curasse sua filha.
Ao final da procissão, dizem ter visto a coroa brilhar com uma tênue luz prateada e quando o homem retornou para casa, sua filha estava curada e parecia mais viva do que antes.
Alguns diziam que bastava assistir a procissão inteira, sem sair do lugar, que a deusa derramaria sua bênção sobre os escolhidos. Outros, que você precisaria cantar em conjunto com as sacerdotisas, sem se exaltar demais para não correr o risco de irritá-la. Todos os anos, centenas de relatos parecidos surgiam e desde então haveria uma correria frenética para conseguir os primeiros lugares próximos às grades dos portões.
Nobres de fora da capital e de reinos próximos pagavam quantias exorbitantes para reservar lugar.
Era como ver os dias de glória do culto ao deus do Sol, a divindade tão reverenciada por mais de 3 séculos era agora o diabo responsável pela grande seca de 10 anos atrás e a Lua, que observou o sofrimento do povo e só no último momento deixou cair poucas migalhas de prosperidade, se tornou exaltada.
E continuaria assim até a deusa trazer alguma nova catástrofe e o povo se esconderia debaixo das asas de outro deus.
Não faria diferença escolher um ou outro.
No meio da multidão, um clarão refletiu por instantes. Era uma criança se esgueirando entre os nobres.
Ela olhou de um lado para o outro freneticamente e depois correu em disparada seguindo as sacerdotisas. Calçava botas de tamanhos diferentes, uma verde e a outra marrom, e um longo cachecol cujas pontas arrastavam no chão.
Foi um milagre não ter se emaranhado naquele cachecol desleixado ou tropeçado nas botas ridículas, pelo contrário, se movia com bastante graça, mas o que chamou mesmo atenção eram seus cabelos dourados, brilhantes feito a chama de uma fornalha.
Deveria ser mais fácil encontrar um filhotinho de coelho das neves se escondendo em uma toca de cinzas, aos pés de um vulcão, do que perder aquele brilho de vista, doía só de olhar.
Mais adiante, um nobre de meia idade se levantou e se aproximou do meio fio, para olhar de perto a procissão. Todos estavam tão maravilhados com as bênçãos oferecidas pelo templo que nem ousavam desviar os olhos da coroa de flores.
Uma das sacerdotisas, exausta após tanto dançar, desfaleceu sobre a rua. Outras seguiram o seu exemplo, os corpos ficaram largados no caminho até serem recolhidos pelos guardas.
Em todos esses anos, nunca houve notícias de erros cometidos durante a procissão.
Passos desajeitados, meninas fora de ritmo ou vozes desafinando após dias de cânticos contínuos, nem ninguém chorando de dor após ter a sola de seus pés esfoladas de tanto dançar.
A Matriarca elevava sua voz acima das demais, o pigmento que marcava seus lábios vermelhos não vinham de morangos ou amoras e sim do seu próprio sangue após os cantos de sua boca se rasgarem.
As gotas mancharam seu vestido de seda, mas na memória de todos, ele continuava tão alvo e puro quanto a coroa de flores que resplandecia para a multidão o brilho das bençãos da deusa.
As manchas, os lamentos e o sangue dos corpos caídos eram para eles iguais aos ventos invisíveis que nutriam as flores do campo e as levavam para seus jardins, bastava que suas pétalas continuassem vivas e belas. Invisíveis igual aquela criança se esgueirando.
Ela ficou parada há poucos metros do nobre de meia idade, exatamente no ponto cego dos arqueiros que patrulhavam nos telhados, percebeu depois; no momento seguinte, simplesmente desapareceu sem deixar rastros.
V piscou os olhos repetidas vezes por detrás da máscara, tentando entender o que tinha acontecido naquele instante. O chapéu feito com pele de animal que o nobre usava na cabeça também desapareceu.
Um clarão surgiu poucos metros adiante. V já estava em pleno ar, caindo sobre um grupo de arqueiros que viram apenas um feixe de luz metálica desenhando linhas em seus corpos, nem tiveram chance de gritar por ajuda.
Aterrissou no telhado de outro prédio e embainhou a espada curva manchada de sangue. A criança estava sentada entre o vão de duas lojas, brincando com o chapéu furtado, jogando para cima e para baixo e por fim colocando na cabeça para esconder seu cabelo chamativo.
V só agora se deu conta de que não conseguia ler e nem ouvir os movimentos daquela criança.
Podia sentir a presença dos grupos de guardas nos telhados, ouvir os pequenos murmúrios dos nobres no meio da multidão, fingindo estarem acompanhando os cânticos e em algum ponto, os batimentos cardíacos daqueles mais eufóricos por dentro.
Mas se não fosse pelo clarão da luz do Sol batendo naqueles cabelos dourados, teria encontrado ela com a mesma facilidade? Se naquele momento, estivesse concentrado, teria perdido o garoto de vista?
Por um instante, V se imaginou no lugar daquele nobre.
Um idiota pomposo de meia idade, usando um monóculo perfeitamente lustrado com detalhes de ouro talhados nas bordas, preso por uma corrente de prata ao colete de linho justo em seu tronco magro, o cabelo preto com algumas mechas grisalhas repartido bem no meio; abaixo o bigode muito bem aparado, sem um único fio fora do lugar.
E ao invés de seu chapéu feito com pele de animal, era a máscara de V, presa em seu rosto, que era levada por puro capricho de um menino dos subúrbios, a julgar pelas manchas de lama nas bochechas.
Imaginou aquele menino sentado, brincando de jogar sua máscara para cima e para baixo, colocando ela no rosto pela mera curiosidade de saber como era enxergar por meio dela, tudo isso enquanto V muito provavelmente só se daria conta do furto alguns instantes depois.
Pronto, estava feita a imagem de um perfeito idiota, desmascarado por uma criança.
Aquele nobre pomposo pelo menos tinha a desculpa de que até um vento qualquer poderia levar o seu chapéu.
V conteve o grito de fúria. Seus pés afundaram no telhado com tanta força que rachaduras se espalharam por toda a estrutura; não correria o risco, por menor que fosse, de ser exposto por uma variável desconhecida e nem seria feito de tolo, mesmo em seus pensamentos.
Ele se preparou para avançar e matar o garoto, somente para perceber que o perdeu de vista novamente.
Arqueiros patrulhando os telhados ouviram um grito bestial nos arredores do Círculo Interno. Grupos inteiros de corpos desmembrados foram encontrados e espalhou-se o rumor do aparecimento de um assassino em série na capital.
Alguns soldados relataram ter visto um borrão negro movendo-se entre os prédios, parecia um predador caçando a presa.
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